You Are Not Alone
17 Depoimento de gabbi-chan.
Notas iniciais
Eu decidi que eu vou parar de fazer aquilo que muitos sabem que eu faço :) Sim, isso mesmo, eu resolvi mudar de vida, apesar de pensar que isso não vai muito longe... Acho que é por causa dos livros espíritas... E eu nem sou espírita! -qqq
Mas whateeever..
Esse próximo depoimento é muito fofo, mesmo, sem brincadeiras da minha parte, viu? É fofo demais *---* Acho até que vou conversar com a Gabriela :)
Pois é... Estou andando nos trilhos, mais feliz... Mais... Ah, sei lá! Vão ler o depô!
Beijo
Não importa o quanto você bate, mas sim o quanto aguenta apanhar e continuar. O quanto pode suportar e seguir em frente. É assim que se ganha. – Rocky Balboa
Gabriela, 15 anos, o sobrenome é um ritmo de séculos atrás e uma comida do sertão nordestino.
Sou uma pessoa problemática, assim como muita gente aqui. Penso coisas e faço coisas que não entendo, eu não me entendo, e acho que é esse meu maior problema. Mas eu não vim aqui para falar só de mim. Uma amiga se sente sozinha, e eu não posso lhe oferecer um ombro amigo.
É a Sa.
Eu estava na sétima série quando a conheci e tinha uns doze anos. Era o primeiro dia de aula, meu grupinho de amigos estava sentado num canto da sala, na parede, quando J, minha melhor amiga na época, pegou uma cadeira e se sentou do outro lado da sala. Logo vi: a garota de cara redonda e aparelho postural rindo, feliz como uma criança na manhã de natal desembrulhando seus presentes abaixo da árvore.
No começo, não gostava dela. Sentia ciúmes dela com minha melhor amiga, a J, já que tinham se tornado muito amigas. Tipo há uma estranha no ninho. Era uma coisa boba, por isso eu tentava agir normalmente. E aí viramos um trio, ou quase, eram as duas e eu olhando pro teto a parte da conversa, tentando me enturmar e me sentir ‘parte da turma’. Nunca fui muito boa com amizades, nem no pré. Não me levem a mal, meus traumas sempre se reprimiram, mas a sensação continua presente.
Sou a caçula de dois irmãos e sempre sofri muito com isso. Eles não eram meus amigos e me zoavam sempre que podiam. Eu me sentia sozinha em casa e me isolava, além de meus pais trabalharem o dia inteiro. Geralmente eu fazia traquinagens para chamar a atenção – já retalhei uma cortina e colei a porta da geladeira com Super Bond e cortei a borracha com faca. Tive depressão aos nove anos, foi aí que minha mãe começou a se preocupar comigo, mas quando a depressão passou, ela parou de se preocupar.
Nunca tive amigos por muito tempo desde o fundamental, sempre ficava sentada, sozinha, pois não tinha um grupinho de meninas que me queriam e nem de meninos, já que eles ainda estavam naquela fase de ‘não gostamos de meninas’, além do que, eu era o alvo preferido de pseudo-bullying deles, mas como sempre respondi as ofensas dos meus irmãos em casa, respondia as deles também. Corria atrás deles e batia neles, mas a coisa era tão ingênua e infantil que acabava ficando divertido. Para mim e para eles.
Sempre fui à segunda opção de todo mundo até conhecer o I, na terceira série. Ele também era meio excluído e gostava de mim, corríamos e nos divertíamos muito, e quando certa vez, um guri com pinta de pitboy me fez chorar – sendo que eu já estava chorando antes, por ter minha primeira desilusão amorosa por ser gordinha e usar óculos – ele me defendeu. Foi à coisa mais fofa que alguém fez pra mim até ali. Mas mudamos de escola e eu nunca mais o vi. Sinto falta dele.
Na sexta conheci a J, mas só ficamos amigas no fim do ano. Quando vi que tinha amigos que não seriam passageiros, foi à realização de um sonho.
Era estranho o modo de como elas ( J e Sá) se comportavam uma com a outra, e eu me incomodava com isso. Talvez eu estivesse com inveja, ou só carente de amizade como sempre estive, ou fosse uma imbecil retardada mesmo. De qualquer forma, elas falavam de pessoas que eu não conhecia, de coisas que eu não sabia, e quando perguntava, ficava um clima meio estranho. Lembro que um dia elas estavam conversando, rindo como sempre, falando de uns guris quaisquer e de alguma coisa engraçada. Eu queria rir também, e perguntei quem eram, aí elas fugiram para um canto, gargalhando, dizendo que queriam conversar a sós. E que era segredo. Fui eu quem ficou só. Sa e J estavam bem. Sentei no canto e fitei o nada. Fim.
As coisas só começaram a melhorar com o que? Fanfic! Isso aí, as duas se juntaram para escrever uma fanfic de McFLY, mas não deu muito certo. Elas sempre perdiam as folhas – que eram geralmente do meu caderno, diga-se de passagem. Eu e Sá já estávamos bem próximas, e estava começando a me sentir bem. Éramos como as tietes meio retardadas das bandinhas de hoje em dia em relação ao McFLY, só que não formávamos uma família McFLY – eu hein.
Então, descobrimos uma nova paixão: Naruto. Exatamente. Começamos a escrever uma fic deles onde nós éramos OCC’s, quer dizer, mais eu e a Sá do que a J. Naquela época eu já percebia um desentendimento entre as duas, na verdade, só da parte de J. Larari larara, papo vai, papo vem... Brigamos!
É, assim mesmo. E eu nem vi chegando. O motivo foi besta, mais besta do que formigas de circo pirotécnicas recitando Shakespeare. Pressão demais, confusão demais, foi basicamente a J tendo uma crise de ciúmes por que a Sá estava fazendo novos amigos e, na percepção dela, nos deixando e se virando contra nós. Nem um pouquinho paranóica não acham?
A coisa começou a desmoronar depois disso, mas eu não presenciei. Tinha me mudado de cidade. Para onde o vento faz redemoinho ao invés de curva.
Os primeiros meses foram difíceis. Eu não conhecia ninguém, não gostava da cidade e me sentia mais sozinha do que nunca. E eu não tinha um ombro amigo para chorar, não tinha quem afagasse meus cabelos, quem conseguisse olhar nos olhos e desabafar. Estava perdida. Sempre me senti assim, mas quando você prova de pessoas boas, quando as perde... É amedrontador. Meu maior medo sempre foi à solidão, e essa era a minha condição no momento. Entrei em depressão, chorei dias e dias, não comia a ponto da Ana me visitar, não saia do quarto, não falava com meus pais, me rebelava a todo o momento, queria que eles morressem por me trancafiarem nesse inferno. Talvez eu fosse mimada demais e tenha sido contrariada cruelmente pela primeira vez, e ainda estava batendo o pé.
Sá foi muito importante nessa época. Ela conversava comigo pelo MSN ou pelo Nyah sempre que nos encontrávamos, me ouvia tendo surtos e escondia o que estava acontecendo por lá – o desmoronamento do que achei ser a amizade perfeita. Utópico. Vi os defeitos delas, da nossa amizade, os meus próprios. Senti-me idiota, impotente. Percebi que as rosas tinham espinhos.
Distanciei-me de J. Somos completas estranhas agora.
Tenho Sá como confidente, mesmo numa distância de 600 km. Depois de três anos, ainda nos falamos e nos vemos quando volto pra cidade natal. Isso aí, ainda encho o saco da coitada depois de tantos anos.
E nesse tempo, eu aprendi a entendê-la. É até bonito de se dizer.
E é por isso que eu estou aqui. Ela está passando pelo que eu passei quando mudei de cidade. Moro num ninho de cobras. Ninguém é confiável, e eu aprendi isso da pior maneira. Isolei-me, aprendi a não gostar das pessoas facilmente, a não me levar por um sorriso bonito. Ficou automático, quase como uma auto defesa. E dói não poder rir de alguma coisa sem medo de que essa coisa volte pra você com força total e lhe arranque os incisivos. A ter alguém pelo qual você botaria a mão no fogo.
A situação dela esta parecida, e talvez ela nem perceba o quanto eu entendo. E é horrível se sentir impotente diante de algo assim, dizendo palavras e palavras, mas não podendo tomar nenhuma ação. Não poder defender seus amigos e impedir que eles chorem. Alguns de vocês podem se sentir assim, incapazes de fazer alguma coisa por alguém, ou até mesmo sozinhos, como eu e ela nos sentimos muitas vezes.
Quando estive na pior, me mostraram que eu não estava sozinha. Agora é a minha vez de fazer isso, mas sinto que não é o bastante. A proposta desses depoimentos é mostrar que, não importa aonde ou quem seja, você nunca estará sozinho. Com seis bilhões de pessoas no mundo, se sentir sozinho parece mais uma frescura contemporânea do que uma realidade. É uma praga, que talvez a pessoa do seu lado tenha e você não sabe. Procure saber, ajude enquanto pode, mostre que essa pessoatambém não esta sozinha.
Tenho problemas familiares, já tive depressão, Ana já me visitou e meu maior medo é a solidão. Nunca tive problemas sérios com nada, nunca tentei me matar, mas já pensei em fazer. Talvez eu seja uma garota fresca e mimada, uma dondoca como a própria Sá diz. Talvez eu seja a que menos sofreu por aqui, a que nunca teve motivos reais para chorar. Ou quem sabe, sou uma criança assustada com medo do escuro.
Mas eu sigo vivendo. Já cai e me arrependi, mas ergui a cabeça e me levantei. Sei que sou melhor do que aqueles que me fazem mal propositalmente, e os ignoro. Don’t feed the trolls, babys. Não vale a pena. Ligue para a opinião das pessoas que se importam com vocês, não se aflijam diante dos bullys. Enfrente-os, mesmo que doa, será uma batalha interna que você ganhará. Fale. Grite. Erga a cabeça. Mostre ao mundo do que é capaz. Mostre-se confiável a alguém.
Pode parecer papo de filme, mas se eles existem, é por algum motivo além de entretenimento alienado. Enfrentem seus demônios, só assim eles iram embora.
E, se precisar, ajude outro a enfrentar seus próprios demônios. Ele pode não saber que você está lá.
Kisses ♥
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