Vinte e oito anos atrás.

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O perfume de sândalo e jasmim flutuava pelo Salão da Harmonia Suprema, mas não conseguia mascarar a tensão que pairava sob o teto de telhas. O Vale da Sombra recebia um visitante cujo rastro era tão branco quanto a neve do Himalaia.

Príncipe Shen caminhava sobre o tapete de seda vermelha com graça. Suas vestes de cetim branco, com fios de prata que imitavam olhos de pavão, moviam-se com um farfalhar suave. Ele parou diante do trono, fechando seu leque de metal com um estalo seco.

— Majestades — a voz de Shen era fria como o jade. — Trago saudações de Gongmen e uma proposta que pode elevar o nome deste Vale para além das grandes muralhas.

O Rei, trajado em seu hanfu dourado, inclinou-se para frente. Ao seu lado, a Rainha mantinha a postura ereta, as patas repousando discretamente sobre a curvatura de seu ventre, onde uma nova vida crescia em segredo.

— O Príncipe fala de rotas — disse o Rei, observando os mapas de papel de arroz que os lobos de Shen estendiam sobre a mesa de laca. — Caminhos que levam nossas especiarias e sedas até o mar.

— Exatamente — Shen deslizou uma garra sobre o mapa. — Em troca, peço apenas o direito de extrair o minério negro que dorme em suas montanhas. Para as majestades, é pedra bruta. Para mim, é o componente que falta para o progresso da China.

A Rainha estreitou os olhos âmbar.

— Progresso é uma palavra que oculta muitas intenções, Príncipe Shen — interveio ela, a voz firme apesar da fadiga da gravidez. — Nosso minério é a base das ferramentas de nossos agricultores. Por que um herdeiro de Gongmen cruzaria tantas províncias por pedras escuras? O que pretende forjar com elas?

Shen abriu o leque parcialmente.

— Apenas o futuro, alteza. Um futuro onde nenhum reino será isolado pela distância.

— O acordo é generoso — o Rei cortou, tocando o braço da esposa. — As rotas comerciais trarão riqueza para o povo, e o minério é vasto. Não podemos deixar o medo estagnar nosso crescimento. Se o Príncipe oferece a glória, nós aceitamos a aliança.

A Rainha buscou o olhar do Rei, encontrando nele uma determinação que ela não conseguiria demover. Ela assentiu de forma relutante, enquanto o selo real já estava sendo preparado para oficializar o acordo.

Escondida atrás de uma tapeçaria de seda que mostrava o ciclo das estações, Mirume observava tudo. Aos três anos, ela não via perigo; via no Príncipe Shen uma sofisticação que seu reino não possuía.

Dias depois, a tranquilidade do Vale foi substituída pelo som de martelos e cinzéis. A extração começara. Shen passava as tardes nas entradas das minas, longe dos olhares da corte, onde o pó de carvão e o enxofre impregnavam o ar.

As profundezas da mina eram úmidas e exalavam um odor de terra molhada e carvão. Mirume caminhava com cautela, ouvindo o som distante das picaretas dos lobos ecoando. No centro de uma galeria mais isolada, iluminada apenas por lanternas de papel que balançavam levemente, ela o encontrou.

O Príncipe Shen estava inclinado sobre uma bancada de pedra bruta. Em suas patas, segurava um pequeno almofariz, moendo substâncias com paciência quase ritual.

— A curiosidade é o primeiro ingrediente da grandeza. Aproxime-se — disse Shen.

A jovem tigre deu um passo à frente, ajustando a gola de sua túnica de seda. O ar ali era mais quente. Sobre a mesa, em um cadinho de cerâmica, repousava uma pequena pirâmide de pó negro.

— O que é isso? — perguntou ela, o olhar preso àquela substância. — Minha mãe diz que é apenas pedra moída. Mas o cheiro... é diferente.

Shen parou de moer e levantou-se com elegância. Ele pegou uma fina vareta de incenso, cuja ponta brilhava em vermelho, e a observou por um instante.

— Sua mãe teme o que não compreende — respondeu ele, a voz baixa, quase um sussurro conspiratório. — Os alquimistas chamam isso de "medicina de fogo". Dizem que buscam a imortalidade, mas eu encontrei algo muito mais útil.

Ele aproximou lentamente a ponta do incenso da pequena pilha negra. O tempo pareceu desacelerar para Mirume. O brilho laranja da brasa chegou a milímetros do pó. Houve um breve chiado.

Uma detonação ecoou pelas paredes da caverna. Em um piscar de olhos, uma coluna de faíscas alaranjadas e um clarão engoliram a escuridão. Sombras dançaram freneticamente na rocha bruta, e uma nuvem de fumaça subiu em direção ao teto.

Mirume não recuou. Sentiu a onda de calor atingir seu rosto e o cheiro de ozônio e enxofre invadir seus pulmões. Algo despertou nela, uma adrenalina que os ensinamentos de Chi nunca lhe proporcionaram.

— É magnífico — sussurrou ela.

Shen guardou o frasco de onde tirara o pó e virou-se para ela. O brilho da explosão ainda dançava nas íris da princesa, e o pavão reconheceu ali a fome que ele mesmo sentia.

— Isso é apenas uma faísca — ele murmurou. — Imagine o que o mundo faria diante de um sol nas suas patas. Imagine o poder de decidir quem vive e quem cai, sem precisar de uma coroa herdada por sangue.

Naquele momento, no palácio, a Rainha sentiu um chute em seu ventre. Ela olhou para a janela, onde o sol se punha atrás das montanhas, tingindo o céu com a cor de sangue.