A estrada para o Leste deixava para trás a suavidade dos pessegueiros do Vale. O terreno ficava irregular, marcado por raízes expostas e pedras afiadas. O ar era mais denso ali, cheirando a terra úmida e pinheiros que bloqueavam parte da luz do sol.

O grupo avançava em formação. Macaco saltava entre os galhos baixos, usando a vegetação para não tocar o chão, enquanto Louva-a-deus, empoleirado em seu ombro, reclamava em voz baixa sobre a falta de alimentos apetitosos. Garça caminhava com a elegância de sempre, mas seus olhos varriam o céu, desconfiados da calmaria. Víbora deslizava ao lado de Po, mantendo o ritmo dele.

— Você está respirando pesado, Po — comentou a serpente com gentileza. — A mochila está muito cheia.

— O quê? Não! — Po riu, disfarçando o cansaço e ajeitando as alças de bambu que rangiam. — É só... técnica de respiração. Estilo Dragão Guerreiro. Muito avançado.

À frente de todos, isolada em seu próprio silêncio, ia Tigresa.

Ela não participava das conversas. Seus passos eram silenciosos, as patas tocando o solo com precisão felina. A túnica dourada com videiras vermelhas parecia brilhar na penumbra da floresta, mas o que chamava a atenção de Po era a tensão em seus ombros. As orelhas dela giravam independentes, captando sons que nenhum deles ouvia: o estalar de um galho seco a cem metros, o farfalhar de folhas que não era causado pelo vento.

De repente, ela parou. A cauda, que balançava ritmicamente, ficou rígida.

— Algo errado? — Po começou a perguntar, mas ela ergueu a pata, pedindo silêncio.

O solo vibrou. Não foi tremor. Foi o som grave e pesado de carga vindo na direção deles. Antes que Garça pudesse levantar voo para investigar, a mata à frente explodiu.

Oito figuras irromperam das sombras, derrubando arbustos inteiros. Eram Javalis das Montanhas. Bestas de ombros largos, com pelos grossos e escuros. Vestiam armaduras rústicas de couro fervido e placas de metal enferrujado. Suas presas naturais haviam sido revestidas com ferro, transformando seus focinhos em armas de guerra.

Eles não perderam tempo com discursos. O líder, um javali com uma cicatriz que atravessava o olho esquerdo, grunhiu uma ordem e o bando avançou.

— Defesa! — gritou Tigresa, assumindo a base de combate.

A luta começou com violência.

Macaco foi o primeiro a interceptar. Ele desceu de uma árvore girando o bastão, atingindo o crânio de um javali que tentava flanquear o grupo. O impacto ecoou alto, mas o animal apenas sacudiu a cabeça e investiu com as presas. O primata usou a cauda para se pendurar em um galho e erguer o corpo, fazendo o javali chocar-se contra um tronco.

Garça usou a envergadura. Com um bater de asas poderoso, levantou uma nuvem de poeira e folhas secas, cegando dois oponentes. Ele mergulhou no meio da confusão, bicando pontos de pressão nos ombros grossos dos inimigos, fazendo-os perder a força nos braços armados de machados.

Víbora era rápida demais para eles. Quando um javali tentou pisoteá-la, ela deslizou por baixo de suas pernas, enroscando-se nos tornozelos e puxando com força. O gigante de trezentos quilos desabou, e antes que pudesse levantar, Louva-a-Deus saltou em seu pescoço, aplicando um toque paralisante que fez o bruto apagar instantaneamente.

Po enfrentava dois ao mesmo tempo. Um deles, usando um escudo de madeira reforçada, correu em sua direção. Ele não recuou; firmou os pés na lama, flexionou os joelhos e expirou profundamente, concentrando sua massa no centro de gravidade.

Quando o javali colidiu, Po absorveu o impacto e devolveu com o dobro da força. O javali voou para trás e acertou o companheiro que vinha logo atrás. O único som que saiu de Po foi o estalo seco do impacto e uma respiração curta e focada.

No centro da estrada, Tigresa enfrentava o líder da vara em um duelo de contrastes. Enquanto o javali personificava a força, desferindo golpes de machado capazes de estilhaçar troncos centenários, a felina movia-se em tempestade precisa: veloz, letal, cirúrgica. Ela flutuava entre as lâminas, esquivando-se por milímetros para logo em seguida contra-atacar com golpes de palma aberta no peito do adversário, buscando atingir o ritmo de seu coração com impactos secos e profundos.

O Líder, frustrado por não conseguir atingir a felina, tentou uma cabeçada. Tigresa saltou sobre ele, chutando suas costas e forçando-o a ajoelhar na lama.

— Você luta bem para um cão do Palácio de Jade — rosnou o Javali, cuspindo sangue e lama. Ele se levantou, os olhos cheios de ódio. — Mas eu conheço a sua espécie.

Ela firmou a base, mas algo na silhueta do líder a incomodava. A forma dele bufar, o peso de sua guarda... era familiar demais.

— Você tem o olhar dele — rosnou o Javali, girando o machado com uma destreza que não condizia com seu tamanho. — O mesmo olhar frio.

Tigresa sentiu um estalo na memória. O javali de quinze anos atrás. O gigante que ela derrotou para provar a Shifu seu valor.

— Boar... — ela sussurrou, a voz quase sumindo.

— Ele nunca mais foi o mesmo depois daquela luta. O grande conquistador transformado em piada por uma criança — o líder deu um passo à frente, a terra tremendo. — Eu sou Vark, o primogênito. E vim cobrar o que você tirou dele.

— Foi uma luta justa — ela rebateu, embora sua voz soasse oca.

— Justa? — Vark soltou uma risada áspera. — Você não lutou como um mestre. Você lutou como algo que deveria estar acorrentado. Eu vi as marcas no peito do meu irmão. Aquilo não foi Kung Fu, foi o ataque de um animal que só conhece a fúria. Shifu pode ter te dado esse manto, mas ele não mudou o que corre nas suas veias. Um monstro.

As grades do orfanato substituíram as árvores. As vozes das matronas sobrepujaram o som da batalha. Monstro. Aberração.

Ela não sentiu o frio. Não ouviu os gritos. A palavra já era tudo.

Sua guarda baixou. Os ombros, antes firmes, encolheram-se.

Vark rugiu, aproveitando o vazio nos olhos da felina. Ele girou o machado com toda a massa de seu corpo, mirando no pescoço para encerrar a linhagem que humilhara seu irmão.

— TIGRESA! — O grito de Po rasgou o silêncio.

Po não pensou. Ignorou os dois javalis que o cercavam e se lançou entre ela e a lâmina. O impacto foi seco. O metal serrilhado de Vark não encontrou o pescoço de Tigresa, mas afundou-se no ombro e no peito de Po, que havia se atravessado no caminho do golpe.

O sangue espirrou quente no rosto de Tigresa, trazendo-a de volta para a realidade de forma brutal. Ela sentiu o peso de Po desabar contra ela, ambos caindo na lama enquanto o machado ainda estava cravado nele.

Vark sorriu, preparando-se para puxar a arma e finalizar o serviço.

— Dois coelhos com uma...

Uma sombrinha vermelha, girando no ar, atingiu o pulso de Vark com força descomunal, fazendo o machado saltar de suas patas. Antes que o javali pudesse entender o que acontecia, um vulto gracioso desceu das copas das árvores.

A estranha aterrissou com leveza sobre o focinho de Vark, usando o impacto para dar uma pirueta no ar e atingir as têmporas do gigante com um chute duplo. O líder dos javalis revirou os olhos e desabou, inconsciente, no meio da estrada.

Os outros javalis, vendo o primogênito caído e a nova ameaça, hesitaram. A desconhecida recuperou sua sombrinha no ar e abriu-a com um estalo seco, olhando para os mercenários com desdém.

— Acabou a brincadeira. Fora daqui. Agora.

Eles não esperaram a segunda ordem. Fugiram para a névoa da floresta, deixando para trás apenas o líder nocauteado e o som da respiração falha do Dragão Guerreiro.

Tigresa apertou as patas contra o ferimento, sentindo o calor do sangue escorrer entre os dedos. O mesmo sangue que ela vira em Boar, quinze anos atrás. Só que agora não era de um inimigo.

Os Cinco Furiosos correram na direção deles. Víbora chegou primeira, o corpo deslizando na lama ao lado de Po. Macaco caiu de joelhos, as mãos pairando sobre o ferimento sem saber onde tocar. Garça abriu as asas, bloqueando a visão do que restava da estrada.