Notas iniciais
Para Frosty Girl, que leu, comentou e me fez continuar. Esse capítulo é para você.

A trilha de volta para a hospedaria pareceu quilômetros mais longa do que o caminho de ida. O silêncio entre eles não era de paz, mas de exaustão. Po caminhava um passo à frente, abrindo caminho entre os arbustos, mas seu ritmo era irregular. A cada respiração profunda, a ferida em seu peito latejava, sentia o sangue quente voltar a humedecer as bandagens, mas não parou.

Atrás dele, Tigresa era uma sombra. Seus passos, geralmente silenciosos, agora carregavam o peso de um corpo que havia atingido o limite. Suas patas pendiam ao lado do corpo.

Ao entrarem na hospedaria, o calor abafado do interior de madeira os atingiu. A escadaria rangia sob o peso de Po. Quando finalmente entraram no quarto, a escuridão era quase total, quebrada apenas pelo brilho pálido da lua que atravessava a fresta da janela.

Po não acendeu a lareira; a luz forte seria uma agressão para ambos. Em vez disso, acendeu uma pequena vela sobre a mesa de cabeceira.

— Sente-se aqui — a voz saiu mais rouca do que ele pretendia, indicando a beira da cama.

Tigresa obedeceu. Ela parecia menor agora, sem a postura heróica, os ombros levemente caídos. Po buscou a bacia de cerâmica no canto do quarto e verteu a água morna que restava no jarro. O som do líquido batendo no fundo da bacia pareceu alto demais no silêncio do quarto.

Ele se ajoelhou no chão de madeira, entre as pernas dela, e estendeu as patas grandes.

— Dê-me a pata, Tigresa.

Ela hesitou por um segundo, os olhos âmbar encontrando os verdes dele. Havia uma súplica no olhar dela. Mas Po permaneceu com as patas abertas, firme.

Quando ela finalmente cedeu a pata esquerda, o contato inicial fez Po travar a mandíbula. Estava fria, coberta por uma mistura pegajosa de sangue seco e lascas de madeira. Ele a mergulhou na água morna.

Ele não desviou o olhar. Com um pedaço de linho limpo, começou a remover, um por um, os estilhaços.

A cada lasca removida, o corpo de Po protestava. A ferida em seu próprio peito gritava a cada movimento de seus braços, uma pontada aguda que o fazia perder o fôlego por milésimos de segundo. Mas ele continuou. Para ele, cada gota de sangue que ele limpava era uma dívida que tentava pagar — uma dor que ele preferia carregar no lugar dela.

Po manteve o foco nas patas dela, evitando olhar diretamente nos olhos, para não deixá-la ainda mais desconfortável com a própria vulnerabilidade. Ele pegou um pequeno frasco que continha um unguento espesso e amargo, feito de ervas.

— Vai arder — avisou ele, a voz curta, enquanto aplicava uma pequena quantidade na almofada da pata esquerda.

Tigresa não recuou, mas ele sentiu os músculos do braço dela retesarem instantaneamente. O cheiro forte da erva preencheu o espaço entre eles, abafando o odor metálico do sangue. Po espalhou o remédio com movimentos circulares e lentos, garantindo que cada fissura da almofada fosse coberta.

Ele terminou o nó com um puxão cuidadoso, e passou para a outra pata. O ritual se repetiu: a água morna agora tingida de rosa, a remoção cuidadosa das lascas de madeira.

Ela olhou para as patas dele. Estavam sujas — do sangue dela, da terra da clareira, do unguento. Mas não tremiam. Não tinham tremido uma vez sequer desde que ele se ajoelhara.

Po levantou os olhos. Os traços estavam tensos pela dor que tentava esconder. Ela viu o esforço em cada respiração curta.

— Pronto — falou ele. — Tente não apoiar muito peso nelas até amanhã. O remédio precisa de tempo para absorver.

Tigresa observou o trabalho por um momento. Com um movimento contido, ela estendeu a pata e a pousou sobre o ombro dele.

— Obrigada — agradeceu, a voz baixa, mas firme.

Num impulso instintivo de conforto, Po cobriu a pata de Tigresa com a sua. Seus dedos se moveram em uma massagem lenta sobre o polegar dela, um carinho silencioso.

Sem pressa ou desconforto, Tigresa retirou o braço, voltando à sua postura habitual.

Ele a observou por um instante. O olhar dela ainda estava distante.

— Quer conversar? — indagou suavemente.

— Não — respondeu, suavemente.

Po assentiu, os olhos vagando pelo quarto até encontrarem uma caixa de madeira escura em um canto.

— Vi um jogo ali — ele indicou, apontando com o queixo. — Quer jogar?

Tigresa seguiu o seu olhar e reconheceu as peças de imediato. Dominó.

A lembrança veio sem aviso, transportando-a para muito longe dali.

Orfanato Bao Gu. O chão frio da sala vazia. Shifu sentado à sua frente, pacientemente, entregando uma peça por vez. Ela era apenas uma filhote, com as patinhas pequenas demais para segurar as peças direito. Elas caíam, ela se frustrava, sentia a fúria borbulhar e queria socar algo. Mas Shifu não se irritava. Ele apenas recolhia as peças espalhadas e dizia: "De novo. Uma de cada vez."

Meses depois, ela finalmente conseguiu. Uma fileira que serpenteava pelo chão da sala. Quando a última peça tombou, o desenho que se formou era um círculo perfeito, dividido em duas metades equilibradas entre o claro e o escuro. O Yin-Yang.

Ela piscou, voltando ao presente. O quarto da hospedaria estava mergulhado em sombras, mas a presença de Po era sólida e segura à sua frente.

— Não precisamos conversar — sussurrou ele.

Tigresa assentiu, uma única vez.

Po levantou-se com esforço e buscou a caixa. A colocou sobre a cama, entre os dois, e sentou-se de frente para ela. Nenhum dos dois disse mais nada. Tigresa pegou a primeira peça com cuidado e a posicionou sobre a superfície de madeira. Ele pegou outra e fez o mesmo.

O som suave e rítmico das peças contra a madeira preenchia o silêncio do quarto.

Pela primeira vez naquela noite, o peso no peito de ambos parecia mais leve.