You Only Live Once
2 Capítulo 2
Notas iniciais
“He seemed impressed by the way you came in
"Tell us the story, I know you're not boring"
I was afraid that you would not insist
"You sound so sleepy, just take this, now leave me” (...)
Reptilia – The Strokes"
São 13h30 da tarde, já estou pronta e ansiosa para saber mais sobre Julian. Mando uma mensagem pedindo para ele ir ao bar com antecedência, e que logo estaria lá. É claro que ele nem responderia, eu sou uma ninguém pra ele. Ele sabe que vou entrevista-lo agorinha, mas nem dá a mínima. 15 minutos depois ele retorna a mensagem, falando que já estava lá a muito tempo. Pego minhas coisas e vou ao lugar marcado, um bar perto de meu apartamento.
Quando chego no estabelecimento, procuro Julian. Ele estava de costas, fazendo algum pedido no bar, e logo vira-se, assim posso ter certeza que é ele. Ele é diferente do que eu pensava que seria. Seu famoso cabelo médio e meio ondulado, que nunca corta, totalmente despenteado, e óculos escuros em um ambiente.. escuro. Só ele mesmo. Estava com uma camiseta branca simples, mas que lhe caia bem, e calças pretas rasgadas. Um visual que eu diria bem punk, se não conhecesse o estilo musical deles. Provavelmente, ele não leva entrevistas nenhuma a sério, pelo visual despojado e desajeitado dele. Afinal, quem é que iria se vestir formalmente para todas as suas milhões de entrevistas? Vou em sua direção e nós nos sentamos numa mesa redonda, meio afastada, e com bancos acolchoados.
Ele pediu cervejas para si mesmo, me oferecendo logo em seguida e paro pra pensar que realmente, ele não leva nada a sério. De todas as minhas entrevistas, ele foi o primeiro ser a me oferecer bebidas alcoólicas. Lanço a ele um olhar de reprovação, causando um sorriso sarcástico em sua cara. Ele provavelmente deve ter pensado “Claro que não quer, olha pra sua cara”, e está certo, eu não bebo mesmo. Em meio a situação desconfortável que o inconveniente do Julian causou, me reviro na cadeira e começo a procurar o maldito gravador na minha bolsa. Droga, eu tinha a folha com as perguntas, mas o gravador eu perdi. Bufo de raiva e decido dar uma revirada na mochila.
– Algum problema? – pergunta, evidentemente desinteressado em prosseguir uma entrevista. Ele deve estar cheio, afinal.
– Não, — minto – na verdade, eu já achei o gravador. – reviro novamente a mochila na esperança de achar no mesmo segundo, o que foi falho.
– Se estiver procurando seu gravador, ele está na mesa a frente. – Julian diz em meio a risos fracos e irônicos. Mil xingamentos passam pela minha cabeça; tonta, lerda, demente, burra. Aposto que de pelo menos dois desses nomes ele me chamou em sua cabeça. Percebi que estava segurando seu riso, fazendo-o parar na hora, e me movo para pegar o gravador, na mesa de centro ao lado de suas duas garrafas de cerveja. Me pergunto se ele realmente vai beber isso tudo. O gravador foi ligado, respiro fundo e procuro a primeira pergunta, me perdendo em meio a tantas perguntas.
– Ahm.. – murmuro, e ele toma mais um gole de sua cerveja. Pigarreei, tentando chamar sua atenção, e ele levanta sua cabeça, provavelmente olhando para mim. – É.. percebi que as pessoas tendem a achar que você está sempre bêbado e fora de si, devido a várias polêmicas que você já se envolveu, por causa de bebidas. – paro um segundo após ler o que viria a seguir e hesito em dizer a frase, maldita Diane puxa-saco. É meu dever prosseguir. – Mas a verdade é que você sabe de tudo que está acontecendo e da motivação de todos..
– Isso é o que você acha. – ele me corta, lanço um olhar nervoso a ele.
Não é o que acho. Penso.
– E o que você acha?
– Eu não me vejo dessa maneira. Se você me vê, tudo bem, obrigado. – não, definitivamente não é assim que o vejo. Eu o vejo, e sempre o vi, como um bêbado irresponsável que não quer nada com a vida além de gastar o dinheiro com drogas e prostitutas. Ler aquilo sobre sua vida me fez refletir um pouco, mas se ele não parou mesmo em tantas dificuldades, ele realmente não tem responsabilidade.
– Então, como você vê as coisas? – disparo assim que surge a pergunta em minha cabeça.
– Eu me vejo com meus próprios olhos, o que significa que não faço deia de como os outros me veem. Acho que tento ser uma boa pessoa.. e fracasso. – concordo. Penso comigo.
– Realmente tenta? Não parece. – digo de uma vez o que me vem na cabeça novamente e quero me matar por ter o desafiado assim. Ele dá um sorriso inesperado de canto.
– Deus, não. Foda-se para o que pensam de mim. Eu sou eu mesmo, todos os dias.
– Parecia tão simpático no red carpet dos Grammy’s. – contradito sua declaração – E não creio que seja assim como mostra.
– Isso é uma questão de simpatia, senhorita.. – ele tenta perguntar meu nome.
– Alice.
– Liss, enfim, é uma questão de simpatia. Não posso simplesmente mandar o dedo para as câmeras e dizer que quero que todos se fodam nas entrevistas. Minha popularidade ia pro saco, e meu empresário me mataria, assim com meus colegas de banda. – Então era isso, ele ligava para a popularidade. Quando ele disse “foda-se para o que pensam de mim”, ele está errado. Foi totalmente contraditório, mas decido não aprofundar a discussão. Apenas dou um riso irônico, e prossigo para a próxima pergunta.
Quando vou abrir a boca pra falar, Julian estica mão e para o gravador. Depois, imediatamente, o reinicia. Mas que diabos ele pensa que está fazendo?
– Desculpe. – provavelmente arrependido por ter dado a resposta ridícula de minutos atrás, a qual ele dizia indiretamente que se importava com a popularidade, sendo que diz a todos que não está nem ai. Contenho um riso, tentando não perder a pose.
– Eu não me importo. Faça o que quiser. – Dito isso, Wilde novamente se estica para o gravador, dessa vez para desliga-lo. Mas o que? Eu não quis dizer que ele poderia fazer TUDO que quisesse. Transbordando irritação, ligo o gravador de novo. Preciso de assuntos, droga de folha, droga de perguntas.
– Então vamos falar sobre sua música. – tento puxar assunto, visto que não tenho nenhuma pergunta interessante.
– Foda-se a música. – como? “Foda-se” era a resposta dele pra tudo?
– Ok, vamos falar sobre sua camisa. Onde a comprou? – persisto e ele tira seus óculos escuros finalmente, revelando lindos olhos cor-de-turquesa irritados. Ele desliga outra vez o gravador. Eu o encaro. Ele me encara. Então volto a liga-lo. Aquilo estava esgotando minha pouca paciência que eu tentava manter com aquele delinquente.
– Fale comigo. – disse entredentes e voltou ao seu assento, terminando sua primeira garrafa de cerveja. Provavelmente bêbado.
– Ok. Então, está tendo boatos que sua namorada, Leona Rogers, está de barriga e esperando um filho. O que você..
– Vá se foder. Não vou responder essa pergunta. – ele me corta.
Rude. Extremamente rude.
Ele ter mandado eu me foder foi a gota. Você não pode perder a paciência, Alice. Meu subconsciente luta comigo mesma para não dizer umas poucas e boas para ele, porém eu não quero me rebaixar igual a ele a palavras de baixo calão. Você é uma profissional, lembre-se disso Alice. Não, você também não pode dá-lo um tapa.
– Como assim? – a única coisa que consegui tirar da boca depois do choque, foi isso.
– Próxima pergunta. – disse enchendo mais um copo de cerveja. Estou morrendo de vontade de jogar isso na parede. Julian está evidentemente bêbado, e não é de agora.
– Interessante. A verdadeira personalidade das pessoas aparece quando elas estão bêbadas. – disparo como uma forma de desabafo. Ele parecia ser tão simpático quando sóbrio, mas ele está bêbado, pra variar. Lembro-me das palavras de Diane sobre Julian ser rude com pessoas que ele não gosta, mas eu não havia feito nada pra ele. Nada mesmo. Não estava mais aguentando nada daquilo.
– Você é muito legal, Liss. – olho-o incrédula e ignoro o elogio, sem saber porque diabos ele me disse isso.
– Como é quando está sóbrio? – não pude evitar de perguntar, estava curiosa para saber. Espero que se houver outra oportunidade de eu vê-lo, ele esteja sóbrio. Porém não quero o ver de novo tão cedo.
– Sou um escroto do caralho. – então você não muda nada. Pensei comigo mesma e rolei os olhos. Diane estava mentindo ou ele estava mentindo? – E, quando estou cansado, sou um estuprador. – ele olha ressaltado para o gravador, depois fala no microfone – Estupro é ruim. Muito, muito ruim. – Meu Deus, ele está realmente, muito bêbado. É óbvio que eu não posso publicar isso, nem ao menos mostrar aos redatores e meu chefe. Como uma entrevista dessa iria pra Rolling Stones? Logo com sua banda na capa? Julian não pensa nas consequências de falar besteiras em entrevistas, e ainda diz se importar com popularidade. Por que diabos ele disse sobre ser estuprador? Ele é totalmente maluco.
– Sinceramente, acho que está é a pior..
– Entrevista da sua vida? – ele me corta, sorrindo como um palhaço idiota. Um belo sorriso, afinal. Parece melhor do que nas fotos.
– Definitivamente.
– Fico lisonjeado. – ele diz e não sei se está falando sério ou zoando com minha cara de novo. Lanço um olhar desentendido e novamente dá um sorriso. Está louco. – Sério, pelo menos você vai se lembrar de mim sempre que der uma entrevista ruim. “Cara, sua entrevista só não foi pior que a de Julian Wilde” – disse animado e começa a rir.
– Por que eu me lembraria de uma pessoa tão rude? – disparo, e logo o bonito sorriso que estava em seu rosto, se fecha na hora.
– Se lembrará de mim justo pelo fato de eu ser tão rude. — sorriu ironicamente. Me levanto, arrumando minhas coisas para dar o fora. Eu cansei por hoje, realmente, cansei.
– O que você está fazendo? Se não quer dar esta entrevista..
– Não, espere. – ele me interrompe, segurando meu braço. Seu contato me dá um choque e eu quero muito arrancar esse braço dele fora. — Um dia talvez eu consiga me comunicar melhor, mas agora estamos nesse ponto. Simplesmente não tenho nada de legal para dizer. Estou tentando, sei lá. – parece convincente, mas a forma dele me tratar me deu nojo. Penso comigo se essa é realmente a personalidade dele ou só uma máscara quando está bêbado.
– Não espero nada profundo. Só quero que seja você mesmo. – digo me acalmando da pilha de nervos de segundos atrás e me sentando novamente no pequeno sofá. Confesso que suas palavras me confortaram um pouco. Ele pelo menos estava tentando.
– Eu não tenho nada a esconder. Todos me conhecem, eu acho. Mas o que eu disse antes, se é que me lembro o que estava dizendo, é que há muito a dizer e muito pouco tempo. E tudo que tenho a dizer não vai estar nessa única entrevista para a Rolling Stone. – ele mexe seu longo cabelo castanho para trás, de uma forma bem sedutora. Riu-me da possibilidade dele me seduzir algum dia, oh, uma mera escritora sendo seduzida por um cantor punk de indie rock totalmente sem juízo. Definitivamente não.
– Espero que não. – digo sobre o que ele disse anteriormente de ter muito a dizer pra pouco tempo.
– Há muita coisa a fazer, e vai ser um caminho longo e difícil. Este é só o começo. E eu gostaria de chegar a um ponto em que pudéssemos dizer alguma coisa significadora. Com certeza isso não é uma palavra, aliás. E estou ansioso pelo futuro, blá, blá, blá. – Ele pausa o gravador que eu havia esquecido ligado na mesa, quando dei meu ataque e me levantei da mesa. Despauso. – Digo, sério, ninguém quer ouvir o que tenho a dizer. Ninguém se importa. – ele se joga para trás, desistindo da insistente ideia de pausar meu gravador. Eu me importo com o que ele teria a falar, afinal é meu emprego.
– Tudo bem. Vamos ter uma conversa normal, não uma entrevista, e deixar o gravador ligado. – ele olha para o gravador logo em seguida e revira os olhos.
– Ok, é o seguinte, ainda não é a hora. Deus, ou seja lá quem controla as coisas, está me dizendo para não falar nada. As pessoas não acreditam em mim. Não acham que sou sérios, verdadeiro ou sei lá o quê. E não posso dizer nada até eu ter feito algo inquestionável. – ele dispara, com se estivesse desabafando, jogando as palavras que estavam entaladas em sua garganta. Encaro-o e ele faz o mesmo, olhamos nos olhos um do outro, e aquilo me deixava bem desconfortável. Desvio meu olhar quando vejo a porta se abrir ao meu lado. Ryan Montgomery, empresário dos Naughty, entra no bar.
– Como está indo a entrevista? – pergunta animado, dando um aperto de mão em Julian, que parecia bem irritado e contrariado.
– Até agora temos sete minutos de fita. – digo, olhando meu relógio. Sete minutos sem conteúdo algum, a não ser as confissões de Julian. Isso não vai dar certo e eu estou ferrada com meu chefe.
– Sete minutos é tudo que você tem? – Ryan vira-se para Julian, que está com uma cara impecável de tédio. – Você precisa fazer isso.
– Pra quem você trabalha afinal, para mim ou para o Rolling Stone?
– Sua foto vai estar na capa. As pessoas que aparecem na capa falam na entrevista. – digo interrompendo Julian, que me olha novamente irritado. Mando de volta o mesmo olhar e o clima fica tenso na sala.
– Você reclama demais. Já tem o bastante. Trabalhe com o que conseguiu, você é uma profissional.
Rude novamente, pra variar. Ele não cansa?
Julian pega sua última garrafa de cerveja, toma três quartos em um gole e a bate contra a mesa. Ele resmunga coisas que não quero nem saber o que são, se levanta e vai até o vídeo game. Ele se vira, dirigindo-se ao bar.
– Alguém quer jogar Mortal Kombat 3? É do clássico. – ninguém responde, e ele está lá, parado igual um idiota. Como ninguém responde, ele joga sozinho.
Quatro minutos depois de total silêncio com Ryan e rindo dos chutes de Julian no fliperama, ele volta para a mesa.
– Nunca jogue Mortal Kombat quando estiver bêbado. – dispara, fazendo Ryan rir. Só ele mesmo para aturar e rir das gracinhas ridículas de Julian.
Eles se despedem de mim, finalmente, depois dessa entrevista ridícula e falha. Ryan se desculpa pelas atitudes de Julian durante a entrevista, mesmo que não esteve aqui durante todo o tempo, sabe que ele fez besteira, afinal Julian só faz isso. Ele tenta me abraçar, mas mantenho a pose de profissional e não quero voltar para casa com cheiro de álcool. Ele dá aquele sorriso sarcástico que manteve em seu rosto o tempo quase todo com meu ato e apenas me dá um aperto de mão.
– Foi um prazer, Liss.
– Alice. – digo, o corrigindo e totalmente irritada com o apelido ridículo que só ele me dera até hoje.
– Até a próxima. Liss. – ele manda um beijo no ar e eu rolo meus olhos quando ele se vira, passando pela porta quase cambaleando de tão doido. Ryan, você é um guerreiro.
Espero que não tenha essa próxima, espero não ver mais Julian numa ocasião dessas. Afinal, ele está sempre bêbado mesmo.
Bufo e junto minhas coisas na mochila, indo embora uns cinco minutos depois deles deixarem o bar, que por sorte é ao lado de meu apartamento. Eu ainda não acredito que Julian seria tão estúpido e rude. Claro que, ele sempre aparentou ser ridículo. Em várias entrevistas para late night shows ele sempre deixava claro seu péssimo hábito de dizer coisas loucas e ser bem ridículo quando quer, mas nunca havia sido rude. Eu sei que ele já foi estúpido assim com outros, mas eu não fiz nenhuma pergunta evasiva. Ele estava exagerando em ser daquele jeito comigo. Será que ele estava bêbado demais, ou brigou com sua namorada? Eu realmente queria saber como é a relação dos dois agora. Não sei porque não quis responder sobre ela, então provavelmente foi alguma briga.
Chegando em casa, Diane está jogada no sofá, com muita animação estampada em seu rosto. São quase 16h e mal percebi que passei mais de uma hora com Julian. E nada de entrevista.
– Como foi lá?! – Diane levanta-se assim que me vê e pergunta animada. Jogo minhas coisas no sofá com raiva e sento no mesmo.
– Péssimo, Diane. Julian é um estúpido!
A expressão de ânimo em seu rosto logo desaparece, e ela fica meio confusa.
– Estúpido? Ele estava sóbrio? – parece que ela adivinhou que ele definitivamente não estava sóbrio.
– Não.
– Ah, ele costuma ser divertido quando bêbado, fazer brincadeiras retardadas e falar demais. Mas ele consegue ser bem grosso e rude quando quer. Já vi várias entrevistas que ele manda o apresentador se foder!
Ainda bem que não sou a única.
– Ele mandou eu me foder.
– Sério? – ela começa a rir e eu lanço um olhar irônico para ela, fazendo-a parar. – Desculpe, mas é normal. Julian não deve estar em um bom dia.
Diane fala como se conhecesse muito bem ele. Ah, afinal ela é fã né? Não posso contestar. Subo para meu quarto sem falar nada, levando minhas coisas junto e me jogo na cama. Penso no dia de hoje, e agora rezo para eu ter uma folga. É tão cansativo lidar com pessoas que não levam nada a sério. Julian não sequer tentou ser legal. Talvez ele não foi com minha cara.
Definitivamente, essa foi a pior entrevista da minha vida.
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