Yesterdays Feelings

3 Capítulo 3: Eu Sou Uma Mentira.


Notas iniciais
esse é grande, uh.

Frank abrira a porta num estrondo quando nos preparávamos incondicionalmente para um novo beijo, e eu cheguei a odiá-lo como nunca odiei outra pessoa, pobre Frankie.


Ele não percebera nada, e logo Bert saíra do quarto, me deixando “à vontade” com meu namorado. Não, eu não estava à vontade ao lado dele.


“Olhando por outro lado agora, sinto pena do pequeno Frankie, ele não merecia, mesmo.”


O tempo passou, eu melhorei e voltei para a festa, com um pouco de medo de que meus olhos acabassem por encontrar os olhos azuis do aniversariante, eu não saberia o que fazer. Por infortúnio, ou não, o que eu previ aconteceu, varias e varias vezes até o dia nascer novamente. Bert foi esperto, fingindo que nada tinha acontecido, mas sem deixar de falar comigo normalmente, e sempre, sempre que nossos olhares se encontravam, ele me mandava aquele sorriso de meios lábios, e eu o devolvia com o mesmo sorriso. Eu não soube me controlar, aquilo era incontestavelmente mais forte do que eu.


Quando o sol se preparava para nascer, Quinn pegou a guitarra e Jeph se aconchegou no sofá. Eu não sabia exatamente o que estava acontecendo até ouvir a voz de Bert ecoar pelo pequeno apartamento com um microfone.


-Vamos tirar uma canjinha, vamos? –Ele dizia sorrindo.


A voz de Bert era ainda mais linda com o microfone, logo Branden se sentava na bateria e os meninos começavam a tocar uma musica leve e um tanto melancólica, que só um tempo depois eu descobriria o nome: On My Own.


O sol nascia e começava a bater na grande janela da sala de Bert, fazendo com que seu rosto se iluminasse pela metade enquanto cantava, e fazendo seus olhos ficarem ainda mais azuis, tão claros quanto à cor do céu, que se abria para ouvi-lo cantar.


A canção era tão linda que eu praticamente entrei em um estado nulo de sentidos e movimentos, só conseguia olhar o rosto de Bert, perfeitamente esculpido com as sombras do sol nascente, só conseguia ouvir a sua voz, hora rouca, hora aveludada. Mal pude sentir Frank me abraçando por traz para me embalar àquela musica romântica. Eu não queria Frank, eu não senti mais o que sentia quando ele me abraçava, era como –por grossamente dizer –que um peso morto me abraçara por traz, como se eu tivesse apagado da memória tudo o que passara com ele nos últimos… Há quantos meses nos conhecíamos mesmo?


A única coisa que conseguiu invadir minha mente foi a vontade de que fosse Bert ali falando algo no meu ouvido, e não Frankie.


E então eu me dei conta de onde eu estava pulando de cabeça, mas àquela fase do campeonato, eu não conseguiria mais voltar atrás.



“Maldição, eu estava certa naquele tempo.”





Passou-se algumas semanas depois da festa. Quando não estava na rua com os meninos, eu aproveitava minhas férias de começo de ano para ficar em casa vendo t.v ou lendo uns livros, momentos dos quais eu não teria mais tempo para fazer depois que as aulas começassem. Minha mãe, apesar da pouca renda da casa, fazia a obrigação de me colocar em vários cursos durante a semana, simplesmente pelo fato de que ela não teve chance de fazer isso quando tinha a minha idade. Aquilo já havia trazido muitas brigas pra dentro de casa –as brigas em casa eram freqüentes, alias –pelo fato de eu ter que fazer cursos dos quais eu não tinha a mínima vontade de fazer apenas para agradar a vontade dos pais de se fazerem de típicos ricos que tinham dinheiro o suficiente para pagar qualquer curso e ainda à mensalidade do colégio. Fúteis. Eu não acreditava como poderia ser filha deles, éramos tão diferentes, não fisicamente, mas no jeito de pensar, de se vestir, nos gostos, em qualquer coisa.


Meu pai sempre fora um típico morador Nova Yorkino –Talvez pelo fato de ter passado toda sua vida lá, onde eu nasci –era vagabundo, e passava quase todas as suas 24 horas do dia sentado no sofá tomando qualquer cerveja barata que estivesse na geladeira, minha mãe o apelidara carinhosamente de Hommer. Mas dês de que arrumou um emprego descente, aumentou seu salário e subiu de cargos, ele se sentia o mestre da casa, se esquecendo de que, dês do dia do casamento com minha mãe, era ela quem cuidava de tudo, trabalho, filhos e casa.


No momento em que pisamos em Seatle, as brigas constantes começaram, às vezes era por algum motivo idiota, outras vezes eram assuntos mais sérios. Aqueles eram momentos que me faziam pegar meu irmãozinho Danny, de apenas quatro anos, pelas mãos e sair de casa, talvez por isso eu sempre fora mais adulta para minha idade, aprendi a me virar sozinha.


Quando nos mudamos para Los Angeles, eu tive esperanças de que as brigas acabassem… Não aconteceu.


-Que tipo de babaca você acha que eu sou!? –Era minha mãe gritando, de novo, aparentemente sem maiores motivos.


Olhei para o rostinho de Danny, que brincava no meu quarto com seus carrinhos. Ele olhava da porta fechada do quarto para minha cara, como se me perguntasse se eu o iria pegar pelas mãos de novo e sairia de casa. Eu estava pensando seriamente em fazer aquilo, dependendo do quanto a briga piorasse. Mas não queria me arriscar, Los Angeles é enorme e minhas chances de me perder ali eram imensas, eu nunca tive muito senso de direção: Andava por aí sem pensar, mas é que Los Angeles me dava um pouco de medo naquela época, acho que daria medo em qualquer menina de quatorze, quinze anos, ainda mais se tivesse de levar com ela um garotinho de seis.


A briga parecia piorar, então tomei minha coragem maior.


-Amorzinho, fica aqui quietinho, eu vou pedir pro papai e pra mamãe pararem de brigar, ok? –Fiz cafuné na cabeça de Danny, que já parecia assustado.


Fechei a porta do meu quarto dando uma piscadela pro menor, e então fui até a cozinha, de onde os gritos e palavrões ecoavam.


-Dá pra parar com isso? Vocês estão assustando o Danny! –Fitei o rosto dos dois, que permaneceram em silencio por alguns segundos, talvez o cérebro deles estivesse decodificando o fato de que eles tinham também uma adolescente e uma criança em casa.


-Ah, vai pra puta que te paril! –Meu pai veio pra cima de mim e me empurrou, ele não era forte o bastante e sabia disso, mas dessa vez, por pouco eu não caí no chão, e pude sentir aquele hálito familiar emanando de sua boca.


-Não discute com ele Mell, ele esta bêbado, de novo. –Minha mãe revirou os olhos. Apesar de tudo, eu gostava dela, só não conseguia entender como uma mulher jovem, vaidosa e tão bonita ainda agüentava um bêbado como meu pai.


-Pra deixar ele te bater e traumatizar mais ainda o meu irmão!? –Virei para o meu pai. –Eu não tenho medo de você! Vai! Me bate! Me bate de novo! Faz tanto tempo, não faz!? –De repente minha voz engrossara, a Mellanie dura e corajosa aparecera de novo, depois de tanto tempo.


Vi a veia no pescoço de meu pai saltar, seu rosto começara a adquirir um tom avermelhado e seus olhos pulsavam de ódio quando ele virou um tapa no meu rosto com sua enorme mão carrancuda, o que fez meu piercing nos lábios virar quase do avesso e rasgar minha boca.


Fiquei em silêncio olhando seus olhos de ódio enquanto limpava o sangue com as costas da mão. Ele iria vir pra cima de mim de novo, eu tinha certeza, e foi o que ele se aprontou para fazer quando alguém bateu na porta do apartamento. Salva pelo gongo.


Ouvi meu pai reclamar baixo e ir atender a porta.


-Oi, a Mellanie está?


Era a voz de Bert, como um anjo para me salvar. Meu coração pulou para a garganta, e por um segundo eu pensei em pedir socorro aos berros, eu sabia que se meu pai fechasse a porta na cara de Bert, ele voltaria pra terminar o que havia começado comigo.


-Não ela não está. –Meu pai foi com um impulso para fechar a porta, quando eu gritei.


-Eu to aqui sim! Bert! –Era obvio o pavor de minha voz.


Bert segurou a porta.


-Posso falar com ela então? –Disse se apoiado à porta, ele ainda não tinha me visto, mas eu podia vê-lo. Eu não sabia se queria que ele me visse com a boca sangrando e lágrimas nos olhos.


-Não, não pode! –Foi em vão.


Bert passou por debaixo do braço que meu pai apoiava na porta como uma raposa. E paralisou ao olhar meu estado, naquele momento uma lágrima já estava rolando pelo meu rosto, eu não sabia exatamente o porquê.


-O que você está fazendo com ela!? –A voz de Bert engrossara como um animal. Ele veio em minha direção e segurou meus ombros delicadamente –Você está bem?


-E-estou. –Gaguejei de novo. –Vamos sair daqui, ta? –Ao terminar a pergunta, olhei para minha mãe, como se pedisse afirmação. Ela entendeu e fez sim com o rosto.


-Leve o Danny. –Ela disse com a voz fraca.



Me senti mal deixando minha mãe sozinha, mas isso era o melhor para Danny, que parecia atordoado segurando minha mão enquanto eu chorava sentada num banco do parque mais próximo.


-Pára de chorar, por favor. –A voz de Bert se aveludara novamente. –Agora me explica o que aconteceu.


-Deixa pra lá –Eu disse em meio aos soluços. Senti-me tão fraca e insignificante. –Eu e o Danny já estamos acostumados com isso, faz parte da rotina lá de casa -Tentei sorrir para o menor.


Eu estancava o sangue dos meus lábios com a bandana de Bert. O mesmo me abraçara então.


-Aquele filho da puta é o seu pai?


-Sim… –Abaixei o olhar. –Não se preocupe com ele, só fica forte e corajoso quando está bêbado.


-Não é assim, você devia denunciar esse cara.


-De que vai adiantar? –Olhei para seus olhos novamente. –Ele só vai ter de pagar uma quantia em dinheiro, o que pode fazer a comida lá de casa sumir.


Bert ficou em silencio, sabia que eu estava certa. Me abraçou novamente, me passando uma segurança da qual eu nunca tive ao lado de ninguém. Chorei de novo, afogando minha cabeça em seu ombro, e senti Danny apertando minha mão mais forte.


-Obrigada, anjo. –Sussurrei, acreditando que ele não fosse me ouvir, mas para minha decepção e vergonha, ele deu um risinho.


-Anjo… Você é a primeira pessoa em toda a minha vida que me chama de anjo. Obrigado. –O abraço dele ficou mais forte.


-Eu é que tenho que te agradecer. Te juro, eu não sabia o que Jhon poderia fazer comigo se você não tivesse aparecido.


-Jhon? –Ele pareceu confuso.


-Meu pai. –Eu ri. –Seu bobo. –Me soltei dos braços dele e fitei seu rosto.


Tão lindo… Por um momento esqueci completamente o que iria dizer.


-Obrigada, mesmo.


Ficamos conversando a tarde toda, Bert me contou um pouco de sua vida também, tenho que admitir, a vida dele era sim pior do que a minha, pais religiosos ao extremo, brigas com os irmãos mais velhos, até a expulsão de casa. O que o fez acabar por vir morar com a família de Quinn.


Percebi então que Bert não era só um rostinho encantador e um sorriso malicioso, ele tinha uma personalidade que havia sido escondia por todos aqueles dias. Era uma personalidade gentil, meiga e inocente como a de uma criança, mas ao mesmo tempo, era uma personalidade forte, de um garoto de dezessete anos que já havia vivido coisas de mais para a sua idade. Talvez um pouco parecido comigo, a “rebelde sem causa” da família.



-Você ainda não me contou o porquê de ter aparecido na minha casa, assim do nada. –Agora estávamos em uma lanchonete, Bert fez questão de pagar um lanche para mim e para Danny, apesar da minha falta de apetite. Eu acabei por dar meu lanche para Danny, que ficou satisfeito.


-Ah… –Bert sorriu de leve. –Eu não tinha nada pra fazer lá em casa, então resolvi não fazer nada junto com você. –Seu sorriso então aumentou, o deixando levemente corado.


Senti meu rosto corar. Meu Deus será que eu nunca conseguiria controlar meus sentimentos?



A noite se aproximou, liguei para minha mãe para saber se estava tudo bem, parecia que ela estava bem, mas não conseguira controlar a raiva de meu pai, e me sugeriu que não voltasse pra casa com Danny naquela noite. Eu não sabia o que iria fazer, não queria ir para casa de Frank, por um motivo do qual eu tentava esconder pra mim mesma dês da festa de aniversario de Bert.


-E agora, você vai dormir onde? –Ele perguntara logo após eu desligar o celular.


-Eu não sei, eu me viro, relaxa. Você já fez de mais por mim hoje.


-Não, de jeito nenhum, eu não vou te deixar dormir na rua! –Parecia nervoso.


-Não tenho outra saída Bert, eu já estou acostumada com isso, já fugi de casa com o Danny tantas vezes.


-Ah, droga, como você é insistente! –Ele riu parecendo debochar da minha infantilidade. –Porque não vai pra casa do seu namoradinho? –E debochou mais, colocando uma certa ênfase na palavra.


-Não quero ver o Frank hoje. –Eu respondi seria.


-Iiih… Enjoou do anãozinho? –Ele definitivamente estava brincando com a minha cara.


-E se for? –Era fato de que Frank era realmente pequeno para sua idade, ele era do meu tamanho, alias ainda é. Mas comentários sobre sua altura não me agradavam.


Quando comecei a namorar Frank eu achava charme homens baixinhos. Mas eu havia mudado. Não que eu o achasse feio –longe disso –mas eu não me sentia ao lado de um homem quando ficava ao lado dele.


Bert ficou em silencio.


-Desculpa, eu to nervosa. –Senti um pouco de culpa.


-Tudo bem, só achei estranho. Gerard tinha me dito que vocês eram grudados como irmãos.


-Nosso relacionamento não anda muito bem, Bert. –Abaixei a cabeça. –Só se parece que está tudo bem. Tudo na minha vida é uma grande mentira: Minha família é uma mentira, o dinheiro que meus pais fingem ter é uma mentira, meu relacionamento é uma mentira… Meu amor por Frank anda sendo uma mentira… Eu sou uma mentira, Bert. –Eu não havia percebido, mas rolavam lágrimas dos meus olhos e nós tínhamos parado de andar.


E então, sem dizer nada, Bert me abraçou. Parecia que ele sabia exatamente o que eu precisava. Danny continuava em silencio, era fato de que o menino não falava muito –trauma, talvez –Mas pude sentir que soltou minha mão e abraçou minhas pernas, um ato espelhado de Bert.


Eu me prepara para dizer algo que ainda não estava na minha mente, quando Bert atropelou meus pensamentos.


-Não diga nada, eu sei como se sente. Acredite, eu sei muito bem como se sente.


-Desculpa. –Eu soluçava. –Eu te enchi o saco o dia inteiro.


-Você não precisa me pedir desculpas. –Ele riu. – Estou feliz em saber que posso te servir pelo menos como um ombro amigo, acho que estou descobrindo a menina por de trás da mentira, e estou adorando essa menina. –Ele me abraçava cada vez mais forte, tanto que eu pude sentir seu coração batendo, próximo ao meu.


Fiquei perplexa pelas palavras de Bert. Sempre tive medo de mostrar como eu era de verdade, medo de mostrar uma adolescente infantil e chorona, medo de desaprovação.


-V-você não sabe… Você ainda não sabe praticamente nada de mim.


-Então me deixe descobrir a verdadeira Mellanie por trás da de mentira. –Ele levantou meu rosto tão próximo ao seu que as pontas de nosso narizes se tocaram. –Me diz, o que está pensando agora? –Ele me olhava com olhos de sede.


E pela primeira vez em tanto tempo, eu fui sincera.


-Agora? -Levantei uma sobrancelha. -Eu estou pensando em te beijar agora.


-Então ta. –Ele deu aquele sorriso torto, e com o fim da frase nossos lábios se cruzaram novamente, dessa vez num beijo suave, doce e delicado. Esse era o Bert de verdade: Doce e delicado.



“Estranho seria se eu não me apaixonasse por você.”






All Star Azul _ Cássia Eller.

Notas finais
provavelmente viajarei esse fim de semana, terça eu volto b29;