YOU
9 O Que o Amor Permite
“Existe um momento em que todas as mentiras finalmente se encontram.
E quando isso acontece… o caos não pede permissão.”
O problema com cadáveres é que eles sempre aparecem.
Não importa o quanto você planeje, o quanto você limpe, o quanto você reorganize cada detalhe da cena. Em algum momento alguém abre uma porta, alguém olha no lugar errado, alguém faz uma pergunta inconveniente demais para ser ignorada.
E naquela manhã, enquanto eu observava o noticiário silencioso passando na televisão da cafeteria do Complexo Higginbotham, eu soube que o momento tinha chegado.
A foto de Rosalie apareceu na tela.
Desaparecida.
Agora encontrada.
Morta.
O apresentador falava com aquela voz neutra que jornalistas usam quando descrevem tragédias como se fossem apenas estatísticas. O corpo tinha sido encontrado em um depósito abandonado nos arredores de Los Angeles. A polícia acreditava se tratar de um crime passional. O principal suspeito era um homem chamadoRiley Biers.
Eu observei a tela com calma.
Perfeito.
Exatamente como eu e Victoria havíamos planejado.
Riley Biers, o policial ciumento.
O homem que não aceitou ser rejeitado.
O homem que matou a jornalista que estava investigando outro crime.
Clássico.
Funciona sempre.
Victoria tinha sido surpreendentemente útil naquela parte. Ela entendia o funcionamento do caos humano melhor do que a maioria das pessoas. Sabia como plantar pistas, como espalhar suspeitas, como construir uma narrativa que a polícia aceitaria com facilidade.
E agora Riley também estava sendo investigado pela morte de James.
Duas mortes.
Um único culpado.
Uma história perfeita.
Eu desliguei a televisão.
Mas o alívio não veio.
Porque existia um pequeno detalhe que nenhuma investigação poderia apagar.
Eu ainda sabia a verdade.
E a verdade era que Rosalie estava morta por minha causa.
Bree recebeu a notícia naquela tarde. Ela estava sentada na varanda central do prédio quando o telefone tocou.
Eu observei de longe enquanto ela atendia.
O momento em que a voz do outro lado explicou o que havia acontecido foi visível no rosto dela. O corpo inteiro ficou rígido primeiro. Depois os ombros desabaram lentamente, como se alguém tivesse puxado os fios invisíveis que sustentavam sua postura.
O telefone escorregou da mão dela.
— Não… — sussurrou Bree.
— Bree?- Eu me aproximei devagar.
Ela levantou os olhos.
E naquele instante eu vi algo que raramente aparece nos olhos humanos.
Destruição.
— Eles encontraram ela — disse Bree com a voz quebrada. — A Rosie…Ela está morta.
Silêncio.
As palavras saíram como se estivessem rasgando a garganta dela.
— Bree… — eu comecei.
— Ela era tudo que eu tinha! — gritou ela, finalmente perdendo o controle.
Algumas pessoas na varanda se viraram para olhar.
Mas Bree não percebeu.
Ela estava chorando agora, o tipo de choro que não é elegante nem silencioso. Um choro cru, animal, cheio de soluços descontrolados.
E pela primeira vez em muito tempo eu senti algo profundamente desconfortável.
Culpa.
Eu sentei ao lado dela.
— Eu sinto muito.- disse a abraçando e deixando que ela chorasse em meus braços.
Ela balançou a cabeça negativamente.
— Eu não tenho mais ninguém.- ela refletiu
Silêncio.
E naquele momento eu tomei uma decisão.
Naquela noite eu bati na porta do apartamento dela.
Bree abriu com os olhos inchados e vermelhos.
— Anthony?- ela parecia confusa e perdida
Eu entrei e coloquei um envelope sobre a mesa.
— O que é isso?- questionou com a voz fraca.
— Dinheiro.- respondi a encarando
Ela franziu a testa.
— O quê?
— Documentos também.- disse seco.
Ela abriu o envelope lentamente.
Passaporte.
Identidade.
Dinheiro suficiente para desaparecer.
— Eu não entendo.- ela confessou confusa
— Bree — eu disse calmamente — A polícia vai investigar tudo. A vida da Rosalie. As pessoas próximas dela. Isso inclui você.
Ela ficou em silêncio.
— Eu quero que você vá embora de Los Angeles.- disse a encarando
— Fugir?
— Sobreviver.- corrigi
— Por que você está fazendo isso? — Ela me encarou por um longo momento.
Boa pergunta, garota... Eu preciso de uma resposta rápido...
— Rosalie pediu para mim.- menti
— O quê?- ela arqueou a sobrancelha
— Antes de desaparecer...
Mentira.
— Ela disse que estava com medo de algo — continuei. — Ela queria garantir que você ficaria segura.
Bree respirou fundo.
— Você sabia?- questionou
— Não tudo...mas o suficiente para te proteger a pedido dela.- disse, não era de tudo mentira.
Silêncio.
Ela olhou novamente para o envelope.
— Eu não sei se posso confiar em você.- ela confessou
Justo.
— Você não precisa confiar em mim — eu disse. — Só precisa confiar na sua irmã.
Alguns minutos depois Bree estava fazendo as malas e quando ela finalmente saiu do apartamento com a mochila nas costas, parou na porta.
— Obrigada.- disse me olhando.
— Boa sorte.- eu sorri torto.
Eu observei Bree desaparecer no corredor e me perguntei se aquela era a última vez que eu a veria.
Enquanto isso, Emmett continuava trabalhando no roteiro.
Obcecadamente, era quase engraçado observar.
Ele estava escrevendo a história da vida dele.
Só que não sabia disso.
Cada dia que passava ele adicionava novos detalhes.
Pesquisas.
Artigos antigos.
Casos arquivados.
Um deles me fez congelar.
Tanya Denali.
— Cara… — disse Emmett uma noite enquanto estávamos em um bar de hotel. — Você já ouviu falar desse caso?
Eu senti o sangue gelar.
— Talvez.- disse
Ele virou o notebook para mim.
— Uma mulher chamada Tanya Denali morreu em circunstâncias muito estranhas em Seattle alguns anos atrás.- ele disse obcecado — A polícia nunca conseguiu provar nada.
Ele me observou.
— Mas sabe o que é curioso?- perguntou depois.
— O quê?- me fiz de desentendido
— A história do meu roteiro está ficando… parecida demais com isso.- disse ele confuso.
Eu forcei uma risada.
— Coincidência.- disse entre risos.
— Coincidência?- Emmett inclinou a cabeça. Ele começou a falar devagar. — Um cara obcecado por uma mulher.
— Emmett…
— Que mata pessoas próximas dela.- ele continuou
— É ficção.- disse dando os ombros
— E manipula a polícia.- ele parecia em transe, conectando pontos. — Quem é você, Anthony?
A pergunta ficou suspensa no ar.
Perigosa.
Muito perigosa.
Então eu fiz uma pergunta minha:
— Por que você ligou para Rosalie?
— Como você sabe disso?- Emmett franziu a testa.
— Bree me contou.- menti
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
— Não fui eu.- ele confessou respirando fundo
— Não?- arquei a sobrancelha incrédulo
— Foi a Bella.
Meu coração parou por um segundo.
— Bella?- questionei com a voz um pouco alterada.
— Ela pediu para eu ligar para Rosalie.
Silêncio.
Interessante.
Muito interessante.
Eu nunca vi Victoria chegar, mas senti uma mão segurando meu braço.
Uma agulha entrou no meu pescoço.
Escuridão.
Quando acordei…
Eu estava dentro da cela de vidro. A mesma. Exatamente a mesma.
Victoria estava do lado de fora.
— Olá, Anthony.
Eu me levantei lentamente.
— Você está brincando comigo.- disse revirando os olhos.
— Um pouco.- provocou
— Me solta.- ordenei
— Não mesmo- disse ela rindo.
Ela pegou o telefone e se afastou da jaula.
— Hora do show.- ela cantarolou...
Alguns minutos depois…
Bella Higginbotham entrou no depósito e o rosto dela estava pálido.
— Victoria?- chamou confusa
Victoria sorriu vitoriosa para mim.
— Bella… você precisa ver algo.- disse ela animada
E quando Bella chegou perto ela viu a jaula e me viu la dentro. Ela arregalou os olhos assustada.
— Esse homem é um assassino.- a ruiva apontou para mim e o silêncio dominou aquele ambiente.— Ele matou Tanya Denali.-Victoria continuou.— Ele matou várias pessoas.
— Isso não é verdade — eu disse tentando amenizar a situação.
Bella me olhou.
Confusa.
— Ele é perigoso, Bella — disse Victoria a encarando.
— Bella… — eu comecei.
— Eu sei tudo, eu tentei te avisar, mas você não ouviu — continuou Victoria.
O mundo parecia parar.
Eu pensei que era o fim.
Que Bella iria fugir.
Que chamaria a polícia.
Que finalmente veria o monstro que eu sou.
Mas então algo inesperado aconteceu.
Bella abaixou lentamente a cabeça olhando para o chão por exatos 15 segundos.
Ela abaixou lentamente e pegou uma garrafa quebrada no chão. Victoria não percebeu.
E então, em um movimento rápido...muito rápido.
Um corte...O vidro atravessou a garganta de Victoria.
Sangue.
Muito sangue.
Victoria caiu no chão segurando o pescoço e engasgada com o próprio sangue.
Os olhos dela arregalados.
Chocados.
Mortos.
Silêncio.
Eu fiquei parado dentro da cela.
Sem entender.
Bella respirava pesadamente e descontroladamente.
O sangue de Victoria escorria pelo chão.
E então Bella levantou os olhos para mim.
— Eu não ia deixar ela te machucar.- disse ela
Naquele momento…
Eu percebi algo aterrador.
Talvez…
Talvez eu nunca tivesse conhecido Bella de verdade.
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