Yellow - Dramione

15 Memorial - Parte I


Notas iniciais
Olá, bbs. O capítulo ficou muito grande, portanto, será dividido em dois. Espero que gostem, boa leitura a todos!

In Memoriam. Do latim, "em memória" ou "em lembrança". Expressão comum para homenagear alguém, costuma estar presente em obituários, epitáfios, citações e placas comemorativas. Aquilo não era uma comemoração.

Naturalmente ficaram felizes com o desfecho da guerra, mas o preço a pagar seria alto. "Seria", futuro do pretérito, e não "foi". O pretérito era perfeito, mas o passado não. Teriam que viver a vida inteira com a lembrança do terror, mas principalmente sentindo falta dos que se foram.

Ron Weasley era um exemplo disso e comia taciturno na mesa da Grifinória. O horário do café da manhã naquele dia foi adiantado para dar tempo de deixar a escola preparada para o evento que aconteceria dali a algumas horas. No jantar de primeiro de setembro, dia que marcava o início de seu último ano escolar ali, houve uma singela homenagem àqueles que participaram da guerra, inclusive aos que não sobreviveram. Todos foram avisados que haveria um memorial mais adequado em breve, e enfim esse dia chegou.

Ron riu sem humor após tomar um gole de seu suco de abóbora, pois pensou que não haveria lugar melhor no mundo para aquilo do que em Hogwarts. Voldemort começou a aprimorar seus conhecimentos sobre magia na escola quando ainda era Tom Riddle, foi ali a Batalha Final e o lugar de sua morte. E foi naquele mesmo Salão Principal em que estava agora que o grifinório viu o corpo morto de Fred. Assim como Sirius Black, seu irmão morreu sorrindo. Dois marotos de gerações diferentes deixaram a vida do mesmo jeito que passaram por ela: com um sorriso no rosto. Morreram lutando pelo que acreditavam e para que o mundo fosse de paz para quem amavam. Sirius... Era inevitável, uma morte trazia uma nova a memória, uma perda mais lastimável do que a outra. Realmente não havia lugar melhor para uma homenagem, tudo voltou ao começo.

Levando em consideração o que estava gravado no pomo-de-ouro que foi o último presente de Dumbledore para Harry, a teoria de Ron estava certa. “Abro no fecho”, era a inscrição. Foi no colégio que Voldemort começou a aperfeiçoar sua magia das trevas e foi na Batalha de Hogwarts que a guerra encontrou seu fim, havia uma certa ironia nisso. Seus amigos falavam baixinho enquanto Ron ainda comia sem prestar atenção nas conversas da mesa, mas a maioria dos estudantes já havia acabado a refeição e se retirado.

Naquele dia o castelo estava com uma aura diferente. Tinha algo de solene do ar, as pessoas estavam se comportando de maneira distinta também. Até o clima parecia querer contribuir para que aquilo não parecesse um funeral. Depois de tantas mortes, um funeral era a última coisa que alguém ali queria. No primeiro dia do final de semana e considerando o tempo agradável de vinte e sete graus, os alunos não estavam onde estariam normalmente. Nada de Quadribol, piquenique perto do Lago Negro, mergulhos e nem mesmo descontração. Os que não estavam comendo interagiam entre si em várias partes da propriedade, mas a grande maioria estava em seus respectivos dormitórios. Quem estava fora do quarto tentava conversar com os alunos de outras casas. Parecia ter sido combinado, mas não foi. Talvez tenha sido uma espécie de efeito dominó, uma simples cadeia de fatos. Se alguém ousar dizer que esse tipo de coisa é simples, é claro.

Mas no geral, essa era a atmosfera naquele dia: solene sem ser lúgubre, porém importante e triste. Saudosa. Naquele sábado a saudade reinou no castelo e nos corações de todos ali. Em sua coroa havia pedras de cores e nomes diferentes. Perda. Culpa. Amor. Vazio. Nomes e naturezas diferentes sim, mas ela conseguia reunir tudo aquilo. Era isso o mais visível na coroa da Saudade, mas o que deixava aquelas coisas tão distintas juntas era o metal que era majoritário. O metal representava a Morte. O cetro dessa majestade tinha uma pedra escura chamada Arrependimento.

Diante da realidade que consiste em estar no presente e saber o que aconteceu, pensar no passado e em uma forma de mudá-lo chega a ser uma reação natural. E ao imaginarmos a menor possibilidade de mudar tudo, mas sabendo que não foi assim que aconteceu, é muito difícil não vir a culpa. Nesses casos ter responsabilidade pelo ocorrido é irrelevante. Pois não importa se somos culpados direta ou indiretamente por sentir saudade, pensar no que poderia ter sido e até procurar na memória um momento que poderia alterar as coisas é quase inevitável. “Será que se eu tivesse me despedido devidamente me sentiria melhor?”. “Se eu não fosse uma criança tão teimosa será que mamãe ficaria em casa ao invés de vir aqui me proteger?”. “Ele morreu na minha frente. O que eu poderia ter feito para impedir?”. “Eu queria ter dito que o amo e pedido desculpas”. Esses eram só alguns dos pensamentos de quem estava ali.

O memorial só se iniciaria ao meio-dia, mas os convidados começaram a chegar por volta das nove e vinte da manhã para ajudar no que fosse preciso. Enquanto os preparativos eram finalizados com tanta solidariedade, Hogwarts recebia de novo velhos alunos. Assim mesmo os muros da amada escola de magia e bruxaria foram reconstruídos anteriormente, com essa solidariedade. No fim da Batalha de Hogwarts a escola estava praticamente destruída, então uma espécie de mutirão se formou para reconstruí-la. A maioria esmagadora das pessoas que ajudaram na reconstrução estudou no colégio e tinha muito carinho pelo lugar. A comunidade bruxa estava mais do que reunida, eles estavam unidos. Esse foi um fator determinante para a guerra ter acabado em dois de maio e os estudantes voltarem para lá em primeiro de setembro do mesmo ano. Para o memorial a comunidade bruxa se uniu do mesmo modo.

George Weasley estava nos limites da Floresta Proibida com sua irmã Gina e o namorado dela, Harry — ou como o próprio George brincou naquela manhã, o senhor Fibra Moral. Kingsley Shacklebolt, o novo Ministro da Magia conversava compenetrado com McGonagall nos jardins, e não muito longe dali o restante da família Weasley estava reunida.

Os pais de Draco foram convidados e conversavam com ele, afastados de todos. Um senhor com vestes trouxas olhava um tanto assustado para Hagrid, que estava em sua frente falando sobre seu novo bichinho de estimação com todo o carinho do mundo. O homem estava com o pescoço dolorido por precisar olhar para cima por muito tempo e não viu alguém quase de seu tamanho chegar. Quem observasse a cena, na hora acharia graça da expressão do senhor Creevey ao ver Denis chegar. O garoto os cumprimentou e ficou ao lado do professor de Trato das Criaturas Mágicas, ambos em frente ao senhor Creevey, tornando a diferença de suas alturas mais óbvia. Apesar de tudo, tentou ser o mais cortês possível com aquelas pessoas que cuidavam de seus filhos a maior parte do ano e com aquele senhor alto e barbudo que falava sobre dragões do norte.

Colin, seu filho mais velho, morreu aos dezesseis anos. O senhor Creevey ficou viúvo quando os meninos ainda eram pequenos e não se casou de novo. Depois da morte de sua esposa, ele se concentrou em trabalhar e criar os filhos com todo o amor que sua amada Dorothy costumava tratá-los, e passando seus valores adiante. Foi mãe e pai deles, e por uma infelicidade seu primogênito morreu também. Colin era a alegria da casa, sempre muito feliz e proativo enquanto Denis era mais acanhado, mas ainda assim gentil. Eram a razão de seu viver, e por mais que nunca fosse superar essa perda, a ideia de que o filho agora estava junto a Dorothy era consoladora.

Assim como o senhor Creevey, alguns poucos trouxas estavam ali, mesmo antes do horário. Normalmente se algum trouxa passar em frente a Hogwarts, não terá a mesma visão que um bruxo. Quem não tinha poderes veria um lugar em ruínas nada convidativo. Em contrapartida, se acompanhado por um bruxo que se responsabilize por ele, a pessoa comum poderia ver tudo.

Os bruxos responsáveis por buscar algumas famílias trouxas fizeram uma visita antecipada a eles, levando os convites para o evento e explicando a situação. Esses familiares preferiram chegar antes para matar a saudade dos estudantes que passavam a maior parte do ano no colégio. Além do senhor Creevey haviam outros trouxas ali. Até a senhora Palmer já estava no castelo, McGonagall fez questão de buscá-la pessoalmente na noite anterior. A nova professora de Estudo dos Trouxas havia se despedido das crianças do orfanato e trazido seus pertences a Hogwarts, embora nem mesmo seu afilhado soubesse disso.

Valerie e David Granger falavam com Andromeda Tonks enquanto Hermione segurava o pequeno Ted no colo e se deliciava com as mudanças de cor do cabelo do menino. Distraídas como estavam, elas só notaram que o pequeno foi o único homem do grupo quando o senhor Granger voltou.

— Papai, onde esteve? — Hermione perguntou, abraçada a Ted.

— Só estava interagindo com as pessoas. — Olhou para os Malfoy que estavam sozinhos em um canto afastado e sorriu ao acenar. Para espanto da garota, os três fizeram um pequeno meneio de cabeça em resposta. Um cumprimento discreto, mas perceptível. — Agora sei de onde veio a educação da sua constelação favorita, princesa.

— Por que fez isso? — Ela perguntou, preocupada. — Os Malfoy odeiam pessoas sem magia, papai. Se eles fizeram uma coisa que seja ao senhor eu vou lá e não será nada agradável, não me importo que dia é hoje.

— Querida, espere. — Valerie a segurou delicadamente. — Deixe seu pai terminar de falar, sim? Essa não é a cara de quem foi destratado.

— Valerie tem razão. Eles te elogiaram e pediram para serem apresentados à minha linda esposa.

— Nem se estivessem sob o efeito de Confundus diriam uma coisa dessas. Mamãe é linda, mas existe uma diferença entre ser educado e agir de maneira totalmente diferente do que de costume.

— A parte do linda é por minha conta, meu bem. Mas eles realmente te elogiaram, sabe? — David estava se divertindo. — Não se preocupe, gostei do seu amigo e quis falar com ele. Os pais dele, ao que parece, não mordem.

— Claro… — O tom da garota evidenciava que ela não achava aquilo.

Enquanto os elfos serviam os familiares e sobreviventes, as horas iam passando até que tudo estivesse pronto. Então McGonagall apontou a varinha para a própria garganta e murmurou o feitiço que queria. Quando falou para todos ali, sua voz foi magicamente amplificada.

— A cerimônia começará em instantes. Por favor, venham comigo.

E assim todos foram para o lado de dentro do castelo. As quatro mesas foram retiradas do Salão Principal, mas acima de suas cabeças o céu era o mesmo. Havia inúmeras cadeiras organizadas ali, como se fosse um casamento trouxa. Pelo corredor central passaram todos, e eles sentaram juntos. Não havia cor ou qualquer coisa os separando. Verdes poderiam sentar-se ao lado de um azul, amarelo ou vermelho sem problemas. Alunos e familiares que não interagiam normalmente estavam juntos, assim como funcionários de todos os escalões estavam misturados aos estudantes.

O próprio Ministro da Magia não estava em um lugar privilegiado. A única distinção ali era que as pessoas que discursariam estavam na primeira fileira, mas ainda assim por uma questão de praticidade. Talvez pela primeira vez na vida, mas eram só pessoas ali, sem rótulos. Não importava a posição social ou econômica, o cargo que ocupavam ou a casa de Hogwarts que pertenciam ou pertenceram. A morte tem mesmo dessas coisas, como aproximar os vivos.

Quem sabe se não é por que em um momento de dor, por vezes abaixarmos as máscaras e armas ao quebrar as barreiras normalmente impostas pelos outros ou por nós mesmos. O fato é que todos se acomodaram e um silêncio pesado caiu no local, mas como boa parte do que cai, ele foi quebrado. Com sua voz na altura costumeira, Minerva McGonagall subiu no palco construído especialmente para a ocasião, sendo amparada por Argus Filch. Depois de uma breve avaliação das pessoas a sua frente, ela enfim tomou a palavra.

— No dia de hoje, nos reunimos aqui para homenagear os heróis que lutaram bravamente pelo bem e deram suas vidas por esse ideal que foi conquistado com tanta dificuldade. Só posso classificar como heroísmo se sacrificar pela paz, mesmo sem poder desfrutá-la. Haveria gesto mais abnegado? Demos tudo de nós para conquistarmos nosso objetivo, e conseguimos alcançá-lo. As famílias ficaram incompletas, quando não totalmente destruídas. Foram amigos, filhos, colegas, pais, irmãos que lutaram até as últimas forças. Imaginem alguém que nunca viu na vida se juntado a você para ajudá-lo a derrotar uma força maligna e acabar morrendo por isso. — Ela olhou para uma garota da Lufa-Lufa que se encolhia atrás de Harry, e em seguida direcionou o olhar ao aluno. — Pois essa é só uma das milhares de situações que aconteceram não só no dia dois de maio, mas ao longo de todos esses anos desde que esse horror começou. Essa cerimônia se trata não só de homenagear aqueles que morreram, mas também lembrar daqueles que sobreviveram a tudo isso e as famílias incompletas. Nosso tão amado castelo se abre mais uma vez para acolher seus filhos queridos, pessoas que passaram por aqui e sempre serão bem-vindas. No fim, somos apenas pessoas tentando se consolar e seguir em frente. Hogwarts sempre estará aqui para quem a buscar, e sei bem que isso é recíproco. Vocês assumiram a responsabilidade de ajudar em um momento absolutamente cruel e desumano, graças a isso estamos aqui. Então para celebrar a união de todos e a reconstrução desse castelo que em algum momento nos serviu como lar, quatro jovens foram escolhidos para representar suas respectivas casas. Maximilian Owens, em nome da Lufa-Lufa, será o primeiro.

Hesitante e visivelmente nervoso, Max subiu no tablado e observou brevemente os presentes. Pigarreou, como que para reunir coragem, e pôs-se a falar.

— Hey, olá. Como foi anunciado, sou representante da Lufa-Lufa. Prefiro ser chamado de Max, e primeiro gostaria de dizer algo a respeito da casa dos texugos. Durante anos tivemos a pior reputação, éramos a casa da qual ninguém queria fazer parte. Em meio a valentia, estratégia ou capacidade de se auto preservar, a lealdade não parece grande coisa, não é mesmo? Normalmente a gentileza é subestimada. Entretanto nós, lufanos, costumamos acolher a todos sem antes olhar a cor de suas gravatas. Sabem o por que disso? Simplesmente por não ser importante. Acho que se tem uma lição que podemos tirar de toda essa desgraça, é que somos um só. E como um, os alunos sem prestígio ficaram sem hesitações para defender o colégio e todas as pessoas boas que estavam nele. Dois de maio foi o dia em que meu pai morreu na minha frente, mas sei que antes disso outros pais foram assassinados por não aceitarem entrar para o círculo interno de Voldemort, os Comensais da Morte. — Nesse instante Dino Thomas se mexeu desconfortável em sua cadeira, pois em 1980 seu pai foi morto por causa disso. Toda a família deixou de ter milhares de experiências por causa da loucura de outras pessoas. Max continuou a falar, nem parecia mais o mesmo garoto tímido de sempre. O lufano contou sua triste história aos desconhecidos, apenas os poupando de um detalhe ou outro. Falou de quando Guido chegou ao colégio, da própria recusa de sair dali junto com o pai, que foi perseguido, ficou preso embaixo de uma desmoronamento que esmagou parte de sua perna... Levantou a barra da calça nessa parte, chocando a todos. Disse que durante o tempo em que estava preso sob o entulho, assistiu a morte do pai enquanto se encaravam… Precisou de um momento para se recuperar nessa parte, e o usou para olhar novamente os presentes. Ao narrar a morte de seu pai em detalhes e a falta de esperança que sentiu, ninguém tirava os olhos dele. Estavam como que hipnotizados pela dor que jorrava de Max, seja através das palavras do rapaz, seu tom amargurado ou o modo como ele não conseguia ficar quieto, andando de um lado para o outro. — A última coisa que ele disse foi meu nome, assim como a última coisa que meu pai viu na vida foi o único filho quase morto. Aliás, ainda hoje não tenho certeza se ele sabia que eu estava vivo, já que de qualquer forma eu devia mesmo parecer um cadáver. Seja como for, meu último parente foi arrancado de mim como se isso não fosse nada. A única pessoa que tenho agora é minha madrinha, que eu chamo de tia desde que me lembro. Ela é um aborto, de uma das famílias bruxas mais tradicionais. Sabe, fico me perguntando… Se aquele desgraçado tivesse levado a melhor e vencesse, será que julgaria digna de viver uma sangue-puro sem magia ou mataria a última pessoa que me restou nesse mundo? — Levantou a mão como se votasse e fez uma última pergunta. — Mais alguém aqui vota na segunda opção? Por que se tudo o que aconteceu não foi o bastante para convencê-los de que esses rótulos e distinções são passam da mais ridícula forma de nos sentirmos superiores aos outros, há algo muito errado com vocês. A essência humana foi esquecida devido aos estereótipos, e eu não consigo expressar o quão errado isso está. Espero de coração que possamos entender que todos somos um só, e também o significado de igualdade. Do contrário, os loucos continuarão a surgir e essa guerra só será mais uma entre tantas. Obrigado pelo tempo de vocês, sejam bonzinhos.

Ele desceu do palco sem olhar para ninguém e se sentou onde estava anteriormente. Hermione estava a algumas cadeiras dele, e mal acreditou nas coisas que acabara de ouvir. O garoto que sempre tentava a animar, superando a própria timidez e contando histórias, se aproximando para uma conversa despretensiosa que fosse, tinha uma trajetória marcada pela dor e pela perda. Ao contrário do que a grifinória queria, Max não olhou em sua direção. Continuou de cabeça baixa até McGonagall chamar o discursante seguinte.

Notas finais
A continuação será postada em breve. Bjos!