Yin Yang (Reescrevendo)
7 Até Não Sentir Mais Nada
O silêncio que se seguiu ao nocaute de Vark foi interrompido apenas pelo som da chuva fina que começava a cair, misturando-se ao sangue na estrada. Os Cinco Furiosos não baixaram a guarda. Seus olhos alternavam entre o corpo do javali caído e a figura esguia que pousara no centro do caos.
A desconhecida segurava uma sombrinha vermelha, cujo cabo parecia esconder mais do que uma simples estrutura de bambu. O rosto estava coberto por uma máscara de tecido escuro, revelando apenas olhos de um azul gélido.
Tigresa, ainda de joelhos, segurou Po contra si. O calor do sangue dele atravessava sua túnica dourada, manchando as videiras bordadas. Ela não olhou para a desconhecida com gratidão, mas com ferocidade.
A mascarada não disse nada por longos segundos. Apenas observou o estado de Po e apontou para uma trilha lateral, quase invisível sob as árvores.
— Há um lugar seguro perto daqui — a voz dela era melódica, mas sem emoção.
Po encarou a figura, e houve um lampejo de reconhecimento em seus olhos verdes. Ele conhecia aquela postura, aquele movimento. Sabia quem era, mas o cansaço e a dor o impediram de falar. Desviou o olhar para Tigresa e, mesmo com o rosto pálido e o peito manchado de vermelho, esboçou um sorriso fraco. Era um gesto mudo de conforto.
Tigresa sentiu o peso daquele sorriso. Respirou fundo e voltou sua atenção para a desconhecida.
— Guie o caminho — ordenou, a voz seca.
Tigresa colocou o braço de Po sobre seus ombros. Macaco aproximou-se rapidamente pelo outro lado, segurando Po com firmeza para dividir o peso. Juntos, o ajudaram a se levantar. Po soltou um gemido baixo, mas manteve os pés firmes enquanto o grupo começava a seguir a figura pela trilha densa.
A luz do sol começou a minguar, tingindo as copas dos pinheiros com um laranja doentio antes de ceder lugar ao cinza do crepúsculo. O caminho era íngreme, marcado por raízes que saíam da terra úmida. O grupo avançava devagar; cada passo era uma vitória contra a dor que latejava no peito de Po.
Tigresa mantinha o braço dele sobre seus ombros, o rosto rígido em concentração. Do outro lado, Macaco sustentava boa parte do peso, os olhos atentos a qualquer tropeço. Po, embora fraco e com a respiração curta, ocasionalmente olhava para Tigresa e esboçava um sorriso mínimo, uma tentativa silenciosa de dizer que ainda estava ali. Ela, porém, mantinha a mirada fixa na figura mascarada que os guiava, poucos passos à frente.
A hospedaria surgiu entre a névoa, um edifício isolado de madeira escura e telhados curvados pelo tempo, cercado por uma cerca de bambu seco que rangia com o vento frio da noite que chegava. Não havia lanternas acesas, apenas o silêncio pesado da floresta.
Ao entrarem, o ranger das tábuas do piso ecoou pelo salão vazio. O ar lá dentro cheirava a resina de pinheiro e poeira antiga. A dona do local, uma cabra idosa, os conduziu até um quarto nos fundos, onde um tablado de madeira servia como leito. Com cuidado, Tigresa e Macaco ajudaram Po a se deitar.
Foi apenas ali, sob a luz de uma única vela, que o ambiente pareceu se estabilizar. A proprietária, depois de acender o pavio, deixou o quarto sem uma palavra, desaparecendo pelo corredor escuro.
Na porta, imóvel, estava a desconhecida.
Ela se afastou do batente e caminhou até o centro do quarto. Lentamente, levou as patas à nuca e desatou o nó da máscara de tecido escuro. O pano caiu, revelando a pelagem clara e as manchas características de uma leoparda-das-neves.
— Song — o nome escapou dos lábios de Macaco em um sussurro de choque.
Víbora, que deslizava para perto de Po, paralisou por um instante, surpresa ao reencontrar a ex-líder das Damas da Sombra naquela parte remota do mundo. Po, que já suspeitava pela forma como ela lutava, apenas fechou as pálpebras por um segundo, confirmando suas suspeitas, mas não disse nada.
Tigresa, no entanto, não demonstrou surpresa. Sequer piscou. Para ela, o rosto de Song não mudava o fato de que uma estranha com um passado duvidoso agora estava em seu círculo. Sem dizer uma única palavra, Tigresa apenas estendeu a pata, exigindo silenciosamente a bacia com água e as ervas sobre a mesa.
Song sustentou o olhar de Tigresa por alguns segundos, antes de se retirar para um canto sombrio do quarto, aceitando o papel de espectadora.
As horas seguintes transcorreram em silêncio. Os demais Furiosos, exaustos pela jornada e pela batalha, retiraram-se para os aposentos vizinhos, deixando Tigresa a sós com Po. Sob a luz das velas, ela limpou o ferimento com precisão. Já era noite fechada quando os últimos curativos foram fixados. O único som que preenchia o quarto era o estalar rítmico da lenha em uma pequena lareira externa.
Po agora tentava tomar uma sopa de macarrão que fora providenciada. Ele segurava a colher com dificuldade, observando Tigresa sentada na beira da cama, cujas costas permaneciam tensas.
Por uma fração de segundo, os olhos deles se encontraram no reflexo das chamas. Sem resposta, Tigresa caminhou até o canto mais escuro do ambiente e acomodou-se em um assento de madeira. Cruzou os braços sobre o peito, mantendo uma postura tão imperturbável quanto as estátuas do Palácio de Jade.
— Você precisa descansar, Dragão Guerreiro — disse, o tom soando não como um pedido, mas como uma ordem. — Durma.
***
No meio da madrugada, Po despertou. O aposento estava frio e o assento no canto agora se encontrava vazio. Um som abafado e rítmico começou a penetrar sua consciência; não era o vento nas folhagens, mas o baque surdo de um impacto contra madeira.
Ele seguiu o eco até os fundos da propriedade e, sob o luar prateado, encontrou Tigresa.
Ela estava diante de um carvalho. Não havia técnica ou fluidez; havia apenas violência. Ela desferia golpes de punho e palma aberta contra o tronco com força cega. Po observou das sombras, notando o brilho escuro que manchava a casca áspera.
Lembrou-se do barco. Daquela manhã a caminho de Gongmen, quando ela contou sobre os vinte anos socando árvores de pau-ferro. O olhar fixo, a voz sem emoção. Até não sentir mais nada.
Agora ele via o resultado.
— Tigresa — chamou, a voz saindo falha.
Ela não parou. Um soco seguiu o outro, a respiração escapando em chiado entre os dentes cerrados. Continuou castigando o tronco, ignorando o próprio sangue que agora escorria pela casca e manchava as videiras vermelhas de sua túnica dourada.
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