You And The Stars
32 Crazy in the woods
Notas iniciais
(Going Out — A rocket to the moon)
Pov’s Will
When we go out, we can get crazy
We can go all night
Everyone’s our best friend
Everything’s alright
Let’s go out, let’s get crazy
Maybe’s not allowed
Drop everything you have that gets you down
‘cause we’re going out
Ela cantava e eu fazia o som do violão com a boca, enquanto tentávamos não rir para não destruir o momento, mas se mostrava uma missão complicada, considerando que ela estava fazendo aquilo para ser palhaça. E, na real, eu também estava. Sam cantava uma música do A rocket to the moon.
Juntos. Tem palavra mais bonitinha?
Fugir. Aquilo sim era loucura.
Sam e eu estávamos fazendo uma coisa pra lá de idiota, sem nem como ter sombras de dúvidas, mas e daí? Estávamos fazendo juntos! Loucuras vem no pacote quando você não consegue resistir a alguém.
Ela terminou de cantar, segurou em meu ombro, se curvou e riu. Comecei a rir também e sussurrei:
‘cause we’re going out
Samantha tornou a rir; seu rosto estava começando a ficar vermelho. Encaramos um ao outro de novo e explodimos em gargalhadas.
Aí você deve estar se perguntando: o que era tão engraçado?
Nada, absolutamente nada. É que ali estavam dois retardados, melhores amigos, depois de semanas sem ter uma conversa descente. Só estávamos tirando o atraso e desenferrujando nossa patetice conjugal de antes.
— Onde estamos indo? — perguntei quando recuperei o fôlego.
— Nem me pergunte! — respondeu animadamente, pulando de uma duna da areia.
Fascinante.
Decidida, louca e fascinante. E retardada
— Sabe, a gente podia conquistar o mundo juntos — comentei.
— E como faríamos isso? Tem alguma espada, canhão de guerra ou algo do tipo?
— Quanta brisa. Estamos no Estados Unidos, não no Sudão. Acho que é o sono me deixando grogue — bocejei e ri baixinho.
— É isso aí, só continue a andar, continue a andar, continue a andar — cantarolou.
— O certo seria continue a nadar, continue a nadar, continue a nadar — retruquei. É, Procurando Nemo fez parte da nossa infância.
Samantha revirou os olhos.
Fazia uns quarenta minutos que havíamos saído da casa. Seguíamos em linha reta pela praia, que era gigante e estava vazia de humanos e coisas do tipo. Claro, quase cinco da manha, o sol nem havia nascido.
— Sabe, tem um bosque a leste — apontei com o queixo uma mata densa.
— E…
— Poderíamos nos enfiar por lá e vivermos como neandertais ou algo assim — olha eu, brizando de novo.
Sam me encarou como se eu fosse algum bêbado ou viciado em ervas. Logo em seguida soltou uma gargalhada:
— Claro, andaríamos nus, comendo o que caçamos, limpando a bunda com folhas de bananeiras e deixando nossos pelos crescerem até ficarmos parecidos com macacos.
Rimos juntos durante vários minutos, até que ela ficou completamente séria:
— Will, não é uma má ideia! — exclamou com os olhos brilhando.
— O quê? A gente andar pelado? Também não acho… — eu não me importaria nem um pouco em ver a Sam nua, nem um pouquinho mesmo. — Seria adorável… mas limpar a bunda com…
Samantha me interrompeu com um tapa de leve e riu:
— Não! Podíamos acampar no bosque. Nunca nos encontrariam lá, todo mundo sabe que eu tenho pavor a insetos. — Seu olhar ficou distante. — Preciso me distanciar um pouco da realidade.
Fiz um muxoxo:
— E onde é que vamos dormir, loira? Vamos tomar banho de riozinho e cagar no mato? Você sabe que eu tenho mania de limpeza.
— Frescura, é isso que você tem. De qualquer modo, e daí? Eu tenho pavor a insetos.
— Tá, já entendi. Só que onde vamos dormir? Comeremos o quê?
Samantha rodeou o braço dela pelo meu, acelerando o passo com animação:
— Eu arrumo uma barraca para nós. Tenho certeza que mamãe trouxe minha barraca para a casa, você sabe como ela é doente, mas se voltássemos pra buscar, ela iria desconfiar, então acho melhor a gente comprar uma. Com certeza deve ter algum lugar por aqui que vende…
É, com Samantha não havia desculpas.
— E pra comer? — perguntei com um suspiro.
Ela me olhou de soslaio.
— Você parece ser bem saboroso.
Eu poderia dar risada, xingá-la ou revirar os olhos, mas em vez disso decidi participar do joguinho dela:
— Eu sei. Principalmente lá embaixo. Tá afim de experimentar? — sorri com malícia. — Se você for boa e tudo mais, eu até te dou um pouco do meu leite.
Samantha ruborizou, deu risada e crispou os lábios:
— Vou mandar você ir se foder, tá? E só pra você saber, chupadas são totalmente anti-higiênicas, falou?
— E daí? Quem liga pra higiene? — falei com um sorriso de canto.
Sam colocou os cabelos para trás dos ombros:
— Will, eu não vou chupar seu pinto e muito menos engolir sua goza. — Ela fez uma careta super fofa. — Isso é nojento.
— Vamos ver — retruquei, confiante.
Pov’s Will OFF
É. As coisas estavam começando a ficar estranhas.
Sabe, Will não sabia que eu sabia aquilo… Você sabe o que é aquilo…
Acontece que as coisas não eram tão simples quanto pareciam. Eu não podia simplesmente chegar nele e dizer “Will, eu sei você me ama”. Ele provavelmente ia rir, me chamar de convencida e dizer que eu era detestável. Mas aí você para e pensa: “Mas, Sammy, queridinha, e o caderno?!” O que é que tem o caderno, caralho?! Você acha que seria legal se eu simplesmente falasse que sabia? Não! As coisas iam mudar. Eu precisava ter certeza sobre o que eu estava sentindo. E nem eu sabia… Vamos fazer o seguinte: Pegue uma folha, pode ser Sulfite, folha de caderno, papel higiênico, mas de preferência tem que ser uma folha, o.k? Qualquer uma serve. Agora pegue uma caneta, preta, azul, vermelha, verde, Pink… tanto faz! Agora pegue a folha e comece a rabiscá-la. Rabisque, rabisque e rabisque! Sem parar! Faça bolas, riscos e o que for de mais confuso, certo? Terminou? Parabéns, você está olhando para a minha cabeça.
Agora você está entendo como era pensar com uma cabeça naquele estado? Pois é.
Perguntinha: alguém fez isso mesmo que eu mandei?
— Certo… Vamos entrar aí? – Falou Will, jogando a mochila no chão.
Ele havia tirado a camiseta e em troca disso, exibia seu abdômen magro e só um pouco definido, na medida, sem superficialidade e horas na academia. O suor escorria pela testa, colando algumas mechas no rosto. Will mordia o lábio inferior sem parar, deixando-os tão vermelhos e cheios que eu me perguntei o que ele faria se eu fosse lá dar uma experimentada. Essa ideia só durou uns cinco segundos, relaxem.
A leste, o bosque. As árvores eram esparsas e bonitas. O chão exibia folhas, arbustos, galhos secos e algumas plantações rasteiras. A oeste, o mar, que estava calmo e sereno, como de costume no começo da manha.
Meu corpo todo doía. Andávamos a horas.
— Estou exausta, Carter – resmunguei, jogando minha mochila no chão e deitando minha cabeça nela e o corpo na areia. Cobri meu rosto com as mãos, me protegendo do sol, que parecia me odiar, de tanto que me perseguia sem me dar paz. Lentamente, afastei as mãos, apalpando a areia. Minhas mãos se fecharam em alguma coisa. Me sentei na mochila, abri minha palma e encarei chateada uma pequena concha, que parecia uma réplica menor da que Matthew tinha me dado há mais de um mês. Senti meu corpo ferver de raiva. Sabe, eu me daria por satisfeita se Matthew simplesmente explodisse.
Olhei a imensidão azul esparramada a oeste e atirei a concha longe, que quicou duas vezes antes de afundar.
— Isso significa que você esta desistindo? – perguntou ele, bagunçando os fios.
Me levantei e peguei minha mochila do chão.
— Nunca. Não cheguei até aqui para voltar e ter que olhar para a cara de gente estúpida de novo. Pelo menos não por enquanto.
Pov’s Matthew
— Qual é, loira, abre a porta! – bati na porta uma dezena de vezes. Minha cabeça latejava. Eu me sentia horrível, às vezes se drogar a noite inteira deixava até eu péssimo. — Loira, loira, loira, loira, loira, loira, abre, abre, abre! Abre, caralho! Posso ficar aqui o dia inteiro.
De repente a porta foi escancarada. Emma me encarava com ódio absoluto, pronta para pular no meu pescoço e arrancar minha linda cabeça fora.
— O que é, porra? Não se pode dormir nesse caralho, não, saco?! – exclamou ela.
— Eu quero falar com minha babe – falei desafiadoramente. Desafiadoramente mesmo, porque a garota estava quase me fazendo melar as calças de medo. Será que ela andava tendo algumas aulinhas de “como fuzilar as pessoas com o olhar” com a Sam?
Emma revirou os olhos.
— Ela não está aqui. Já deve ter levantado – ela bateu a porta na minha cara.
Não, Samantha não havia se levantado. Eu já havia procurado lá fora em todo lugar e com certeza ela não estava lá!
— Loira, loira, loira – bati na porta. – Eu sei que você está aí! Sua amiguinha não me engana.
Continuei batendo na porta por longos minutos, até que Emma abriu a porta de novo, parecendo furiosa.
— Ela NÃO está aqui! – ela se afastou para que eu entrasse. – Veja você mesmo, animal.
Entrei no quarto. É, na cama Sam não estava. E Will também não estava. O quarto era grande, mas com certeza ela não estava ali.
— Viu?! – falou Emma, me fuzilando.
Andei em direção ao banheiro. Vazio.
— Caralho, Matthew, Sam não está aqui! O que mais eu tenho que fazer pra você acreditar? – exclamou.
— Ainda tem o Closet – murmurei, desconfiado.
Abri o Closet e quase tive um desmaio.
— Minha nossa! Não é possível! – falei.
— O quê é? – disse Emma, se aproximando. Ela parou ao meu lado. – O quê? O que aconteceu com as coisas dela?! E as de Will…?
Engoli em seco, tentando não entrar em desespero ou socar uma parede. Eu me sentia puto de raiva. Muito, muito, muito puto.
— Ela fugiu – bufei.
— E não fugiu sozinha – arrematou Emma, tão chocada quanto eu. – Will não perde uma mesmo. Realmente.
Pov’s Matthew OFF
”Matthew
Aceitar — Rejeitar”
— Acha que ele já sabe? — perguntou Will, sentado dentro da barraca, ao meu lado.
— Com certeza — sussurrei, cobrindo o celular com os lençóis. Suspirei.
Hm, sabe, eu sentia falta dele. Matthew. Apesar dele ser um mentiroso idiota, era inevitável não sentir, mas sinceramente, o tamanho do meu ódio era maior que a saudade. Eu nunca mais confiaria em um Stonem. Matthew era mentiroso, manipulador, egocêntrico, falso, igual ao pai. Tudo de melhor que eu podia fazer, era esquecê-lo.
— Sam, não tem a remota possibilidade de você voltar para ele? — disse Will, arqueando a sobrancelha. Eu sei que provavelmente ele deveria estar dando pulinhos de alegria por dentro (como alguém dá pulinhos de alegria por dentro? De repente eu imaginei os rins dele dando saltinhos), mas bem, pelo menos ele disfarçava legal e quase (quase!) me convenceu que não tinha esperanças ao ouvir minha resposta.
— Não. Só quero distância dele — respondi fitando Will atentamente. Cacete, eu pude jurar que um pequeno sorriso tinha aparecido nele, ou pelo menos um brilho no olhar. — E você tem que aprender a disfarçar melhor que não está ligando!
— Quê?! — perguntou, perplexo.
— Nada, Will, nada. — Quando aquele garoto idiota, gay, frutinha, ia se declarar logo? O que ele tanto esperava? Um raio cair na minha cabeça e eu partir dessa para uma melhor? Sinto muito, então querido, eu vou morrer sem você tentar me comer de novo, sério? Hm.
Olha eu aí, divagando de novo.
Saí da barraca. Aliás, havíamos conseguido a barraca fácil, fácil. Enquanto explorávamos o bosque, descobrimos que ele não era tão sem acesso assim. Logo chegamos a uma trilha, e seguimos reto por ela, e no final, chegamos a uma estrada de mão dupla, que, no seu outro lado tinha uma loja acabadinha, mas repleta de coisas. De comida de microondas para camisinhas, de barracas de camping para colônia barata. Só que em recompensa a essa nossa sorte, os donos do estabelecimento era uns merdas. Arrogantes, pegajosos, bêbados e cobraram a barraca umas duas vezes mais que o preço normal. Além de que, pareciam um bando de acéfalos (sem cérebro, para os acéfalos que não sabem o que significa acéfalo).
Cruzei os braços e fiquei daquele jeito, parada, pensando sobre sei lá o quê. Tudo bem, talvez sobre a noite anterior. Aquela cena na despensa ainda me dava náuseas.
— O que foi, garota? Sam, você me deixa louco tentando te entender, sabia?! — falou Will atrás de mim. Algo me dizia que ele estava soprando a franja.
Ele se esforçava demais. Eu não merecia aquilo tudo. Will era… bom.
— Nada, Will, sério, nada mesmo. Até que é legal você não me entender. — Me virei e olhei para a face pálida dele, observando cada traço de seu rosto. Atraente. Se ele quisesse, podia facilmente pegar a garota que quisesse. — Preciso dormir.
— Eu adoraria dormir com você — falou, agora segurando minha mão.
— Pare com essas frases de duplo sentido, o.k? Obrigada — disse eu, com um sorriso. Puxei Will pelo braço, entramos na barraca, nos jogamos nos sacos de dormir, desliguei meu celular e de repente já estávamos roncando.
(…)
Quando eu acordei, vi que Will dormia ao meu lado, apenas de cueca, mas enrolando nos cobertores e no saco de dormir até o estômago… Qual a lógica disso, minha gente?
Enquanto eu abria minha mochila para pegar algo para encher o arrombo no meu estômago, eu lembrei do sonho que eu estava tendo enquanto dormia.
E quanto mais eu lembrava, mais empolgada me senti. Peguei uma barrinha na mochila, mas estava horrível. O dinheiro já não era muito, afinal, os filhos de uma mulher prestadora de serviço sexuais, vulgo pulta, havia feito a gente pagar duas vezes mais. Eles mereciam uma vingança, mesmo que uma vingança tão retardada quanto eu imaginava. Era bem provável que talvez Will e eu terminássemos mortos, ou presos, mas sabe como é, eu sentia meu corpo ser corrompido pela adrenalina. Eu sentia que tinha que fazer uma coisa muito, mas muito, idiota. Eu simplesmente tinha que fazer aquilo, não sabia o por quê, puro fogo, talvez, mas eu tinha. Ou talvez só fosse minha bipolaridade querendo agir como uma vadia louca de novo.
Soltei minha barrinha de cereais barra pedra, e peguei minha mochila. Troquei de roupas, pegando uma calça jeans surrada com vários bolsos, uma blusa regata com um decote pra lá de forçado e um casaco preto de moletom.
Agora era só acordar o bicha do Will.
Sorri, me sentindo pronta para fazer qualquer loucura. Me aproximei de Will, lentamente, e agarrei a orelha dele com os dentes.
— AI! Porra, o que é isso? — exclamou ele, acordando de supetão. — Ah, é você. O que é agora?! Deu de querer lanchar a orelha dos outros?
Dei uma risadinha.
— Foi mau aê. Will, eu tive uma ideia muito louca — contei.
Will afastou a coberta, e eu seria uma vagabunda mentirosa se eu negasse, mas era muito perceptível mesmo ver que, hmm, a parte baixa de Will estava dura sob a cueca. Não que eu repare, o.k? Mas seja lá o que for que Will estava sonhando, deveria ser algo excitante. Ah, mano, parem de falsos pudores. Quando você é amiga de um cara por seis anos e já dormiu com ele milhares de vezes (no sentido mais bobinho) isso é muito normal.
— Pra você que utiliza esse negócio tão pouco, ele fica duro vezes demais — debochei com malicia.
— Posso acabar com esse problema usando ele em você — retrucou de cara feia, se levantou e vestiu uma bermuda. — O que é? Por que me acordou?
— Will, vamos fazer uma loucura hoje — falei abrindo um sorriso sádico.
— Minha nossa, tenho medo de perguntar o quê — respondeu, penteando os fios escuros com os dedos. — Caralho, você é aterrorizante.
Dizia que estava com medo, mas continuou me encarando com aquelas órbes claras, belas e fascinantes. Ei, isso é ótimo. A curiosidade é sempre um bom começo quando se queria fazer uma loucura daquela.
— Blá, blá, blá. Arregão — me levantei. — Vamos roubar um mercado na beira da estrada.
Me chamem de louca, eu deixo.
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