Yellow
4 Lábios de Mel
Notas iniciais

“Você quer ficar?
Fique pra sempre e sempre e sempre
Eu não consigo tirar você da cabeça
Garoto, seu amor é tudo o que eu penso...!”
– Coldplay (Can't Get You Out Of My Head)
Estava sendo impossível dormir.
Toda vez que eu fechava os olhos, lembrava-me do beijo de Bryan, de como suas mãos firmes e possessivas haviam ido até meu corpo, e me puxado para si. Como os olhos amarelados pareciam dilatados e predatórios.
Ele é tão quente!
Olhei para o relógio largado na cabeceira ao lado de minha cama.
01h: 32min
– Arg… Eu preciso dormir… — murmurei.
A tela de meu celular piscou e meus olhos se desviaram para ele, lentamente estiquei o braço e o peguei.
1 Nova mensagem.
Desbloqueei a tela e cliquei para ver a mensagem, perdendo o fôlego logo em seguida.
“Está dormindo meu pequeno?
Via: Bryan R.”
Arregalei os olhos e rapidamente respondi.
“Como conseguiu o meu número? E pq seu número está salvo nos meus contatos?!
Via: Michael”
“Vc faz perguntas demais, eu peguei seu cel com seu primo, esqueceu? E pedi p ele salvar o meu cel no seu em seguida.
Via: Bryan R.”
“Vc ñ pode invadir a privacidade dos outros assim!
Via: Michael”
“Posso se for a sua :)
Via: Bryan R.”
“E pq acha que tem esse direito?! >:(
Via: Michael”
“Por que eu posso tocar nas coisas de quem me pertencem
Via: Bryan R.”
Senti meu rosto ruborizar.
Como ele conseguia dizer aquele tipo de coisa com tanta facilidade? Mesmo que fossem mensagens de texto? Arg, o meu cérebro vai fritar assim!!!
“Eu vou dormir, boa noite
Via: Michael”
“Boa noite meu bonequinho
Via: Bryan R.”
Conectei novamente o aparelho ao carregador e suspirei, largando-o ao meu lado.
Não conseguia controlar, meus pensamentos ficavam constantemente rumando para Bryan, e novamente, seu beijo, suas mãos, seu calor e...
– ARG! – gritei com a cara enfiada no travesseiro e me agarrei a ele.
Droga, droga! Que vergonha!!! Por que eu deixei ele me beijar? POR QUE O MEU CORPO NÃO ME OBEDECE QUANDO ESTOU PERTO DELE?!!! AAAARG!!!!
Acho que devo ter espancado meu travesseiro umas três vezes, antes de finalmente pegar no sono...
***
– Oye Michael, não durma na aula. – Marco cutucou-me.
– Eu ‘tô com sono... Me deixa... – murmurei.
– Mas o professor está dando o conteúdo da prova!
– Você me explica depois Super Gênio, agora me deixe dormir...
Tornei a afundar o rosto em meus braços cruzados sobre a mesa, eu estava um caco, exausto. Havia dormido MUITO mal! E acordado PIOR ainda! Sabem por que?
“– B-Bryan, não seja apressado...
– Mas você é tão quente Michael...
–N-Não diga coisas assim, eu fico com vergonha.
– Seu rosto envergonhado também é belíssimo...
– Aaah...! Bryan...!”
SIM, EU HAVIA TIDO UM SONHO ERÓTICO COM BRYAN, O ESTUPRADOR!
E o pior DE TUDO foi acordar com AQUILO no meio das minhas pernas! E vocês sabem muito bem do que eu estou falando!
– MICHAEL ACORDA PORRA!
Ergui a cabeça com tudo, soltando um grito surpreso.
– CARALHO QUE SUSTO! – coloquei uma mão sobre o peito. – o que foi?
Marco e Thiago olhavam para mim, visivelmente irritados.
– Você dormiu dois horários, INTEIROS. – disse Marco.
– Levanta Michael – Thiago fez um bico irritado. – já é hora do intervalo.
– Hunf... – resmunguei e me levantei da cadeira, um tanto tonto.
Segui os dois pelos corredores abarrotados por pessoas, conseguindo discernir claramente cada grupinho formado, as famosas “panelinhas”.
Melissa Andréa, aquela ricaça put- digo, garota mimada que oferece dinheiro e o corpo para conseguir tudo o que quer, com mais umas quatro garotas que eu nem havia me dado o trabalho de decorar os nomes... Sentadas numa das mesas do refeitório, dando risadas falsas e conversando coisas fúteis.
Nada contra, mas...
Mentira, eu tenho muita coisa contra sim.
Em duas mesas juntas, um grupo de Gamers e Geeks com seus readphones discutia avidamente algum jogo, alegando que um era melhor que o outro, ou simplesmente se gabando por ser o melhor do ranking.
Numa mesa um pouco menor, Otakus conversavam animadamente e por vezes se levantavam, interpretando algum personagem ou cena.
Em outra, com três mesas juntas, garotos com casacos caros dobrados no cotovelo, envoltos nos ombros de garotas quais queres, os clássicos “Atletas”.
Entretanto, afastado de todos, sentado sozinho numa mesa, estava aquele garoto branco de cabelos pretos que eu havia me esbarrado no outro dia. Algumas garotas iam até sua mesa, mas poucos segundos depois saiam, com expressões frustradas, e, por vezes, magoadas, até mesmo ofendidas...
– Posso encontrar com vocês depois? Eu já volto. – falei.
Marco deu os ombros e Thiago o acompanhou para fora do refeitório, provavelmente a procura de um lugar mais calmo.
Imagino o que esses dois podem fazer se deixados sozinhos...
Balancei a cabeça, deixando isso de lado antes que eu começasse a imaginas cenas estranhas e fui em direção ao garoto, que mantinha seus olhos concentrados em um livro grosso.
Sentei na cadeira a sua frente, vendo que em momento algum ele havia olhado para mim.
– Er... Oi. – falei.
Ele não olhara para mim, apenas pronunciara:
– Eu amo você.
ENGASGUEI COM O AR NAQUELE MOMENTO.
– O QUE?
– “Ficar longe de você, e apenas o pensar em tal estado de afastamento, me é uma violência que me perfura as entranhas e me faz desejar nunca ter nascido nobre, nem príncipe”.
O moreno ergueu o olhar, finalmente fixando seus olhos nos meus e dando um pequeno e puro sorriso.
– É um belíssimo texto, não acha? – disse ele.
Pisqueialgumasvezes. Ah! Então ele estava lendo! QUE ALIVIO!
– É sim. O que está lendo?
– “Corações de Neve”, escrito por Raphael Draccon.
– Ah.
Silencio. Silencio, silencio, silencio…
– Eu não perguntei daquela vez – falei. – qual o seu nome?
– Eric Theo. – respondeu pondo um marca-página no livro e fechando-o. – e o seu?
– Michael Dantas.
– Você é o garoto que eu quero desenhar… — ele disse, mais para si do que para mim.
– É… Você tinha dito algo sobre isso antes.
– Sim, lembro-me bem. – ele inclinou sobre a mesa, deixando o rosto a pouquíssimos centímetros dos meus. – você parece uma pintura. Suas cores são tão...
Ergueu uma mão, acariciando suavemente meu rosto com as pontas dos dedos.
–… Suaves.
– A-An… Er… — gaguejei, sabendo que meu rosto deveria estar todo vermelho.
Eric continuava a correr os dedos por minha pele, parando em meu lábio inferior e puxando-o suavemente com o polegar.
– Se eu misturasse um tom cereja com amaranto e um pouco de flor de cerejeira ficasse parecido, de qualquer maneira não seria tão belo...
– Er... Aan...
CEREBRO, POR FAVOR, VOLTE A FUNCIONAR!
Vi-o umedecer os lábios, sem em nenhum momento desviar o olhar de minha boca entreaberta, o rubor em minhas bochechas se tornava cada vez mais evidente é...
– E NÃO É QUE O VIADINHO É CONTAGIOSO? – gritou uma voz feminina.
Todo o refeitório, repentinamente, se calou-se, e eu quase conseguia sentir os olhares perfurarem minha pele.
Eric afastou-se de mim, lançando um olhar entediado em direção a voz estridente que havia o, hm, “interrompido”.
CLARO! Tinha que ser ela!
– Você não precisa contagiar a todos os rapazes bonitos com essa sua doença. – dizia Melissa com um sorriso prepotente. – deixe sobrar ao menos um, putinha bixa.
Cerrei os punhos e baixei o olhar.
Essa garota só sabe jogar baixo. Ela não precisava apelar para Ele.
– A única puta que vejo aqui... Estou olhando para ela. – disse Eric, sua voz continuava calma, mas vários tons mais altos.
– O que?! Como se atreve-
– Como você se atreve – disse ele. – você está tão abaixo dele que nem sei por que me digno a te responder.
Logo murmúrios e risadas abafadas foram escutados. Melissa ficou vermelha, jogando aquele cabelo loiro-caramelo falsificado para trás e sorrindo forçadamente.
– Pelo visto você é o mesmo “tipo” que ele, não é mesmo? Veem? Não minto quando falo que esse garoto é contagioso.
Com o canto do olho, vi Marco e Thiago entrarem no refeitório, tentando entender toda aquela discurssão e não demoraram a se aproximar do local.
Vi uma rápida troca de olhares entre eles dois e Eric. Melissa continuava a falar mais alguns absurdos, e eu via os dois se aproximarem rapidamente...
Meus olhos se arregalaram, minha boca se escancarou num perfeito “O”.
Thiago havia virado uma lata repleta de refrigerante na cabeça de Melissa.
– Antes de abrir sua boca para falar merda, olhe para si mesma. – disse Marco.
Lembram-se quando falei que seus olhos azuis MUITO claros podiam ser belos, mas também extremamente ameaçadores?
Eles estavam quase matando agora.
A garota soltou um grito, indignada, xingando a todos de todas as maneiras possíveis.
– VAI TER VOLTA!!! – berrou ela.
– Esperaremos ansiosamente. – Thiago sorriu sarcástico. – só não se esqueça de trazer o papaizinho para brigar conosco, bebê.
Melissa saiu correndo do local, não sem antes xingar ainda mais a nos.
Surpreendentemente, assim que ela saiu foi como se nada houvesse acontecido, todos voltaram a conversar normalmente.
Eric me agarrou pelo braço e me arrastou até Marco e Thiago, para logo em seguida deixarmos o refeitório e seguimos para um corredor vazio.
– Michael, eu já falei para você se defender sempre que aquela piranha te atacar! – Thiago abraçou-me. – como vou poder te deixar sozinho se continuar desse jeito, meu fofinho?
– Não me chame de fofinho! – bufei. – é que... – baixei o olhar. – ela apelou... Para Ele...
Thiago me olhou com a testa franzida e Marco baixou os ombros, eles haviam compreendido o que eu havia dito.
– “Ele”? – Eric olhou para mim, tocando meus cabelos e ponto uma mecha escura atrás de minha orelha. – quem é “Ele”?
– Isso não é importante. – respondi rapidamente, dando as costas. – não mais... – rapidamente enxuguei meus olhos, fingindo que estava os coçando e me virei para eles, sorrindo falsamente. – vamos logo para as salas, já vai tocar!
– Michael... – Thiago tentou dizer.
Marco ergueu uma mão, num pedido que ele se silenciasse.
Eles sabiam como eu ficava quando se tratava Dele.
– Amanhã passe na Sala de Artes do terceiro andar. – disse Eric. – começarei a desenha-lo.
– Está bem. – sorri. – anda logo Marco, vamos! – puxei o moreno pelo braço, o arrastando até a sala.
***
– Você não desiste nunca, não é? – ergui uma sobrancelha.
Bryan apenas sorriu de canto, acariciando meus cabelos.
– Obviamente que não, acha que eu deixaria alguém tão encantador como você escapar de minhas mãos?
– Você fala como se eu fosse algo importante.
– Deve ser por que você é. – o loiro riu. – meu pequeno e saboroso bonequinho.
– “Saboroso”? Não sou de comer...
– Não concordo com isso. – Bryan enlaçou minha cintura, trazendo-me para si. – quer ir dar uma volta?
Mordi o lábio inferior. DROGA! Por que não consigo dizer não para ele?
– Está bem… — suspirei. – mas é só UMA, ouviu bem?
– Só uma! – disse ele ainda sorrindo.
Senti-o puxar minha nuca e dar um rápido selar em meus lábios, antes de eu o empurrar sem força.
– E-Ei! Não faça esse tipo de coisa aqui!
– Deveria fazer quando estivéssemos em outro lugar? – havia um tanto de malicia em sua voz.
– Idiota pervertido… — murmurei.
Bryan colocou meu capacete e subiu na moto, puxando-me para a garupa, e novamente me fazendo abraça-lo como força. O ronronar, já um tanto familiar, dos motores ecoaram até meus ouvidos e senti meu corpo ir um pouco para rás com a aceleração, deixando uma pequena nuvem de fumaça para trás.
Naquela hora, eu não que estávamos sendo observados.
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