Yoonay
11 Petites joies.
Notas iniciais
Terça-feira, 08 de junho de 2017.
Naquele quinto dia da semana, quando o inverno australiano já batia as portas e forçava alguns cidadãos a tirarem de dentro dos seus guarda-roupas os casacos lãs ou aqueles sobretudos enormes, Noah Ray adentrava, imaculado, no prédio da galeria.
O sorriso polido em seus lábios denunciava a tamanha alegria que sentia por aqueles últimos dias. A alegria de ter um novo morador em sua casa ou a alegria de saber que daqui uns dias as ruas da movimentada Melbourne estariam cobertas de neve.
E fora com esse sorriso casto que ele saudara a adorável Yuna, a qual nessa manhã se encontrava com os cachos preso num coque rechonchudo e vestida num sobretudo de cor creme, esse texturizado com pequenas florezinhas, entrando em harmonia com o jeans claro e a botinha preta.
─ É por isso que eu amo cabelos cacheados, dá pra fazer uns penteados massa. ─ o loiro já foi logo falando animado, dando um tapinha no balcão de vidro. ─ Bom dia, Yuna.
A negra, que observava aquela animação com o cenho franzido e um bico engraçado, pigarreou.
─ Me passa cinco por cento de toda essa sua animação, por favor. ─ ela pediu com a voz audivelmente anasalada.
─ Ih, ‘tá gripada. Já tomou algum remédio? Chás? Cadê aqueles cafés doidos que você vive tomando? ─ ele disparou as perguntas, vendo-a soltar um riso lufado e rolar os orbes âmbar.
─ Você é pirado, né? E sim Noah, eu tomei remédio, um xarope caseiro e estou preparando um café fraco, obrigado pela preocupação. ─ o loiro, com um sorriso ladino, deu de ombros, apoiando os antebraços sobre o balcão e repousando seu tronco ali também. ─ Deixa seu chefe ver você debruçado sobre esse vidro, ele vai comer seu cérebro.
─ Ah! ─ ele exclamou, levantando somente o olhar. ─ Falando nele, Seung já está aqui?
─ Uhum, lá na sala, somente te esperando. ─ Noah levantou milimetricamente sua cabeça, apenas para observar as feições da negra e, no instante seguinte, pôs-se retilíneo, sorrindo feito uma criança que acabava de aprontar.
─ Qualquer coisa e só dar um grito. ─ ele a declarou, antes de segurar a alça transversal de sua bolsa e correr para as escadas.
Dez segundos depois, o loiro entrou na saleta, calmamente, caminhando até sua mesa para logo depois receber o olhar de seu chefe.
─ Bom dia, Ray.
─ Bom dia, Seung.
O moreno, que outrora o encarava com cílios semicerrados, voltou lesto seu olhar para a tela do notebook, pigarreando em seguida.
Noah, extra como na maior parte do seu tempo, fez uma careta cômica diante daquela reação nada mais que esquisita, e finalmente assentou-se em sua cadeira, deixando a bolsa ao lado.
─ Como você está? ─ Seung indagou, ainda fitando a tela de seu computador portátil, não tendo chances de presenciar a nova careta do seu semelhante.
Noah realmente não entendeu o que estava acontecendo. Primeiro aqueles trejeitos totalmente desconcertantes quando entrara na sala, e agora o mais velho lhe perguntando se estava bem. Achava a situação até interessante, porém, não mais que esquisita.
─ Como assim? ─ ele perguntou de volta, finalmente o encarando.
─ Como assim “como assim”? ─ Seung retorquiu, segurando a risada diante daquela feição confusa de seu semelhante.
─ Como assim “como estou”? ─ ele acabou sorrindo, e para se livrar do constrangimento, levantou a tela de seu notebook, o tratando de ligar diligente sem tirar o olhar do visor.
─ Ué, eu só quero saber se está bem, posso? ─ perante a questão, Noah soltou um riso lufado e abriu qualquer documento, todo aleatório.
─ Eu estou bem sim, obrigado. ─ o respondeu, se sentindo absurdamente estranho. ─ E quanto a você, está bem?
─ Estou cansado, mas estou bem. ─ Seung não segurou o sorriso, desviando o olhar ao abaixar a cabeça, perdendo mais uma vez a nova careta daquele à sua frente.
Ele está com vergonha?, Noah pensou.
─ Você está bem mesmo, cara? ─ achando esquisito todo aquele momento, Noah retrucou, deixando de lado toda e qualquer formalidade.
─ Estou, Noah, estou. Por que? ─ Seung tornou, com um sorriso brincalhão e austero.
─ O que?! ─ o loiro exclamou, arregalando os olhos em abundante surpresa. ─ Até me chamou de Noah.
─ Como assim?
─ Você sempre me chamou de Ray. ─ como resposta, o moreno estalou a língua no céu da boca e riu, passando a palma da mão no rosto, visivelmente desconcertado. ─ Seung, nunca vi mais extra que você.
─ O que quer dizer com isso? ─ com um feição confusa, ele indagou, deixando o notebook de lado e dirigindo sua total atenção para o loiro.
─ Você é fora do normal, doido. ─ ele confessou e, no instante seguinte, viu seu chefe pegar a pasta de couro em sua frente para logo depois acertá-la em sua cabeça, três vezes seguidas.
Ambos não seguraram uma gargalhada e Seung quase se castigou ali mesmo por estar sendo tão antiprofissional, mas ele simplesmente não conseguia se negar.
E recuperando o fôlego que havia perdido enquanto soltava aquela gargalhada melodiosa, Seung proferiu:
─ Só estou animado por você ter completado um mês conosco. Isso é demais!
Noah, no instante seguinte, tombou a cabeça pro lado e colocou a ponta da língua no meio de seus dentes, soltando novamente uma risada escandalosa e, gostosa, aos ouvidos de Seung.
─ ‘Tá todo doido assim por causa disso? ─ balançando a cabeça de modo incrédulo, ele indagou, o encarando com um brilho ingênuo nos olhos. ─ Você é extra pra cacete.
Seung, que já não se aguentava, deixou um riso escapar e devolveu-lhe a pasta, sem não antes deixar uma investida no braço direito.
─ Vai trabalhar garoto, vai trabalhar.
E o loiro até tentou, mas não durou muito, já que havia absolutamente nada para fazer e o telefone sequer tocara. Então ele decidiu dar início a outro assunto.
─ É sério que não vai me contar como fora lá em Queensland? Estou me corroendo há dias. ─ Seung, rapidamente, levantou seu olhar para o loiro e pigarreou.
─ Ops, acabei me esquecendo. ─ sua voz saiu naquele tom provocativo, que Noah sabia ser emitida por pura brincadeira e somente para vê-lo nervoso.
─ Eu fiquei igual a um imbecil esperando qualquer contato seu ou de Yuna para me passar as boas novas, e não o fizeram.
─ Mas eu pedi para Yuna lhe comunicar na parte da noite.
─ É, ela até falou comigo, mas não o suficiente. Veio com aquele papo de “na galeria Seung te conta”, e eu juro que se pudesse, esmagaria vocês dois com as minhas próprias mãos. ─ ralhou irritado, deixando um bico e bochechas coradas para a apreciação de Seung.
Ele o achava muito fofo!
─ Calma. ─ contendo um sorriso, Seung pediu. ─ Eu iria lhe passar tudo detalhadamente, mas ontem você não veio e, também, só estava esperando uma maior demonstração de interesse.
─ Mas eu demonstrei há dias.
─ Não pessoalmente. ─ incrédulo, Noah rolou os olhos e umedeceu lábios, cerrando, ameaçadoramente, os cílios na direção de seu chefe. ─ Ok, nossa viagem para Queensland fora bem promissora para a Univers.
─ O que de fato aconteceu?
─ Hum... fomos convidados para uma exposição.
─ Onde? ─ respondeu com outra pergunta, deixando um sutil tom de decepção tocar sua voz. Ele com certeza desejou ter soado mais animado, a verdade, porém, é que Noah esperava além de um simples convite.
─ Oh! Ok, deixe-me reformular a minha frase. ─ com um sorriso imaculado nos lábios, Seung refutou, fechando definitivamente a tela de seu notebook. ─ Nós não iremos a uma exposição, meu jovem Noah, nós iremos realizar a exposição.
É, era exatamente essas palavras que o loiro ansiava por escutar. Mais do que qualquer um, ao lado de Seung, ele realmente almejava o grande momento da Univers, o grande momento de seu chefe.
E Noah deixou um sorriso afável constelar seus fartos lábios, atribuindo uma postura mais relaxada, tocando a ponta da língua rosada entre a frente de sua arcada dentária, com aquele olhar todo bobo, os orbes verdes levemente arregalados.
─ U-uau, isso é incrível Seung. ─ confessou num sussurro, inclinando seu corpo ao umedecer novamente os lábios, num gesto de surpresa. ─ Eu imaginava várias coisas, também considerei essa possibilidade, a demora foi tanta, mas caramba, escutando de sua boca, a sensação é muito além do que eu poderia imaginar.
Seung, igualmente embasbacado, somente sorriu enquanto sentia certa euforia o tomar conta perante aquela gostosa e inesperada reação.
─ Nossa! ─ Noah exclamou, movendo seu tronco num rompante. ─ Eu tô muito feliz, sério!
─ Calma! Daqui a pouco terão fumacinhas saindo de seus ouvidos e por seus poros capilares, de tanto que seus neurônios estão sendo queimados com essa frenesi. ─ Seung brincou, apontando o indicador na direção de suas orelhas. ─ Mas sim, eu estou muito feliz também. Assim como você, eu não imaginava realizar uma exposição tão cedo, porém, se veio, eu só tenho a agradecer.
─ Eu mal conheço esse Pilsen, mas já o considero “pacas”. ─ lembrou-se da gíria que Gabriel o ensinara logo no início e decidiu usá-la, fazendo Seung gargalhar em meio a uma careta confusa.
─ O que é pacas? ─ o moreno perguntou, se esforçando para pronunciar corretamente, o que gerou em Noah uma breve e divertida risada.
─ Ah, é um superlativo para “demais”. ─ Noah o respondeu, risonho, pois não sabia bem como explicar corretamente, e isso fez o moreno sorrir e positivar com a cabeça, dando a entender que compreendera.
─ Onde você aprende essas coisas, garoto? “Pacas”, “extra”? ─ indagou, deixando seu sotaque forte quando tentara, novamente, pronunciar aquelas palavras.
E Noah achou aquilo ao mesmo tempo que sexy, engraçado.
─ É que eu tenho dois amigos brasileiros, Gabriel e Camila, eles são irmãos.
─ Huh, que legal. Queria ter amigos brasileiros, eles parecem divertidos.
─ Oh, e eles são. Acho que esses dois são as pessoas mais loucas que eu já vi na vida. São daquele tipo de pessoas que topam qualquer coisa, desde as mais simples a mais insanas, sabe? ─ Seung sorriu, admirado, enquanto via os olhos do loiro brilhando ao falar dos amigos.
E fora naquele momento que Noah tivera uma epifania.
─ Seung, posso te pedir um favor? ─ o mais velho franziu o cenho e ajeitou-se ao seu assento, achando aquilo interessante já que o mais novo nunca viera com isso.
─ Pode, e interprete como o presente de um mês de contratado. ─ o loiro riu nasalado, assentindo em seguida, e logo disse:
─ Sabe esses irmãos que eu citei? Então, eles são fotógrafos amadores. ─ e na mesma hora o moreno soube qual seria o favor. ─ Mas são bons, sério! Muito bons mesmo. Amanhã posso até trazer alguns de seus trabalhos para que veja, porém, vamos ao ponto. ─ Seung assentiu ─ O que você acha de deixá-los fotografar a sua noite de exposição, hein? Registrar cada momento com muito amor e carinho, seria uma boa.
O mais velho, ao escutar a proposta, passou a ponta de sua língua pelo interior da bochecha direita, e engoliu em seco, afrouxando um pouco o nó de sua gravata.
Aquela noite seria uma noite importante, e portanto, Seung queria que fosse registrado através das melhores lentes e observada pelos melhores olhos. Ele sequer conhecia os brasileiros que haviam sido indicados para fotografar o momento de sua galeria, entretanto, por ser o loiro a fazer aquele pedido, ele ponderou.
─ Eles são bons mesmo?
─ Eles são incríveis. No sábado, o dia do nascimento do Leon, foram eles que tiraram as fotos, e pense na qualidade de cada click, sério, chego a me arrepiar só de lembrar. ─ ele confessou, passando a ponta de seu indicador destro sobre o antebraço esquerdo, fazendo seu chefe rir e assentir.
Assim como achava o loirinho um fofo, o achava, também, uma figura.
─ Eu não vou te dar uma resposta concreta, sim? ─ no mesmo instante Noah murchou em sua cadeira, mas compreendeu. ─ Calma, isso também não foi uma negativa, pelo contrário. Antes eu quero ver os trabalhos deles, ok? Mas tenha em mente que se eles forem realmente bons, eu os contratarei. Todos devem ter chances.
─ Sim! ─ Noah exclamou, jogando levemente seu tronco para a frente. ─ E Camila e Gabriel são prodígios que só precisam de um pequeno momento para serem descobertos, sério. Hoje, assim que eu sair daqui, passarei na casa deles para pegar alguns trabalhos que ainda estejam em seus computadores, e amanhã trago para que você veja, pode ser?
─ Sim, pode sim, vai ser uma boa. ─ confirmou, sereno, apoiando suas costas ao encosto de sua cadeira.
─ Você não vai se arrepender chefe, pode ter certeza. ─ o loiro assegurou, deixando um sorriso animado escapar por seus lábios rosados.
Seung, de uns dias para cá, desde que contratara o loiro, duvidava muito que alguma coisa pudesse dar errado para a Univers e logo o fizesse se arrepender de ter o garoto trabalhando ao seu lado.
De algum modo, Noah era o amuleto de sorte que aquela galeria, e ele, tanto precisava.
─ Eu sei que não vou!
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