Capitulo Nove

Depois de se vestir, Anna escutou uma batida na porta. Disse um “entre” e viu a senhora de antes entrando no quarto com um sorriso. Declan ainda estava no banho.

_ Olá querida. Está tudo bem?

_ Sim tudo ótimo!

_ Que bom! _ disse a senhora. _ Nós vamos ter tripa para o jantar. Feita em casa. Receita de família.

_ Tripa. _ disse Anna sorridente apesar de por dentro sentir uma sensação de reviramento.

_ Nada como um estômago de vaca em um dia de chuva!

_ Ai que delícia. _ disse Anna mordendo o lábio. _ Ouviu isso amor, vai ter tripa. _ disse a Declan.

_ Ah tripa. _ disse Declan do banheiro. _ Eu estava pensando senhora, para agradecer a sua hospitalidade e por ter nos acolhido assim sem aviso, porque não me deixa cozinhar?

_ Não, querido. Não posso.

_ Ah, pode sim. Ele é chef, e é muito bom. _ disse Anna.

_ É verdade. _ disse Declan do banheiro.

_ É mesmo? Que ótimo! Nós temos um casal de italianos hospedados também, há algum problema?

_ Problema nenhum. _ respondeu Declan.

_ Muito obrigada! _ disse a senhora animada saindo do quarto.

Anna encarou a porta por uns segundos tentando entender porque alguém comia tripas de vaca.

_ Mandou bem. _ disse ela a Declan que escovava os dentes no banheiro.

Anna ficou o encarando apenas de toalha lá escovando os dentes com os braços apoiados na pia, fazendo com que os músculos de seus braços se ressaltassem. Quando percebeu o que estava fazendo resolveu sair do quarto para clarear a mente e acabou batendo a cabeça na porta por acidente antes de sair de lá.

***

Atrás da casa havia uma pequena horta e eles foram para lá pegar as coisas para o jantar. Anna o ajudaria com isso apesar de tudo. Foi pegar as cenouras e ficou as comparando em frente ao seu rosto enquanto Declan a observava de longe com uma expressão curiosa.

_ O que está fazendo? _ questionou ele indo até ela com um rabanete na mão.

_ A receita pede três cenouras médias e esta aqui _ disse mostrando a cenoura a ele. _ claramente não pode ser classificada como média. Já essas duas aqui. _ disse mostrando as outras que havia colhido. _ Claro que são médias.

_ Aham. Olha. _ disse Declan pegando a cenoura maior de suas mãos e a partindo ao meio. _ Três cenouras médias. _ disse entregando o pedaço de cenoura pra ela com um sorriso.

_ Eu acho que não tem nada de errado em querer ser precisa. _ disse ela.

_ Ah é, devemos sempre ser muito precisos. _ disse ele. _ Olha eu tive uma idéia. Porque você não para de tentar controlar tudo que existe no universo? _ disse ele fechando o livro de receitas no colo dela. _ É um jantar. Tenha um pouco de fé. Vai dar tudo certo.

_ Eu já ouvi isso antes... _ disse Anna um tanto nostálgica ao limpar suas mãos displicentemente nas roupas.

_ Devia ter prestado atenção. _ comentou ele fazendo ela se irritar.

_ Sério? Você acha? _ disse ela debochada. _ Vai dar tudo certo. Meu pai era o rei do “vai dar tudo certo”. _ disse pegando seu livro e levantando do chão. _ Imóveis nas Bahamas, locadoras de vídeo-móveis, qualquer que fosse o grande investimento do momento nosso dinheiro ia atrás. _ disse ela o encarando enquanto ele se levantava também. _ Como é que ele dizia mesmo? Ah é, “vai dar tudo certo”. Tirando o fato de eu ter que trabalhar em dois lugares depois da escola e nossa casa sendo tomada na véspera de natal. Então você me desculpa se eu não prestar atenção.

Assim que ela terminou de falar, Declan a encarou e viu em seus olhos um pouco de tristeza. Sentiu-se mal de imediato pelo comentário que fez. Era sempre assim. Dizia o que vinha em sua mente e acabava se dando mal na maioria das vezes por isso. Mas naquele momento, encarando Anna daquele jeito, ele se sentiu um estúpido.

_ Desculpe. _ disse ele realmente arrependido, mas ela não parecia acreditar. _ Sério, me desculpe. _ ela o encarou de uma forma diferente. _ Todo pai devia ser uma pessoa confiável não é?

E foi naquele momento, que Anna deixou de odiá-lo, pelo menos só um pouquinho e acabou sorrindo. Ele fez o mesmo.

_ Mas enfim, o jantar... _ disse ela checando os itens que eles recolheram e que usariam no jantar enquanto Declan ai até o pequeno galinheiro ali perto da horta.

_ Você não é vegetariana é? _ questionou ele.

_ Não. _ disse ela enquanto observava Declan rapidamente pegar uma das galinhas.

_ Ótimo. _ disse ele colocando a galinha de baixo do braço. _ Declan um, galinha zero.

Ele se aproximou com a galinha perto dela.

_ Ah, que gracinha. _ disse Anna olhando para a galinha.

Então Declan a segurou pelo pescoço e o torceu enquanto a galinha piava pela última vez e Anna arregalava os olhos.

_ Ao... Molho pardo? _ disse ele.

Anna revirou os olhos e seguiu para dentro da casa a passos apressados.

_ O que? _ disse ele indo logo atrás dela.

Na cozinha ele a viu começar a cortar os legumes em silêncio.

_ Vai me dizer que você nunca comeu galinha ao molho pardo? _ disse ele.

_ Mas é claro que já. _ respondeu ela sem desviar os olhos de sua tarefa.

_ Estou me perguntando de onde você acha que as galinhas vem.

_ Da sessão de congelados do mercado. _ respondeu ela rindo depois. _ Eu sei, eu sei... É que você me pegou de surpresa. _ disse deixando a faca de lado e o encarando. _ Mais uma vez.

Rindo ele apenas foi até ela a ajudar com os legumes. Picaram e prepararam tudo juntos enquanto ele a ensinava alguns truques de cozinha e tomavam um pouco de vinho no processo. Colocaram a galinha no forno e provaram o tempero para ver se estava bom e, de fato estava.

Anna foi até a mesa de jantar e começou a organizá-la da melhor forma possível, deixando tudo perfeito e arrumado para a hora do jantar. Declan veio logo depois com a travessa de galinha e viu o seu trabalho.

_ É isso que você chama de “montar”? _ questionou olhando para a mesa.

_ Aham. Mais ou menos.

_ É, nada mal. _ disse ele enquanto ela sorria.

Logo todos desceram para o jantar e comeram enquanto elogiavam várias vezes a comida.

_ Impecável! _ disse o italiano que estava hospedado ali com a esposa. _ Magnífico! _ disse com sotaque.

_ A galinha estava deliciosa. _ concordou a esposa do italiano.

_ É verdade. _ disse Anna. _ Eu não sei fazer galinha muito bem. O Jeremy sempre diz que a minha fica um pouco seca...

_ Jeremy? _ questionou a italiana.

Foi então que Anna percebeu o que havia dito. Oh céus, não era para mencionar o Jeremy ali! Para eles ela estava casada com Declan!

_ Ah... O Jeremy é... _ se enrolou com as palavras.

_ É nosso vizinho. _ disse Declan a salvado.

_ Isso! Nosso vizinho. Ele às vezes aparece lá em casa pra jantar.

_ É, ele é um cara ótimo. _ disse Declan. _ Mas tem dificuldades de aprendizagem sabe... _ ele não perdia a oportunidade e esse tal de Jeremy... Bem, ele não ia com a cara desse sujeito. _ Ele fala pra todo mundo que é cardiologista.

Todos na mesa riram menos Anna.

_ Mas é um cara muito feliz sabe. _ continuou ele. _ Ele tem uma... Quedinha... Por ela. _ disse apontando para Anna. _ Coitado.

Anna disfarçadamente o encarou com um olhar sanguinário.

_ É... Antiguidade Frank? _ questionou ao senhor dono da casa que estava com uma garrafa de vinho na mão, procurando mudar de assunto antes que ela o estrangulasse ali mesmo.

_ É, antiguidade. Como eu. _ disse ele fazendo todos rirem. _ Presente de casamento. _ disse surpreendendo a esposa.

_ São só quarenta e quatro anos, seu patife! _ disse ela batendo no braço do marido de forma brincalhona.

Ele colocou o vinho na mesa e agarrou o rosto da esposa com ambas as mãos e lhe deu um beijo. Logo a soltou e terminou de servir a todos.

_ Sláinte¹! _ disse Declan.

_ Sláinte! _ disseram todos.

¹- Saúde!

_ Viram? É disso que se precisa para ter um casamento de quarenta e quatro anos! O beijo! _ disse o italiano. _ Sempre beijem! _ disse agora a Anna e Declan. _ Como se fosse a primeira e a última vez.

Ele sorriu e em seguida beijou a esposa.

_ É a sua vez meu filho! _ disse Frank a Declan quando os italianos cessaram o beijo. _ Mostre para os velhos aqui como é que se faz.

Anna sentiu suas bochechas arderem.

_ O que? _ disse Declan.

_ Ora, eu beijei minha mulher e o Stan beijou a dele, com certeza!

_ Ah, não, não precisa. A gente já se beijou hoje. _ Anna desconversou.

_ Até cansar. _ concordou Declan.

_ Um pouco de cavalheirismo homem. Sabe do que eu estou falando. _ insistiu Frank.

Declan sorriu e abraçou Anna pelos ombros, lhe dando um beijinho na bochecha.

_ Que fofo. _ disse ela a ele.

_ Se isso foi um beijo, porque é que continua casada com ele? _ disse a esposa de Frank.

_ Eles são tímidos, só isso. _ disse o italiano.

_ É, muito tímidos... _ concordou Anna.

_ Vocês estão entre amigos. São jovens, casados e apaixonados. Qualquer um pode ver isso. _ disse Frank fazendo ambos ficarem surpresos com a declaração. _ Vamos homem! Beije a garota!

Declan então resolveu acabar logo com aquilo e com a insistência de Frank. Virou-se para Anna e segurou seu rosto delicadamente com as mãos e roçou de leve seus lábios nos dela a pegando de surpresa. Anna começou a sentir algo estranho naquele momento e como não era mais dona de suas ações, suas mãos subiram para o cabelo escuro de Declan e o puxaram para mais um beijo enquanto ele segurava seu rosto novamente, ainda mais delicado do que antes, como se tivesse medo de que fosse quebrar-se sob seu toque.

Eles logo se separaram e se encaram por um breve momento enquanto Anna pigarreava e voltava a sua posição anterior com o rosto vermelho e Declan tinha um sorriso no rosto.

_ Ah! Isso foi um beijo! _ disse Frank feliz.

***

Mais tarde, naquela mesma noite, Anna já havia colocado sua camisola marrom e estava tirando os brincos quando Declan puxou repentinamente a cortina do banheiro e a encarou com um travesseiro na mão.

_ Está muito úmido. _ disse referindo-se ao banheiro. _ Tenha misericórdia, por favor.

Anna o encarou por um momento enquanto ele fazia uma expressão triste.

_ Tudo bem. _ concordou. _ Mas se você roncar, volta pro chuveiro.

_ Cominado! _ disse ele indo até a cama.

Ela deitou de um lado e ele do outro em silencio. Ele apagou a luz do abajur.

_ Imagina, levar dois dias pra chegar a Dublin. _ comentou ela.

_ A propósito, vou ter que cobrar pela hospedagem.

_ Que surpresa.

_ 100 euros.

_ Cinquenta.

_ Setenta e cinco. O que dá um total de 675 euros. _ disse ele estalando os dedos.

_ Ta, 675 euros. Você só pensa em dinheiro. _ disse ela irritada virando se de costas pra ele. _ Boa noite.

_ Boa noite. _ disse ele virando-se de costas também, mas de um jeito mais ruidoso.

Porém, cinco minutos depois Anna virou-se para cima de novo. Seus pensamentos voltaram-se para aquele beijo. O que havia sentido naquele beijo foi... Único. Declan também acabou voltando à posição anterior com os pensamentos voltados para o mesmo assunto que ela. Estava gostando demais de lembrar daquilo e isso não era bom.

Lentamente, ambos viravam o pescoço na direção um do outro e quando seus olhares se cruzaram acabaram voltando rapidamente para a posição anterior, um de costas para o outro, até que enfim pegaram no sono.