You & Me - 2 Temporada
6 Consequências
“Nem todo erro termina quando você o comete…
alguns só começam quando alguém acorda para contar a história.”
POV EDWARD
O porão tinha um cheiro diferente naquela noite. Não era apenas o cheiro comum de madeira antiga e poeira acumulada, nem o leve odor metálico das prateleiras onde eu guardava meus livros mais raros. Era algo mais denso, mais carregado… como se o próprio ar soubesse que havia ultrapassado um limite silencioso. A luz fraca pendurada no teto balançava levemente, projetando sombras instáveis pelas paredes de concreto, e aquilo fazia tudo parecer ainda mais claustrofóbico do que realmente era. Eu permaneci parado por alguns segundos na base da escada, observando a cena diante de mim, absorvendo cada detalhe, porque quando você vive como eu vivo, detalhes não são detalhes, são sobrevivência… cada gesto, cada respiração, cada silêncio pode ser a diferença entre continuar existindo ou desaparecer completamente.
Dentro da jaula, Ben Chang começava a despertar. O corpo dele se movia de forma desajeitada contra o chão frio, os olhos ainda turvos tentando entender onde estava, enquanto a respiração vinha curta e irregular, como se o próprio corpo dele já soubesse que algo estava profundamente errado. Bella estava ao meu lado, imóvel, mas eu conseguia sentir a tensão irradiando dela como calor. Era diferente de mim. Sempre foi. Enquanto eu pensava, calculava, organizava… Bella sentia. E quando Bella sentia, o mundo ao redor dela pagava o preço.
— Onde eu estou? — a voz dele saiu fraca, arrastada, mas carregada de um pânico crescente que começava a ganhar forma conforme a realidade se encaixava lentamente na mente dele.
Eu dei um passo à frente, aproximando-me da jaula com calma deliberada, como se estivesse lidando com algo frágil… embora soubéssemos que fragilidade não era exatamente o problema ali. Ben levantou os olhos para mim e, naquele momento, eu vi o instante exato em que ele entendeu. É sempre assim. Sempre há um segundo específico, quase imperceptível, em que a ficha cai. O mundo muda. E nada mais volta ao que era antes.
— Você entrou na casa errada, Ben — eu disse com a voz baixa, controlada, quase gentil demais para o que a situação realmente era.
— Isso… isso é crime — ele gaguejou, tentando se afastar mesmo sem ter para onde ir. — Vocês não podem fazer isso… vocês são malucos!
— Malucos? — Bella repetiu atrás de mim, a voz fria, sem emoção. — Você deixou sua filha doente brincar com o meu filho recém-nascido.
Silêncio.
O tipo de silêncio que pesa e esmaga.
Que deixa claro que não há mais espaço para explicações.
Ben engoliu seco, os olhos se movendo entre nós dois como um animal encurralado tentando prever qual dos predadores iria atacar primeiro.
— Eu… eu não sabia…
— Não sabia? — Bella deu um passo à frente, e eu senti a mudança imediata na energia do ambiente. — Não vacinar uma criança não é “não saber”. É escolher.
Eu levantei a mão discretamente, sinalizando para ela parar. Não porque ela estivesse errada… mas porque controle sempre vem antes da ação. Sempre.
Eu me abaixei lentamente, ficando na altura de Ben, apoiando os antebraços nos joelhos, mantendo o olhar fixo nele. Essa era a parte importante. A parte que define tudo.
— Você contou para alguém que vinha aqui?
Ele hesitou e ali estava.
O erro.
— Não — respondeu rápido demais.
Mentira.
Sempre mentira.
— Ben — minha voz saiu ainda mais baixa, quase um sussurro — Pensa bem antes de responder.
A respiração dele falhou.
Os olhos vacilaram.
— Eu… só comentei…
Meu coração desacelerou.
Curioso.
Porque, às vezes, a confirmação de um problema é mais tranquila do que a dúvida.
— Com quem? — perguntei, sem mudar o tom.
Ele demorou um segundo.
Um único segundo.
Mas foi o suficiente.
— Damon.
Silêncio.
Não um silêncio comum, mas o tipo de silêncio que altera o rumo de tudo.
— Você contou pro Damon?!—Bella explodiu.
Ela avançou antes que eu pudesse impedir, a voz carregada de uma fúria crua que não tinha nada de racional, apenas instinto puro, primitivo, protetor.
— Ele vai destruir a gente!— gritou socando o vidro da jaula.
— Eu sei — eu disse, firme.
— Então faz alguma coisa!
E ali estava o problema.
Porque eu sabia, mas saber não significa agir imediatamente.
E Bella… Bella nunca foi feita para esperar.
Foi então que uma terceira voz cortou o ar.
Calma, precisa e cirúrgica.
— Eu resolvo.
Eu me virei lentamente.
Felix estava encostado na parede do porão como se estivesse ali há mais tempo do que qualquer um de nós percebeu. Alto, postura relaxada, mãos nos bolsos, mas os olhos… os olhos estavam atentos, calculando cada centímetro daquela cena. Felix não era como nós. Ele não precisava de justificativa emocional. Ele não precisava de narrativa. Ele apenas fazia o que precisava ser feito.
— Vocês fazem muita bagunça — disse ele, caminhando até a jaula com passos lentos, quase preguiçosos. — E deixam vestígios demais.
Ben começou a respirar mais rápido.
— Por favor… eu não vou falar nada…
Felix ignorou.
Simplesmente ignorou.
Ele tirou o celular do bolso, desbloqueou e virou a tela para mim. Transferências. Valores altos. Nomes que não deveriam estar ali.
— Nosso amigo aqui tem um pequeno problema — murmurou.
— Dívidas — completei.
Felix assentiu.
— Grandes.
— Você devia ter ficado em casa.—Eu olhei para Ben novamente.
O que aconteceu depois foi… inevitável.
Rápido.
Limpo.
Sem emoção.
Felix não hesitou. Não explicou. Não dramatizou.
Ele apenas resolveu e enquanto eu observava, uma única coisa ficou clara na minha mente:
Nós não éramos perigosos, éramos amadores.
Na manhã seguinte, Madre Linda fez o que sempre faz, transformou tragédia em narrativa..
Suicídio.
Dívidas.
Vergonha.
Explicação simples.
E subúrbios… adoram explicações simples.
Eu estava na sala quando Bella desceu as escadas. O cabelo ainda bagunçado, o rosto marcado pelo cansaço acumulado dos últimos dias, mas havia algo diferente nela. Mais leve. Como se uma parte da pressão tivesse sido removida.
— Acabou — ela disse, cruzando os braços.
— Por enquanto — respondi.
Ela me olhou e pela primeira vez em dias…
Não havia tensão.
Naquela noite, Madre Linda se reuniu novamente. Um coquetel discreto na casa de Angela Chang, velas espalhadas, vozes baixas, olhares carregados de pena e curiosidade. Eu e Bella chegamos juntos, e algo dentro de mim percebeu imediatamente… estava tranquilo. Sem paranoia. Sem aquele peso constante. Apenas… normalidade.
— Obrigada por virem — disse Angela, os olhos inchados, a voz frágil.
— Sinto muito.—Bella segurou a mão dela.
E ela parecia sincera ou talvez nós dois tivéssemos ficado muito bons nisso.
Os celulares vibraram quase ao mesmo tempo.
Um após o outro.
Como uma onda.
Eu peguei o meu.
E vi.
Elena Gilbert, na praia, rindo e beijando Matt Donovan.
Fugindo.
Silêncio.
Então murmúrios.
— Ela fugiu…
— Com ele?!
Eu olhei para Damon.
E naquele momento…
Eu vi algo raro.
Um homem quebrando.
Felix.
Claro.
Sempre limpando e controlando, nossos rastros.
Mais tarde, naquela mesma noite, eu preparei o jardim. Luzes suaves, uma mesa simples, o tipo de cenário que parece artificial demais para ser real… mas que, de alguma forma, funciona.
Bella parou na porta.
— Isso foi ideia da minha mãe?—perguntou arqueando a sobrancelha.
— Foi.— confessei rindo e mostrando a garrafa de champanhe caro.
—Edward Cullen, não escolheria champanhe caro...— Ela sorriu.
Nós nos sentamos, conversamos e pela primeira vez em muito tempo… foi fácil.
Natural.
Humano.
Quando me aproximei dela, não foi impulsivo.
Foi escolha.
Lenta.
Consciente.
E quando nossas mãos se encontraram…
Eu lembrei.
De tudo.
Do começo.
Do motivo.
Do porquê.
Então Tony chorou e o mundo voltou.
Nós nos sentamos na grama, com ele entre nós, olhando o céu cheio de estrelas enquanto o silêncio, dessa vez… não pesava.
Eu observei Bella.
E pensei: Talvez o problema nunca tenha sido o que fazemos, mas o quanto estamos dispostos a perder para continuar fazendo.
E enquanto ela sorria, distraída com nosso filho…
Eu percebi.
Eu ainda escolheria ela, mesmo sabendo exatamente quem ela é.
Porque, no fim monstros não procuram redenção.
Eles procuram alguém que os entenda e eu encontrei.
Por enquanto...
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