Yesterdays Feelings
2 Capítulo 2: O Começo De Um Fim.
Notas iniciais
Estava distraída conversando com Bert quando reparei que Jeph tinha sacado a maquina digital e naquele exato momento estava fazendo um vídeo:
-Oi, eu sou o Jeph, baixista do The Used, estou aqui em Los Angeles, cara, aqui não é como mostram os filmes, tem seu lado pobre sim, como todas as cidades, e eu estou agora morando no lado pobre de Los Angeles com meus amiguinhos colegas de banda. –Jeph deu um risinho, e aproximou a câmera na cara de Bert. –Esse é um dos meus amiguinhos, o Bert. Se apresenta aí, chuchu! –Ele riu.
-Oi… –Bert disse apenas aquela palavra e ficou olhando para a câmera com um meio sorriso no rosto, aquela sua cara fenomenal de cinismo e uma sobrancelha levantada.
-Ah, só isso? –Jeph desaprovou.
-Ta… –Ao dizer isso Bert se fingiu de animado. –Oi! Eu sou o Bert, vocalista do The Used… –Ele gesticulava. –Uma banda que provavelmente ninguém nunca ouviu falar, ainda! –E terminando sua fala, ele riu.
Jeph apresentou Quinn para a câmera, e logo após me apresentou como “a mina do Little Frankie”, aqueles segundos me deixaram completamente constrangida.
Fiquei jogando conversa fora com os três meninos, trocamos nossos números de celular, aquilo fez meu humor subir para o céu como foguete, me deparei com uma Mellanie desencanada e fazendo novos amigos, amigos esses que senti que durariam muito tempo… Eu estava certa.
Sempre me sentia bem e até eufórica quando fazia amizades novas, aquilo me fazia tão bem, eu não sei explicar muito o porquê, talvez pelo fato de ter passado uma infância sem muitos amigos.
Os garotos voltaram, bebemos todos juntos um pouco e o tempo começara a fechar, entramos no apartamento de Frankie e pedimos algumas pizzas enquanto jogávamos vídeo-game. O dia se passou assim, logo todos foram embora, e Frank ficou implorando pra que eu dormisse lá com ele, foi o que eu fiz, mesmo não tendo vontade. A minha vontade mesmo era pegar uma carona no carro de Jeph com os meninos, simplesmente por um impulso de ficar mais um tempo ao lado de Bert, eu não imaginava que aquele sentimento se tornaria tão doentio hoje em dia.
Eu nunca me esquecerei que como me divertira aquela quinta, e de como aquele dia tinha sido especial. Afinal, aquele dia foi o começo do fim, o começo da mudança de rumo que minha vida tomaria dali em diante, o começo de uma nova vida cheia de extravagâncias, divertimentos, paixões, romances, brigas, luxúrias, drogas e traições. Se eu pudesse saber o futuro antes daquele dia chegar, eu teria feito tudo diferente: Não teria aceitado o pedido de namoro do Frankie dois meses antes. Claro que isso não mudaria muita coisa pelas quais eu passei… Para falar a verdade, -pensando bem agora — eu nem teria feito amizade com Mickey Way no colégio.
“Se eu soubesse…”.
Duas semanas se passaram, e para minha felicidade, minha amizade com os novos garotos tinha crescido loucamente, mas não tanto quanto minha amizade com Bert em especial, era como se nos conhecêssemos dês da infância. Era um Sábado, dia 25 de Fevereiro, aniversário de dezessete anos de Bert, faríamos uma festa no apartamento dele — o qual era praticamente na rua de trás do prédio onde Frank morava. Estava tudo combinado, muitas bebidas, algumas drogas leves como “presente de aniversario”, musica alta, alguns amplificadores e uns instrumentos do tipo guitarras, baixos, e uma bateria pequena que quase não coube na sala apertada de Bert, foi preciso arrastar um dos sofás para o quarto, mas fora isso, estava tudo perfeito.
Às dez horas da noite já havíamos começado a festa, e para meu infortúnio, não apareceu um filho da puta que trouxesse algo para comer. Eu havia ficado o dia todo apenas alimentada com um misto quente barato, que havia comprado numa barraquinha ao lado do prédio de Bert. Eu sentia que virar uma noite inteira só com álcool e cigarros não ia dar certo, mas acabei deixando pra lá, e quando meu estomago começara a roncar de verdade, já era meia noite e ia ser difícil ter algum delivery aberto na parte “pobre” da grande metrópole Los Angeles.
Estava sentada em uma rodinha com Frank, Mickey e Jeph, quando já começara a me sentir meio tonta.
-…Tipo, cara, se liga: Esses papos de teoria de conspiração não tem fundo nenhum, é tudo uma grande mentira pra fazer um monte de idiotas que se acham cultos ficarem perdendo o seu tempo e não se ligarem nos podres que realmente acontecem no governo Bush… –Jeph gesticulava apontando o dedo na cara de Mickey.
-Depende da teoria, cara, depende muito. Tem coisa ali que é verdade sim, e que o governo esconde, mas também tem muita mentira pra pegar trouxa! –Mickey revidava, com o livro “TDC: A Teoria da Conspiração” nas mãos.
Aqueles garotos começavam a ficar bêbados e ficavam mais inteligentes, começavam a filosofar, eu não conseguia fazer aquele tipo de coisa, geralmente quando o álcool subia, eu virava uma puta de cabaré e não conseguia falar uma frase inteira que fizesse sentido.
Em questão de segundos, meu corpo começou a esquentar do meu quadril até minhas orelhas, o som começara a parecer mais abafado e meu senso de movimentos ficara mais lento. Ops, era hora de chamar o hugo.
-Calma aí galera, eu já volto. –Tentei falar o mínimo de palavras possível, pra não correr o perigo de jogar restos de misto quente na cara de Jeph. Eu estava realmente mal a esta altura. Levantei meio tonta, me apoiando na cabeça de Frank e dando uma cambaleada até virar na porta do banheiro, senti que os meninos cochicharam algo quando dei as costas, devia ser algo do tipo “acho que ela ta mal mesmo” ou “mas já? Como ela é fraca pra bebida!”.
Apoiei minhas mãos na porta do banheiro, respirando fundo, eu sabia que no momento em que abrisse aquela porta, teria de ser rápida até o vaso sanitário, pois eu não conseguiria segurar mais aquilo rodando dentro do meu estomago. Abri a porta com força, quase caindo e me apoiando na maçaneta pra não enfiar a cara do bidê, eu estava quase de joelhos no chão –uma posição gravitacionalmente impossível quando se está sóbrio – e apoiada agora no bidê gelado. Finalmente, em uma fração de segundos, quando levantei minhas mãos ao meu lado pra abrir a tampa da privada e tirar tudo que tinha já na minha garganta…
Eu tive que engolir o hugo.
Só então me deparei com Bert e Gerard de joelhos aos lados do vaso sanitário, olhando pra mim com aquela cara básica de ponto de interrogação. Na tampa do vaso eu enxerguei com dificuldade três ou quatro carreirinhas de cocaína. Bert largou a nota enrolada que iria usar e me segurou pelos ombros.
-Você ta bem?
-Que pergunta idiota, ela ta ficando verde, Bert! –Gerard assentiu com preocupação em sua voz.
Nos segundos após aquilo eu não me lembro de tudo perfeitamente, só me lembro da água do vaso sanitário a frente do meu rosto, e alguém segurava meu cabelo com dificuldade — afinal, naquela época eu usava um corte channel.
-Vai com calma, vomita tudo mesmo. –Era a voz de Bert, ele passava as mãos pelas minhas costas tentando me fazer um carinho. O primeiro toque de Bert que me deu arrepios foi naquele momento, quando o mesmo fez um cafuné com as pontas geladas de seus dedos na minha nuca.
-Relaxa, logo você melhora. –Gerard tentava melhorar minha situação, sem vitória.
Quando dei por mim, estava deitada em algum lugar, meu corpo estava pesado e eu preferi não fazer força para abrir os olhos. O objeto onde minha cabeça estava encostada — o que devia ser um travesseiro – tinha um cheiro maravilhoso, para mim é claro, eu já disse que tenho um gosto peculiar e diferente de qualquer outra garota. Era um cheiro de alguma colônia masculina forte, misturado com cheiro de marlboro, eu consigo diferenciar o cheiro do tabaco do marlboro de outros cigarros, e eu adorava aquele cheiro… Adorava.
Ouvi uma porta se abrindo.
-Ela ta melhor agora?
-Você acabou de entrar aqui perguntando a mesma coisa, relaxa, eu to com ela. –Essa era a voz de Frankie.
-Desculpa, fico meio preocupado, acho que devia ter feito alguma coisa pra ela comer antes de começarmos a beber.
Depois que a porta se fechou, me rendi à curiosidade e abri meus olhos. Frank estava olhando pra mim.
-Ta melhor amor? Você me deu um puta susto! –Ele fez carinho no meu couro cabeludo.
-Eu to melhor sim, relaxa. –Eu queria me levantar, mas não tinha forças ainda. –Quem era que entrou agora pouco? –Joguei verde.
-Era o Bert, ele pediu desculpas, disse que se sente culpado por você ter passado mal. Ele entrou aqui umas cem vezes, cara! –Como Frank é lento pra perceber pequenos detalhes, até eu já tinha me tocado ao longo daquelas duas semanas.
-Ah, tadinho, não é culpa dele, eu que devia ter avisado que não comi nada o dia todo, chama ele aqui pra eu pedir desculpas e explicar. –Era incontrolável a minha vontade de ver ele, um tanto infantil talvez.
-Quê isso amor, descansa um pouco, eu vou dar uma volta pelo bairro e ver se tem algum boteco aberto, vou comprar algo doce pra você comer, okay?
-Ta… –Virei meu corpo para o outro lado e fechei meus olhos. Logo após eu ouvi Frank suspirar, se levantar e ir até a porta.
Eu dormi, não sei por quanto tempo, mas não pareceu ter passado muito. Quando acordei senti uma mão gelada passando por cima de meus braços, abri os olhos por reflexo e virei para a beirada da cama.
Lá estava Bert McCracken, me olhando nos olhos, mas dessa vez com um olhar de preocupação.
-Acordou finalmente. –Ele deu um riso torto, o que me fez perder o fôlego.
-Dormi muito tempo? –Minha voz estava fraca e saiu como um ruído.
-Desculpe? –Bert aproximou seu rosto do meu, ainda me olhando nos olhos, perdi um pouco mais do meu fôlego.
-Ahhn… –Eu fiquei sem reação, idiota. –Eu d-dormi por muito tempo? –E pra fazer meu rosto corar mais ainda, eu terminei gaguejando, que estúpido.
-Ah… –Bert olhou para cima tentando buscar em sua memória alguma relação com o tempo que estive dormindo. –Não foi muito tempo não, pra falar a verdade… Eu não faço a mínima idéia. –Ele sorriu. –Não sei se é o Frankie que está demorando ou se meu senso de tempo já foi embora com o álcool. –Soltou aquela sua risadinha desencanada e ficou me fitando por alguns segundos, eu pude quase ouvir o que ele pensava só de ver aqueles olhos azul-céu.
Foi aí então que eu perdi o que sobrara do meu ar:
Bert encostara sua mão gelada em meu rosto, era tão macia e delicada para um garoto tão… Grosso, por assim dizer.
-Fiquei preocupado com você, estava mal de verdade. –Ele baixou o rosto, encolhendo os ombros. –Desculpe.
-Se desculpar pelo que? Eu que devia ter comido alguma coisa no almoço, estava tão ocupada que acabei esquecendo.
-Sim, você estava ocupada ajudando o Frankie e os Way’s a organizarem tudo isso. Mas… –Ele tirara a mão do meu rosto, e voltara a olhar nos meus olhos. –Não foi por isso que eu me desculpei. –E por alguns segundos, eu voltei a sentir a perversidade em seu olhar.
Levantei-me retomando o fôlego e me apoiando em meu cotovelo.
-Porque você pede desculpas, então? –Tomei uma coragem que não tomaria se estivesse sóbria: Devolvi o olhar a ele com tanta perversidade quanto. Pude ouvi-lo suspirar baixinho, o que me fez perder – de novo – o fôlego.
-Por não saber me controlar quando estou bêbado. –Ele deu um sorriso torto e naquela fração de segundos ele não me deixou pensar duas vezes, puxou meu rosto e seus lábios tocaram os meus lentamente.
Preciso dizer que fiquei sem reação? Naquele momento, eu só conseguia devolver o beijo com intensidade, eu disse que viro uma puta de cabaré quando estou bêbada, não disse?
Os beijos começavam a ficar mais quentes, quando ele soltou meu rosto num impulso.
-Eu acho que não devia ter feito isso, não? –Entortou o rosto para o lado ainda com aquele meio sorriso nos lábios.
Como eu imaginava, não consegui responder. Apenas fiquei olhando em seus olhos com meia boca aberta, pude sentir uma expressão de surpresa em meu olhar. Bert deu um risinho.
Não sei por quanto tempo ficamos apenas nos olhando e sorrindo, nem eu e nem ele sabíamos o que dizer naquele momento delicado.
I Caugth Fire _The Used.
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