Yellow - Dramione

16 Memorial - Parte II


Notas iniciais
Olá, bbs. Espero que gostem da continuação. Boa leitura! ♥

Por ironia do destino ou não, o próximo aluno a ser chamado foi Draco Malfoy. Ele foi para o lugar em que Max estava há apenas alguns segundos e demorou um pouco para tomar a palavra. Havia certa dificuldade por parte do garoto em admitir seus erros na frente de tantas pessoas, falar em nome de uma casa inteira e fazer isso com a sinceridade necessária. A verdade por vezes é dolorosa, e era exatamente o caso naquela ocasião.

Era uma tarefa árdua para o garoto transformar em palavras tanto sofrimento, rancor, tantos sentimentos reprimidos, mas ele queria fazê-la do melhor jeito que pudesse. Palavras não iriam restituir a alegria a todos que de alguma forma o sonserino ajudou a causar dor, mas seu arrependimento era sincero. Medir o arrependimento com a certeza que não podia agir diferente e com todo um emaranhado de sentimentos envolvidos era extremamente complicado por si só, e para completar Draco já era complexo demais.

O mais novo dos Malfoy era uma incógnita, nem ele mesmo entendia os próprios sentimentos. Draco era o garoto sem escolhas, e quando percebeu que estava errado já não havia mais volta. Ele só queria ser livre, mas agora sentia culpa por ter esse desejo e achava que não tinha esse direito. Não só pelos erros cometidos no passado, mas também por ser a única esperança da família Malfoy se redimir. Havia o peso de muita responsabilidade sobre seus ombros, assim como sempre houve.

Ele entendia que poderia ser difícil para alguém se colocar em seu lugar e entender tantas nuances de sua vida, tudo o que ao longo dos anos ajudou a forjar sua personalidade, mas sentia que ninguém tentou entendê-lo de fato. Julgá-lo era mais fácil, e de toda forma, Draco era mesmo culpado por outras coisas. Não pronto para admitir seus erros e pedir perdão, mas disposto a isso, o loiro começou a falar com sua voz arrastada.

— Meu nome é Draco Malfoy e eu sou da Sonserina. Isso sempre foi motivo de orgulho para mim, e não posso dizer que hoje seja diferente. Atualmente minha admiração por essa casa é causada por motivos mais nobres. Não é raro o desejo em se proteger ser visto simplesmente como egoísmo, mas eu gostaria que vissem que há certa honra em tentar se proteger, assim como fazemos. Não temos o anseio de nos pôr em risco, pois vivos ainda podemos fazer alguma coisa, cuidar dos nossos. Somos conhecidos por sermos reservados, não mostramos nossa verdadeira essência a qualquer um. Temos mais a oferecer do que se pode notar em um rápido olhar. Nem todos somos maus, e ser da Sonserina não te faz automaticamente ser uma pessoa ruim. Só nos preservamos, colocando-nos em primeiro lugar e reagindo a isso de uma forma diferente dos demais, principalmente dos grifinórios. Mesmo falando em nome de tantos, tenho que admitir o quanto é difícil subir aqui e admitir que falhei. Como sabem, me tornei um Comensal da Morte. Muitos podem pensar que o caminho foi meu, que a escolha foi minha e até achar que eu pensei em me salvar, e de fato houve um real propósito meu. Mentiria se dissesse que não era interesse próprio, mas quem nessa guerra lutou por interesses que não foram seus também? Eu apenas segui à risca ordens que permitiriam não só a mim viver, como também as poucas pessoas por quem nutri um sentimento. Minha mãe morreria se eu não cumprisse as ordens que foram a mim designadas, e eu não saberia lidar com isso. Eu vejo vocês aqui chorando, lamentando por todos e pelos seus entes queridos... E pode parecer mais uma vez egoísmo, quem sabe seja mesmo, mas o alívio por não lamentar a morte dos meus pais é maior que a culpa nesse instante. Me chamem de covarde, mesquinho ou insensível, eu não me importo. Me arrependo pelas coisas que fiz, mas dificilmente faria diferente. Não se tivesse que sofrer a vida toda pela perda dos meus pais sabendo que poderia ter impedido. Guerra nenhuma poderia competir com esse sentimento. Então sim, eu prefiro ter a consciência atormentada todos os dias por ter errado, mas com eles bem. Eu tentei sair de toda essa sujeira, mas não teve como. Tentei salvar o máximo de pessoas que pude, mas não era tão simples. — Engolindo em seco, olhou rapidamente para Hermione. — Então peço que aceitem meus pedidos de desculpas em nome de todos que assim como eu, estiveram de mãos atadas. E mesmo que não pareça, eu os defendi também. Apesar de ter um grande apreço pela minha casa, não só cuidei para que os meus estivessem seguros, mas fiz tudo o que pude para evitar que mais inocentes se ferissem, especialmente no dia do grande ataque final. Diferente de muitos, eu não quero ser o herói. Só quero ter a oportunidade de dizer que saí vivo, livrei quem pude e principalmente, continuo sobrevivendo. Não é essa marca horrível que diz quem sou. Talvez nem minhas atitudes, mas sim minhas escolhas a partir de hoje. E eu escolhi recomeçar aqui. Isso é tudo.

Draco saiu de cima do palco, indo até sua cadeira sem ousar olhar para alguém. Se o fizesse, tinha certeza que perceberiam o que se passava com ele. Sua dor era imensa, e pela primeira vez deixou que vissem isso. O garoto se sentia nu em frente a tantas pessoas que o encaravam com olhar julgador enquanto ele expunha sua alma e dizia verdades que não contou sequer ao melhor amigo. Se sentindo extremamente miserável e ainda de cabeça baixa, ele ouviu a voz agradável de Luna.

— Quando a diretora McGonagall chamou a nós quatro para representarmos nossas casas, ela disse que fomos escolhidos por sermos especiais. Pessoalmente acho que todos os alunos são, mas entendo o que ela quis dizer. Você é especial, Draco, e eu não acho que as pessoas da Sonserina sejam ruins. Recentemente novos fatos serviram para confirmar algo que eu já sabia, pois sempre discordei daquela famosa frase que diz assim: "Nem todos da Sonserina são maus, mas todos os maus são da Sonserina". Se me permitem dizer, há maldade em todo lugar, mas peço para terem esperança, pois o bem também é bastante popular. — Alguns risos foram ouvidos, enquanto a garota ia para o lado oposto ao que estava. — Ah, meu nome é Luna, fui escolhida como representante da Corvinal. Muitas pessoas não gostaram disso por eu ser diferente, mas quem não é? Não há nada de errado nisso. O mesmo vale para a guerra também, não acham? Não que Voldemort fosse escutar e ser uma boa pessoa, mas isso não é motivo para nos calarmos. O diferente é bom, a diversidade tem que ser respeitada. Como diz uma amiga, "Qualquer tipo de preconceito é errado". Não nos falta somente entender as pessoas, mas aceitá-las também. Independente da situação econômica, cor da pele, sexualidade, jeito do cabelo, sobrenome, da família ser trouxa ou bruxa… Somos todos humanos, sofremos, nos divertimos, nos apaixonamos. Então não há motivo para ser cruel com alguém, e eu acredito que as coisas melhorarão para todos. Às vezes as coisas tem que piorar para ficarem bem de novo. Elas ainda podem dar certo depois de dar errado. Eu acredito que sairemos de tudo isso mais fortes e unidos, e que sempre tem uma boa coisa para acontecer. As coisas que perdemos sempre acabam chegando até nós, embora nem sempre da maneira que esperamos.

Luna desceu dali assim que terminou de falar, um salto gracioso a levando ao chão. Suas palavras foram como um bálsamo, uma dose de esperança àquelas pessoas atormentadas pela dor da perda, acalmando-as e as fazendo ousar esperar algo de belo do futuro. Ela também conseguiu levar um pouco de esperança a Draco, que há tempos desconhecia o que era isso. O garoto se sentiu mais leve ao pensar que talvez não fosse tão incompreendido assim.

Palavras poderiam parecer pouca coisa, mas achar isso era um engano. Elas tinham o poder de ferir e de curar, melhorando consideravelmente o dia de alguém, quando não uma vida inteira. Quando o representante dos leões foi até a plataforma, encontrar o que dizer depois do discurso de Luna não foi uma tarefa fácil.

— Boa tarde a todos. Me chamo Neville Longbottom e sou representante da Grifinória. É difícil achar palavras quando tantas coisas já foram ditas, de toda forma é muito difícil achar palavras e ponto. Confesso que ainda estou tentando absorver o que meus colegas disseram, são muitas coisas para assimilar. Sinto muito pela dor de todos os feridos. Sei que sou jovem e que ainda aprenderei milhares de coisas com o tempo, mas mesmo com minha pouca idade posso dizer que notei algumas coisas. A vida não espera que estejamos prontos, as coisas só acontecem e é isso. Vidas foram tiradas nas nossas frentes. É trágico, é claro. Sei bem que a dor de quem perdeu alguém é gigante e que há destinos piores do que a morte. Quando perdemos alguém nunca mais esquecemos, não é? Sendo da família ou não. Mesmo assim, a vida continua. E aqui estamos. Tenho certeza que eles estariam muito orgulhosos hoje. Pessoas morrem todos os dias. Amigos, familiares, não importa… Os perdemos, mas eles estão conosco. Aqui dentro. — Colocou a mão no peito. — Não tem um dia em que eu não lembre com carinho e saudade de Fred, Remo, Tonks, Colin, Dobby, Lilá, Sirius, Dumbledore, Snape, Moody, os membros da Ordem da Fênix, entre tantos outros. Eles não morreram em vão, meus amigos… O coração de todos eles batiam por nós e essa história ainda não acabou! Seus nomes estarão marcados na história, mas antes de tudo, no coração de quem assim como eu, será eternamente grato pela coragem e bondade incontestável de todos eles. Muito obrigado. Assim como o mal, o amor realmente deixa marcas. Traz consigo toda uma variedade de sensações que não acaba quando o fim daqueles que amamos chega. Hoje choramos pelos mortos na guerra, uma guerra que lutamos para combater os ideais deturpados de quem acreditava em uma pureza de sangue e almejava o poder acima de qualquer outra coisa. Lutamos bravamente contra o preconceito e vencemos, ao menos desta vez. Mas mesmo morto, Voldemort e seus seguidores terão conseguido o que queriam se não tivermos aprendido com o que houve. Como bem disse o Max, somos um. Como ressaltou o Malfoy, nossas escolhas a partir de hoje dirão quem somos, então se preciso vamos recomeçar. Com esperança no futuro, como aconselhou a Luna. O que eu tenho a acrescentar ao que meus colegas disseram? Que juntem tudo isso para construirmos um futuro mais belo... Que esse futuro pode começar hoje, com a promessa de aprender com nossos erros, corrigindo-os desde já. Somos capazes de fazer coisas extraordinárias, e isso não tem nada a ver com magia. Não entendo que realidade é essa em que temos que defender o óbvio… Ainda assim, repetirei enquanto tiver voz: que o amor sempre consiga vencer o ódio! Afinal, amar é a melhor coisa que fazemos. Obrigado a todos.

Com isso Neville foi para o lugar em que estava sentado anteriormente. Estava ao lado de Luna, que ao segurar sua mão e sorrir para ele, mostrou que estava tudo bem. McGonagall foi novamente até o palanque, agradecendo aos alunos e anunciando que quem quisesse, poderia dizer algumas palavras. Enquanto as pessoas se entreolhavam, considerando se fariam aquilo ou não, Amos Diggory se levantou e foi até lá. Ele subiu no tablado e quando começou a falar, sua voz saiu embargada.

— Meu garoto. Ele era o meu garoto. Sou solidário à dor de vocês e seria mesmo se não tivesse o perdido. Cedrico era um menino de ouro, e não digo isso só por ser seu pai. Naturalmente, passei todo o tempo que pude com ele. Não pensando em aproveitar enquanto podia, mas por que o amava. Eu o amo e jamais deixarei de amar, essa é a verdade. Ele é filho único, mas caso não fosse, sinto aqui dentro que se houvessem mais dez eu o amaria do mesmo jeito. — Botou a mão no peito esquerdo e seu olhar caiu em Molly Weasley, que secava o rosto com um lenço enquanto assentia. Então continuou a falar com um sorriso mínimo. — Acho que sou compreendido nesse ponto, afinal. Mas me perdoem se eu disse que o perdi, é claro que não foi isso. Meu filho foi arrancado de mim! — O senhor Diggory já chorava copiosamente nessa parte, assim como a maioria das pessoas que haviam decidido parar de fingir que não queriam fazer aquilo. Eram só seres humanos, no fim das contas. — O arrancaram de mim e do mundo como conhecemos por estar no lugar errado na hora errada. Por ser bom demais... Foi assassinado como se fosse um animal ou algo substituível. Desculpem, eu não consigo me conformar. Ele era forte, generoso, inteligente, leal. — O rosto banhado em lágrimas fazia par com o tom saudoso do senhor Diggory. — Quando tinha cinco anos ganhou sua primeira vassoura e planou tão alegre pelo quintal... Então foi crescendo e se tornando cada vez mais meu orgulho, sempre foi a minha felicidade. Meu filho não viveu o suficiente para ter a oportunidade de dar a vida por uma causa nobre e pelo bem das pessoas, como tenho certeza que faria se necessário. Vocês podem lembrar dele como o apanhador e capitão do time da Lufa-Lufa, monitor, um dos campeões de Hogwarts no Torneio Tribruxo ou simplesmente como um rapaz equilibrado e gentil, mas eu... — Sua voz falhou mais uma vez, mas Amos continuou altivo e com a cabeça erguida. — Se o preço por lembrar de cada pequena coisa que houve for esse sofrimento lento e doloroso, é um preço que eu não titubearei em pagar. Pois me lembro a primeira vez em que o segurei nos meus braços. E os dedinhos tão miúdos que se agarraram aos meus, hoje parecem querer me dizer: "Papai, estou aqui. Fique comigo". E eu ficarei, filho. Eu estou.

O som de choro daqueles que ouviam emocionados o relato do senhor Diggory deu lugar a palmas ressoando por todo o salão. No fim, esse tipo de reunião talvez não fosse para os mortos, e sim para os vivos conseguirem viver suas vidas e seguir em frente. Aguentar a dor não era uma tarefa fácil, nunca seria. Mais ainda quando essa dor é a da perda, quando a cabeça tenta fazer o coração entender que jamais conviveremos novamente com aquela pessoa que tanto amamos, não importa o que façamos.

Quando o assunto é a morte, o amor é capaz de destruir qualquer um. O amor sempre foi considerado algo bom, porém quando esse mesmo sentimento belo e sublime é interrompido de uma forma tão cruel, o sofrimento é inevitável. Não é algo que alguém mereça, mesmo o pior inimigo. Sofrer por amor, até mesmo pela falta dele, é algo terrível. As pessoas ali sabiam, mas isso não ajudava em nada a aliviar a dor de seus corações. Como bem lembrou um estudante de Hogwarts, "Esse é o problema da dor, ela precisa ser sentida...". E foi. Como foi…

Esse estudante era outra pessoa que entendia bastante de dor e perda, e substituiu o senhor Diggory no tablado. Harry Potter teve sua parcela de sofrimento na vida, mas tentava não focar muito nisso. Uma tarefa extremamente difícil naquele sábado, então resolveu falar sobre sua dor para os outros.

— Podemos dizer que fechamos ciclos aqui, não é? Um filho que perdeu o pai, um pai que perdeu o filho… Eu não sei bem nem como enumerar o que perdi. Primeiro meus pais, mas também meu padrinho, amigos tão queridos e centenas de outras pessoas que não tenho nem como expressar a falta que fazem. Sempre haverá uma parte faltando em mim, mas tudo bem ser incompleto. Acho que no fundo todo mundo é. Talvez compartilhar isso torne as coisas mais normais e mais facilmente suportadas, quem sabe… Tanta gente boa morreu, e eu daria a vida por cada uma delas. Gostaria de agradecer de coração a quem sempre esteve do meu lado, me dando apoio ou somente torcendo por mim. O último inimigo a ser derrotado é a morte, e foi o que enfrentamos. Saindo vivos ou não. Nós falamos das pessoas que lutaram ao nosso lado nessa guerra, e elas tem uma importância fundamental para tudo o que houve. Graças a elas, podemos andar despreocupados pela rua, sem medo de ser caçados como bichos. Todavia, eu gostaria de salientar a importância de todos, inclusive das criaturas mágicas. Gostaria que o diferente não fosse esquecido, na melhor das hipóteses. Não se esqueçam que os elfos domésticos entraram na luta por vontade própria... — O grifinório frisou bem as palavras. — Foram liderados por Monstro, um elfo querido que pertenceu a família Black. E também gostaria de falar sobre outro amigo... Dobby, o elfo doméstico. — Deu uma risada saudosa, para contrastar com os olhos marejados. — Ainda lembro de um natal em que uma outra amiga minha, uma estudante de Hogwarts, quis ficar no castelo para dar tempo de tricotar roupas suficientes para libertar todos os elfos daqui. Nenhum queria limpar o salão comunal da Grifinória por causa dela. E então Dobby... — Apontou para a amiga quando atribuiu a responsabilidade da bagunça de seu salão comunal no que parecia ter acontecido há tanto tempo, mas quando chegou na parte de Dobby... Simplesmente não pôde continuar. Sua voz embargou e ele teve que fechar os olhos e se virar por um instante em busca de autocontrole, pois nessa hora Hermione colocou as mãos no rosto já úmido e o escondeu no tórax de David, que a amparou como pôde. O corpo frágil da mulher tão decidida sofria espasmos causados pelos soluços, esses um efeito do choro. Se até ela estava assim, como Harry poderia suportar? Como qualquer um com alma poderia não se compadecer pelo sofrimento de pessoas ou criaturas e em vez disso causar o mal? Mas então percebeu que Voldemort não tinha alma desde que ainda era Tom Riddle. Não precisou fazer as Horcruxes para perder a alma, essência da humanidade que todos deveriam ter. Mas por que os outros o apoiaram? Harry já viu mal e bem o suficiente para saber que ambos eram reais, mas nem sempre as motivações das pessoas que os escolhiam ficavam claras. Ao se virar de novo para as pessoas que o observavam, o grifinório percebeu que Hermione não foi a única pessoa a esboçar reação ao seu discurso. Draco Malfoy estava na primeira fileira, por isso foi perceptível a todos quando o loiro se levantou e lançou um olhar irritado a Harry. O moreno viu também que os olhos tempestuosos de Draco tentavam esconder alguma mágoa, falhando miseravelmente. O grifinório deu continuidade a lembrança que guardava com tanto carinho. — Eu sinto muito... E isso não é um pedido de desculpas. Como eu ia dizendo, Dobby era o único que limpava o salão comunal da Grifinória por um tempo, e eu não fazia ideia da saudade que teria de ver aquele corpo pequeno e esguio coberto de roupas. Juro, era uma confusão. Ele vestia várias meias ao mesmo tempo, uns chapeuzinhos de tricô engraçados, casaquinhos... Outra vez ele tentou me manter a salvo fazendo com que Ron e eu perdêssemos o Expresso de Hogwarts. Mais uma vez, quase fomos expulsos. Eu pedi a ele que me prometesse uma coisa, que nunca tentaria me salvar de novo. Ele fez o oposto. Dobby nos libertou de onde estávamos sequestrados, onde sem dúvida morreríamos. Tentou ferir gravemente uma bruxa que o mataria sem hesitar mesmo se não fosse provocada, e fez isso para defender a todos nós. Ele não morreu na Batalha de Hogwarts, mas sacrificou sua vida para salvar as pessoas que a venceriam. E não foi o único a nos salvar naquele dia. Graças a Draco Malfoy, que mentiu dizendo que não nos reconheceu, ganhamos o tempo necessário para escapar. — Infelizmente, Draco saiu tão rápido dali que a possibilidade de ter ouvido as palavras de Harry era muito pequena. Mas não importava, se as pessoas parassem de enxergá-lo como um monstro já seria suficiente. — Quanto a Dobby... Ele não tinha senhores, era um elfo livre. Ele não precisava fazer tudo o que fez, mas agiu assim por que quis. Não foi por eu ser seu dono, nunca fui. Tampouco por que o Eleito seria o único capaz de acabar definitivamente com Voldemort. Ele fez por amor, o mesmo amor que me faria agir igual para defender Ron, Mione e tantos outros. Ele morreu por minha causa, nos meus braços, e meu nome foi a última coisa que disse. — Harry fechou os olhos e fez a última pausa antes de sair do palco. — Dobby está feliz em estar com seu amigo... Harry Potter.

Dobby era uma lembrança de doçura e inocência, assim como Edwiges. Assim como ela, pereceu, mas seu sacrifício não foi em vão. O simpático elfo doméstico foi e sempre seria muito amado, sendo o pensamento feliz até de quem não recebeu sua carta de Hogwarts no aniversário de onze anos. Lágrimas foram derramadas por ele, assim como sorrisos ainda se formariam no rosto de quem dele se lembrasse com carinho.

E por falar em saudade, uma das maiores foi exposta em seguida. Um rapaz ruivo, que agora ninguém mais chamaria por outro nome que não o seu, foi até o palco.

— Boa tarde a todos. Para quem não tive o prazer de pregar uma peça, permita que eu me apresente. Sou George Weasley, agora um bruxo normal sem gêmeo. Éramos inseparáveis, talvez por isso seja tão difícil… Pessoalmente, não gosto de me explicar. — Olhou para Minerva e para Filch, sorriu para esse último. — Anos de logros, brincadeiras e detenções, sabem? Porém Fred merece mais do que palavras, e é só isso que posso oferecer a ele agora. A vocês, na verdade. Ele não virou um fantasma, ainda bem, então… — Pigarreou, retomando o controle. — Fomos todos chamados aqui para discutirmos algumas coisas. A pauta natural é a recente guerra e todas as suas consequências, e assim será por um bom tempo. É algo para ser frisado continuamente para que não cometamos os erros de quem veio antes. Prevenção é uma palavra interessante também, se me permitem opinar. Por mais horror que isso traga, é uma atitude necessária. Entendo perfeitamente que seja traumático, pois fomos nós que lutamos pessoalmente essa guerra. Seja do lado que for, lutamos por aquilo em que acreditamos. Não sou hipócrita de achar que tudo está bem, até por isso é preciso prevenção. Naquele dia vi uma garotinha se matar, provavelmente por perder alguém. Se estava só no mundo, eu não sei. Ela deveria ser terceiranista, no máximo. A morte de tantas pessoas me desnorteou a tal ponto que eu só entendi o que ela estava fazendo quando já era tarde demais. Famílias foram dizimadas, muitos pais perderam seus filhos. Bebês inocentes e jovens de mais idade ficaram órfãos. Perdemos irmãos, amigos, amores...Vocês melhor do que ninguém sabem quem perderam. Mas continuamos aqui. Então quero deixar claro que não é que vamos simplesmente esquecer essas pessoas que estão em nossos corações e fingir que elas nunca existiram, agora que morreram… Mas temos que seguir com nossas vidas até que os pedaços se juntem de alguma forma. Você pode nunca mais ficar inteiro depois do que houve, mas isso não te impede de ser feliz. Não há nada de errado nisso. Tenho certeza que era o desejo de Fred, ele prezava muito a felicidade e viveu intensamente o tempo que teve. Sei que ele iria querer que eu ficasse bem, mas essa não é uma coisa que possamos controlar. Não posso evitar sentir sua falta, assim como não posso dizer para meu coração parar de bater. O que posso fazer é tentar ficar bem por ele, por mim e pela minha família. Sei que precisam de mim. O que também me faz pensar outra coisa… Seria esse um evento para celebrar a morte, a vida ou a lembrança? Somos pessoas tentando superar a morte de outras pessoas. Quando entendermos o que "nunca mais" significa, talvez possamos aceitar de fato a morte. O que eu sei é que a morte deles não foi em vão, assim como a vida também não foi. Levantem suas varinhas para todos aqueles que fizeram o que gostaríamos de ter feito por eles, pois essas pessoas deram suas vidas pela paz e por quem amavam. Eu gostaria de ter feito isso pelo meu irmão. Entretanto, meu amor me faz considerar uma coisa. Se eu morresse, ele sofreria. Não pude morrer por você, Fred, mas minha maior prova de amor daqui para frente será viver por você. Por nós, meu irmão. Vou tentar fazer isso bem, afinal eu ainda sou o mais bonito. Não é um adeus… Prefiro encarar como um "de todas as peças que você nos pregou, essa foi a pior de todas. Você me paga por isso, cabeça de fósforos número quatro".

Não havia uma pessoa que não tivesse se emocionado, assim como não havia um rosto que não estivesse banhado em lágrimas. George desceu do palco em um pulo, indo abraçar a senhora Weasley, que chorava copiosamente. De todos os ruivos, ele foi o mais afetado. Fred era metade de seu ser, não só por eles dois sempre estaremos juntos, até dividindo espaço na barriga de sua mãe. Também não era por terem a mesma aparência.

O conceito de "amor da vida" geralmente é atribuído ao par romântico. Nos livros, acompanhamos as aventuras da mocinha que conhece um rapaz, geralmente o oposto dela e do que a pobre garota sonhou para a própria vida, se revelando como o amor da vida dela. Se imaginarmos uma outra heroína para a nossa história, podemos tomar a liberdade de mudar algumas coisas. Em uma versão alternativa colocaríamos o amor verdadeiro como a amizade, não como o romântico. Há quem diga que o maior amor do mundo é o materno. Pessoalmente, eu discordo. O amor de verdade é o amor sentido, e não existe o maior ou mais poderoso, pois amar já é poder. É poder ver beleza no caos, ter um sorriso no rosto em momentos de dificuldade, se sentir grato pela existência de outra pessoa… E por mais que existam várias formas de amor, uma coisa era inegável. George amava seu gêmeo e isso nunca mudaria, não importa o quanto estivesse sofrendo.

George amou Fred com toda a sua alma antes e depois de sua morte, aquela seria uma ferida sempre aberta. No entanto, o gêmeo com as duas orelhas seria sempre lembrado com alegria. A mesma alegria que ele espalhou por onde passou, contagiando até quem não queria ser contagiado.

E enquanto as varinhas eram erguidas, a família Weasley se abraçava e Hermione saía dali aos prantos, não houve quem não lamentou o que aconteceu ao longo dos anos. Não só a guerra, por mais que aquele fosse um ponto inegavelmente importante. Cada julgamento equivocado causou vergonha àquele que o teve, cada demonstração de preconceito, seja por palavras, atos ou pensamentos, reavaliados.

Em meio ao choro, as pessoas enfim puderam ver que não deveria ser necessária uma grande guerra para se verem como realmente eram: humanos. Falhos, mesquinhos, ridículos… Mas ainda assim humanos, e como tal, capazes de empatia e redenção. E como pessoas, deveriam se ver como iguais, porém respeitando as diferenças. As pessoas ali tiveram segundas, terceiras e quartas chances de continuar vivendo. Outras só tiveram uma e se agarraram como puderam a ela. Que fizessem o melhor, dessa vez, e tivessem como objetivo a felicidade sem ferir o outro. Era o que mereciam depois de tanta dor.

Notas finais
O que acharam? Comentários são sempre bem-vindos. Bjos e até o próximo capítulo!