Yellow - Dramione

13 Could It Be Another Change


Notas iniciais
Olá, bbs. Link de outra one nas notas finais. Beijo pra vcs!

Desde o dia anterior quando foi visitar Suzan no hospital, Minerva McGonagall pensava em quem poderia substituir a professora de agora em diante. Não era qualquer bruxo que possuía a qualificação e o caráter para lecionar a matéria Estudo dos Trouxas a jovens com a personalidade ainda em formação, ela sabia. Teria que achar um substituto adequado em tempo recorde, mas agora tinha um compromisso. No horário marcado, Lucius e Narcisa Malfoy irromperam em sua sala através da lareira, como combinado. Agora só faltava a tia de Maximilian chegar para darem início a reunião.

Rosemary Lore Palmer, outrora Bloom, era tia de consideração de Maximilian Owens e foi convocada a Hogwarts por causa do comportamento do garoto, que em um momento de descontrole atacou um colega ao ser provocado. Ela andava decidida pela escola que sempre teve vontade conhecer, torcendo para que depois da reunião pudesse ver Max e ajudá-lo no que o garoto precisasse. A senhora Palmer era uma mulher de fibra. Com seus quarenta e quatro anos já passou por muitas coisas na vida, mas nada supera o preconceito que sofreu a vida toda por parte dos próprios parentes.

Os Bloom, família em que ela nasceu, se orgulhavam muito de sua origem mágica. Tinham ótimos contatos no ciclo dos Sagrados Vinte e Oito, as famílias com sangue mais puro entre os bruxos, conforme diziam. Eles mesmos não faziam parte do seleto grupo por causa de alguns membros da família que, contrariando os demais, se casaram com trouxas e foram banidos do convívio familiar. Esse não era o caso de Mary.

Em uma família tão tradicional, em sua maioria, o que houve pegou todos de surpresa. A pequena Mary não dava seus primeiros sinais de magia de forma alguma. Seus pais marcaram horário com diversos especialistas e ela foi submetida a dezenas de consultas até entenderem a verdade incontestável: a garotinha não tinha poderes. Isso aconteceu poucos meses antes do que em uma situação normal ela receberia sua carta de Hogwarts. Os Bloom tinham suas desconfianças, mas preferiram ignorar o óbvio, pois não era possível que uma vergonha dessa magnitude fosse acontecer justamente com eles.

Zara e Klaus a tiveram consideravelmente tarde, já que adoravam aproveitar as festas da alta sociedade das quais participavam. Desde que souberam que o tão esperado herdeiro na verdade era uma menina, tentaram sem êxito dar um irmão a ela. Eles nunca aceitaram que sua única filha era um aborto, por isso a garota foi desprezada sua vida inteira. Se antes o motivo era a frustração por ela não demonstrar seus poderes, depois passou a ser pela confirmação que Mary, de fato, não os possuía. Ela teve que aguentar essa situação até os treze anos.

Seus pais a escondiam em casa e poucas eram as pessoas que sabiam de sua existência, entre elas Donizete Owens. O senhor Owens era seu professor particular, ensinou tudo o que a garota sabia. A parte mais feliz do dia da jovem Rosemary era quando, após fazer suas lições, tinha autorização do professor para brincar com o filho dele, Guido. Certo dia a senhora Bloom os viu brincando e mandou o garoto embora, então Mary se vingou à noite. Seus pais ofereciam uma festa em que ela entrou de supetão e fez um verdadeiro escândalo, fazendo os convidados se perguntarem quem era aquela menina audaciosa.

A garota era tida como uma hóspede indesejada entre os Bloom, apesar de possuir o mesmo sobrenome. Então, como tinha que ser, se livraram dela. Eles desprezavam os trouxas por serem comuns, mas viam a própria filha como uma verdadeira aberração. Não eram raras as vezes em que fingiam na frente da garota que ela não existia. O senhor Owens ficou encarregado de achar um colégio interno trouxa para despachá-la, e não teve como ser diferente. Mary já estava acostumada ao desprezo dos pais, mas passar por isso sem seu único amigo para a consolar foi devastador.

Foi difícil para a jovem acompanhar mais do que as matérias, mas principalmente o comportamento de seus colegas. Ela não tinha poderes, é verdade, mas não sabia viver como trouxa. Teve que aprender, e aprendeu tão bem que aos quinze anos fugiu do colégio interno e passou a viver entre as pessoas que assim como ela, não tinham poderes mágicos. Foi um período em que passou fome, dormiu em abrigos quando havia vaga, foi roubada repetidamente... Até que fez uma amiga com a qual morou por muito tempo. Essa amiga era Cecilia.

Para a sorte de todos, Guido queria reencontrar a amiga de infância e tanto fez que descobriu o endereço do colégio interno. Por ela ter fugido, foi difícil localizá-la, mas ele conseguiu. Guido e Cecilia se apaixonaram quando se viram, e nada mais justo que Mary ser a madrinha de Max, fruto do amor das pessoas que tanto amava. Ela própria casou-se em seguida com um amigo de Guido. Os Bloom nunca souberam que sua única filha se casou com um bruxo respeitado, já que após se livrarem dela, fingiram que a pequena jamais existiu.

Cecilia, que era trouxa, morreu de câncer quando Max tinha oito anos. Um acidente mágico levou Bruce, marido de Mary. Já Guido morreu na Batalha de Hogwarts tentando defender o filho. Max era a única pessoa que restou a senhora Palmer, e ela não queria perdê-lo. Não teve a oportunidade de amar muitas pessoas na vida, mas preferia morrer a deixar qualquer mal alcançar o sobrinho de consideração.

Fazendo sua "cara de má", como ela mesma dizia, Mary andava decidida por Hogwarts, juntamente com a colega de trabalho chamada Claire. Por não ter os requisitos para ser considerada uma bruxa tradicional, ela não conseguia viajar pela rede de pó de flu e simplesmente aparecer na sala da senhora McGonagall. Então quando a mulher que também trabalhava no Lar de Órfãos Destiny Child a conduzia pela escola e soltava um gritinho de surpresa a cada dez segundos e dizia o que já aconteceu ali, Mary só revirava os olhos. No meio de uma careta foi que ouviu uma voz grave a chamar pelo apelido.

— Mary?

Ela olhou para a frente e viu um homem a olhar, embasbacado. O cenho franzido, a boca aberta, nada disso combinava com a beleza daquele ser que surgiu de algum lugar e agia como se a conhecesse. Mas temendo por Max, seu humor não estava dos melhores. Ela não se deu ao trabalho de notar a beleza por mais de dois segundos antes de se zangar.

— Ah, olá. Como vai, senhor Desconhecido? Eu deveria fazer um comentário estúpido sobre o clima agora ou depois?

— Espere... O quê?

— Vamos, Claire, eu quero acabar logo com isso para tentar falar com o Max. — Ela fingiu não notar mais a existência do homem e procurava a colega de trabalho. Não a encontrando, chamou novamente. — Claire, onde se meteu? Você teve anos para aproveitar essa porcaria de castelo, mas eu não faço a mínima ideia de onde é a sala da diretora.

— Mary, os caçadores do quadro se lembram de mim! — A bruxa gritou, correndo de volta para onde eles estavam. — Disseram que eu estou muito bonita, acredita nisso?

— Ótimo, agora quero matar você e meu adorável sobrinho por ter que ouvir esse tipo de coisa. E não, eu não acredito.

— Quem é ele? — Claire perguntou baixinho quando chegou perto da amiga, mas encarava o homem, fazendo-o saber que era o assunto. Ela apenas deu de ombros.

— Não lembra mesmo de mim? — Ele perguntou com um fio de esperança na voz que ia sumindo enquanto a pequena frase era dita. Os braços cruzados em frente ao corpo, o semblante sério... Tudo era sinal que ele a analisava, e era justamente o que estava fazendo.

— Eu deveria? — Mary quis saber.

— Claire Redfield, prazer. — A colega de Mary disse após o silêncio constrangedor. Estendeu a mão ao desconhecido e tentou remediar a situação. — Essa é minha amiga...

— Mary. — Ele a cortou.

— Como sabe meu apelido?

— Muito prazer, senhoras. Vince Adams, ao seu dispor. — Ele fingiu não ouvir a pergunta. — Sou professor daqui. Precisam de ajuda?

— Na verdade, sim. Minha amiga não pode usar pó de flu para se locomover, a lareira do orfanato também não foi consertada... A diretora então pediu que eu a trouxesse até aqui para falar sobre seu sobrinho.

— Claire, eu sei falar!

— Mas estava sendo rude com ele.

— Eu nunca vi esse cara na vida e ele sabe meu apelido. Isso está muito suspeito.

— Você é muito desconfiada, querida. — Claire tentou acalmá-la.

— Com licença. Eu ouvi sua amiga a chamando de Mary, senhora.

— Não, não ouviu. Ela estava muito ocupada contando suas aventuras enquanto estudava aqui. Agora se nos dá licença, temos que ir.

— Senhor Adams, se importa em levá-la até a professora... — Se corrigiu, ao lembrar o novo cargo de Minerva. — Diretora McGonagall? Tenho que voltar ao trabalho, sabe? Agora que Sheila foi despedida, tem menos pessoas para olhar as crianças. Elas são muito levadas e quanto mais atenção receberem, melhor.

— Que bela traidora é você. — Mary reclamou. — E não precisa contar sua vida inteira a ele, Claire. Sem contar que esse senhor nem deve saber quem é a insuportável da Sheila. Ou será que sabe?

— Sem problemas. — Vince ignorou as provocações. — Me acompanhe...

— Senhora Palmer, para você.

— Senhora Palmer. — Vince disse em um tom áspero. Mas com a amiga de Mary foi mais amável, o professor sabia usar seu charme. Bem, na maioria das vezes. — Foi um prazer, Claire.

— Todo meu... — A ouviram murmurar. Mary ainda se virou para lançar um olhar feio a amiga, mas ela já havia se virado e praticamente saltitava ao acenar para um canto do castelo. "O quadro com caçadores", Mary pensou. Resolveu não reclamar com o homem por ter flertado com Claire, apesar da ousadia dele. Quando ele bateu na porta da sala de Minerva e a olhou profundamente, cedendo espaço para que passasse, Mary teve uma sensação estranha ao olhar aqueles olhos azuis. Decidida a esquecer o que houve, saudou a mulher mais velha que estava ali e o casal, que descobriu ser os Malfoy.

— Senhora Palmer, obrigada por ter vindo. Sente-se. — Minerva pediu. — Serei breve, pois preciso encontrar um professor substituto de Estudo dos Trouxas com certa urgência. Chamei vocês hoje aqui por que os senhores Owens e Malfoy se envolveram em uma espécie de duelo na Ala Hospitalar que poderia ter ferido outras pessoas.

— Duelo? — Narcisa perguntou. — Nós orientamos nosso filho a não se meter em nenhum tipo de confusão, diretora.

— Senhora Malfoy, o fato é que seu filho provocou o senhor Owens por causa de uma sequela que ele ficou na Batalha Final. — Se virou para Mary. — O senhor Owens respondeu com um feitiço que deixou o colega inconsciente. Feitiço esse que poderia pegar tanto na responsável pela Ala Hospitalar, quanto nas pacientes que estavam lá na hora.

— Não acredito! Max feriu mais alguém, além do imbecil que o provocou?

— Peço que mantenha a classe, senhora. Jovens estão mais inclinados a agir por impulso, isso não quer dizer que não faremos nada para corrigir esse comportamento. — Narcisa reclamou.

— Respondendo a sua pergunta, senhora Palmer, ele não feriu. — McGonagall respondeu. — Uma professora e uma aluna estavam no recinto, mas não foram atingidas. Seu sobrinho, inclusive, socorreu a senhorita Granger. Por isso estavam lá.

— Hermione Granger? — Lucius quis saber.

— Sim, senhor Malfoy.

— Se me permite a pergunta, quem machucou a garota para ela precisar ser socorrida?

— A senhorita Granger se machucou sozinha na aula de Poções. E antes que perguntem, a professora descobriu que está grávida. Por ser uma gravidez de risco, preciso achar alguém para substituí-la. Mais alguma dúvida?

— Não. — Lucius respondeu.

— Então sugiro que conversem com os garotos para que esse tipo de situação não se repita. Eles não estão em aula agora, caso queiram aproveitar a oportunidade e aconselhá-los. Entendo que todos estejam abalados pela guerra, mas preciso avisá-los que se houver uma próxima vez, não serei tão compreensiva.

— Eu a agradeço por isso. — Lucius se pronunciou. — Mais alguma coisa que queira dizer antes que procuremos Draco?

— Apenas que pedi para os garotos esperarem no jardim, senhor Malfoy.

— Claro. Com licença, senhoras. — Ele disse já se levantando e levando Narcisa junto. Quando a porta se fechou, Mary perguntou algo a diretora.

— Podemos conversar um pouco? Tenho uma proposta a fazer.

— Por favor. — McGonagall estava curiosa com o que ouviria.

— A senhora obviamente sabe que eu sou um aborto. O que acha disso?

Pega de surpresa, McGonagall avaliava a mulher, tentando entender onde ela queria chegar.

— Minha opinião é a de que não há nada para achar. Ninguém tem controle sobre isso.

— E o que acha de eu ser a nova professora de Estudo dos Trouxas? Pelo menos por um ano.

— Como?

— Isso mesmo que ouviu. Todos ganhariam. Max foi tudo o que me sobrou, e aqui posso ajudá-lo para que esse tipo de situação não se repita. Sem contar que se ele tiver algum problema com a prótese, é melhor que eu esteja por perto. Entenda, eu amo meu trabalho no orfanato e sentirei muita saudade das crianças, mas Max é minha prioridade.

— Vejo que está mesmo disposta a fazer isso, senhora Palmer. Entretanto, preciso saber se já lecionou alguma vez na vida.

Mary contou brevemente sua história, disse que conquistou certo respeito no colégio interno por ter uma grande habilidade para aprender e ensinar. Ela era tão boa que cobrava informalmente por seus serviços de reforço escolar aos colegas, e com isso conseguiu juntar dinheiro suficiente para fugir de lá. Falou do seu trabalho como professora no orfanato, emprego que conseguiu após se casar com um bruxo. A convenceu também dizendo que conhecia mais os hábitos trouxas do que bruxos, já que foi obrigada a se adaptar. Ainda assim, destacou que compreendia perfeitamente as diferenças entre tão distintos mundos. Completou dizendo que se alguém se dispusesse a mostrar as dependências de Hogwarts para ela e explicasse como a escola funcionava, em menos de uma semana já poderia começar a lecionar.

— A senhora entende que preciso levar em conta o que é melhor para os alunos, não é mesmo?

— Sim, e está coberta de razão. Eu só quero que me veja como alguém qualificada para lidar com os jovens e comprometida a fazer um bom trabalho. Temo por meu sobrinho também, e comigo aqui ele não terá chance de achar que está só no mundo ou cometer o tipo de irresponsabilidade pela qual fui chamada.

— Senhora Palmer, mesmo que eu concorde com a sua ideia de lecionar em Hogwarts, gostaria de saber se tem ciência de uma coisa. Esse é o último ano do seu sobrinho aqui, e a tendência dos jovens é tentar trilhar o próprio caminho. No próximo ano ele terá essa oportunidade, e chega a ser uma boa opção, levando em conta tudo o que passou. Tem certeza que ao menos por esse ano, ficar aqui é o que quer?

— Absoluta. — Altiva, respondeu.

— Muito bem. — Minerva disse se levantando. — Meus parabéns, está contratada. Só peço a mais absoluta discrição quanto a isso. Pode guardar esse segredo até o Memorial de Guerra?

— Posso sim. — Mary disse, já de pé. — Quero só ver a cara dele quando entrar em uma sala e eu ser a professora.

— Certo, senhora Palmer. Que tal discutirmos os detalhes a respeito da contratação em um outro dia? O senhor Owens deve estar ansioso para vê-la.

— É bom que esteja. — Mary sorriu ao apertar a mão da mulher mais velha.

— E não se preocupe com a volta ao orfanato, pedirei para algum professor acompanhá-la.

— Tudo bem. E diretora… Obrigada. — Ela disse antes de se despedir e sair dali.

A mulher que já passou por tantas coisas, agora estava empolgada por ter mais uma chance na vida. Tanto de ficar perto de Max, quanto de recomeçar em um novo lugar. Pediu ajuda a Filch, que passava ali perto, para encontrar o caminho do jardim. Gritou quando as escadas se moveram, mas riu da própria reação logo em seguida. Se ainda tivesse contato com seus pais, se é que estavam vivos, ela se gabaria por ter ido sim a Hogwarts.

Pensando em coisas mais leves, foi que teve alguma dificuldade para andar pela grama com seus saltos altos, mas a silhueta conhecida a fez abrir um sorriso matreiro. De costas para ela, Max observava o horizonte.

— Hey, garoto... Sabe onde eu encontro delinquentes juvenis com imaginação fértil?

— Acabou de achar um, senhora. — Max disse ao se virar. Sorriu para a mulher que o encarava de braços cruzados, tentando parecer brava.

— Tem noção de que está encrencado, não é?

— Não muita. Afinal, você não é minha mãe.

— Como ousa? — Ela perguntou com toda a dramaticidade, inclusive arregalando os olhos e cobrindo a boca com a mão. Em seguida parecia debater seriamente consigo mesma. Mary seria uma excelente atriz, se tentasse. — Se bem que eu não tenho idade pra ter um filho tão velho assim.

— Minha mãe era cinco meses mais nova que você, tia Mary.

— Senti sua falta, Max. Terei que fazer mais drama para conseguir um abraço seu ou o quê?

— Como você é sentimental, mulher. — Max disse ao abraçá-la forte. — Também senti saudade, sua bruxa.

— Não me ofenda, garoto. Sua perna tem doído?

— Às vezes como o inferno, às vezes quase nada... Depende.

— Do quê?

— Do alfabeto inteiro.

— Sinto muito. Se meus pais não tivessem me deserdado eu encheria você de presentinhos. Ou compraria um cachorrinho para mimar, não sei. A vida é surpreendente.

— Que linda, me comparando a um cachorro.

— Eu não comparei. Só não tivemos sorte por meus pais não aceitarem uma trouxa na família, mas eu acho que foi bastante justo.

— Onde há justiça no modo que eles te trataram a vida toda, tia Mary?

— Haveria lição melhor para os digníssimos Bloom do que a única filha ser um aborto? Isso se eles não me fizeram um irmão, não sei.

— Isso é muito injusto. Você é boa de vez em quando. Raramente, mas é.

— Raramente é suficiente para mim.

— E outra, a senhora não é trouxa. É só... Uma bruxa sem poderes.

— Praticamente uma trouxa, então. Mas eu não canso de achar fofo o jeito como me defende desde pequeno, você tem um talento natural para o cavalheirismo. Quem é Hermione Granger, querido? — Ela conseguiu deixá-lo constrangido.

— Ah, titia, pare. Primeiro porque certamente já ouviu falar dela, e depois, bem...

— Ainda gosta da outra garota, a mais nova? — Mary perguntou com um sorriso cúmplice.

— Não sei o motivo do sorriso. Você fala como se eu tivesse o dobro da idade da garota, sendo que ela é só um ano mais nova.

— Tudo bem, Don Juan.

— A senhora e esses livros trouxas...

— Seu problema é com os livros ou por serem trouxas?

— Por que não entendo vocês, mulheres. Desde a morte do tio Bruce a senhora nunca mais saiu de novo, e é particularmente cruel com qualquer um com segundas intenções. Não que esteja completamente errada, mas enfim...

— Está tentando se livrar de mim, Maximilian Sheldon? — Ela o chamou pelo apelido que o garoto detestava, para irritá-lo.

— Eu juro que iria dizer que não, mas agora não sei. Eu odeio essa música.

— Mas eu nem cantei!

— Por favor, não faça isso. Como eu ia dizendo, a senhora é terminantemente contra qualquer um que se aproxime com intenções românticas, por assim dizer, mas lê esses livros que nada mais são que histórias de amor... Onde está a lógica nisso?

— A lógica, detetive, é a parte em que eu já sofri mais do que gostaria e agora tento me proteger. Minhas ações nesse sentido são lógicas. Mas lembra do que eu costumava te dizer sobre as pessoas?

— "Elas tem sentimentos também, Max. Não seja um babaca com os outros. Nunca". — Ele citou.

— Que lindo. Exatamente, querido. A parte idiota do meu ser quer ser amada, por mais que eu já tenha resolvido minhas questões de autoestima. Esse desejo não é para me sentir bonita, e sim para me sentir especial.

— A senhora me ensinou a paquerar, não se pode ser mais especial que isso.

— Tem razão, Max. — Ela disse entre risos. — Mas não se incomode com meus livros, já tive um amor e ele morreu. Ficou o carinho pelo seu tio Bruce e a certeza que eu nunca mais encontrarei isso. Você sabe, adoro um amor inventado. — Ela cantou.

— Ah, de novo não.

— São só músicas, moleque. Só mostram a contradição humana, eu não posso fazer nada além de rir das suas reações exageradas.

— Também amo a senhora. — Ele falou com sarcasmo.

— Mas é claro que sim. Não há nada aqui para não amar. — Já ela parecia bastante convicta de suas palavras. De chofre, uma preocupação voltou a perturbá-la. — Hey, posso te fazer algumas perguntas?

— Já saiba que não fui eu.

— Comportamento suspeito, detetive. Mas vou considerar isso como um sim.

— À vontade, senhora bruxa.

— Quem é aquele professor bonitão? — Diante do semblante absolutamente confuso de Max, ela rolou os olhos e foi mais clara. — Olhos azuis, cara de bad boy com idade para ser pai de outro bad boy...

— Merlin, tia. A senhora é uma romântica incorrigível! Esses anos todos foi a pessoa mais anti-amor que já existiu para sucumbir agora? Não é possível! O que as garotas vêem nos caras maus? E que estrago um par de olhos azuis pode fazer em pobres senhoras indefesas!

— Vamos parar, ok? A dramática aqui sou eu.

— Não faço ideia de quem seja. A senhora não está apaixonada por Fílio Flitwick, está?

— O quê? Não! Sequer sei quem é esse. Vou direto ao ponto, garoto. Conhece um tal Adams? Sabe se... Não sei, poderia ser um amigo de seu tio Bruce?

— Adams...

— E antes que pergunte, ou melhor, me acuse, lembro o sobrenome por causa do meu querido D.N.A.

— Não consigo adivinhar pelas iniciais. É outro autor maluco?

— Eles são os melhores, filho. Douglas Adams tem coisas interessantes a dizer.

— Não consigo lembrar quem é esse. Mas eu sei quem é o Bonitão, sim. — Ele falou enciumado. — Mas não sei nada sobre a vida dele, só que é um bom professor. Por que o interesse?

— Não sei, é só que... Ele parecia me conhecer, mas eu não faço ideia de quem é. Ele me chamou de Mary e disse que ouviu Claire me chamar pelo apelido, mas foi uma mentira deslavada. Eu não enlouqueci ainda, sabe?

— Sei... Talvez seja o charme de bad boy. Nos romances eles não costumam atacar assim?

— Não, Max, aí é que está... Ele não estava flertando, ao menos não comigo.

— Então ele deve ter a visto no orfanato. Isso explicaria algumas coisas, não é? Talvez a senhora estranhamente não tenha registrado um rosto esculpido por anjos ouvindo música clássica por estar ocupada dando atenção às crianças.

— Espere, ele esteve no meu local de trabalho? Esqueça o que eu disse, eu realmente enlouqueci.

— Sim, titia. Se não me engano, as turmas que ele estava responsável foram até lá no dia seguinte a minha visita. É só isso, o cara não é um maníaco.

— Espero mesmo que não.

— Bom, talvez seja. Com licença, titia, mas o Bonitão está acenando para cá. — O lufano não conseguiu segurar o riso.

— Céus, já detesto esse homem. Deve ser para me levar de volta ao orfanato.

— Vá com ele, senhora bruxa. E não seja boba ao ponto de cair na lábia de um bad boy que viu somente uma vez na vida, mas que estranhamente parece ver sua alma através dos seus olhos. Mesmo que ele pareça conhecê-la desde sempre, com aquele par de olhos azuis feitos sob medida para levá-la a loucura de um amor tão arrebatador quanto… Ai! — Ele reclamou após ser beliscado. — Quanta violência, mulher!

— Muita, moleque. Tanta violência que iria esperar você terminar esse monólogo ridículo para te bater, mas não teve como. Você deveria se preocupar com a moça mais nova, ou com Hermione Granger. Que orgulho do meu garoto!

— Saia logo daqui, antes que o Bonitão tenha tempo de colher flores em homenagem à sua beleza.

— É o que você deveria fazer para sua amada, seja lá quem for ela agora.

— Ridícula.

— Ridículo.

Ao se despedirem, um abraço breve e um "se cuide" dito por Mary. Quando já estavam distantes, ela se virou em direção ao afilhado e gritou.

— Até breve, detetive.

— Tente não morrer de saudade, senhora bruxa!

Sorrindo, Max escondia não saber lidar muito bem com carinho recebido. Às vezes achava as relações humanas terríveis, justamente por uma pessoa sempre estar à mercê da outra. Já perdeu pessoas muito importantes, e sentia-se mal com a partida de Mary, mesmo ela não sendo definitiva. Mal sabia ele que sua tão amada senhora bruxa seria também sua nova professora da matéria Estudo dos Trouxas.

Max era um filho único órfão, portanto era absolutamente normal se sentir sozinho. E a solidão resolveu atacá-lo com toda a força naquele momento, deixando o jovem com vontade de se afastar de todos. Ao menos assim seria solitário por escolha, não por incapacidade.

Tentando administrar tantos sentimentos, ele caminhou pelo jardim até ouvir alguém o chamar. Ao olhar na direção que o som vinha, encontrou Hermione fazendo gestos para que se aproximasse. O garoto era um tanto quanto tímido, e a grifinória estava cercada de amigos. Fazendo um piquenique debaixo de uma árvore, Neville Longbottom, Harry Potter, Luna Lovegood, Gina e Ron Weasley o encaravam. Sem saber do que se tratava, o garoto se aproximou. Hermione foi a única a levantar para saudá-lo, mas os outros ali pareciam simpáticos.

— Max, que bom vê-lo. Meus amigos querem te conhecer. — A grifinória falou o nome de todos ali, que sorriam em resposta.

— Claro... — Ele falou um tanto sem jeito. — Meu nome é Maximilian Owens, mas prefiro ser chamado de Max. Conheço vocês de vista, é claro. Só... Não entendo o motivo do interesse.

— Você ajudou a Mione na aula do Slughorn. — Ron disse envergonhado. — Enquanto nós paralisamos por causa dos gritos, você a socorreu rapidamente. Gostaríamos de agradecer.

— Ora, o que é isso... — Max coçou a nuca, constrangido. — Foram gritos de dor, iguais a tantos outros. — Notando a expressão séria de todos ali, o lufano percebeu que disse algo de errado. — Ou não? Desculpem, acho melhor eu ir embora.

— Não, não. Um dia eu te explico melhor essa história. — Hermione o tranquilizou.

— Por favor, fique. — Harry pediu. — Tão pouco tempo de amizade e já não suporta a minha doce irmã? É um recorde, Mione.

— Idiota…

— Vocês são irmãos?

— Nós decidimos ser. — O sorriso de Harry era sincero. — Quer se juntar a nós?

— Vocês parecem estar se divertindo, não quero atrapalhar.

— Besteira, Max. — Sorrindo, Hermione se sentou. — Amigos não atrapalham. A não ser, é claro, que seja o Harry cantando Californication enquanto eu estou tentando estudar.

Não vendo motivo para recusar o convite, o garoto se sentou e observou as pessoas ali, antes de também entrar na conversa e comer os doces que lhe eram oferecidos. A preocupação sobre sua solidão ia embora aos poucos, conforme se sentia mais à vontade e as risadas vinham mais naturalmente. Talvez, e somente talvez, Max não estivesse mais tão sozinho no mundo.

Notas finais
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