Yellow
3 Corações de papel
Notas iniciais

“Quando a verdade é: eu sinto sua falta
Sim, a verdade é... Que sinto muito sua falta.
E estou cansado.
E não deveria ter deixado você ir.
Então eu rastejo de volta para teus braços abertos”
– Coldplay (Warning Sing)
– Michael, você está bem?
Foram necessários alguns segundos até que ergui o olhar para Marco, um dos meus poucos amigos.
Ele era uns oito centímetros mais alto que eu, o que era irritante já que tínhamos a mesma idade... Possuía cabelos pretos curtíssimos e repicados, belíssimos olhos num azul claro um tanto ameaçador. Participava do time de judô do colégio, portanto esqueçam qualquer sinal de gordura localizada por que aquele cara simplesmente NÃO TINHA. Quando eu socava no abdômen machucava a minha mão ao invés dele...
Já falei que ODEIO ser tão pequeno magrinho e branco? A ÚNICA sorte que dei na vida foram meus olhos, OH DEUS OBRIGADO PELOS MEUS OLHOS! Num tom caramelo, só que irritantemente moldados demais por cílios. Sério, pra que tanto cílio? Daqui a pouco vou sair fazendo propaganda de cosméticos só pra descolar uma grana...
– Michael?
Pisquei com força, e finalmente foquei de verdade o olhar em Marco que me observava com o cenho franzindo.
– Oi? – falei.
– Você está bem?
– Tirando o fato de que estou morrendo de fome e mal posso esperar à hora do intervalo para roubar o lanche do Thiago, estou ótimo.
Marco deu uma risada baixa e logo tornou a olhar para a professora de Álgebra, provavelmente mata-o mentalmente.
– Não preciso disso. – disse ele numa altura que só eu pudesse ouvir. – vou para área de humanas.
Foi a minha vez de rir e tapei a boca ao sentir o olhar da professora sobre mim. Ajeite-me em minha cadeira e mantive uma mão sobre meus lábios que não queriam abandonar um sorriso sarcástico.
Depois de mais ou menos um dez minutos o horário acabou e os esfomeados do segundo ano praticamente voaram para fora da sala.
Como eu não trazia dinheiro nem lanche não tinha tanta pressa assim...
Marco costumava trazer barras de cereal e uma garrafa com vitamina para comer, o que me fazia apagar completamente a hipótese de pedir o lanche dele, então me sobrava Thiago.
Quem é Thiago? Bem...
– MICHAEEEEEEEEEEEEEL!!! – a porta da sala foi aberta com tanta violência que bateu contra a parede e causou um alto barulho que ecoou por toda a sala.
... Esse é o Thiago.
Ah, ele é gay.
Mas não é gay do tipo “gay”, é gay do tipo “EU SOU UMA BIXA FOSFORESCENTE ASSUMIDA GOLEGA”!
– BOM DIA MEU DIVO! – Marco jogou-se em cima de mim.
Como eu sou muito legal deixei que ele me esmagasse.
Não que eu estivesse fazendo isso para comer de graça, imagina...
– Seu cabelo está mais cheiroso do que nunca! – disse Marco afundando o rosto naquele ninho que eu chamava de cabelo.
– Bom dia pra você também Thiago. – disse Marco sarcasticamente. – a propósito, eu ‘tô bem viu? Não precisa se preocupar não.
Thiago estirou a língua para Marco que retribuiu educadamente com o dedo médio e logo os dois “discutiam” em sua forma sarcástica, era interessante observar a idade mental em decadência dos meus amigos.
– Thiago, trouxe lanche hoje? – perguntei segurando na manga de sua camisa.
–Own... Que fofo! – ele apertou minhas bochechas. – claro que trouxe, mas esqueci dentro da mochila.
– O que você trouxe? – deixei meu rosto virar um pouco de lado.
–Doritos.
OMG DORITOS! DORITOS, DORITOS, DORITOS, DORITOS...!
–Doritos? – aumentei meus olhos o máximo que pude enquanto o olhava com o rosto um pouco inclinado para cima (ESSE PUTO TAMBÉM É MAIS ALTO QUE EU!). – você pode me dar um pouquinho?
Thiago olhou para mim com uma mão cobrindo o nariz enquanto agarrava um dos braços de Marco com força, quase rasgando a pele dele.
– Eu vou acabar estuprando esse menino... – disse o albino num sussurro.
Ah, eu não falei que ele era albino?
Os cabelos dele eram de um loiro TÃO claro que pareciam brancos, lisos, na altura dos ombros. Os olhos castanhos eram MUITO claros mesmo, até suas pupilas eram claras, ele parecia um cego.
E obvio que também não tinha UM SINAL de gordura, como ele mesmo dizia:
“Amigo, eu preciso estar uma delicia senão ninguém nunca vai querer me comer”.
Eu já falei que ele é Uke? Bem, ele é Uke... UKES UNIDOS JAMAIS SERÃO VENCIDOS!
Depois de alguns minutos de conversa inútil, seguimos para a sala de Thiago, ele estudava no outro segundo ano. Fiquei encostado junto a Marco na porta, esperando o albino pegar a comida.
– Pelo menos ande sem rebolar. – disse Marco dando um gole naquele liquido esquisito que ele chamava de vitamina.
– Ando como eu quiser! – rebateu Thiago fazendo um bico. – se não gosta, não olhe!
Marco revirou os olhos e deu mais um gole na vitamina. Eu apenas observava.
Bem... Segundo Marco o mesmo era 100% heterossexual, mas...
– Marco, por que não admite logo que quer comer o Thiago? – perguntei.
O moreno engasgou com a bebida e começou a tossir enquanto Thiago ria descontroladamente.
– Como é? – indagou Marco com o rosto completamente vermelho.
– Ah, eu sabia! – ria Thiago. – é por isso que olha tanto para o jeito que eu ando, não é? – ele pos um dedo sobre os lábios e inclinou o pescoço para o lado, olhando para Marco. – você quer meu corpo nu.
– O qu- C-CLARO QUE NÃO!
– Ele está mentindo! – falei apontando para Marco, ah como é legal colocar fogo na lenha!
– N-Não estou! – Marco virou o rosto completamente vermelho para o outro lado.
– Está sim. – Thiago se aproximou dele como um felino e levou uma mão ao seu queixo.
Marco ficou ainda mais vermelho do que já estava (se é que isso era possível). Thiago deslizou com o polegar por seu avermelhado lábio inferior e mordeu os próprios. Eita, eu vi uma mão boba passar pelo Thiago...!
– VÃO DEMORAR MUITO AÍ? EU PRECISO FECHAR A SALA.
Thiago se afastou de Marco num salto, e eu olhei para trás. A zeladora Carla olhava para nos com os braços cruzados e uma sobrancelha erguida.
– D-Desculpa Carla! – falei. – já vamos sair.
– Sabem que se dependesse de mim vocês poderiam ficar aí se comendo, mas a diretora disse que devemos fechar a sala durante os intervalos. – disse Carla com um brilho assustador no olhar.
– É que o Marco não quer admitir que é gay!
– EU NÃO SOU! – berrou ele.
Carla revirou os olhos e girou um molho de chaves nas mãos enquanto jogava o rabo de cavalo que prendia seu cabelo para trás.
– Você é tão hetéro quando Rick Martin, Marco. Admita logo que quer comer o Thiago, E SAIAM DA SALA QUE EU PRECISO FECHÁ-LA!!!
Não preciso dizer que saímos correndo dali, né? Carla me dá medo!
Olhei para trás e vi que Marco e Thiago corriam bem próximos a mim. Comecei a desacelerar o passo e...
– AI!!! – gritei.
Havia me chocado com UM MURO, SÓ PODE! QUE COISA DURA FOI ESSA?
– Você está bem?
Esfreguei meu nariz machucado e olhei para frente, ou melhor, para frente e cima, inclinando meu pescoço quase todo para ver a pessoa.
Deparei-me com olhos escuros.
Muito escuros.
Iris e pupilas se uniam em um só, eu conseguia ver meu reflexo ali. O garoto possuía o nariz afilado, lábios finos e a pele branca como leite. Cabelos encaracolados, escuros como os olhos, semelhantes aos de estatuas de anjo que eu costumava ver ao passar em frente à igreja no meio da cidade.
– E-Estou! – respondi um tanto envergonhado, arg, por que raios eu estava corando!?
O moreno curvou os lábios para cima, num sorriso que eu descreveria como puro e levou uma mão pálida até meus cabelos, enroscando os dedos numa mecha.
– Você parece uma pintura. – disse ele.
É OFICIAL: EU SÓ ATRAIO GENTE DOIDA.
– Pintura? – ergui uma sobrancelha.
– Sim, como um quadro de Alyssa Monks.
– Quem?
– MICHAEL, VOCÊ EMPACOU AÍ? – gritou Thiago, delicado como sempre.
– JÁ VOU! – gritei de volta, eles já estavam bem à frente.
Mal dei um passo a frente e senti uma mão quente e firme envolver o meu pulso.
– Eh...?
– Eu posso te desenhar algum dia? – perguntou ele inexpressivamente.
– Me desenhar? – franzi a testa. – an... Tudo bem... Eu acho...
– Obrigado. – ele se inclinou e beijou docilmente minha bochecha.
MASOQ...
– Até breve.
Ele sorriu timidamente e se afastou de mim.
Preciso falar que fiquei besta ali? Acho que não...
***
– O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO AQUI?! – gritei.
O loiro apenas riu e fez um carinho no capacete que estava em seu colo.
– Tsk – estalou a língua. – vim te dar uma carona. – desencostou-se da moto e se aproximou de mim. – o que mais eu faria aqui?
– Você não devia estar no colégio? – reclamei me afastando.
– Eu já estou na faculdade. – Bryan riu. – e minhas aulas são à noite. Não vai escapar de mim tão fácil. – rapidamente enlaçou minha cintura.
Puxou-me para si e tornou a encostar-se à moto, dando aquele maldito sorriso de canto.
AINDA BEM que ele estava no portão de trás, não havia mais ninguém ali já que eu havia acabado de sair da biblioteca, havia passado quase meia hora lá.
– Você é muito sem vergonha. – reclamei automaticamente fazendo um bico infantil com os lábios.
– E você é muito irresistível. – sussurrou com os olhos fixos em meus lábios.
– I-Idiota... – desviei o olhar.
O loiro alargou um pouco o sorriso e olhou ao redor.
– Quer dar uma volta?
– Hein? – tornei a olhar para ele.
Bryan inclinou-se para trás e pegou um capacete que estava preso por uma espécie de rede na moto.
– Quer dar um volta, comigo?
– E por que eu faria isso?
– Por que é impossível dizer “não” para mim. – dito isso, colocou o capacete na minha cabeça.
Revirei os olhos, uma volta só não fazia mal, certo?
– E-Está bem. – suspirei.
Bryan prendeu a fivela de meu capacete e colocou o próprio, subindo na moto e me estendendo a mão.
– Me daria à honra? — disse ele com um sorriso sarcástico.
Estirei a língua e aceitei sua mão, subindo na garupa.
– Segure-se. – ouvi-o dizer.
Já havia tido uma péssima experiência da última vez então achei melhor me segurar de primeira dessa vez. Segurei em sua cintura e ele deu a partida, arrancando um ronronar alto dos motores.
Remexi-me um pouco para ajeitar a mochila nos costas e me segurei melhor para não cair. Bryan devia estar a 80k/h ou mais, o vento batia de maneira quase violenta em meus braços, ao lado a paisagem passava como um borrão, mas...
Era bom.
Automaticamente fechei meus olhos, apenas apreciando aquela sensação.
Será que Bryan sente isso ao pilotar?
– Vou te levar a um lugar que gosto. – ouvi-o dizer abafadamente.
Não tentei contestar, Bryan não me ouviria de qualquer jeito.
Passamos cerca de quinze minutos ainda em estrada. Quando Bryan finalmente estacionou estávamos numa espécie de colina, dali era possível ver grande parte da cidade.
Retirei o capacete e o pus na garupa da moto, mas meus olhos não se desviavam da paisagem.
– É lindo! – falei encantado.
– Trying hard to speak, and fighting with my weak hand…
– O que...? – olhei para trás.
Bryan colocara o celular sobre a moto com uma música ligada.
– Eu sei que isso é muito pobre... – disse o loiro rindo. – mas sem uma música de fundo não teria graça!
A risada dele é tão linda.
–… Driven to distraction, so part of the plan…
Torno a olhar para paisagem, apesar do sol forte, conseguia enxergar perfeitamente. Os prédios pareciam estar alinhados em desenhos, mal conseguia ouvir as buzinas ou todo e qualquer barulho da cidade, apenas a brisa que soprava e arrepiava meus cabelos escuros.
Era bom.
– Michael... – ouvi a voz rouca de Bryan.
– O qu- assim que virei o rosto, fui calado por seus lábios.
Bryan conseguia dominar todo o meu corpo com seus lábios sedentos. Por que eu estava permitindo aquele beijo...?
Senti as mãos cobertas por luvas de Bryan agarrarem minha cintura e me puxarem para si. Um gemido baixo escapou de minha garganta e agarrei seus cabelos, permitindo-o aprofundar-se em meus lábios.
Um beijo só não faz mal, certo?
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