YStage
11 11YStage: Proud
Notas iniciais
...
–Qual é o problema de fazermos uma festa? Ninguém vai se machucar! -Sieghart tinha tomado seu lugar na conversa entre os rapazes e bateu o punho com um som forte, dando a impressão de que a mesa iria partir.
–IDIOTA! Essa é a mesa da cozinha, não a quebre ou te faço engoli-la!! -Ronan levantou-se, já passado do limite. Hoje foi o dia em que os malditos resolveram acabar com sua paciência.
Se iniciou com os costumeiros porcos espinhos que Azin jogava neles de manhã cedo. Em seguida Ronan teve que aturar as 3 horas de Oração de Jin, que repetia cada “Oooonnnn” por tempo suficiente de ir ao banheiro e voltar.
Então, Lothos lhe aparece.
“Ronan, o dia de folga das mulheres FINALMENTE chegou. Você sabe que é você que ficará no comando, não é?”
No mesmo instante os rapazes em volta começaram a rir maldosamente.
–Leve o Lass também, Lothos, HAHAHAHAHA!!
Não é preciso dizer que foram todos acertados por estocadas de mosquete e shurikens nas testas.
Ronan sabia que esse era o dia que ele mais odiava na Caçada. E se pensasse bem, ele não era normalmente de reclamar, mesmo que destruíssem tudo ele não se importava de todo, pois havia se acostumado ao jeito deles.
PORÉM...
–Não se preocupem, eu não vou ficar aqui. Prefiro não arriscar. -Lass apertou os olhos friamente, obviamente se lembrando do que aconteceu da última vez quando esse dia chegou e ele foi abusado de muitas formas, desde pegadinhas, piadinhas até ser obrigado a vestir roupas ridículas e ser intimado a participar de um ridículo jogo da garrafa.
Os rapazes no mesmo instante fizeram expressões geladas e seguraram o ninja antes que ele sumisse. Uma vez que se segura um ninja você não precisa se preocupar com sua habilidade de desaparecer e todos os presentes eram particularmente fortes contra kunais.
–Bem, você não tem escolha. São sete contra 1.
–O caramba, me tire desse rolo. -Ronan se afastou.
–Ok, o Rabo-de-Cavalo fica fora. Você é vouyer, Erudon? -Sieghart indagou com sarcasmo.
O olhar ensombrecido do azulado o fez se calar. Era um fato de que Ronan não suportava mais a situação da GC atual, especialmente com o final do ano se aproximando.
“As meninas têm percebido o que está acontecendo dentro dessas paredes e fora delas entre os membros...”
–Eu definitivamente não quero as meninas mais bravas do que já estão. Elas não esqueceram o que viram aquela vez.
–Ah, boas lembranças. -Sieghart passou a mão no cabelo, lembrando-se do “glorioso dia”. -Nunca imaginei que um dia eu iria fazer aquilo. Achei que tinha alguém aqui que não toparia, mas me enganei.
O azulado ficou vermelho pimentão da cabeça aos pés e agarrou o colarinho do imortal, rangendo os dentes.
–Ouça... Se aquilo se repetir, eu mato... MATO, vocês. Sem álcool ou senão...
–Ei, Ronan... Sua voz está assustadora. Pare, por favor.
–Ouviu?
O moreno assentiu rapidamente, sentindo a aura pesada. Era claro que Ronan não aceitaria “aquilo” novamente. Na verdade ele não aceitou, meio que foi arrastado, mas não vem ao caso agora.
As garotas haviam saído à tarde no dia anterior, deixando a casa livre para eles. A maioria dos membros masculinos tinha estado em missões longas até então, como Jin.
O ruivo tinha ido até o Templo da Sintonia, uma longa viagem, e assim como ele, Dio, que tinha ido até a dimensão de Elyos devido a um assunto com a Família Von Crimson.
Ronan observou como Sieghart parecia relaxado, sugerindo a ideia da festa, contudo, era possível notar de longe como o imortal estava só querendo se descontrair. A missão dele foi de reconhecimento, mais além de Arquimídia, e havia algo que parecia deixá-lo perturbado.
O moreno não quis abrir-se com ninguém e escondeu todas suas preocupações, tentando desviar a atenção de si com qualquer coisa, e Ronan notava isso perfeitamente.
Por sorte era o dia de folga dos membros femininos. O Avatar conseguiu se distrair um pouco, irritando Ronan com a ideia. Com certeza essa era uma das coisas que ele se sentia bem em fazer.
–Hm. -Ronan cruzou os braços depois de sua voz do mal. -Ficarei de olhos abertos.
O azulado saiu da cozinha, esperando que quando saísse não houvesse uma guerra. Ao atravessar a porta olhou em direção à sala, para onde ia um Ryan pensativo.
Caminhando até ele, que havia sentado no sofá, parecendo pensar sobre algo complicado, visto por sua expressão raramente séria, Ronan suspirou para si mesmo, vendo que o dia problemático tinha acabado de se iniciar.
–Ryan.
–Hm... -o Executor não parecia muito em si. E veja, os dois eram melhores amigos desde que entraram para a Grande Caçada, Ronan o conhecia muito melhor do que qualquer outro.
O Inquisidor teve que tocar sua testa com um peteleco para o alaranjado finalmente prestar-lhe atenção. Sorrindo tranquilamente, Ronan recostou-se ao sofá, esperando Ryan dar algum indício do que acontecia.
–Ah, eu estava pensando, Ronan. Tem certeza sobre essa festa? Até eu mesmo estava com um pé atrás... Da última vez, como você disse, as meninas nos estranharam. Preciso dizer como a Arme e a Lire me trataram depois de nos verem?
–Eu sei. Até a Elesis está falando comigo só quando se trata de trabalho. Eu estava me acostumando com o jeito dela, mas agora... Parece que somos desconhecidos.
–Mulheres. -Ryan balançou a cabeça. -Elas não entendem que estávamos bêbados. Então? Vai deixar mesmo? Você sabe que eles vão fazer alguma coisa com as bebidas de novo.
–É. Eu sabia que a folga estava chegando e eu quase não sabia o que fazer. Você viu! São todos contra mim. Pelo menos os outros além de você, Lass e Zero também. Até o Jin se deixou levar.
–Nós sempre estamos entrando em conflito aqui na base. Mas depois que os membros recentes começaram a se dar bem não teve mais como impedir certas coisas. -Ryan coçou a cabeça. -Eu queria sair da base hoje...
–Eu não vou poder infelizmente, tenho que vigiar os outros. -Ronan dizia enquanto fazia cara de quem estava cansado.
Ryan deu um risinho. Seus olhos verdes sorriram para Ronan, como se agradecesse a atenção.
–Tudo bem se eu for então? Não vai me dedurar para a Lothos?
O azulado expirou fortemente o ar, quase mostrando seu tédio em ficar sem uma companhia “responsável”. Ryan só não era muito racional quando o assunto era comida, mas tirando isso, tudo bem.
–Pode ir. E pra onde você vai?
–Acho que vou procurar o que fazer pelas redondezas. Não tenho um lugar premeditado.
–Que palavra é essa que você está usando? Não é sua cara. -Ronan sorriu, dando uma leve cotovelada no amigo, que apenas sorriu bobamente, massageando o local.
–Nada, nada, deixa quieto. Eu vou indo, Ronan. Muito obrigado, viu? Fico te devendo.
Ronan negou com a cabeça e um sorriso discreto, deixando que o amigo subisse as escadas sem a cara de preocupação anterior.
–Oh, vocês são tão amigos.
Ronan olhou para o lado, onde o asmodiano do grupo tinha uma expressão sem emoção em direção às escadas.
–Dio. -Ronan se desencostou do sofá, refazendo em sua mente seus passos para o dia. Primeiro tinha que tirar os ouriços de sua cama e depois tentar impedir Sieghart de sair da base.
–Hm. -o mais velho, que era um bom palmo mais alto, desviou os olhos para o Inquisidor.
Dio Burning Canyon.
Os olhos de Ronan se tornaram sérios repentinamente. Esse ser tinha tirado boas noites de sono do azulado. O Erudon arriscaria dizer que Dio só perdia para Sieghart, mas tirando esse detalhe, Dio era um sem pudores que dava real vontade de socar.
Mesmo que Dio fosse uma criatura de outra dimensão, ele parecia muitas vezes mais humano que os outros. Era incrível sua forma de lidar com pessoas, com respostas rápidas e descomplicadas que passava a informação que queria transmitir de uma vez só.
Claro que essas informações sempre eram violentas e rudes, mas não eram coisas que dariam pânico. Um leve medo talvez, mas por sua aparência esse medo se intensificava em pessoas normais.
O asmodiano tinha um jeito de falar que lhe daria mais uma visão de antipático e antissocial do que de demônio. Porém, só os membros da Grande Caçada sabiam como Dio se manifestava como membro da raça demoníaca... Em lutas, quando alguma criatura feminina ou masculina despertava seu interesse íntimo, e especialmente durante as bebedeiras.
O Asmodeus fazia jus ao nome. Mas Dio parecia não perceber quando “mudava”.
Ronan poderia enumerar as vezes que o asmodiano quase perdeu o controle em banhos em grupo, quando deu em cima de alguma moça linda, ou quando quase agarrou meninos fofos por aí, como Lass e Azin.
Resumindo: ele era um tarado.
–O quê? -Dio pareceu ter se irritado com o tempo em que Ronan ficou-o olhando e pensando coisas cruéis a seu respeito.
O asmodiano apertou as sobrancelhas, encarando Ronan com os olhos vinho de brilho mortal.
–Se está bravo com a ideia da festa devia dizer em vez de ficar encarando. -continuou com a voz grave e alta.
O Erudon respirou finalmente, tentando imaginar o que o mais alto estava pensando. Essa face séria e o porte intimidador não faziam efeito em Ronan, apenas conseguiam irritá-lo.
–Eu não estou bravo. Só não quero que façam nada comigo. -o azulado se defendeu, não gostando do olhar que recebeu.
–Desde que você caia na pegadinha, você não pode fazer nada.
Dio era muito rude e Ronan era muito gentil.
–Vocês não têm direito de fazer o que quiser comigo ou com os outros. Eu não dei permissão. Eu vou ainda descobrir quem colocou álcool na minha bebida, e se tiver sido você, me aguarde.
–Hnf, e eu que tenho a ver, humano? Pro Inferno. -Dio deu as costas.
“Eu não gosto de você e do seu jeito direto.” -o azulado dizia em seu olhar apertado. Pela primeira vez queria bater muito no asmodiano, mais do que um dia já quis em Sieghart.
–Você pode voltar pra lá que não estou me importando. -Ronan resmungou já irritado com tudo o que estava acontecendo ao seu redor.
O Asmodeus subia as escadas franzindo a testa fortemente. Quando Ryan apareceu em sua frente, com uma mochila e vestido para sair, quase caiu para trás de susto, contudo, o asmodiano seguiu caminho sem olhar para ele, focado em sua raiva momentânea pela afronta do humano.
–Não acredito que vou ficar sob as ordens de um idiota.
“Não gosto de você também, Ronan. Você é muito ingênuo.”
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Quando Ronan conseguiu capturar o ouriço, Jin apareceu na porta do quarto, segurando um saco cheio.
–Ugh... Aqui tem mais alguns, Ronan. -avisava o ruivo, se aproximando e abrindo para que o azulado colocasse o animal irritante junto com seus irmãos.
–Droga! Me diga onde o Azin consegue esses bichos! Eu vou matá-los assim ele não vai poder-,
–Ronan. -Jin lhe deu um leve tapa na cabeça. -Se acalme. Você fica tão diferente quando o dia da folga chega. Apenas relaxe... Fazemos isso todos os dias.
Os olhos dourados do Monge diziam que era para o azulado não se preocupar demais com o que acontecia. O ruivo tinha percebido outra vez que ele estava perturbado, se bem que isso não era novidade.
–Está muito bravo ainda por causa da última vez? Desculpe. -o ruivo voltou a se desculpar pelos outros, mas isso não valia de nada quando eles não se arrependiam.
–Por favor, Jin. Você sabe como eu desprezo mentiras. -Ronan suspirou largando o ouriço dentro do saco sem o mínimo de cuidado. -Eu vacilei algumas vezes também, mas essa situação entre os membros não é saudável e não é bom para o nosso desempenho como guerreiros. Nossas próprias companheiras de equipe estão nos evitando.
O ruivo abaixou a cabeça timidamente.
–Eu sei. A Amy não fala mais comigo.
–Dio, Sieghart e Azin são os piores. Puxam o Lupus, você, o Ryan, o Zero e eu e fazem a festa depois que nos embebedam. Não gosto nem de imaginar o que aconteceu quando fiquei desacordado.
Jin sorriu levemente.
–Mas Ronan-,
–PERA AÍ! Você falou “mas”? -Ronan o fuzilou com os olhos. -Você é um monge ou não?!
–Tecnicamente eu só aperfeiçoei meu estilo. Eu nunca fui um monge, Ronan. Fala sério, as meninas têm que aceitar isso, Ronan!
–Azin roubou roupas delas e nos fizeram usar.
A sombra sobre o rosto de Ronan só dizia que não queria ouvir mais nada. Nada podia mudar sua opinião.
–E não é porque sou reservado. -Ronan continuou, rangendo os dentes de ódio. -É porque isso foi além do limite! Eles não vestiram, Jin! NÓS pagamos no fim.
O ruivo assentiu enquanto fechava o saco. Ele entendia melhor do que ninguém.
–Quando fui conversar com a Elesis, já que é a líder... -Jin segurou a voz um pouco, sentindo-se mal em contar algo desse porte. -... Ela disse que o problema maior não foi a festa. Não foi as roupas roubadas e nem a forma como “estávamos em cima do outro”... Mas o desrespeito com elas, com a base, com o nosso trabalho. Me senti realmente mal.
–Então? Vai participar de novo?
–Não. -Jin negou, fechando a expressão. -Eu falei para o Sieg que dessa vez não.
O ruivo olhou para o lado, parecendo incomodado com esse assunto.
Ronan não poderia fazer conclusões precipitadas, mas ele já tinha notado como Sieghart e Jin tinham adquirido uma relação mais forte ultimamente.
–Olha...
Ronan tentou obter calma, pensar mais racionalmente e tentar encarar tudo com maturidade. O que eles fizeram não foi diferente do que rapazes da idade deles faziam para se divertir.
–... Eu vou conversar com eles. Só preciso de ajuda. Ryan fugiu já e Lass com certeza já foi pego. Eles nunca deixam o Lass em paz né?
–Não. -Jin riu baixinho. -Mas se precisar de ajuda me avise. Eu acho que consigo falar com o Azin também. Vou levar os ouriços.
O ruivo deu as costas, saindo do quarto do Inquisidor.
O espelho que ficava na parede ao canto era largo. Nele Ronan conseguia ver sua figura médio arrumada, os cabelos novamente longos e seus olhos meio fundos por causa da noite mal dormida.
–Se pelo menos não tivesse os ouriços... -ele arrumou os cabelos no rabo de cavalo, tirando um pouco da roupa quente enquanto o sol começava a aparecer naquela manhã cheia de neblina.
O quarto de Ronan ficava do lado esquerdo da base, um dos primeiros. E por sua janela dava para ver o campo de treino improvisado, onde o solo era visível no meio da grama verdinha. Muito além dos muros conseguia ver as torres da Academia Violeta despontando com uma cor dourada, pois elas se iluminavam com a cor do sol quando o dia amanhecia para depois voltarem ao típico roxo claro e tons de amarelo e azul.
Ao pensar um pouco sobre o que deveria fazer agora, Ronan se dirigiu para fora do quarto, abrindo as janelas do segundo corredor no segundo andar, que era como uma varanda para o lado direito da base. A luz ia tomando conta de todo o local, evitando que a casa ficasse mofada.
Olhando para a área da lavanderia, Ronan viu Lass depositando umas roupas de molho e saindo com uns lençóis.
“O Lass está fazendo a parte dele.” -concluiu, imaginando que o imortal devia ter voltado para a cama como de costume.
–Ahh. -Ronan dobrou as mangas da blusa branca de botões e seguiu caminho para o quarto de Zero, onde bateu duas vezes.
O grisalho abriu a porta com lentidão, mas deu espaço e estendeu algo redondo e marrom.
–Isso estava na minha cama.
–Ah... -Ronan não teve tempo de reagir quando Zero colocou a coisa em suas mãos. Seus olhos encheram-se de lágrimas e a única coisa que ele fez foi jogar o ouriço pela janela. -... Zero, a próxima vez você joga na cara do Azin, certo?
–Certo.
–Você acha que essa festa devia se repetir? -perguntou, vendo o companheiro segurar a Grandark e praticar um golpe um segundo para colocá-la na cama depois.
–Foi interessante.
Era tão difícil falar com Zero... Ele normalmente não tinha senso de certo e errado. Provavelmente ele trocava informações somente com a espada de olho esquisito e após ser corrompido pelas mentes perversas de Sieghart, Dio e Azin, ele virou um alvo fácil.
–Interessante. -repetiu o azulado, abrindo as cortinas cinza e a janela, pegando os lençóis e as fronhas dos travesseiros. Hoje também era o dia de limpeza dele. -Mas você não respondeu a minha pergunta. Ela devia se repetir?
–Não. -Zero prontamente virou-se para o azulado, balançando a cabeça levemente. -A Comandante pareceu muito brava depois daquele dia. E eu queria ficar sozinho hoje.
“Ficar sozinho de novo você quer dizer.” Ronan pensou enquanto Zero tocava o cabo de Grandark.
–Completamente sozinho. Ryan me disse que não sabia para onde iria, mas ia sair em alguma exploração. E eu queria fazer algo parecido também. Vilas vizinhas estão fazendo competições interessantes esses dias, eu queria aproveitar e ir antes das missões em grupo continuarem.
“Eu vou ficar sozinho? Espera-,”
–Você vau levar a Grandark? Você disse que queria ficar sozinho... -Ronan ainda segurava os panos, apenas esperando a reposta para poder sair.
Zero mesmo por baixo da máscara pareceu tirar a expressão séria e se tornar transparente. A linha de sua boca havia ganhado um desvio para baixo e Ronan pôde deduzir no mesmo momento que ele estava no mínimo bravo.
–Grandark é idiota. Só vou voltar a empunhá-la quando começar a me respeitar. Por isso eu não vou levá-la.
Para o Inquisidor foi difícil entender aquilo, também porque o grisalho nunca havia mencionado se a espada realmente falava com ele. Mas isso agora foi só mais um indício de que sim, a espada falava com ele. Ou quem sabe Zero estivesse imaginando coisas.
–Hm. Só curiosidade... Alguém mais comentou de sair da base hoje?
Zero ajeitou os óculos amarelos e respirou.
Ele havia mudado muito dos tempos para cá, assumido uma posição mais imponente, decidia as coisas, comunicava-se melhor — mesmo que ainda tivesse que regularmente consultar as pessoas sobre sua fala antiquada. Ronan se orgulhava de fazer parte do grupo que o havia mudado, mesmo que o rapaz tivesse evoluído sozinho praticamente. O grisalho havia sido sem dúvidas um dos mais difíceis membros para se lidar, depois de Lass e Dio.
–Bem. Assim que você saiu da cozinha Sieghart ficou muito zangado e disse que ia matar alguém por aí, sozinho, e que voltava no mesmo dia em que as meninas. Ninguém o impediu.
Ronan mordeu o lábio por dentro, vendo mentalmente a cena que se protagonizaria quando Lothos soubesse desse novo escape do moreno.
Não era a primeira vez que Sieghart fugia. Não era a primeira vez que ele sumia do nada num dia qualquer e eles ficavam sabendo que um novo inimigo havia surgido. Um grande inimigo.
Apesar disso não fazer diferença no momento, Ronan sentiu-se intimidado com a ideia de ter Lupus, Dio, Azin, Jin e a si próprio na base.
Essa era uma combinação terrível. Nenhum, absolutamente nenhum deles... Gostava de trabalhar em equipe.
Ronan por si mesmo podia dizer: trabalhar com o Jin era o menos pior. Porém, suas técnicas eram de terreno, e Jin, quando tentaram uma vez, foi atingido muitas vezes. Ronan não podia lutar apenas com as lâminas, sua magia tinha que fazer sua atuação, era sua especialidade. Contudo, a proteção que podia oferecer aumentava em muito as habilidades de quem lutasse ao seu lado, isso ele podia garantir.
“Se bem que não estamos falando de combinação em batalhas, mas sim de permanecer na base.”
Ao contrário do que ele tinha pensado, agora revendo suas memórias, podia dizer que todos eram pessoas extremamente perversas, ousadas, gritantes... Mas misteriosas. Silenciosas e até... Tímidas.
Eles eram homens. Ronan sorria ao pensar nesse tipo de coisa. Homens que não se importam em estar com homens.
“Isso deveria ser o pior, mas não é.” O azulado se atreveu a explorar seus próprios pensamentos das possibilidades que ocorreriam nesse dia enquanto caminhava para fora do quarto de Zero, agradecendo a informação e desejando boa viagem para onde quer que fosse.
Ao sair no corredor viu-se de frente para o arrepiante Haros. Havia o mesmo olhar de desprezo e uma inexistência de movimento em seu rosto que Ronan podia jurar, aquele homem estava morto.
–Saia da frente. -falou rudemente, passando por Ronan quase que com brutalidade. Ele estava bravo não é?
–Aqui não é sua casa, Lupus. Tenha mais educação. -o azulado alfinetou enquanto continuava seu caminho após uma troca mortal de olhares afiados. Seus olhos azuis eram sérios e muito frios quando desejava. Seus olhos tinham visto coisas horríveis e ele arriscaria dizer que o Haros também, no entanto, este homem não se importava com nada e com ninguém, apenas consigo mesmo.
Não houve som de resmungo ou xingamento nenhum até que Ronan estivesse de frente para a escada. Um som rápido e supersônico atravessou o ar com tanta velocidade que ele não teria sido capaz de ver nunca a bala que fincou na parede, arrancando exatamente um fio azul de um perfeito um centímetro, caindo lentamente como se fosse uma pluma até alcançar a ponta de sua bota.
A raiva atravessou Ronan como nunca antes. Todos nesse lugar estavam contra ele, só podia ser. Ele só queria paz, mas agora o sangue do Haros poderia correr que ele ficaria bastante contente também.
Infelizmente Lupus já estava ao seu lado com um olhar direcionado ao fim da escada.
–Já pensou em relaxar, criança? -o moreno sibilou com sua voz grave e pesada, causando estremecimentos no azulado, como se um calafrio percorresse seu corpo dolorosamente lhe dizendo que a morte estava bem ali. Era muito gélido. -Pelo que sei é isso que os humanos normais fazem.
–Você não entende disso. Eu sou relaxado, mas com essas coisas eu me irrito facilmente... Por que são imperdoáveis. -Ronan juntou as sobrancelhas azuis, mostrando todo seu desgosto por estar tão perto da estranha criatura e por Lupus ter feito parte de uma brincadeira tão idiota. -Para você não deve fazer nenhuma diferença se as garotas falam ou não com você, se elas ficam irritadas ou chateadas. Não é por interesse ou qualquer coisa do gênero. É porque elas são nossas colegas de equipe e eu estou com elas há muito tempo para saber que confio tudo a elas.
–Então você é só mais um humano comum. -Lupus ignorou-o a partir daí, seguindo seu caminho. -Que seja.
–Você. -Ronan chamou-o, sem saber exatamente porque ainda se sentia como se a missão de transformar todos em companheiros de equipe não tivesse acabado. -Você não se importa com nada? Sua vida era tão monótona a ponto de não ter objetivo, amor ou companheirismo?
–Não é questão de monotonia. -Lupus virou-se para ele com sua inexpressiva face. Seu charmoso rosto já dizia o que viria a seguir. -É algo muito simples. Eu não preciso disso, eu não sou humano. Você só vai perder tempo tentando mudar minha opinião. O mesmo vale para os dois asmodianos atrevidos.
Lupus pareceu começar a se irritar com a conversa. Ele não conversava muito. E Ronan já sabia que essa seria a resposta.
–Mesmo sendo tão fortes vocês parecem animais pré-históricos que só vivem com propósitos básicos. Comer, beber, dormir e transar. A diversão de vocês é tão falsa que me dói ter que sempre me forçar a ficar ao lado.
–Ninguém pede sua presença. -foi a voz que soou desde o final da escada. Ali estava o novo intrometido, Dio.
Os olhos demoníacos pegaram rapidamente Lupus, que chasqueou a língua. Não se gostavam. Era uma coisa óbvia a atração sexual, mas certamente eles se odiavam. Agora o mesmo quase valia para Ronan.
–Ninguém pediu a sua também. -foi a resposta que Ronan deu. “Ele está querendo briga desde agora a pouco esse intrometido. E eu estou caindo na conversa aos poucos, isso é terrível até mesmo pra mim. Será que o Zero foi embora já?”
Ele desesperadamente não queria ficar sozinho.
Dio não ligou e caminhou alguns passos até parar na frente dos dois. Lupus estava um degrau abaixo apenas do de Ronan, então a distância não era tão grande.
–Você. -Dio olhou para o Haros com ódio. -Vai vazar ou eu posso te bater até você desaparecer?
O moreno apertou os olhos. Apertou-os somente um pouco, como quando ele quase saía do controle e aniquilava todos à volta apenas com um golpe.
–Você sabe que não tem chance. Mas eu não sou patético como vocês. -Lupus olhou de canto para Ronan.
O homem de 21 anos nunca tinha percebido, mas ele era muito mais baixo que esses dois. Isso era tão estranho visto que ele era só um pouco mais alto que Sieghart e bem mais do que os outros membros...
–Eu o dobraria facilmente. -Lupus continuou, falou ameaçadoramente para o asmodiano. -Você não vale minhas balas ou sequer minha atenção.
“De repente eles me esqueceram?” Ronan até tinha esquecido as roupas nas mãos.
–Então não se dê o trabalho de dizer, gatinho. Eu não sinto medo. -Dio em seguida olhou para o azulado. -E você estragou nossos planos. Você tem contas a pagar.
“Tarde demais...”
A mão em seu colarinho o puxou com brusquidão e Ronan teria se defendido, ele não era um civil, era um ex-Guarda Real e membro da Elite. Se afastar não era problema, o problema real estava na forma como o asmodiano insistia em fazê-lo andar. Não era brusco de todo, mas não passava do seu perímetro.
Lupus virou o rosto e seguiu por outro caminho, desaparecendo com aquela técnica que o deixava confuso, como um teleporte que fazia seu corpo desaparecer numa sombra negra.
–Espera, onde o Azin- Me solte! -Ronan segurou a forte mão e o tirou de sua gola. Aquele homem inconsequente o fazia ficar fora de si. Era tão rude! -Você é louco? Segurando os outros assim...
O azulado desfez o primeiro botão, sentindo que o puxão causou uma irritação em sua pele. Não doía, mas isso era incômodo.
–Pode me explicar porque estava me puxando assim? -Ronan apertou as roupas de cama em seus braços, mal se lembrando que pertenceram à cama de Zero. O Inquisidor precisava de um apoio, ou socaria o asmodiano, ele não estava muito bem hoje ou com paciência com alguém como Dio.
O Asmodeus continuava com aquele cabelo mediano e os olhos ainda mais selvagens do que antes. Essa manhã ele havia já acordado com o mau humor além do nível normal, usava uma regata verde-musgo e uma calça preta, e os pés descalços. Seus dentes caninos repuxavam os lábios e o barulho da língua chasqueando era constante.
Ele estava verdadeiramente irritado.
–O pirralho saiu junto com o Cabeça de Fogo assim que eu os afugentei. -Dio rosnou para ele como se pensasse que pudesse botar medo. Talvez um pouco.
–Hm. E por que fez isso? -o tom lento de Ronan e seu cuidado psicológico com Dio soavam em sua voz quase ironicamente, o que deixava o asmodiano ainda mais zangado.
Se colocando ereto, notando que estava cara a cara com o líder temporário da base, Dio ia retomar, mas olhou para trás, vendo como Zero passava pela porta, sem ligar para a tensão entre os dois.
–Estamos sozinhos? Ninguém vai ficar na base? -Ronan se perguntou outra vez. Jin e Azin aparentemente foram “afugentados” e os outros foram arranjar o que fazer.
–Eles querem ter um tempo longe uns dos outros. Ninguém está feliz com o que aconteceu, idiota. -Dio apertou os olhos. -Somente Sieghart queria novamente essa festa. Mas todos estão saindo e ele foi para algum lugar que não sabemos. O Lupus não se importa com isso. E eu não estou disposto a sair para encontrar uma presa fácil.
–Presa. -Ronan repetiu arqueando uma sobrancelha e apertando os dedos nas roupas. -Certo. Você então vai ficar aqui? Posso perguntar o porquê, exatamente?
Dio pareceu não gostar de ter que repetir a frase, então a concluiu com uma frase extensa e sem entrelinhas. Ronan era do tipo intelecto, precisava elaborar para fazê-lo entender tudo.
–Eu e você vamos ficar aqui. Por que todos estão muito ocupados com seus conflitos pessoais para abrirem as pernas hoje. Só que você é um humano entediante e inacessível. Você não aceita seu corpo e suas necessidades. Isso me irrita. E isso vai mudar hoje.
Ronan arregalou os olhos quando se deu conta do que ouvia. Ele não poderia fazer nada contra aquela garra impiedosa que segurou seu pulso e ameaçava perfurá-lo se não o obedecesse.
–Você é só um tarado, eu já sabia. -Ronan fez uma magia rápida que fez os dedos da garra congelarem momentaneamente, mas Dio não pareceu se incomodar com aquilo.
–Está confiante, Erudon? -Dio sorriu lascivamente de ponta a ponta. Ele finalmente poderia saborear um novo prato.
“Eu estive sendo um idiota.” Pensava Ronan, se afastando do asmodiano. Agora sim ele tinha um problema: uma criatura demoníaca louca que buscava sexo com um parceiro novo e provavelmente virgem, que tinha surtos de dominação, e obsessão pelo controle psicológico do parceiro. Um tarado sádico. “Acho que eu devia ter percebido como ele estava impaciente para me irritar. Ele viu que eu não perco a calma fácil.”
–Eu acho que você é doido. -Ronan resmungou de volta. -Te aconselho a me deixar em paz. Vá trepar com qualquer puta de esquina, mas fique longe de mim.
O azulado se virou, apenas para sentir quando estava se encaminhando para a lavanderia a forte mão o segurando tão forte e repentinamente que seu corpo todo moveu-se por dentro, vendo a casa girar e seu torso bater de frente com o rígido e másculo.
As mãos do asmodiano o agarraram no rosto e foi com uma violência quente e sedenta que seus lábios foram devorados antes dele sequer se localizar no peito do mais velho.
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Os primeiros milésimos de segundos foram entorpecidos, embaçando sua visão e permitindo somente seu cérebro anotar a sensação da umidade excessiva e o calor envolvendo o corpo. Havia movimentação de lábios deliciosamente grossos, e uma língua quente e impaciente tentando forçar por entre seus dentes.
Depois desses meros instantes foi quando o azulado voltou a si e reagiu com um forte punho e bem concentrado de mana até o queixo do asmodiano.
Foi um gancho de esquerda esplêndido.
O maior se afastou alguns passos após o golpe, tocando o queixo, onde havia uma marca vermelha desenhando o soco do Erudon.
–Você sabe que isso não é suficiente para me parar, Ronan. -Dio resmungou, franzindo as sobrancelhas irritadamente, levantando o olhar para Ronan. O azulado o fitava com estranheza, um olhar de acusação e um aviso para não chegar perto novamente.
Não precisou dizer nada, o Inquisidor já estava de saída, recolhendo as roupas que haviam escapado de seus braços, e atravessou o corredor ao lado das escadas que levaria até a lavanderia. Se desse sorte, poderia encontrar Lass ainda por lá. Pelo menos com ele não haveria risco de ser assediado.
“Maluco.” Ronan mordeu o lábio, apertando as sobrancelhas e seguindo impaciente até finalmente estar empurrando as roupas, de forma pouco cuidadosa — ao contrário do normal — para dentro da máquina de lavar. “Como ele tem essa cara de pau?!”
O Ex-Guarda Real não sabia o que pensar inicialmente. Primeiro Dio o insultava, armava brincadeiras idiotas, o provocava e de repente aparece e... O BEIJA.
Ronan teve que passar a mão pelo rosto para afastar o suor. Coisas que não têm lógica eram para ele muito difíceis de lidar, inclusive outras pessoas, as quais muitas vezes não são o que se espera.
Enquanto pensava, seu dedo foi automaticamente para a função de centrifugar assim que as outras etapas foram concluídas. Estava tão cedo e mesmo assim ele parecia já ter tido um dia inteiro de batalhas.
“Ugh... Estou ficando mole. Preciso treinar.” Ronan levou a mão até as franjas separadas, piscando os olhos na intenção de se concentrar, para então se dirigir para qualquer lugar antes do asmodiano vir atrás.
Sua caminhada parou lá pela varanda lateral, que era aberta para o campo de treinamento, permitindo que outras pessoas pudessem se sentar ali e ficar observando embaixo da cobertura. Lass estava lá, treinando sua concentração de um jeito incomum. Mais precisamente, como Jin treinava.
“Ah, é mesmo... Eles estão fazendo treinos em duplas e adotando novos métodos de treino para poderem lutar melhor em equipe. Lass fez par com Jin especialmente porque ele é ruim com luta conjunta, e Jin já é acostumado desde sempre.” Ronan pensava ao que ia se aproximando, não sendo discreto especialmente para não ter uma shuriken na testa. Lass não era o tipo de pessoa em que se pode confiar ou baixar guarda em nenhuma circunstância; e por mais que ele soubesse quem se aproximava, ele sempre testava a pessoa, atirando nela, não tendo piedade nem quando eram as meninas.
–Ronan. -Lass estava de olhos fechados, mas sussurrou. -Já notou que a base está praticamente vazia?
–Hm. -o rapaz suspirou. -Já. E você vai ficar ou planeja fazer algum treinamento?
–Vou sair daqui umas horas. Arme me pediu antes de sair que, já que sabia que os caras iam fazer alguma brincadeira comigo, ela me arranjou uma missão individual. Vou fazer uns serviços na Academia Violeta e ajudar com umas preparações para o Festival de Magia de final de ano. -Lass explicou, abrindo os olhos azuis escuros, e continuou. -Sinto muito te deixar sozinho aqui com o Dio. Mas ele está um pouco irritado por todos terem decidido sair esses dias. Sabe, se eu fosse você, tomaria cuidado extra. A energia dele está quase descontrolada, e você sabe o que acontece quando ele fica... “impaciente”.
Ronan assentiu com a cabeça, inspirando ar. O sol realmente tinha começado a subir e prometia um dia quente.
–Lass, como as meninas estão agindo com você depois daquela festa? -Ronan coçou a nuca, arrumando ligeiramente os fios azuis. Ele sabia que estava atrapalhando o treino do albino, mas ele simplesmente não achava forças pra sair dali pensando que ia dar de cara com Dio outra vez.
O rapaz piscou os olhos.
–Elas continuam falando comigo, mas nada além do necessário. E elas normalmente pedem também que eu transmita os recados delas pra vocês, você não notou?
–Ah. É por isso que tive a impressão de você estar falando mais com todos ultimamente. -Ronan sorriu amarelo, se xingando por não ter percebido isso. -De qualquer forma, se você vai sair a noite, você não gostaria de treinar comigo até lá?
–Hee? Não posso. Tenho que fazer minhas refeições para hoje e amanhã.
–Hm? Aquelas comidas frias que você chama de obento?
–Isso. Você vai usar a cozinha? -Lass indagou, lembrando-se que Ronan usava a cozinha quase todo o momento quando não estava limpando ou se reunindo com outros líderes, indo a compromissos da Elite com Elesis e também reportando missões quase diariamente.
–Eu não tenho muitos companheiros hoje pro jantar, então o máximo que vou fazer vai ser um lanche. Ei, posso ver como você faz? Só para aprender. Eu achei sua culinária muito boa. -Ronan adicionou com um sorriso simpático, se dando um troféu pela brilhante ideia. Ele não queria somente se livrar de Dio como também queria há bastante tempo uma oportunidade para pegar a técnica dos hashis.
Lass não teve outra opção, não tendo nenhum motivo para negar uma vez que Ryan não estava, e eles poderiam cozinhar em paz sem interrupções. O albino assentiu, só pedindo então para terminar seu treinamento.
–Jin me disse que eu tinha que levar a meditação a sério. Eu não tenho outra escolha, não é? -Lass perguntou, voltando a cruzar as pernas e pousar as mãos no colo com os nós dos dedos encostados e as mãos viradas para cima.
Quando o menor pegou concentração, Ronan saiu, desta vez silenciosamente, planejando terminar suas obrigações antes de poder começar o trabalho de escritório e estudar os mapas para as batalhas.
Ele estava também se organizando para uma futura viagem de treinamento para o Hiaund (uma serra de gelo onde vivem os dragões e onde Ronan conseguiu o Guardião de Canaban — isso foi invenção minha na fic Mithica). Para isso ele precisaria deixar tudo no lugar e, finalmente, em um mês ele estaria dando um tempo para explorar novamente suas habilidades de Draconiano.
–Hm. Como é, Ronan?
A voz tinha vindo da pessoa encostada na porta dos fundos. Ronan até então não havia visto, mas Dio estava ali, de braços cruzados e parecendo só esperar que ele “cedesse”.
–O que você quer, Dio?! Eu não gostei do que fez. Não me interessa suas “necessidades”, eu não tenho obrigação de dar conta disso. -Ronan fechou a expressão, contando raízes e porcentagens em sua mente para não perder a linha, sua tão perfeita linha.
O asmodiano se desencostou, quase bufando.
–Eu realmente não gosto de você. Sem sal.
O azulado ficou vermelho no mesmo instante. De raiva.
–Eu muito menos. E se eu sou tão sem sal pra você, porque veio pra cima de mim? -Ronan apertou o pé no chão, sentindo sua mana começar a borbulhar e a bota começar a arrastar no chão bem devagar, quase como se estivesse se segurando para não chutar o mais velho.
Dio riu de canto.
–Ingênuo. -ele mostrou a língua em um sorriso lascivo. Era uma cor vermelha muito forte, e que em conjunto com os grossos lábios úmidos e os branquíssimos e pontiagudos dentes, formava uma boca selvagem e expressando fome constante. Era incrivelmente animalesco e ao mesmo tempo excitante.
O azulado segurou o ar dentro do corpo apenas para se concentrar no que era importante: dar um pé no asmodiano pra ele aprender uma lição.
–O que quer dizer com ingênuo? -apertou os olhos, ignorando a boca e focando nos afilados olhos roxos.
–Você é muito certinho. Não é liberal. Não gosta de beber. E está negando a se deitar comigo. Só por isso. -Dio se aproximou um pouco, para se inclinar e quase beijar o azulado de novo se ele não fosse impedido pela mão enluvada do Inquisidor.
Ronan fechou os olhos pacientemente e empurrou-o.
–Não é por querer que sou ingênuo. Mas isso não te diz respeito. Que tal se você deixar essa pretensão inútil de lado e me deixar em paz? -Ronan avançou pelo lado direito, na intenção de passar pelo asmodiano, mas Dio o cercou.
O bloqueio foi de corpo inteiro e, olhando no mesmo nível plano, diferente de quando estavam nas escadas, Ronan percebeu que seu cálculo de altura podia estar errado. Dio parecia ficar ainda mais alto quando se estava cara a cara com ele, e para complicar, a sombra que ele fazia lhe dava um ar sombrio muito assustador.
Dio não se moveu um milímetro com o olhar ameaçador do Erudon. Ele não tinha planos de desistir até que o azulado se rendesse. Hoje o asmodiano estava especialmente irritado, sem contar que já fazia uns bons dias que não se deitava com ninguém. A necessidade estava martelando em seu cérebro, e suas opções foram completamente tiradas. Ronan, quem ele menos queria ter que se envolver um dia, era o único que havia restado, pois Lass já tinha garantido que não seria mais pego hoje.
–Saia. -Ronan apertou a expressão, deixando claro que se não saísse naquele instante, sangue ia correr. O azulado já estava nervoso o suficiente depois daquele beijo mal intencionado.
O contato foi quente. Dio era por si só uma pessoa quente, era visível para todos.
Ele não era sobre todo mal, não fazia coisas com um objetivo especificamente ruim e com intenção de ferir as pessoas. Seu único defeito era a insistência e a arrogância, o que para ele era o mesmo que motivo de orgulho.
“Me meti em um grande problema.” Ronan concluía consigo mesmo, já avançando, pronto para socar o asmodiano em resposta à negação que este fez com a cabeça em meio a um sorriso pretensioso.
Dio não teve nenhum problema em segurar o braço do azulado e o empurrar contra a parede. Sabia que o Erudon era um lutador também, mas ele não poderia reagir tão facilmente quando sua força asmodiana podia sobrepor a pressão do ar e fazer humanos perderem a consciência.
Era pura brutalidade, mas sendo ela controlada, Dio conseguiria manipulá-lo como bem quisesse.
–Me deixe. -Ronan sentia seu rosto contra a superfície de madeira daquele corredor e forçou sua voz a sair, mesmo quando sua garganta estava sendo pressionada e o corpo de Dio encostado ao seu. A garra estendia-se na parede, ao lado de seu rosto, mostrando que se ele se movesse... Alguma parte de seu rosto iria ser arranhada.
–Você não vai nem ao menos me dizer o motivo da sua resistência? -Dio sibilou fortemente, quase como se tivesse perdido um título, ou sido desonrado por negligência.
Certo que para ele, que era um Asmodeus, e considerando que a raça dele era bem complicada, deveria ser uma extrema vergonha não conseguir “seduzir um reles humano”. Bem resumidamente, ele deveria sentir como um tapa na cara a vergonha de não poder convencer Ronan por nenhum método existente.
–Hnf, que inconveniente você, Dio. -Ronan virou o rosto apenas para olhá-lo por cima do ombro, tentando passar seu desconforto com essa posição constrangedora em que estavam. -Eu não tenho obrigação de te dizer. Mas você tem a obrigação de me largar e se resignar com a minha decisão. Não é por que você não me atrai, é porque eu sou seletivo.
O asmodiano contorceu o rosto de uma forma brusca, que quase chegou a fazer o Inquisidor pensar melhor antes de explicar. Dio tinha uma carranca feia, mostrando toda sua indignação ao ouvir “eu sou seletivo”.
–Continua tendo algum problema comigo. Você é racista? -Dio perguntou quase rangendo os dentes, e soltando Ronan para que ele se postasse melhor.
O azulado arfou baixo ao sentir os pulmões receberem ar melhor. Arrumando os fios azuis em seu rosto, ele continuou.
–Não tem nada a ver com racismo. Eu só não gosto de como você trata os outros. E eu também prefiro envolver os parceiros, Dio. Não acho que nós dois... Combinamos.
O asmodiano arqueou uma sobrancelha, entreabrindo os lábios. Pensou um segundo e tentou fazer a cena em sua mente.
Bem, primeiro ele não imaginava que Ronan seria o tipo que falaria abertamente sobre sexo, mas veja, eles estavam sozinhos, então era algo relativamente possível.
Segundo, ele também não esperava que o problema real estivesse na dignidade de Ronan. O Inquisidor era uma pessoa seletiva porque ele provavelmente não gostava de ser passivo, então ele deveria preferir... Garotos.
“Que pedófilo.” Dio riu em sua mente.
–Eu não vou negar que os tipinhos frágeis são mais interessantes, mas você não pode negar desse jeito sem ao menos conhecer. -Dio apelou, cruzando os braços, se sentindo frustrado por pensar que Ronan não era ingênuo.
“Esse idiota continua sendo um novato nessa área. Ele não explora pelas possibilidades, ele fica na mesma e por isso é esse chato.” Dio pensava, imaginando se seria mais fácil agora convencê-lo.
–Eu que decido isso. Agora você podia me deixar ir, eu tenho mais o que fazer.
Ronan arrumou a camisa e ia dobrando as mangas, já dando indicação que ia fazer alguma limpeza ou comida, quando o mais velho segurou seu braço firmemente, parando seu ato.
–O quê? -Ronan perguntou com expressão fastidiosa, mostrando não estar mais pra conversa.
–Quer sair pra jantar comigo?
O azulado arregalou os olhos. Nesse momento seu corpo estremeceu, seu rosto esquentou rapidamente e ele só pôde desviar os olhos, sendo pego de surpresa.
“Na mosca.” Dio sorriu internamente, deixando em sua expressão um rosto pacífico. Ele teria que ir conforme a onda, ser respeitoso e como nunca tinha feito antes na vida... Conquistar o Erudon.
“Por algum motivo acredito que vai valer a pena.” Pensou, soltando o azulado.
–Então? -Dio esperou a resposta.
Ronan suspirou, coçando a testa, parecendo nervoso.
Pessoas como ele eram assim, com esses costumes antigos e formalidades que os jovens atuais não se importam mais. Dio percebeu uns segundos depois que coisas como jantares e demonstrações de afeto carinhosas eram mais válidas para Ronan do que assédios e piscadelas sensuais.
–Não... Eu planejava ficar na base no caso de alguém-,
–Você pode reconsiderar isso se eu prometer não te abordar mais?
O azulado se postou sério. Ele não iria por que era uma vantagem se livrar de Dio, mas sim por causa do pedido. Ele não imaginava um dia fazer um asmodiano, o Dio, se “rebaixar” a ponto de levar as coisas com calma.
“Dio não se arrasta pra ninguém.” Foi isso que Ronan pensou. Não era como se ele estivesse se arrastando, mas ceder a esse ponto, segurar seus instintos e pedir uma chance, Ronan não esperava nunca isso por parte de Dio, que se dizia príncipe e não obedecia ninguém.
–Eu vou pensar. Até as cinco eu já terei uma resposta. -Ronan cruzou os braços, olhando para o corredor.
Dio sorriu satisfeito. Ele já sabia que Ronan iria.
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Ronan prendeu o cabelo mais alto e passou as franjas para trás, para poder cortar os legumes sem nada atrapalhando. Lass estava ao seu lado, movendo a carne na panela.
–Então depois de cozinhar se fatia em tiras. Não se salga, você só tempera depois com molho. -explicava o ninja e Ronan assentia.
Lass também estava com o cabelo amarrado em um minúsculo rabinho, e a franja estava dividida, permitindo ver sua testa. Seus olhos azuis brilhantes ficavam destacados e a seriedade passava um pouco.
–Você acha que tem algum problema eu deixar a base sozinha, Lass? -Ronan perguntou, terminando as cenouras e os nabos.
Seria mentira dizer que não estava preocupado. Ele tinha inicialmente a responsabilidade de tomar conta da base, mas uma vez que nenhum dos membros estaria presente, ele não tinha obrigação de ficar, especialmente quando ele supostamente só iria a um jantar.
“Uhg, só de pensar é estranho... Jantar com o Dio. Ele não tem cara de ser cavalheiro, ele parece mais um garanhão de boate.” Ronan se decepcionava ao se colocar do lado de Dio em sua mente, vendo a diferença de aparência. No entanto, Dio era tão atraente, do seu jeito, que eles juntos pareceriam apenas amigos. Por exemplo, não havia como alguém pensar que eles estavam tendo um “encontro” quando era Ronan Erudon e Dio Burning Canyon juntos. Realmente, não tinha como ter uma ideia errada sobre os dois.
–Não tem problema dependendo de quando você vai chegar. De repente alguém pode decidir voltar e você não vai estar aqui. -o ninja falou, olhando ainda seu trabalho com a carne, fatias perfeitas e no mesmo tamanho. -Ah, não sei quanto a sua habilidade pra fatiar carnes, mas se você quiser fazer por si mesmo, elas têm que ficar desse tamanho.
–Entendo. -Ronan o observou um instante, lembrando-se do aviso. -Eu vou voltar de noite ainda.
–Então tudo bem. E posso perguntar o que você vai fazer? Pensei que você ia ficar e comer por aqui. Não acredito que ficou com preguiça.
O azulado riu brevemente. O motivo era mais ou menos esse.
–Além de outras coisas, eu não consigo mais comer minha própria comida. Estou ficando esgotado, todos os dias sou eu que cozinho. Ninguém está tendo tempo e estão muito concentrados nos próprios treinamentos. Eu só vou treinar agora quando viajar para o Hiaund, então até lá eu pensei em cuidar das coisas por aqui. Só que eu não estou aguentando, quando comemos a própria comida é tão estranho...
–Hm, entendo. -Lass deixou as carnes e foi até a geladeira, pegando um recipiente com um molho escuro. -Use isso aqui.
–Ah, certo. -Ronan o pegou e juntou com os legumes e a carne na frigideira, começando a fritura.
–Ronan, o Dio vai sair com você? -o albino arqueou a sobrancelha, como que desconfiado.
O azulado o olhou de canto, assentiu com a cabeça e perguntou.
–O que você pensa disso?
–Diferente. -Lass deu de ombros. -Dio sempre sai com o Sieghart ou com o Lupus... Raramente eu o vejo com os outros. Por que você aceitou?
–Por que ele é insistente. Está me irritando, então eu aceitei. -Ronan suspirou pesadamente. Ele não ficaria muito a vontade em falar com Lass sobre o que Dio e ele conversaram, então o melhor era pular partes. Como esperado, o ninja não deu atenção demais ao assunto, visto que já sabia que a decisão já tinha sido tomada, e ele não poderia mudar nada enfim.
–Hm, então, assim está bom. É só colocar nas marmitas agora.
–Oh, obrigado por me ensinar, Lass!
–Não tem de quê. E boa sorte no seu encontro.
–N-Não é um encontro!
–Sei.
A conversa não demorou muito, Lass só tinha terminado de dar as últimas instruções e as últimas dicas sobre o uso de hashis na hora de comer e na hora de cozinhar quando a figura de Dio se encostou no batente da porta, mãos nos bolsos.
O asmodiano estava normal, sem parecer exigir nada com sua expressão. Vestia calças de sarja marrons, uma camisa branca por baixo do casaco simples liso preto, sem bolsos ou linha, de botões. Algumas mechas roxas caíam por cima de seus ombros e estava usando algum dispositivo para esconder a garra e os chifres.
–Dio-,
–Estou esperando sua resposta. -o asmodiano explicou, se desencostando, olhando melhor os dois na frente da pia.
Ele mentiria se dissesse que não era uma boa cena. Ronan e Lass com aventais, os cabelos presos, as frontes livres e as mangas dobradas, pareciam mesmo cozinheiro, mas o mais curioso era estarem tão bonitos.
–Ah, vejo que você já se arrumou. -Ronan comentou, pegando um pano de prato e secando as mãos.
–Eu estou pronto pra sair, Ronan. Por que você não deixa na base uma mensagem no caso de alguém chegar antes? -Lass desatou o laço de fita em seu cabelo e deixou o penteado normal tomar forma sozinho.
–Boa ideia. Você espera eu me trocar? -Ronan fitou o asmodiano, esperando encontrar uma cara de insatisfação, mas vá lá, ele tinha dito que ia “ter uma resposta”, e não que ele ia sair às cinco horas.
–Eu ia avisar que nosso horário é daqui à uma hora. -o Asmodeus sorriu, balançando a mão, indicando que Ronan não precisava se apressar.
–Hnf. Certo. -Ronan terminou de guardar as coisas enquanto Lass deixava o avental e colocava uma das marmitas numa mochila, embrulhado em um pano.
–Vou indo. Boa noite pra vocês. -Lass fez um aceno com a cabeça, como de costume, e se retirou sem pressa, passando por Dio, pela sala e saindo da casa.
O som da porta findou e assim aquele lugar se tornou silencioso. Dio piscou uma vez ao ver Ronan tirando o avental e guardando.
–Só vou me trocar. Podemos ir a algum lugar antes. -falou ele, deixando o asmodiano surpreso.
–Hm, e onde seria? Você não tem cara de quem gosta de sair.
Ronan sorriu levemente, passando pelo asmodiano e se dirigindo para seu quarto. Felizmente, ele nunca precisava se preocupar por roupas formais uma vez que as roupas sociais compunham praticamente seu vestuário inteiro.
–Pode ser uma caminhada. Não acho que onde eu quero ir seja um lugar que você queira ir.
–Acho que eu concordo. -riu o arroxeado. -Mas se quiser arriscar...
Até então eles já tinham subido as escadas e o azulado adentrou seu quarto, indo direto ao guarda-roupa. Foi suficiente uma olhada e o azulado escolheu sua roupa.
O paletó era azul-índigo, tão escuro que quase se confundia com preto, as calças eram de sarja, preta, a blusa por baixo era de botões preta de tecido leve pelo calor.
–Boa escolha, eu nunca te vi de preto. -Dio sibilou, curioso para ver como o outro ficaria.
–Só espere. -Ronan se moveu para o banheiro, se arrumando bem rápido até.
Cerca de dois minutos, Ronan saía, só arrumando o cabelo devidamente e ajeitando o paletó, abotoando até faltar dois botões.
–Está bom? No fim, eu me baseei no que você vestiu. Não sei pra onde vamos. -Ronan caminhou até a escrivaninha, pegando papel e caneta, escrevendo a mensagem e se virando pra sair.
–Sim, está bom. É um restaurante, sinceramente eu não gosto muito, mas já que você prefere.
–Estranho ouvir você falar assim depois de quando me chamou de sem sal. Posso dizer que você é louco? Xingando os outros e depois os convidando para jantares.
O asmodiano seguia o azulado em direção à sala, onde ele deixaria a mensagem, e já saíam quando ouviu isso e riu.
–Eu sou meio louco mesmo. Mas eu não convido as pessoas para jantar. Só achei que um jantar era o que você escolheria. -Dio explicou, vendo Ronan trancando a casa e postando-se ao seu lado.
O rapaz menor ignorou a resposta, olhando o céu. Estava muito claro ainda, mas ele sabia que em menos de uma hora e a cor escura da noite ia cobrir tudo. Ronan sabia também que estava pisando em um terreno perigoso, aceitando propostas de alguém como Dio. Sabia que o beijo não tinha nenhum significado, mas que era bom e não havia ameaça real em retribuí-lo.
Essa era uma das verdades que o fizeram aceitar o jantar, ainda que a lógica de Dio sobre seus gostos tenha sido correta e que o tenha irritado um pouco. Ronan parecia previsível dessa forma. Antes ele não consideraria suas atitudes transparentes. O fato de Dio lê-lo facilmente era quase como uma fatalidade.
–É, vamos andar. Tudo bem pra você? A Calçada do centro de Serdin parece estar tendo uns festejos de comemoração à chegada do fim do ano. -Dio chamou sua atenção, colocando-se bem ao lado do azulado, como que invadindo seu espaço pessoal. Ele sinceramente não era capaz de se controlar tão bem, e as coisas estavam se tornando interessantes.
Ronan apenas assentiu, deixando-se levar pela onda divertida do asmodiano. Ele não teve muitas chances de ver como Dio apreciava a vida natural e essa era, com toda a certeza, uma pessoa diferente de quando estava com todos os membros da Grande Caçada por perto.
As lamparinas da cidade estavam novamente acesas.
A quantidade de pessoas que iam e vinham não era possível contar, mas a atmosfera livre de intenções ruins e cansaço extremo do dia a dia não existia essa noite.
Havia aromas de todos os tipos, pessoas estrangeiras e viajantes, pessoas de outras vilas. Os festejos eram simples, mas as apresentações em meio ao público eram lindas, assim como os fogos em época adiantada. Celebravam nesse mês inteiro um próspero ano que vem.
Todas as noites as pessoas acendiam as lamparinas espalhadas pela cidade, escreviam suas intenções e desejos para o ano seguinte, e rezavam nos templos, faziam visitas à Rainha e seguiam em frente, festejando ou voltando de onde vieram.
Ronan e Dio observavam tudo isso pacificamente, atravessando a multidão com cuidado. Os dois passaram e ao final se entreolharam. Já havia se passado quase uma hora.
–Vamos então? -Dio lhe apontou um caminho. -É por aqui.
Ronan seguiu ao seu lado, sentindo vários olhares ao entrarem nas típicas ruas de comércio de classe A. Ele imaginava o porquê disso.
O restaurante era o que ele chamaria de elegante. Não era luxo puro, era apenas confortável e familiar. Ali não deveria ser um lugar onde se janta para arrumar um parceiro para uma noite quente de sexo, o que normalmente deveria acontecer somente em bares.
Ali parecia ser o típico restaurante aonde casais vão para comemorar aniversários ou simplesmente agradar um ao outro.
Dio lhe deu passagem e eles foram conduzidos até uma mesa, fazendo os pedidos de pronto.
–Eu realmente achei que você fosse fazer alguma pegadinha comigo. Eu ainda não me esqueci da festa, eu ainda guardo aquilo comigo. Não pense que com o jantar eu vou perdoar algum de vocês. -Ronan começava, sentindo o silêncio pairar tão pesadamente que ele mesmo se sentiu desconfortável, no entanto, ele não pretendia ser gentil.
–Hm, como eu disse, o jantar é apenas o que você está me dando em troca para que eu não te perturbe mais. Não é assim? A nossa festa é outro assunto. -sorriu o asmodiano, passando a mão na franja.
“Ele fica tão diferente sem os chifres...”
–Eu sei. -Dio falou, passando a mão pelo rosto onde tinha um dos chifres.
–Pare de ler a mente dos outros. Eu já entendi porque você decidiu um jantar, mas espero que seja só isso.
–É só um jantar. O seu. O meu vem depois. -Dio colocou os cotovelos na mesa, vendo o garçom se aproximar com champanhe.
Ronan estreitou os olhos, sentindo alerta de perigo. Dio tinha intenções nada castas para depois do jantar e ele não estava disposto a cair nas brincadeiras dele.
–Sinto muito, eu só estou disponível para um jantar e que será só esse. -Ronan pegou sua taça e bebericou. Ele não era fraco com bebida, não tinha porque ter medo.
1 hora depois...
–E então? Já está satisfeito? -Dio sorriu, quase rindo ao ver o rosto vermelho do azulado.
Ronan jurava que Dio ia tentar alguma coisa o jantar inteiro. Para sua surpresa, seu nervosismo foi em vão e sua irritação constante foi motivo para Dio ficar rindo. Esse maldito no mínimo estava brincando com ele, fingindo não fazer nada pra atacar depois.
–Sim. Podemos ir? -Ronan cruzou os braços.
Os únicos acontecimentos durante aquele jantar foram as conversas em relação a missões e vida em grupo, sobre os treinamentos dos membros da Elite e sobre as possíveis viagens que iriam realizar.
Dio mantinha um olhar pacífico e que combinava muito pouco com ele. Ronan até preferiu assim, mesmo que soubesse o verdadeiro motivo de tanto esforço. Aqueles olhos malignos eram tão atraentes quanto uma ametista¹ amaldiçoada.
–Claro. -Dio fechou os olhos brevemente, uma ação que soou ao azulado muito sensual e maduro — o que Dio não era nada — e aproveitou o garçom próximo para anuncia o fim do jantar.
Os pratos onde haviam estado bifes, saladas, peixes e massas já tinham sido retirados um tempo antes e, quando os dois se levantaram, arrumando com gestos polidos os ternos, o garçom agradeceu e o porteiro desejou uma boa noite.
Dio parou no meio-fio, pondo as mãos nos bolsos e olhando discretamente para seu acompanhante, que manteve o olhar nas luzes das lamparinas e depois ao redor, somente depois para o asmodiano.
–Sim?
–Você é bem durão, Rabo de Cavalo.
Ronan franziu a testa um pouco. Ele não diria nada que pudesse comprometer sua decisão, que era impedir o mais velho de tocá-lo novamente. Sinceramente não queria sentir as mãos o prendendo e o dominando como se fosse uma bonequinha.
–Eu sou homem. -Ronan retrucou, voltando a caminhar. -Se importa se voltarmos para a base?
O arroxeado pareceu tê-lo ignorado, pois ficou observando dali daquela calçada adornada de moitas de plantas florescentes o vasto espaço em sua visão, e colocava um sorriso presunçoso no rosto, bem aquele que odiava.
–Conheci muitos homens. -Dio começou, fechando os olhos e deixando-se a fresca brisa, como se estivesse relembrando uma época distante.
–Imagino. -Ronan colocou as mãos nos bolsos, ficando observando. Desde que a distância fosse segura, ele não se importaria de ficar conversando com o asmodiano. Dio não era exatamente um insuportável o tempo todo quando falava de coisas importantes. Era valoroso com coisas do gênero, como a guerra e com as mortes que estiveram em suas mãos.
Honorável. Era a palavra que Ronan guardava para alguém como o Dio.
Alguém que era um cretino a maior parte do tempo e não falava sobre si mesmo normalmente era porque tinha algo de esconder. Normalmente porque era um passado triste. Uma época que não gostaria de reviver na mente.
Era assim até mesmo com Sieghart. E deveria ser por isso que os dois viviam como dois cães, brigando, mas sempre junto com o outro. “Pra não se sentir solitário durante a eternidade...” Ronan olhou para a rua, com olhos baixos.
–Mas nunca conheci um homem como você. -Dio o olhou de canto. Um olhar perigoso, brilhante e obstinado. -Você não é exatamente ingênuo, como você mesmo disse. A palavra certa é “dissimulado”.
Quase se sentindo ofendido, Ronan não teve tempo de argumentar, pois Dio estendeu a mão e segurou seu queixo por um segundo, sorrindo largamente, como um verdadeiro demônio e depois o soltando, para voltar por aonde vieram.
–Vamos. -ele falou em voz alta, esperando ouvir os passos do azulado atrás de si, que não demoraram muito.
Dio por sorte não tinha visto como o rosto de Ronan estava vermelho, de raiva e de vergonha.
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A porta se moveu assim que ele trocou o canal. Ronan estava tão calado que seu silêncio constrangedor misturado à falta de vida na base quase a tornava fúnebre.
–Você tem certeza que não vai se trocar?
O total gelo do azulado deu a entender que não queria falar com ele, ou estava pensando. Provavelmente pensando em sua insistência de tentar dormir com ele.
Bufando, contrariado, Dio avançou até estar sentado ao lado do azulado, passando o braço por trás do Inquisidor, apoiado no sofá, e as pernas cruzadas, como fazia quando sentava em um trono. Sua intenção agora era fazer o azulado falar. Aparentemente, o jantar não surtiu mais efeito do que deixar o rapaz pensativo. Isso não podia passar de hoje.
–Ronan. -chamou-o com uma voz chata (aquela vozinha fina e cantante que todo mundo odeia), mais para irritar do que para iniciar a conversa “madura e objetiva” que ele planejava ter.
–O quê? -recebeu um olhar pesado e irritado. Parecia que chama-lo nesse tom havia funcionado. Por sua vez, Ronan estava pensando nesse tempo, arrepiado, na ideia “dele e Dio”.
O calafrio em seu pescoço foi suficiente para Ronan prestar atenção no asmodiano, que acariciou sua nuca com a ponta dos dedos.
–D-DIO!! -o Erudon se levantou, com o rosto fervendo e com a mão cobrindo onde o outro havia tocado. -Não faça isso, droga.
–Por quê? Você é sensível? É normal, todos gostamos dos arrepios no pescoço. -Dio riu baixinho, se levantando de novo e se aproximando de Ronan em um passo largo. -Você nem notaria quem está por baixo ou por cima. O que é importa é a sensação não é?
–Eu já disse. Não vai funcionar. -Ronan ficou sério e tomou compostura, e pregando os olhos nos do demônio, o que foi um erro.
Dio lambeu os lábios lentamente, passando a língua pelos dentes caninos. Depois que Ronan fez a expressão ameaçadora, sua mão foi direto naquele braço nem tão grosso e nem tão frágil, e o puxou, muito bruto. Ronan bateu o corpo de contra com o dele, sentindo de primeira a rigidez dos músculos do abusado asmodiano.
O cheiro no mesmo momento cobriu seu olfato e o calor que emanava não era só malicioso como instigador. Ronan tinha o pulso preso e o outro pronto para golpear o rosto de Dio, porém, nem sua expressão desgostosa foi útil contra o do mais velho, que já havia segurado seu outro pulso e feito um movimento com as pernas que o colocou no chão.
–Tudo isso vai para o relatório para a Lothos, não se esqueça.
–Como se você fosse reportar o que vou fazer. -Dio sussurrou, garantindo que Ronan estivesse bem preso, pelo menos nos braços, por que as pernas dele estavam entre as suas, e isso era perigoso. -Tem certeza de que não quer desfrutar disso? É a mim que você vai doar a virgindade.
–Tenho. Me solte, faça-me o favor. -Ronan olhou-o firmemente.
O asmodiano moveu os lábios, parecendo não gostar nada.
–Você é muito... -Dio chasqueou a língua, soltando os pulsos do azulado com força e saindo dali num passo apressado.
Tão rápido tudo começou tudo acabou.
–Céus, parece criança. -Ronan reclamou para si mesmo, se levantando e batendo a roupa. -E depois de me chamar de falso... Ele não tem lógica!
Inconformado por não conseguir entender o que realmente estava acontecendo, Ronan foi para seu quarto. Ele não teria mais a fazer do que dormir e esperar alguém voltar para fazer companhia, ao menos para uma simples partida de cartas ou tabuleiro.
E, para sua total incredulidade, Dio estava encostado ao lado com um travesseiro, uma colcha branca e seu console de jogos embaixo do braço.
–Está trancado. Abra logo. -Dio apontou a porta com a testa franzida.
–Você... -Ronan praticamente rosnou. Hoje era o dia para ele perder a paciência MESMO. -... Seu ridículo, você não vai dormir aqui. O que deu em você?! Tem problema mental?!
O arroxeado não deu atenção, tanto porque ele se sentia em seu juízo perfeito. Ele sempre fazia coisas extremas, não era novidade para ele o que tinha acontecido todo esse dia.
Depois daquela abordagem na sala, era tão estranho para os humanos pensarem que sua intenção continuaria a mesma? Ele não ia desistir, claro que não. Dio Burning Canyon nunca desiste (Eita frase passada... Todo mundo diz isso ¬¬).
–Você não quer que eu continue fazendo isso? -Dio indagou, querendo saber a opinião sincera do azulado, isso se ele conseguisse entender “sua língua”.
–O que? Claro que não. -Ronan avançou com passos firmes, empurrando o peito do maior. Ele não faria isso em circunstâncias normais, mas ele realmente não estava em suas bases hoje.
–Então eu vou dormir no seu quarto. -Dio o olhou como se o motivo disso fosse muito claro.
“Maldito corno, se convidando a entrar assim, com essa frase enigmática e esses olhos cheios de intenções ruins!” Ronan provavelmente iria perder toda a calma nesse tempo, mas resolveu tirar tudo a limpo.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!–Eu-não-quero-transar-com-você. Vá para seu quarto. -Ronan levantou a mão, concentrando a mana e se preparando para uma magia de congelamento se ele não saísse.
–Não vai funcionar. E eu não vim para isso, se quer saber. Eu vim dormir no seu quarto, idiota. Eu falei que você era diferente, então não adianta eu insistir nisso. Vou provar que não é só isso que estou pensando.
“Você por acaso me ouviu, energúmeno²?” Ronan rosnou, se virando e decidindo dormir na sala.
–Sabe qual é seu problema? -Ronan perguntou enquanto descia. -Você não respeita meu espaço.
Dio torceu o nariz. Afinal, o defeito não era só nele.
–E você é muito crista alta, azulzinho. -Dio cruzou os braços, o seguindo. Mas parece que Ronan parou de andar, virando para ele com um olhar mortal.
–Haahh? Crista alta?! -Ronan ficou mesmo irritado. -Já chega! Chega, Dio!
O azulado o agarrou pela gola da camisa. O Inquisidor ainda de terno e os cabelos no rabo de cavalo e Dio quase pronto para dormir, de bermuda e camisa branca e os cabelos arrepiados escorrendo pelo pescoço e costas.
–Você está me irritando desde o começo do dia! Não me interessa se o Sieghart, ou o Lupus, ou qualquer outro com quem você mantém essas relações doentias não estão aqui. EU não sou um brinquedo.
Dio, sustentado pela gola, via como o azulado estava vermelho, muito irritado e envergonhado por ter que levantar a voz por uma coisa assim. O rapaz não estava nada contente e não aceitava ninguém tomando decisões por si.
–Certo. Se fosse, teria aceitado desde o começo. E é por isso que estou tentando te fazer entender que eu te respeito, e não quero ser um parceiro qualquer.
–Você continua insistindo. Eu não-,
–Você não quer, eu já sei. Mas se você não quer é porque tem alguma coisa errada, sempre foi minha obrigação mudar isso. E eu descobri o motivo, é por que você é muito orgulhoso.
Ronan virou-se, saindo de perto. Ele não aguentava mais andar com esse cara falando a mesma coisa.
–Você é doido. Me deixe em paz, Dio. -Ronan balançou a mão ao fim da escada. -Não tente me obrigar a fazer algo desse nível, eu não vou fazer.
–Orgulhoso.
–E daí? -Ronan levantou uma sobrancelha. -É meu orgulho, não seu.
–Tanto faz. Você pensa que por ser ativo vai mudar o fato de que está fazendo com um homem? Você está enganado.
Ronan trincou os dentes.
–E você já foi passivo?
O asmodiano sorriu de ponta a ponta, o que trouxe um ar de maior desgosto para o azulado.
–Pior ainda... Fique longe de mim. -Ronan sibilou sabendo pela resposta muda.
As palavras não atingiram o mais velho, pois num instante tinha deixado as coisas no sofá da sala e no outro estava atrás de Ronan, o apertando contra a parede, segurando suas mãos com força.
O chute iminente não fez Dio mover nenhum músculo, nem o debater e o “polido” xingamento do “boca limpa” da Grande Caçada. Ronan quando estava furioso superava até Elesis no palavreado. Até que cansou.
–Droga, Dio... Eu não quero saber disso, me solta.
–Por que não dá uma chance só? -Dio forçou-o, esfregando seu corpo nas costas do azulado, que estremeceu e soltou um som de desaprovação. -Não é o fim do mundo. Ninguém precisa saber, e ninguém vai desconfiar, porque se algo der errado, nós só continuaremos a nos odiar. Pronto.
–Sem chance. -Ronan tentou sair, mas não conseguia se concentrar em uma magia, sua cabeça estava confusa. Esse maldito demônio. -Você não ia me provar que consegue me conquistar sem sexo?
–Eu disse isso?
“Não.” Ronan resmungou contra si mesmo por sua mente pregar peças. Em sua posição atual, não queria mais lutar, não adiantava. Dio tinha persistência e facilidade em cansar outras pessoas. Sem querer, Ronan era muito propenso a ceder a tentações.
–Então? -Dio sussurrou em seu ouvido, mordendo sua orelha gentilmente. Foi quando a barreira toda caiu.
Ronan encostou a testa na parede, permitindo-se sentir a boca úmida envolver a cartilagem, o corpo rígido recostando-se ao seu numa provocação descarada, num roçar da virilha contra seu traseiro, deixando claro seu potencial.
Em silêncio, Dio o envolveu com os braços e o puxou para si, afastando-o da parede, mas mantendo-o junto ao corpo, para não receber mais nenhuma luta.
–Você ainda vai negar?
Ronan não respondeu, apenas ficando em silêncio. Dio o virou de frente, obrigando-o a caminhar até as escadas e o fazer sentar no meio delas meio bruto.
–Seu-, -Ronan ia começar a chutá-lo, mas o asmodiano se interpôs entre suas pernas, ajoelhado, enquanto seus pés alcançavam o degrau debaixo.
As mãos de Dio ainda seguravam sua cintura, e uma já tentava se livrar do paletó. Aquela magia, que o fazia parecer humano era bem útil. Pelo menos a garra não iria atrapalhar os toques e nem nada, enquanto os chifres permaneciam escondidos, eles não tiravam a atenção ao olhar, dando um melhor foco ao rosto.
–Esper-,
Mas Dio não estava a fim de falar porque já tinha percebido o quanto Ronan estava em suas garras.
Com um leve puxão, o paletó saiu de um dos braços, ao que o azulado ficava ainda mais vermelho por estarem nas escadas. O rapaz mais novo tentava argumentar e falar para Dio parar. Não funcionava, Dio se inclinou sobre ele, segurando seu rosto com uma mão e apertando com a outra sua cintura.
–Hm-,
Ronan só viu os olhos fechados e sentiu a umidade suave do hálito vindo daquela boca vermelha. Como um selvagem, assim que ele encostou, chupou seus lábios, e tocou-os com a língua, enquanto entrava a mão em baixo da blusa branca do terno após puxá-la fora da calça, dedilhando a pele macia.
–Dio, -Ronan resmungou entre o beijo estranho, cedendo espaço e deixando sua língua acompanhar os movimentos do outro.
A mão na face de Ronan foi adiante para tocar a nuca e puxá-lo mais para o beijo, o forçando a retribuir com mais fervor. O azulado sentiu sua cabeça se encostar no degrau, enquanto Dio continuava apertando sua cintura e agora subia os dedos, como se explorando, pela barriga, apertando e esfregando as pontas dos dedos e as palmas.
Um dos braços de Ronan ficou no chão para se apoiar e não se machucar com movimentos bruscos, com o outro tocou o pescoço de Dio, seu beijo se tornando cada vez mais quente e molhado, as línguas se entrelaçavam e seus torsos se esfregavam, Dio apoiava-se em seus joelhos e tentava manter a força para não acabar caindo.
Subindo a mão, os dedos espertos do asmodiano desabotoavam o último botão da camisa e a outra se soltava da nuca de Ronan para tocar seu peito, apressado.
O que ocorreu fez Ronan se contorcer um pouco e sua virilha responder.
–Hm...
Dio subiu a mão para desabotoar o próximo, colocando a face no pescoço do azulado e lambendo a pele. Sua mão esquerda acariciava o peito e apertava o mamilo entre os dedos, por cima da camisa, puxando-o e beliscando-o levemente.
–Dio, espera, eu- Hng!
O asmodiano se apertou um pouco mais contra o Erudon e então não houve mais saída. Seu coração saltava enquanto a camisa terminava de ser aberta e, sem espera, sua boca fez caminho pelo pescoço, tocando com os dedos a carne macia que seu parceiro tinha, mordiscando até alcançar um dos botões rosados.
Ronan levantou instintivamente as mãos, adentrando pelos fios roxos, suspirando.
Dio sorria enquanto segurava o mamilo rígido nos dentes e apertava-lhe o umbigo, soltando ar quente da boca, sua mão esquerda abrindo a fivela do cinto e afrouxando-o.
Naquela hora não havia um pensamento racional que passava na mente do Inquisidor. Não fazia sentido nada do que estava acontecendo hoje. Em especial, ele achava que iria ser um tormento do início ao fim, o que de fato quase foi, pelo menos até agora.
Primeiro, não fazia ideia da causa de ter se rendido. Seria pelos lábios? Ou pelos olhos? O motivo não importava realmente. Ele estava muito preocupado com o que poderia se tornar a partir disso.
Em segundo, Dio era demais. Só modo como ele respirava, assim que o fôlego tocava um ponto em seu corpo parecia transformar em uma ferida ardente, uma queimadura prazerosa. A língua tão úmida era dominadora, a forma que os ombros se curvavam e como seus sons saíam tão graves e masculinos era o ponto extra.
O lugar estava iluminado apenas pelas lâmpadas fluorescentes do corredor, o que fazia as escadas ficarem metade iluminadas e metade escuras. Estava tudo tão silencioso que os dois podiam jurar que seus sons ecoavam para fora da casa e alguém podia ouvi-los.
A realização do vazio não foi suficiente para os dois, que agarravam as blusas e trocavam beijos preenchidos de uma paixão enfurecida, vinda de algum ponto de dentro que lhes era desconhecido, para se sentirem seguros e sozinhos. Pois mesmo que eles soubessem que de fato ninguém estava ali, havia uma sensação estranha, parecida com a sensação de “estou fazendo algo errado”, um arrependimento antecipado.
–Ron-, -Dio juntou novamente suas bocas, sedento. Seu corpo palpitava completamente por Ronan. Por seu cheiro envolvendo seus sentidos. Pelos seus dedos em seu pescoço, arranhando e descendo, para abrir a blusa e acariciar com a firmeza de um dominador seus peitos duros e masculinos. Com a respiração ofegante de uma garota fora de controle. Com as pernas roçando involuntariamente contra sua cintura. Sua masculinidade buscando o contato pleno. O rosto estava vermelho, as pálpebras pressionadas, as sobrancelhas juntas demonstrando sua expressão inconsciente de prazer.
“Você não sabe o que esteve perdendo, Ronan.” Dio o sujeitou, abaixando a calça na finalidade de tira-la por completo. Ronan abraçou seu pescoço quando ficou só com a camisa, não esperando que Dio fosse parar apenas para olha-lo com cuidado.
O Asmodeus pareceu entender o movimento tímido. Dio percebeu que Ronan havia se sentado e grudado completamente o tórax contra o seu para ele não ficar “encarando”.
–Ronan~ -Dio suspirou em seu ouvido o tom meloso e que irritava. O engraçado era que mesmo assim esse demônio não conseguia quebrar o forte clima. Sua mão subiu pela linha da coluna do azulado, arrepiando-o inteiro com as típicas ondas de prazer que sempre causava, e era acariciada pelos fios longamente sedosos e azuis-escuros. Seus dedos pararam na espinha e então se afastou, tocando os cabelos, até chegar à fita, que desatou e jogou de lado.
Os cabelos do mais novo imediatamente caíram e formaram uma cabeleira semelhante à de Mari, mas muito mais escura e comportada, lisa. O dono dela não usava mais franja, de modo que seu rosto era totalmente visível, mas as mechas que lhe caíam pelos ombros, combinando com sua face madura e ao mesmo tempo fofa, traziam um ar de hermafroditismo diabólico-angelical.
Dio se espantou um pouco, olhando como Ronan estava a sua mercê e como ele se pareceria com uma garota do pescoço para cima se não fosse o formato de seus olhos sérios e sem cílios longos. Apesar disso, o contraste do resto do corpo e do rosto ficava tão bem que ele não podia acreditar. Antes ele não perceberia em nenhum segundo como Ronan ficava bem dos dois jeitos, passivo e ativo.
–O que? -Ronan havia ficado mais irritado por Dio ter ficado olhando como se ele fosse uma assombração.
Ao invés do tom divertido, o asmodiano finalmente inspirou com uma seriedade misturada com um tipo de luxúria diferenciada, mais respeitosa, e segurou o rosto de Ronan gentilmente, o puxando para um beijo quente, mas comportado.
Sem saber bem o porquê da delicadeza repentina, Ronan não pensou muito, pois suas línguas roçaram e se juntaram como ímãs, no ar e dentro das bocas, movimentando-se junto com seus lábios molhados, desajeitados e ofegantes.
–Hmf...
Os dois tocaram suas faces com as duas mãos, chupando os lábios e continuando o beijo num ritmo frenético e incansável, quase se esquecendo do restante do corpo. Foi com uma leve mordida no lábio inferior e uma separação rápida que Dio arfou alto e abraçou o rapaz bruscamente, fazendo força e se levantando das escadas com o azulado grudado em sua cintura.
–HN!!! -Ronan resmungou, tentando por um instante levantar a voz e pedir para Dio coloca-lo no chão, mas tão rápido o asmodiano levantou, seus lábios se encontraram e as mãos de Ronan, assim como as pernas, tentaram se enlaçar pelo corpo em busca de apoio.
O quarto de Ronan era o mais próximo e Dio já o tinha conhecido mais cedo. Foi forçando a porta com um chute que o trinco quebrou, contudo, o Inquisidor não parecia notar, estremecendo em seus braços e gemendo tanto em seus lábios que parecia estar gozando pela boca.
O próprio Asmodeus tremeu, andando com mais rapidez, sentindo o controle de saliva se perder e seus queixos estarem completamente molhados. Quando deitou o azulado em sua própria cama com um baque, respirou forte, tentando recuperar ar; não pareceu notar como Dio o devorava com o olhar, desde a camisa desabotoada até sua ereção deliciosamente empapada do pré-gozo.
–Huh... -Dio ajoelhou-se na cama, avançando com o selvagem lampejo nas íris púrpuras, os lábios entreabertos e prontos para abocanhar qualquer parte do maravilhoso corpo que o Erudon tanto escondia. O alvo foi o ombro direito, onde afundou os dentes superficialmente, arrepiando-o até que se remexesse e afastasse um pouco mais as pernas, era inevitável. A camisa aberta de Ronan era onde Dio segurava com uma mão e, enquanto desfrutava do gemido de prazer do azulado, a outra mão descia para a área íntima.
Ronan arqueou o corpo ao sentir os dedos longos e quentes o envolverem, massageando firmemente a base e voltando com lentidão mesmo que forte. A boca do azulado abriu em ímpeto e ele dobrou as pernas, se perdendo na sensação estonteante, avistando os olhos que expressavam toda a malícia daquele momento.
–D-Dio... A-Ahh...
Dio fechou os olhos por um momento antes de se contentar com a reação. Sorrindo, como um maldito demônio — o que não é nada tão novo -, soltou-o na beira do ápice antes que Ronan pudesse sentir todo o prazer do orgasmo.
Não teve tempo pra reclamações, o mais velho tocou os dedos na boca, vendo como o orgulhoso Erudon respirava entrecortado, irritado por ter quase chegado lá e ser impedido. Aquilo de repente já tomava uma proporção maior de emoções, misturando com uma raiva típica de jogos. Mas o que realmente importa é que aqueles dois já não se gostavam, a situação poderia ser pior, a falta de cavalheirismo da parte de Dio, ou mesmo sua bipolaridade, causava um sentimento de temor em Ronan. Talvez não medo, mas temor no sentido da hesitação, de saber que ele tinha conhecimento de tudo e podia ver pelas ações de Ronan... O que Ronan realmente queria, Dio sabia só de olha-lo.
Aqueles dedos entraram pelos lábios de forma bem menos violenta do que realmente pareceu, o que fez o azulado pensar que estava delirando, mas Dio não permitiu que ele pensasse muito uma vez que se ajoelhou na cama e segurou sem cordialidade nenhuma uma das coxas alvas, alçando-a no ar, obrigando o humano a deitar.
–E-Ei, Dio, esper- Ah-nn...
O rosto do azulado apertou-se contra o colchão, seus músculos retesando-se todos contra a ação invasora. Tocando bem cuidadosamente, mas cheio de experiência e lascívia, os dedos de Dio apertavam a entrada rosada.
A provocação acabou deixando o próprio asmodiano excitado, assistindo com todo o prazer do momento a expressão ingênua de um homem adulto sendo lentamente penetrado por seu dedo, sentindo a carne macia por dentro e sendo apreciado pela temperatura local, que parecia estar em chamas. Os movimentos sendo feitos um a um, calmamente, com uma paciência atípica, mas Dio sorriu e acariciou o rosto do azulado, despejando frases curtas pervertidas que faziam o rapaz se contorcer e apertar seu interior ainda mais.
Sim, era de propósito. Dio não queria relaxá-lo. Relaxar naquele momento significava fazer todo o trabalho sozinho, e sexo é uma coisa a dois então Ronan tinha que se dedicar também.
–D-Dio, tá- tá doendo... -o azulado segurou os lábios nos dentes após dizer isso. Não era insuportável, mas não avisar o brutamontes ia causar sérios problemas. Dio não ligaria se acabasse saindo muito machucado.
–Huh-hm... -ele assentiu em resposta, fingindo ouvir direito. O aviso gemido foi confundido com qualquer outra coisa ininteligível, menos a mensagem real.
O mais velho moveu um pouco mais os dedos, sentindo o corpo ceder mais. Dio acariciava os longos cabelos azuis que estavam ao alcance, aspirando o aroma natural relaxante. Ronan realmente não era seu tipo...
“Mesquinho e todo cheio de si... Você é o pior, mas mesmo assim eu me sinto atraído por esse seu lado.”
Ronan apertou os olhos quando sentiu que Dio parou de prepara-lo. Sua virilha estava próxima a do asmodiano, apenas roçando e somente isso conseguia que seu cérebro desse voltas. Era quente e exalava um ar afrodisíaco, tão sexy que a mera imaginação o fizesse ter espasmos.
–A-hgh...
Os braços do azulado enlaçaram nos ombros arroxeados, sentindo o contato se tornar pressão. O membro de Dio ia apertando e forçando entrada entre suas nádegas, ardente.
–Dio...
O mais velho inspirou ar, tentando controlar a si mesmo no limite. Ia pouco a pouco a extensão, molhada, e latejante. Os suspiros do azulado eram pouco silenciosos e às vezes lhe escapava um gemido lânguido que era marcado a ferro na mente do arroxeado.
A respiração forte do demônio selvagem tocava o pescoço do Erudon, esquentando eroticamente os pontos nervosos aguçados do rapaz. Lentamente, o profundo interior se tornava completo e sem mais espaço onde caber qualquer coisa mais.
–Hng... -Ronan mordeu o lábio, sentindo a dor incômoda e a sensação de preenchimento quase insuportável subindo-lhe a cabeça. Seus quadris começaram a doer por causa da dilatação e parecia que o pênis ia atravessar daquele ponto e mata-lo. -Uh...
Dio deslizou as mãos das coxas macias para envolver Ronan e mantê-lo grudado ao seu corpo. Mais do que sentir o delicioso aperto em sua masculinidade era um prazer ouvir os gemidos sofridos perto de seu ouvido. Era bom sentir os fios de cabelo em seus dedos e daquela posição segurava lascivamente a bunda do azulado.
–Ronan. -Dio o chamou em sussurro, afundando os dedos firmemente nos belos glúteos.
Apenas com os inevitáveis gemidos em seu ouvido, Dio levantou um pouco o corpo do Inquisidor, sendo atingido pela realização do sexo e sua fome aumentar.
–A-Ah, Dio!
Ronan deitou a cabeça em seu pescoço e ofegou, tendo a fronte suada. Não demorou para que sua voz começasse a sair descontrolada já que Dio o forçou a deitar e, passando os dedos por seu membro necessitado, sorriu largamente, dando uma investida nada gentil.
–AH!
O corpo do azulado contorceu. Suas pernas automaticamente se afastaram e ele pôde sentir por inteiro como era ser tocado daquela maneira.
Outra vez, Dio massageava o membro do companheiro enquanto afundava o seu fortemente, tendo toda a extensão engolida e massageada pelo interior macio. O asmodiano gemeu brevemente antes de estocar outra e outra vez, começando a ganhar um ritmo rápido e forte.
–A-Ahh... Haaa... -Ronan gemia, virando o rosto no colchão e apertando os olhos. Suas sobrancelhas azuis contraíam-se, suas pernas afastavam sem permissão para sentir tudo. Sentiu a boca sedenta do mais velho tocar seus lábios entreabertos e sussurrar algumas coisas, mordendo-o. As mãos grandes do asmodiano o enlouqueciam, movendo-se em seu membro até que sentisse o orgasmo próximo. Cada investida tocava-o naquele lugar e quando o fazia Dio, que mantinha o ritmo na masturbação, apertava sua glande e investia de novo.
–HAAA~!... D-Dio!
Ronan abriu os olhos o máximo que podia naquele momento. Sem forças, via o rosto avermelhado do asmodiano, o suor escorrendo por seu corpo e a força que se obrigava a segurar. Ele não conseguia chegar lá se não fosse mais forte... Dio não queria feri-lo.
–Dio! Ah- Ahh...
O asmodiano então trincou os dentes, deixando o membro do azulado. Sem dar chances para o rapaz reclamar, Dio segurou-lhe os braços e o puxou pra cima, sentando-o em seu colo. Um sorriso demoníaco apareceu enquanto falava.
–Você acha que eu vou fazer tudo sozinho? Assuma a responsabilidade, Ronan... E me faça sentir prazer também. -ele disse segurando a cintura do outro. Ronan era magro, mas não era tão leve como parecia.
Ronan certamente ficou envergonhado e sua reação não poderia ser considerada cômica, especialmente porque ele tinha acabado de gemer por mais de um minuto o nome do asmodiano. Ele não poderia dizer que não gostou... Foi bruto, mas foi diferente de tudo o que já havia sentido quando era o ativo. Mesmo que ele tivesse acreditado que isso ia além de seus limites, ele também tinha que admitir que ativo ou passivo, seu orgulho como homem não mudara nem um pouco. Mordendo o lábio, um pouco irritado com a própria divagação, suas mãos gentilmente tocaram o pescoço do maldito asmodiano.
–Cale a boca, idiota. Eu sei disso. -reclamou, se pondo de joelhos e sentindo o membro em seu ânus se mover. -Hng...
–Está doendo? -Dio perguntou como que preocupado, mas Ronan conseguia enxergar o sarcasmo claro naqueles olhos brilhantes.
–Eu já falei, fique calado. -Ronan impulsionou-se pra cima e baixo, tornando a situação ainda pior. Conseguia sentir-se contra a gravidade e consequentemente contra aquele corpo impiedoso. Era tão rígido que parecia ser impossível satisfazê-lo.
As mãos em sua pele firmaram e o forçou a subir novamente. O quadril de Dio se movia perfeitamente de encontro a ele e os suspiros que os dois pareciam querer segurar com todas as forças saíam sem controle, traindo-os.
–Oh, Ronan... -Dio juntou os dentes após o gemido e soltou-lhe a cintura para envolvê-lo pelas costas, aumentando a força.
O corpo de Ronan estremeceu ao sentir o hálito entorpecente, cada investida profunda. Seu pênis roçava entre os dois, que eram quase um corpo só, se movendo forte e timidamente. Suas mãos acariciavam os cabelos roxos que caíam sobre a orelha e seguiam pelo pescoço ao que Dio fazia o mesmo com as grandes mechas azuladas que caíam pelas costas. Pele contra pele, e logo sua boca contra o pescoço e ombros.
–Dio... -o gemido de Ronan era um gemido tão choroso que parecia estar implorando pela vida. Dio só conseguiu sentir seu membro ganhar mais vida e a intensidade da excitação entre os dois chegar no máximo.
–Ahh...
As pernas quentes envolveram suas laterais e o corpo relativamente pequeno em comparação ao seu começou a perder a vergonha, cavalgando em seu membro com rapidez. Ronan mordeu seu ombro e gemeu seu nome com a melhor voz rouca que possuía.
As coxas de Dio tremeram e sua satisfação chegou ao topo. Aquela bunda em sua mão, o membro em seu abdômen, seu membro esmagado por aquele canal úmido, aquela boca em seu pescoço e aqueles fios sedosos em seus dedos... Não havia uma sensação tão pura como aquela. O asmodiano fechou os olhos.
–Haa... Ahhh...
Ronan tinha as mãos apoiadas nas costas do maior, ofegando baixo e sonolento. Dio parecia ter entrado em um estado estático, pois respirava forte e tinha o corpo pesado, sem se mover. A umidade em seu traseiro indicava que o arroxeado tinha gozado e, ao que parecia, tinha tido o suficiente. O azulado não entendeu, mas seu peito se encheu de verdade e eu ego estava no máximo. Um sorriso se formou então. Estava provado, ele gostava dessa sensação e era com certeza melhor do que somente o surrealismo do orgasmo. Ele tinha do seu lado a satisfação de levar o outro a um ponto quase humilhante.
–Você estava certo, Dio. -sussurrou, acariciando lhe as largas costas. Seguia os dedos pela coluna e tocava a carne com cuidado, causando um sentimento de carinho no mais velho.
–Cale a boca. -Dio disse rindo, deitando a cabeça em seu ombro. -Você ainda vai reportar pra Lothos.
–É óbvio. A não ser que você encha a banheira.
Com um rosnado, Dio se afastou do azulado, olhando-o seriamente.
–Nossa! Como eu te odeio, Rabo de Cavalo!!
Ronan só sorriu em resposta. Vendo como o asmodiano o agarrava e o deitava de volta na cama, disposto a desobedece-lo.
Fim
Vocabulário
¹Ametista: Pedra semipreciosa, roxa.
²Energúmeno: Endemoninhado; possesso
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