YOU
10 O Amor Reconhece o Amor
“O verdadeiro terror não é descobrir que alguém é um monstro.
O verdadeiro terror é perceber que alguém te entende perfeitamente.”
Eu sempre acreditei na pessoa certa. Não na versão barata que as pessoas romantizam para tornar a vida suportável, não naquelas frases vazias de filmes românticos que prometem finais felizes como se o mundo fosse um lugar justo. Eu acreditava em algo muito mais preciso, quase matemático. A ideia de que em algum lugar existia alguém perfeitamente compatível comigo. Uma combinação exata. Uma mente que enxergasse o mundo pelas mesmas rachaduras pelas quais eu sempre observei a humanidade. Uma alma gêmea, como os poetas gostam de chamar, embora eu sempre tenha preferido pensar nisso como uma espécie de alinhamento inevitável entre duas pessoas destinadas a se reconhecerem no caos do mundo.
Durante anos eu procurei por isso sem admitir que estava procurando. Eu disse a mim mesmo que não precisava de ninguém, que era melhor assim, que depender de alguém era apenas outra forma de fraqueza humana. Mas a verdade é que sempre existiu um vazio dentro de mim, um espaço silencioso esperando ser preenchido por alguém que finalmente me entendesse. Eu tive o coração partido mais de uma vez. Isso acontece quando você tenta acreditar em pessoas que não merecem confiança. Algumas mentem, outras traem, algumas simplesmente desaparecem quando percebem que você é intenso demais para o tipo de amor superficial que elas conseguem oferecer.
As coisas nunca foram fáceis para mim. Nunca foram simples. Minha vida sempre pareceu existir nas margens da normalidade, observando o resto da humanidade de fora, como se eu estivesse assistindo a um filme onde todos sabem o roteiro… menos eu. Talvez por isso eu tenha aprendido a estudar pessoas. A entender como elas funcionam. A reconhecer as mentiras que elas contam para si mesmas. Porque quando você observa alguém por tempo suficiente, você começa a perceber padrões. Medos. Desejos. Fragilidades.
E quando você entende alguém completamente… você tem poder sobre ela.
O amor sempre foi apenas outra ferramenta nesse processo. Uma justificativa elegante para atravessar linhas que a maioria das pessoas tem medo de cruzar. Porque quando você faz algo por amor, as pessoas tendem a perdoar quase qualquer coisa. Elas querem acreditar que existe algo nobre por trás da obsessão. Que existe pureza por trás da violência.
Eu também quis acreditar nisso.
Então, quando conheci você… Bella Higginbotham… por um breve momento eu pensei que talvez todo o resto tivesse valido a pena. Todas as perdas. Todas as mentiras. Todas as coisas que fiz para sobreviver neste mundo imperfeito. Talvez tudo aquilo tivesse sido apenas o caminho necessário para chegar até você.
Porque ali estava você.
A pessoa certa.
A única capaz de me entender.
Eu só não sabia… que você também estava me observando.
A primeira coisa que percebi quando acordei foi o silêncio. Não era o tipo de silêncio que acontece naturalmente quando o mundo pausa por alguns segundos. Não era o silêncio confortável de uma madrugada tranquila ou o espaço entre duas respirações quando alguém dorme ao seu lado. Era algo muito diferente. Pesado. Espesso. Como se o próprio ar estivesse comprimido dentro daquele lugar, tornando cada movimento mais difícil, cada pensamento mais lento. Era o tipo de silêncio que faz o corpo reagir antes mesmo que a mente entenda o motivo. Aquele arrepio involuntário que sobe pela espinha quando alguma coisa está profundamente errada.
Minha visão demorou alguns segundos para se ajustar à luz fria do lugar. Havia algo metálico no ar. O cheiro típico de depósitos abandonados. Poeira antiga misturada com concreto úmido e ferrugem. Meu coração começou a bater mais rápido antes mesmo que eu entendesse por quê. Então eu vi o vidro.
Frio.
Transparente.
Familiar.
Meu olhar percorreu lentamente as paredes ao meu redor enquanto minha mente tentava montar o quebra-cabeça impossível diante de mim. A superfície lisa refletia minha própria imagem distorcida. As bordas metálicas reforçadas. O teto baixo. O espaço calculado para ser suficiente para uma pessoa sobreviver… mas nunca escapar.
A cela de vidro...
Durante alguns segundos meu cérebro se recusou a aceitar o que meus olhos estavam vendo. Porque eu conhecia aquele lugar melhor do que qualquer outra pessoa no mundo. Eu havia planejado cada detalhe. Cada parafuso. Cada centímetro de vidro reforçado. Eu havia desenhado aquele espaço com uma precisão quase obsessiva. Um ambiente perfeito para observar pessoas quando elas percebem que não têm para onde fugir.
Eu havia observado suas expressões.
O momento em que o pânico aparece nos olhos.
O momento em que elas começam a implorar.
O momento em que finalmente entendem que ninguém vai salvá-las.
Agora…
Eu estava do lado errado.
Meu coração começou a bater com força contra as costelas.
Então ouvi passos.
Lentos.
Calmos.
Ecoando pelo concreto vazio do depósito.
Levantei a cabeça devagar… e vi você.
Você estava do lado de fora da cela. Parada. Observando.
Por um segundo pensei que estivesse sonhando. Que aquilo era algum tipo de delírio causado por um golpe na cabeça ou por Emmett tentando me drogar com LSD novamente. Mas então meu olhar se desviou para o chão ao lado dela… e eu vi o corpo.
Victoria.
Imóvel.
O sangue ao redor dela formando uma mancha escura no concreto.
Bella segurava a chave da cela entre os dedos ainda sujos de sangue e me observava com uma expressão que eu nunca tinha visto antes.
Não era medo.
Não era raiva.
Era algo muito pior.
Compreensão.
— Você acordou… — disse ela calmamente.
Minha garganta estava seca quando respondi.
— Bella… o que está acontecendo?- perguntei confuso sentindo a cabeça doer.
Ela começou a andar lentamente ao redor da cela, os passos ecoando pelo depósito vazio como se estivéssemos dentro de um teatro abandonado. Seus olhos analisavam tudo com uma curiosidade quase científica. Como se estivesse estudando um experimento interessante.
— Você sempre foi muito cuidadoso… — disse ela.— Mas eu percebi isso desde o começo.
Silêncio.
Meu estômago se contraiu.
— Desde quando?- questionei
— Desde quando você chegou em Los Angeles.- Ela sorriu de leve.
Meu coração acelerou e eu realmente estava encurralado.
— Eu investiguei você… — continuou Bella calmamente. — Não imediatamente. No começo eu apenas observei...Como você faz com todo mundo...
Ela passou a mão pelo vidro da cela.
Silêncio.
— Mas depois de um tempo comecei a perceber algumas coisas.- ela me encarou sorrindo torto.
— Como o quê? — perguntei, tentando manter a voz firme.
— Você observa demais.- diz Ela inclinando a cabeça— Pessoas normais não analisam o mundo como você faz.
Eu permaneci em silêncio.
— Então comecei a pesquisar… — disse ela fazendo meu coração disparou.— Seattle…Forks…
Meu peito apertou.
Minha respiração ficou pesada.
Então ela disse:
— Tanya Denali.
O nome ecoou dentro da minha cabeça como um tiro.
— Você matou ela.
Não era uma pergunta.
Era uma constatação.
— Bella…
— E não foi a única...Eu sei que você matou várias pessoas. — ela disse séria.
Silêncio.
Ela falou aquilo com uma calma assustadora.
Como se estivesse comentando sobre o clima.
E naquele momento percebi algo terrível.
Eu não tinha mais controle.
— Você vai chamar a polícia? — perguntei finalmente.
— Não.- Bella inclinou a cabeça e riu sem graça.
— Não?- perguntei arqueando a sobrancelha.
— Porque eu também tenho segredos.- Ela respirou fundo.— Se você cair, eu também vou cair... Rosalie Tunner.
Meu corpo inteiro ficou tenso.
O mundo pareceu parar.
— O quê?- gritei
— E também o verdadeiro Anthony Masen.- ela disse encarando o nada.
Meu cérebro tentou processar aquelas palavras.
— Eu encontrei os dois aqui… — continuou Bella apontando para a cela. — Presos...Eles me pediram ajuda...Eles iam denunciar você.
Silêncio.
Ela me olhou diretamente.
— Eu não podia deixar isso acontecer.- suspirou
Meu estômago revirou.
— Você… matou eles?- perguntei arregalando os olhos.
— Sim.
A palavra saiu simples.
Sem culpa.
— Por mim?- eu a encarei
Ela assentiu e eu queria vomitar.
— Pelo nosso relacionamento.- ela disse como se fosse o maior feito heroico que ela já havia feito.
O horror começou a subir lentamente pela minha coluna.Porque naquele momento percebi algo que nunca tinha imaginado.
Bella não estava horrorizada comigo.
Ela estava me protegendo.
— Você não entende… — disse ela suavemente. — Eu fiz isso por amor.
As palavras ecoaram no ar.
Amor.
A mesma palavra que eu sempre usei para justificar tudo.
— Eu também já matei antes… — continuou Bella.
Silêncio absoluto.
— Quando eu era criança… Emmett tinha uma babá.- Ela respirou fundo antes de continuar.— Ela abusava dele e eu descobri da pior forma possível...
Meu peito apertou.
Bella olhou para o chão por alguns segundos.
— Um dia eu coloquei veneno no chá dela.- ela confessou
Meu coração parou.
— Você…
— Ela morreu naquela noite e meus pais limparam toda a bagunça que fiz… e ninguém descobriu, muito menos o Emmett.
Meu corpo inteiro estava rígido agora.
— E Jacob? — perguntei com medo da resposta.
— Jake ficou doente…-Bella suspirou.— Nosso casamento estava acabando. Ele queria se divorciar.
Ela passou a mão lentamente pelo próprio braço e o envolveu ao redor do próprio corpo.
— Eu não podia perder ele.- As palavras saíram com uma sinceridade brutal.— Então fiz o que já tinha feito antes… — ela riu sem humor.— Aconita.
Meu cérebro reagiu imediatamente.
Aconitum napellus.
Conhecida como mata-lobos.
Uma das plantas mais venenosas que existem.
Ela age silenciosamente no corpo humano, interferindo nos canais de sódio das células nervosas e musculares. O coração simplesmente perde a capacidade de manter o ritmo natural. Em doses altas, a morte é rápida e brutal: parada cardíaca, falência respiratória, o corpo inteiro entrando em colapso. Mas em quantidades menores… a história é diferente. Pequenas doses podem destruir uma pessoa lentamente, paralisando o corpo, apagando a mente, deixando a vítima viva… mas presa dentro de si mesma. Um estado vegetativo. Uma prisão biológica sem paredes.
Meu estômago se revirou.
— Foi isso que você usou em Rosalie… — murmurei.
Bella assentiu.
— E no Anthony de verdade.- completou
Silêncio pesado.
— Eu não queria matar Jacob… — disse ela rapidamente. — Eu só queria deixá-lo doente. Queria que ele dependesse de mim.
Ela respirou fundo.
— Mas calculei errado a dose…E ele morreu.
O depósito parecia menor agora.
Mais sufocante.
Porque naquele momento percebi algo profundamente perturbador.
Bella não matou apenas para proteger alguém.
Ela matou por obsessão.
Por amor.
Exatamente como eu.
— Nós somos iguais… — disse ela suavemente.
As palavras ecoaram dentro da minha cabeça.
E pela primeira vez desde que conheci Bella…
Eu senti medo.
Não da polícia.
Não de ser descoberto.
Mas dela.
Porque eu estava olhando para um espelho.
E o reflexo era monstruoso.
— Edward… — disse Bella suavemente. — Eu sei quem você é de verdade… e eu te amo mesmo assim.
Ela pegou a chave da cela.
O clique da fechadura ecoou pelo depósito vazio.
A porta se abriu lentamente.
— Nós podemos ser honestos agora… — ela disse sorrindo.— Você está livre.
Eu saí da cela devagar.
Cada passo calculado.
Meu cérebro trabalhando freneticamente.
Bella era perigosa.
Tão perigosa quanto eu.
Talvez até mais.
E naquele momento apenas um pensamento ocupava minha mente.
Eu precisava matá-la… antes que ela destruísse tudo.
— Bella… — murmurei me aproximando e empurrando ela contra o vidro.
— Eu sabia que você ia entender… — ela sussurrou sorrindo.
Estiquei a mão para o pescoço dela.
Pronto para acabar com aquilo.
Mas então ela disse calmamente:
— Edward… eu estou grávida.
O mundo parou.
— O quê?
Ela pegou minha mão… e colocou na barriga.
— Vamos ter um bebê… — disse ela com os olhos marejados.
Silêncio absoluto.
Meu cérebro travou.
Um filho.
Meu filho.
Memórias da minha infância voltaram como uma avalanche.
Abandono.
Caos.
Violência.
Eu não podia repetir aquilo.
— Nós podemos ser uma família… — disse Bella suavemente.
Respirei fundo.
Talvez…
Talvez aquela fosse uma chance de fazer algo diferente.
Mesmo que isso significasse viver com um monstro.
A porta do depósito se abriu violentamente.
— BELLA!
Emmett entrou correndo.
Arma dourada apontada diretamente para minha cabeça.
— Afasta dele! — gritou ele.
— Emmett… — Bella disse fria se colocando na minha frente.
— Eu sei quem ele é! — ele gritou tremendo.— Eu sei o que você fez com Tanya Denali! E eu não vou deixar você fazer o mesmo com a minha irmã!
— Emmett… — disse Bella novamente.
— Sai da frente!- ele gritou
Levantei as mãos devagar.
— Vamos conversar…- tentei manter a calma
— Cala a boca!- ele continuou gritando.
Ele estava pronto para atirar.
Então outra voz ecoou pelo depósito.
— Polícia! Abaixe a arma!
Tudo aconteceu em segundos.
Um tiro.
Emmett olhou para o próprio peito.
O sangue começou a se espalhar pela camisa.
Ele caiu no chão.
Morto.
Bella gritou e correu até ele.
Eu fiquei imóvel.
Meses depois…
A história oficial estava estabelecida.
Emmett Higginbotham sofreu um colapso mental causado por abuso de substâncias ilícitas. Ele encontrou a arma do pai e, ao descobrir que o namorado da irmã a havia engravidado, surtou e tentou me matar. A polícia foi obrigada a reagir.
Tragédia.
Do jeito que Los Angeles ama.
Agora eu estava sentado na varanda da nossa casa nova observando o pôr do sol quando Bella apareceu atrás de mim com a mão repousando sobre a barriga de seis meses.
— Você está pensando em alguma coisa? — perguntou curiosa.
Eu sorri e a puxei para mais perto.
Minha mão acariciou a barriga onde nosso filho crescia.
— No nosso futuro… — respondi calmamente.
Ela beijou o alto da minha cabeça e começou a fazer carinho nos meus cabelos.
E naquele momento percebi algo profundamente perturbador.
Eu sempre procurei alguém que pudesse me entender.
Agora eu tinha encontrado.
E talvez… Esse fosse o maior erro da minha vida.
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