Yellow - Dramione

14 When You Awake Inside


Notas iniciais
Olá, bbs. Link de mais uma one de minha autoria nas notas finais. Bjooos!

Vince andava apressado pelo castelo. Os estudantes protelando para se dirigirem às respectivas salas e andando devagar em sua frente só o irritavam mais. Sua noite foi péssima, pois mal havia pregado os olhos e por isso estava atrasado. O motivo que levou embora a descontração de tão responsável professor? Ela, a digníssima senhora Palmer. Ou para Vince, simplesmente a sua Mary. Ela nunca foi dele, mas era como o professor a imaginava. Sua Mary foi uma esperança ínfima de amor e felicidade, já a senhora Palmer era o sonho desfeito.

Ele se sentia estúpido por beijar uma garota uma única vez aos dezessete anos e até o dia anterior pensar nela com tanto carinho. Sim, até o dia de ontem. Sua vida adulta inteira imaginou como seria o reencontro com a primeira mulher pela qual foi apaixonado, se é que a veria de novo algum dia. Para seu azar, guardou involuntariamente uma doce lembrança daquela garota diferente. Quase vinte anos se passaram, nos quais nenhuma outra mulher foi capaz de substituir Mary em afeição, pois ninguém conseguiu tirá-la do pedestal em que Vince a colocou. Exceto ela mesma.

Pensando no dia em que a viu no orfanato e o nervosismo o fez estrunchar ao aparatar quase que imediatamente, Vince riu. Um riso de deboche contra sua pessoa que foi ouvido por alguns alunos, que o olharam como se o professor fosse louco. Louco, ele diria que não. Mas idiota? Com certeza. Em sua mocidade era um verdadeiro libertino, apesar dos estudos serem a prioridade. Tinha seu charme e sabia usá-lo, sendo muito querido pelas estudantes da época. Várias foram as suas conquistas e ele nunca quis se prender a nenhuma. A aversão a namoro não era para ficar com quantas garotas quisesse, ele só prezava demais o fato de fazer o que lhe desse vontade quando bem entendesse. Liberdade era seu maior desejo na vida, amor não.

Como se não bastasse, sua família possuía um pensamento abominável. Tentaram passar seus valores para Vince, sem sucesso. Eles tinham preconceito contra pobres, pessoas sem influência e, claro, qualquer um que não tivesse o sangue puro. Portanto, como se não bastasse o medo de se apaixonar que ia totalmente contra seu estilo de vida, o jovem Vince Adams também temeu a reação dos parentes. Uma trouxa jamais seria aceita de braços abertos na família, e ele com certeza seria deserdado se sequer começasse a namorá-la.

Então teve uma excelente noite com ela em uma festa que mal participou, já que ficaram conversando por horas a fio no lado de fora da casa. Houve um beijo no final, Vince nunca mais voltou àquele lugar enquanto ela ainda era solteira. Simon, que era melhor amigo de Vince na época e também vizinho das duas mulheres que moravam na última casa da rua, tentava encorajá-lo a se aproximar. Notando as novas sensações que gradativamente cresciam dentro de si, Vince negou veementemente ao se descobrir apaixonado.

A última coisa que faria seria ficar perto dela, só precisava de tempo para voltar ao normal. As circunstâncias os colocaram como inadequados um para o outro, pois haviam muitas barreiras. Havia a família dele, a aversão a relacionamentos por parte do estudante, a possível rejeição dela ao saber que Vince era um bruxo… Guardou a noite na memória e fingiu que o ocorrido foi só um sonho sem importância. Para o bem de todos, era melhor ser assim.

Qual não foi sua surpresa ao receber a notícia que ela ia se casar com um bruxo… Se houve uma parte boa em tudo isso, é que faltavam dias para o ano letivo acabar. O exemplar Vince Adams, monitor-chefe e aluno querido por seus colegas e professores, concluiu seu sétimo ano em Hogwarts e tomou uma atitude importante. Decidiu viajar para bem longe e pediu a Simon que não lhe revelasse a data do evento. Para Simon, um atestado de covardia. Para Vince, a única coisa a se fazer capaz de preservá-lo um pouco.

Percebeu que era tarde demais, então aceitou as consequências de seus atos imaturos e foi embora, forçando-se a não tentar corrigir seus erros.

Viajou pelo mundo, especializou-se no combate a arte das trevas e sempre mandava um cartão postal a Minerva, sua professora favorita. Com Simon a correspondência foi ficando cada vez mais rara. Vince só voltou para a Inglaterra com o convite de lecionar em Hogwarts, mas agora não sabia se fez bem em aceitá-lo.

Se fechasse os olhos ainda poderia visualizar aquela noite, o jeito matreiro dela de sorrir e de falar, como se soubesse o grande segredo de alguém e não o achasse grande coisa. Ela era tão maravilhosamente esquisita que foi impossível decifrá-la. Não foi pela pouca quantidade de tempo que passaram juntos, tampouco por ser trouxa, ele tinha certeza que não. Havia algo de fascinante e encantador em Mary, mas Vince não queria mais ver isso. Tentava se convencer que não sabia nada a respeito dela, que criou uma fantasia tão perfeita justamente para não conseguir se apaixonar por mais ninguém e enfrentar o que com certeza viria. Brigas entre o casal, ciúmes, dependência, desavenças com a família, casamento, filhos… Naquela época o futuro a dois parecia assustador, quis se convencer que por isso criou Mary. E tudo isso para quê? A mulher não fazia a mais remota ideia de quem ele era, e Vince deveria ter a esquecido também.

O homem que andava irritado pelos corredores até sua sala ainda achava que a mulher responsável por deixar sua cabeça uma verdadeira bagunça era uma trouxa, apesar de não entender o que exatamente ela estaria fazendo em Hogwarts. Olhava os alunos ali com desconfiança, buscando os traços delicados que tanto contrastavam com a personalidade forte de Mary. O cabelo até os ombros era loiro e cacheado, lhe dando um ar angelical. Porém, esse efeito era anulado pelo sorriso sardônico e olhos verdes em eterno desafio. Aquelas tão preciosas esmeraldas em seu rosto duvidavam que qualquer ser, fosse quem fosse, descobrisse o que a mulher estava pensando.

Vince se deu conta de que não importava o quanto buscasse, só havia uma Mary. E que agora definitivamente a perdeu. Justamente por esse motivo entrou transtornado na sala de aula. Se não tivesse sido tão estúpido no passado, poderia ter filhos com aquela idade. Mas nenhum dos grifinórios ou sonserinos naquela sala o tinha mais do que como professor, e em nada adiantaria torcer por um passado diferente. Não importava o que fizesse, sua realidade era essa.

Então tentando não descontar a frustração nos estudantes que nada tinham a ver com seus problemas pessoais, ele esperou que tomassem seus lugares. Com o atraso, sonserinos cederam momentaneamente seus lugares a grifinórios para que assim cada qual pudesse aproveitar mais alguns minutos com um companheiro de casa. Foi o mais próximo que as duas casas chegaram de se entender, e ainda assim foi feito com os alunos pensando em benefício próprio. Em um canto, Hermione ria de algo que Harry disse, enquanto o garoto se levantava, devolvendo o lugar de Blásio Zabini. Quando o grifinório se sentou ao lado de Pansy Parkinson e Hermione ainda tentava se conter, o professor chegou ao seu limite. Pensando nele mesmo quando tinha a idade dos alunos, Vince se revoltou contra os jovens.

— Oh, como é maravilhosa a vida de adolescente! Fazem coisas completamente estúpidas, estragam o futuro e a paciência de todos das mais variadas maneiras e fazem o quê? Isso mesmo, senhores... Eles riem! Aproveitem a doce vida de irresponsabilidade que levam, aproveitem também uma prova surpresa. — Diante da revolta imediata dos alunos, ele bateu em sua mesa em uma perfeita demonstração de descontrole. — Silêncio!

E houve, de fato, silêncio. Sepulcral, acompanhado de olhos arregalados. "Mas que droga, assustei uma sala inteira", ele pensou. O senhor Adams estava em conflito consigo mesmo. Não era autoritário com os alunos, não se sentia superior a eles e sempre os tratou com respeito. A personalidade de Vince não era agressiva assim, mas gente puta é gente puta. O conflito se justificava por ele estar mexido, confuso e terrivelmente abalado pelo reaparecimento de Mary. Essa foi só mais uma prova do quão afetado com cada mínima coisa estava ficando desde que a viu.

Observou a classe inteira, e involuntariamente pousou os olhos nos de Hermione. Notou uma semelhança entre a grifinória e a mulher que reapareceu em sua vida, pois a sagacidade no olhar era muito parecida. Apesar do assombro no rosto da morena, Vince quase podia ouvir as engrenagens da cabeça dela funcionando para entender o que droga estava acontecendo ali. Se ela descobrisse, o senhor Adams gostaria muito que lhe contasse.

— Me desculpe. — Primeiro disse baixinho para ela, ainda a encarando. Pigarreando, reassumiu o controle perdido. — Me perdoem, não estou em um bom dia. Sei que não é certo descontar nos outros, esqueçam a prova. Aonde paramos na matéria?

Uma mão tímida como a dona foi erguida. Tirando a mão da têmpora, Vince viu que Hermione pedia permissão para falar. Permissão cedida, pergunta respondida e conteúdo do livro copiado. O único som ali era o da respiração daquelas pessoas e o da pena arranhando o pergaminho.

Normalmente, Vince ministrava suas aulas com maestria, dominando o assunto e interagindo com os jovens, despertando-lhes o interesse. Não era esse o caso naquele dia. A distração não passou despercebida, tampouco uma ou outra informação equivocada sobre a matéria. Os alunos levantavam as mãos e o corrigiam timidamente, o deixando mais confuso. Enquanto alguns alunos saíram da sala cochichando com um colega que o pobre professor foi atingido pelo feitiço Confundus, dois grifinórios estavam no lado de fora.

— Tem certeza? — Ron perguntou aos sussurros. — Ele está visivelmente alterado, pode não ser seguro para você. Não diga que descobriu que ele é um lobisomem ou algo assim, Mione.

— Céus, Ron! Claro que não.

— Tudo bem. Mas eu vou ficar aqui fora para te dar cobertura, se necessário. Bela hora para o Harry sumir, aliás.

— Agradeço o apoio. — Hermione tentou não rir ao responder e entrar novamente na sala. O professor estava de costas, com as duas mãos cobrindo o rosto. Ela pigarreou, para chamar sua atenção.

— Oi... Precisa de alguma coisa, Granger?

— Não, professor. Na verdade vim ver se está tudo bem. Quero dizer, é evidente que não está. Desculpe a intromissão, mas talvez conversar ajude.

— Eu pareço tão desesperado ao ponto de precisar desabafar com um bando de adolescentes que não sabem nem se comportar?

— "Há pessoas que esquecem de como é ter dezesseis anos quando completam dezessete". — Ela citou, por mais que Vince nunca tenha ouvido aquela passagem antes. — Não disse para procurar um aluno, professor. O senhor é uma boa pessoa, deve ter amigos.

— Certo…

— Não tenho a intenção de me intrometer ou fazê-lo se sentir desconfortável. Só quero que saiba que o consideramos um bom professor, e sem dúvidas uma boa pessoa.

— Quem vê um professor em sala não imagina que ele tenha uma vida também. Que tem angústias, problemas, que também se entedia… Sei por que eu também costumava ser assim quando jovem. Ninguém nos vê além da sala de aula, é como se fôssemos só isso aqui. — Ele fez um gesto amplo com as mãos, indicando a sala.

— O senhor tem razão, em partes. Estamos tão preocupados com nossos problemas terríveis e irremediáveis que não é um hábito enxergar a dor dos outros, ou perguntar se as coisas estão realmente bem. Mas pense no dia de hoje com um outro ponto de vista… Uma aluna, ao menos, está vendo o cargo de professor com mais humanidade.

— Fico feliz por isso. Algum último conselho a dar antes de nos atrasar para a próxima aula? — O bom humor finalmente estava voltando.

— Oh, claro… Não se esforce tanto para resolver o que for que está o afligindo assim. Respire e pense com calma antes. Às vezes as coisas simplesmente não dependem de nós.

Quando Hermione já estava quase na porta, Vince perguntou algo que a fez se virar.

— Você fala com a sabedoria dos poetas bêbados, Granger. Já teve seu coração partido?

— Todos os dias, senhor. — Com um sorriso triste, respondeu e foi embora.

Ron esperou que Hermione saísse da sala e teve o cuidado de não perguntar nada a ela imediatamente. Foram juntos para a aula seguinte, aos poucos a relação da morena e do ruivo voltando ao que costumava ser antes do namoro. Trocaram informações sobre a matéria e ao chegar na sala, se separaram.

Após o almoço, os integrantes do Trio de Ouro conversavam no salão comunal da Grifinória e Ron se sentiu julgado por Hermione quando esta lhe perguntou a respeito de um dever que ele não tinha feito.

— Acabei de lembrar que preciso arrumar algumas coisas no dormitório. — Ele disse com toda a dignidade que conseguiu reunir. — Você deveria seguir o meu exemplo, Harry. Temos que facilitar a vida dos elfos domésticos o máximo possível, sabe? Estou até pensando em aprender a cozinhar.

— Oh… Jura, Ronald? — Hermione tentou não rir muito abertamente.

— Merlin, como eu sou preguiçoso! Snape tinha razão, a fama me subiu à cabeça. — Harry fingiu lamentar-se muito.

— Se me dão licença… — Ron se levantou, aproveitando a desculpa inventada. Já os amigos fingiram não saber o motivo da fuga.

— Esteja à vontade. — A morena respondeu. Quando ele já estava longe, se dirigiu ao amigo restante. — Aposta quanto que é mais de uma matéria pendente?

— Para duas pessoas apostarem, elas precisam ter opiniões diferentes, Mione. Não é dessa vez que você vai conseguir alguns galeões com tanta facilidade.

— Não faltarão oportunidades, gentil senhor.

Após alguns instantes de silêncio, Harry perguntou algo que o estava incomodando desde aquela manhã.

— Ele estava estranho, não? O professor Adams.

— Talvez seja o memorial se aproximando. Não sabemos se mesmo não estando aqui na época, ele perdeu alguém importante. Observe bem as pessoas, a maioria parece à beira de um ataque de nervos. Felizmente já será neste final de semana.

— E não teremos aula na sexta-feira, isso é ótimo. — Diante do olhar reprovador de Hermione, ele tentou justificar sua alegria por ter um dia sem aulas. — Já que assim estaremos descansados, relaxados para o memorial e as aulas de segunda-feira.

— Sei… — Ela disse em um tom que evidenciava a dúvida quanto às boas intenções do moreno.

O dia passou rápido, e no entardecer Hermione estava ao ar livre. Ali, sozinha no jardim e fazendo um livro flutuar enquanto ela o lia deitada, se esqueceu do resto do mundo. A realidade puxou a pequena com suas impiedosas garras quando uma garoa incômoda começou a cair, obrigando-a a buscar abrigo no castelo.

Ainda faltava algum tempo para o jantar quando Hermione entrou no Salão Principal, buscando rapidamente algum rosto conhecido. Max estava na mesa da Lufa-Lufa falando com uma loira que estava de costas para ela, mas que provavelmente era Luna. O cabelo claro que descia em suaves ondas até a cintura só poderia ser dela, apesar de Hermione não conseguir ver seu rosto. Em compensação, conhecia perfeitamente a expressão do lufano.

Max tinha um rosto comum, sua beleza não era extraordinária. Assim como a maioria das pessoas, aliás. Ele mesmo achava que seu charme era mais importante do que a aparência, se interessava mais pela essência até quando dizia respeito aos outros. Desde seu quinto ano, se encantou pelo jeito de Luna. Ela era tão diferente das demais pessoas, e de uma maneira só dela, não tinha medo de ser julgada por isso. Luna parecia ser a perfeita definição de liberdade para aquele lufano sonhador de dois anos atrás.

Ainda hoje, o jovem Maximilian não era capaz de ser indiferente àquela garota tão forte e cheia de vida. Ele estava sozinho em um canto da mesa parecendo triste quando ela chegou, o saudando. Luna não quis que o novo amigo ficasse tão taciturno, então se aproximou e puxou conversa. Max sorriu tímido quando a loira perguntou se ele gostava de pudim, sobremesa preferida de ambos.

— Sim, eu gosto. — Ele disse com os olhos castanhos praticamente brilhando.

O rosto do lufano — que não era excepcionalmente belo, como a maioria dos rostos não era — se iluminou com um sorriso direcionado àquela incomum estudante. Hermione parou no meio do Salão Principal ao presenciar a cena, pois conhecia um sorriso apaixonado. Quantas vezes já não tinha visto a mesma expressão em Harry quando ele olhava para Gina? Sorrindo de maneira terna, e também um pouco triste por não ter isso com o garoto pela qual era apaixonada, a grifinória pensou que o amor podia ser belo às vezes.

O lufano estava como que hipnotizado por Luna, mas Hermione ficou tanto tempo parada no mesmo lugar que foi pega por ele enquanto olhava para os dois. A expressão de Max se alterou ao ser pego no flagra, e a grifinória sentiu-se mal por se intrometer em um momento íntimo dos amigos. Não sabia se Luna retribuía os sentimentos que estavam estampados no rosto de Max, mas ainda assim não queria que ele soubesse que viu tudo. Ele vacilou um pouco, mas deu um sorriso tímido em direção a ela e meneou a cabeça em sinal de reconhecimento antes que a garota fosse para a mesa da Grifinória.

Hermione viu os amigos de casa mais adiante, todavia, preferiu continuar o que estava fazendo ao ar livre. Ali ela continuou sua leitura de A Menina Que Roubava Livros. Lia o livro pela terceira vez, mas ainda se surpreendia com a qualidade daquela obra. Rapidamente mergulhou nas páginas, saboreando as palavras.

“(...) Depois que a guerra acabou e Hitler se entregou em meus braços, Alex Steiner retomou o trabalho em sua alfaiataria. Não ganhava dinheiro com ela, mas se mantinha ocupado por algumas horas, todos os dias, e Liesel frequentemente o acompanhava. Os dois passavam muitos dias juntos, amiúde andando até Dachau, depois que o campo foi liberado, apenas para serem repelidos pelos americanos.

Por fim, em outubro de 1945, um homem de olhos alagadiços, plumas de cabelo e rosto escanhoado entrou na loja. Aproximou-se do balcão.

— Há alguém aqui com o nome de Liesel Meminger?

— Sim, ela está lá nos fundos — disse Alex. Ficou esperançoso, mas queria ter certeza. — Posso perguntar quem a está procurando?

Liesel saiu.

Os dois se abraçaram e choraram e desabaram no chão.”

Alguém sentou ao seu lado fazendo barulho, redirecionando sua atenção. Hermione estava preparada para repreender o infrator ao menos com um olhar severo, quando notou que mais uma vez sua leitura foi interrompida pelo garoto da casa amarela.

— Hermione! — Max lhe ofereceu um sorriso. — Desculpe interromper, não era a intenção. Pode voltar para o seu livro, eu juro que ficarei quieto.

A grifinória marcou a página que estava e fechou seu exemplar.

— Você está bem, Max?

— Sim… — Seu olhar vago dizia o contrário.

— Onde está a Luna? Ela está com o hábito de sumir dos lugares de repente, há tempos não conversamos de verdade.

— Pediu licença e saiu.

— É o jeito dela, não fique magoado.

— Por que eu ficaria?

— Sinceramente? Porque é óbvio que gosta dela. Espero que dê certo, vocês parecem combinar.

— O quê? Somos só amigos.

— Max…

— Hermione…

— Eu tenho uns vinte livros favoritos, no mínimo. Mas essa preciosidade aqui... — Ela mostrou a capa a ele. — tem um lugar especial no meu coração. Ele é o meu favorito entre os favoritos…

— Um título interessante. Livro trouxa, não?

— Sim. E sabe uma das muitas citações que eu amo nessa belezura? — Diante da negativa de Max, ela continuou em um tom professoral. — “Com um sorriso desses, você não precisa de olhos”. Esses sorrisos são raros, Max, mas eu o vi enquanto você olhava para a Luna.

— Nós estávamos falando sobre o memorial, estive pensando no meu discurso. Você está parecendo a bruxa da minha tia, enxergando coisas que não existem.

— Oh, se refere ao jeito que o Harry olha para a Gina? Vi isso hoje em outro rosto, sabe?

Vendo que não adiantava negar, ele desistiu da tentativa.

— Tudo bem, sua sabichona… Gosto dela há um bom tempo. Nunca fiz nada a respeito e não vai ser agora que vou fazer. Acho. Droga, eu realmente não sei!

— Eu poderia te dizer mil coisas, Max, e em algum momento direi. Por ora, vou terminar esse livro maravilhoso para poder te emprestar ainda hoje. Nada do que eu diga sobre o amor, vida, dúvidas ou o que for, chegará aos pés dessas palavras. Que elas te sacudam, Maximilian…

O garoto não entendeu aquela última frase, mas permaneceu em silêncio enquanto Hermione terminava a leitura. Quando ela acabou e lhe olhou seriamente, com os olhos ligeiramente marejados, disse somente um “cuide bem dele” e foi para fora do castelo.

Temeroso, Max leu cuidadosamente o início.

“Primeiro, as cores.

Depois, os humanos.

Em geral, é assim que vejo as coisas.

Ou, pelo menos, é o que tento.

* EIS UM PEQUENO FATO *

Você vai morrer.

(...)”

O lufano riu de nervoso diante daquilo. “Sim, esse livro promete. Não deve ser por acaso que é o livro preferido de Hermione”, ele pensou.

E Max não foi a única pessoa a pensar na morena naquele momento. Harry estava a alguns metros de distância do lugar em que Max sentava agora e viu quando a amiga entrou no castelo e foi para a mesa da Grifinória ler, não sem antes encarar o lufano com Luna por algum tempo. Pensando no bem-estar de Hermione, o menino que sobreviveu a seguiu com a intenção de ter uma conversa franca com ela.

Harry sorriu ao encontrá-la mais uma vez sob as estrelas. Sentou-se e não precisaram conversar trivialidades para o garoto perguntar logo o que queria saber. Esse é uma das principais vantagens e prazeres da verdadeira amizade.

— Então... Max e Luna, hein?

Hermione o olhou abismada, mas tentou disfarçar. Afinal, aquele segredo era de Max, não dela. O lufano que deveria decidir quem poderia saber.

— O quê?

— Não precisa fazer isso, Mione. Eu vi o jeito como olhou para o Max quando ele estava com a Luna. Seu olhar o denunciou.

— Você está se saindo um excelente Sherlock, gentil senhor. — Ela sorriu. — Eu vejo aquele olhar de adoração quando você está com a Gina. Até mesmo quando falamos dela, então acho que sei reconhecer pessoas apaixonadas.

— E eu sei reconhecer você. Mas não se preocupe, eu não direi ao nosso novo amigo que sabemos. O que acha disso?

— Acho excelente duas pessoas tão bacanas se darem bem. Nossos amigos são incríveis.

— Eu sei de quem você gosta, mas quem sabe com o aparecimento do Max...

— Eu deixaria de gostar daquele cretino? Não. Não é tão simples.

— Eu pensei que fosse você a se envolver com o lufano.

— O que posso dizer? O Max é ótimo, mas… Você sabe.

— Não é o Montecchio. — Harry completou, Hermione assentiu.

— Seria muito mais fácil se desse para desligar sentimentos, mas não estou disposta a mexer com magia das trevas. Não sei, algo como O Coração Peludo do Mago não me parece ser a melhor opção.

— Um conto assustador, como sempre. — Ele riu. — Então não te incomoda que o Max e a Luna fiquem juntos, caso isso aconteça?

— Não. Em um mundo onde o Romeu falsificado não existisse, talvez o Max tivesse alguma chance... A verdade é que não, infelizmente ninguém tem a mais remota chance contra aquele insolente. Uma grosseria sem tamanho por parte dele, é claro. — Surpreendentemente, a grifinória abandonou o tom de lamento que sempre a acompanhava quando falava do que sentia por Draco Malfoy, e sorriu. Harry se pegou pensando em algo que já o atormentava há algum tempo.

— Mione… Por que não fala com ele? Malfoy tem o direito de saber.

— Direito? Só pode estar de brincadeira!

— Não estou. Pelo menos tente se dar bem com ele, como amiga. Eu sei que parece loucura, mas e se ele sentir o mesmo? Se você pode, então ele também.

— Não pode. — Ela foi categórica.

— Por que não?

— Por um motivo muito simples, somos nós. Porque é ele, porque sou eu.

— Ah, então vamos envolver Montaigne na conversa? “Porque era ele, porque era eu” é algo tragicamente lindo de se ouvir, mas não deve ser citado em vão. Até quando vai reprimir os sentimentos que nutre por ele?

— Você está louco, Harry? Eu não nutro nada, eles são auto suficientes e se alimentam sozinhos.

— Ao menos admite.

Ficaram um bom tempo em silêncio, até a garota o quebrar.

— Acredita mesmo que ele goste?

— Só ele sabe a resposta, Capuleto. Entretanto, acredito que seja possível. Imagine só, um gostando do outro sem fazer ideia que é correspondido. Seria uma ironia ao estilo de Alanis Morissette. Não é o máximo?

— Não, não é. Você tem noção de que é a única pessoa que sabe por um motivo? Esse assunto é doloroso para mim, droga. Sabe o que é isso? Guardar um segredo e escondê-lo tão bem até de quem mais se ama, ao ponto de a única pessoa a saber, ser por acidente? É tão evidente que ter esperanças é errado, que eu até me envergonho de já ter tido.

— Ah, eu discordo tanto!

— Harry, responda com sinceridade. — Ela tinha uma grande necessidade de esclarecer as coisas. Seu rosto só não era todo seriedade por também estar curiosa. — Quer que ele goste de mim?

O garoto deu um sorriso apaziguador e pegou uma das mãos dela.

— Percebo pelo seu jeito inconformado de me olhar quando toco no assunto que você espera uma repreensão por gostar dele. Estou errado?

— Não.

— Ela nunca chegará, lide com isso. Quem sou eu para dizer que você não deve ficar com alguém?

— Meu melhor amigo.

— Isso não me dá o direito.

— Então o contrário deveria ser válido, você não deveria tentar me convencer a ficar com ele.

— Sou seu melhor amigo. — Dessa vez respondeu com um sorriso, enquanto olhava para Hermione, que sorria também.

— Sim, quando lhe convém.

— O tempo todo. Não deixo de ser o que sou para você dependendo da situação em que estamos.

— Eu sei. O que estou dizendo é que se não considera que tem o direito de me dizer com quem devo ou não ficar, não faz sentido que insista para eu ter um relacionamento no mínimo civilizado com a Doninha.

— Pare de usar lógica comigo. — Ele se queixou. — No entanto, meu argumento é o seguinte: eu gosto de você, portanto me importo com a sua felicidade. Eu não sei qual escolha vai te fazer feliz, o máximo que eu posso fazer é imaginar. Se eu estivesse no seu lugar, como se sentiria?

— Realmente mal.

— Sim, imagine como é ficar realmente mal e se sentir com as mãos atadas. Esse sentimento de impotência é terrível. Se você puder superar seus sentimentos por ele, seria ótimo. Se aceitar e ficarem juntos no final, é bom também. Eu sei é que o estado em que está agora definitivamente não te faz bem, e acho que só percebo o mínimo. O que estou tentando fazer é te ajudar a sair daí. Para onde vamos, eu não sei. Vamos por que não está mais sozinha nessa. Não precisa carregar o peso do mundo só, pois eu também sou forte e te ajudo. Então não é necessariamente que eu queira que ele goste de você, o que quero é a sua felicidade. Se for com ele, eu também ficarei feliz. Pode gostar dele, eu deixo.

— Você é o cretino mais fofo que existe.

— Obrigado, eu acho.

— Mas…

— Sem “mas”. — Ele a cortou. — Não tem nada de errado, e espero que uma hora você entenda isso.

— Lembra quando saiu no Profeta Diário que eu e ele estávamos namorando? Ninguém gostou. Eu não aceito, tampouco os outros.

— Eu não ouvi isso! Está com medo do que vão dizer? Eles que se…

— Harry! — Ela o repreendeu, ele revirou os olhos. — Mas não são só eles. Imagine o que nossos amigos diriam.

— Ron já me perguntou sobre o Montecchio. — Por mais que o grifinório tivesse revelado isso a Hermione com toda a naturalidade, ela ficou pasma ao saber.

— O quê? Quando? O que disse a ele?

— Hey, calma. Vou explicar. Desde o dia do Bicho-Papão eu tenho te provocado sempre, então um dia Ron perguntou o que estava acontecendo. Em vez de responder, eu fiz perguntas a ele.

— E então?

— Eu disse que só estava implicando contigo, que os detalhes só você poderia dar. Sabe, depois da guerra ele não está mais tão egoísta. Talvez assim como eu, Ron respeite seu direito de estragar a própria vida como bem entender. Acho que ele não se oporia caso você aparecesse namorando.

— Não seria qualquer namorado.

— Tem razão, não seria qualquer um. Seria o cara que você gosta. Quer algo melhor? — Perante o silêncio de Hermione ao olhar para o céu, Harry enfim confirmou sua teoria. — Foi o que pensei. Desde que me acostumei a ideia, percebi o quanto vocês são compatíveis. Adoraria vê-los juntos.

— Então toda aquela conversa de que queria a minha felicidade…

— É verdade também. — O garoto se justificou. — Assim como é verdade que de todas as pessoas, é com ele que eu torço para que você fique. E não só pelo que sente por ele, que fique claro. Mas principalmente por isso. Então case-se com ele e torne-se uma Montecchio, Capuleto.

— Sonhe.

— Vou sonhar, mas lembre-se de uma coisa. Quando você acorda por dentro, passa a viver de verdade. — O grifinório se levantou, oferecendo a mão para a amiga. A expressão de Hermione deixava claro que ela estava intrigada, mas a garota aceitou a ajuda mesmo assim. — Vou sonhar enquanto a senhorita se alimenta, pois não pense que não notei sua falta de apetite ultimamente.

— Por Merlin, Harry… Pare de ser chato.

— Benefício de irmão mais velho.

— Hey, a mais velha sou eu!

Eles entraram no castelo e se sentaram nos lugares reservados por Ron e Gina. Hermione sorriu, e notando os olhares de Harry, comeu. Se sentiu feliz por estar com seus companheiros de casa, apesar da distração a impedir de aproveitar devidamente o presente.

Sim, agora estava claro que Harry realmente torcia para Hermione se declarar para Draco e o sonserino a corresponder. Ela jamais esperou compreensão, tampouco encorajamento no que dizia respeito ao assunto, mas admitia que a sensação era boa. Enquanto seu rosto descansava na mão espalmada e o cotovelo estava na mesa, ela sonhava acordada. Pensamentos mais acolhedores do que de costume a faziam considerar o que Harry lhe disse.

Naquela noite em que pelo menos uma pessoa acordou por dentro, o céu estava particularmente bonito. O que poucas pessoas sabiam, por enquanto, é que Hermione Granger seguia apaixonada por dois Dracos: Malfoy e a constelação. O emaranhado de estrelas descansava plácido no céu, mas o estudante conversava com alguns sonserinos ao seu redor. Em determinado momento Draco olhou diretamente para ela e lhe ofereceu um sorriso discreto. Hermione sonhou com aquele sorriso sem maldade aquela noite, também com olhos em um tom incrivelmente cinza.

Os problemas do dia a dia, os assuntos da aula ou mesmo qualquer coisa que seus amigos estivessem discutindo bem ao seu lado, nada mais importava. Uma dúvida, somente uma consideração existia. Uma palavra, várias possibilidades.

Será...?

Notas finais
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