YOU
11 Cercas Brancas
“As pessoas acreditam que finais existem.
Que depois do caos, depois do sangue, depois das mentiras… a vida encontra algum tipo de equilíbrio.
Elas gostam de imaginar que o amor pode curar tudo.
Elas estão erradas."
Meses se passaram...
Tempo suficiente para que os jornais parassem de falar sobre a morte de Emmett Higginbotham. Tempo suficiente para que o caso de Rosalie Tunner desaparecesse lentamente da memória coletiva da cidade. Tempo suficiente para que Los Angeles, como sempre faz, escolhesse esquecer.
A cidade é muito boa nisso.
Esquecer.
Enterrar histórias.
Seguir em frente.
Nós também seguimos em frente.
Ou pelo menos fingimos fazer isso.
Agora eu era novamente Edward Cullen.
Anthony Masen tinha desaparecido para sempre , enterrado em um passado conveniente que ninguém mais tinha motivos para investigar. Um nome falso que cumpriu seu papel e agora podia descansar em silêncio, como tantas outras coisas que deixei para trás.
Nossa nova casa ficava em um bairro planejado no subúrbio de Madre Linda.
Um daqueles lugares absurdamente perfeitos.
Casas grandes com jardins simétricos, cercas brancas recém-pintadas e ruas silenciosas onde as pessoas passeiam com cachorros de raça pela manhã enquanto conversam sobre investimentos e escolas particulares. As árvores parecem ter sido plantadas no ângulo exato para que o sol atravesse as janelas no horário perfeito.
É o tipo de lugar que transmite segurança.
Normalidade.
Ilusão.
Exatamente o tipo de lugar onde ninguém espera encontrar monstros, como eu e Bella.
Eu estava sentado na varanda naquela manhã, segurando uma xícara de café enquanto observava a rua.
Dentro da casa ouvi passos.
— Edward?
A voz de Bella vinha da cozinha.
Ela apareceu alguns segundos depois, segurando uma tigela de frutas, os cabelos presos de forma desleixada e uma das mãos apoiada na barriga.
A barriga que crescia lentamente a cada semana.
Nosso filho.
Um menino.
Bella havia contado aquilo com um sorriso tranquilo semanas atrás, como se estivesse revelando algo absolutamente normal. Como se a vida que estávamos construindo fosse apenas mais uma versão do sonho suburbano americano.
— Você acordou cedo — disse ela.
— Não consegui dormir.
Ela se aproximou e beijou minha bochecha.
— Você anda pensando demais.
Talvez.
Bella colocou a tigela sobre a mesa e sentou ao meu lado.
Durante alguns segundos ficamos em silêncio observando o bairro acordar lentamente.
Um casal caminhando com um golden retriever.
Uma mulher empurrando um carrinho de bebê.
Um homem regando o jardim.
Cenas simples.
Perfeitas.
Cenas que deveriam transmitir paz.
— Você está feliz? — Bella perguntou de repente.
Eu virei o rosto para ela.
— Claro, meu amor.- sorri para ela mentindo.
Ela me observou por um momento mais longo do que o normal, como se estivesse tentando atravessar as camadas da resposta que eu tinha acabado de dar.
Bella sempre foi boa em perceber coisas.
Mas então ela sorriu.
— Eu também.- ela disse e eu percebi na hora que ela também estava mentindo.
Silêncio.
Depois ela se levantou.
— Eu vou terminar o café da manhã.
Ela desapareceu dentro da casa.
Eu fiquei sozinho na varanda novamente.
O bairro continuava tranquilo.
Calmo.
Seguro.
Mas havia algo… errado.
Ou talvez apenas familiar.
Porque enquanto observava o outro lado da rua, percebi que a casa vazia que havia sido vendida algumas semanas antes finalmente tinha novos moradores.
Uma caminhonete de mudanças estava estacionada na frente.
Caixas espalhadas pelo jardim.
E então…
Você.
Você apareceu na porta da casa segurando uma caixa grande demais para os seus braços. O cabelo preso em um coque improvisado, algumas mechas soltas caindo sobre o rosto enquanto você tentava equilibrar o peso da mudança.
Você parecia frustrada.
Confusa.
Nova naquele lugar.
Nova naquele mundo.
Você deixou a caixa cair no chão com um pequeno suspiro irritado e passou a mão pela testa.
Eu me inclinei um pouco para frente na cadeira.
Interessante.
Muito interessante.
Você começou a abrir outra caixa, tirando livros, objetos, pequenas coisas pessoais que aos poucos revelavam fragmentos da sua vida.
Livros de literatura.
Um porta-retratos.
Um caderno de anotações.
Detalhes.
Sempre os detalhes.
Você se abaixou novamente para pegar outra caixa e por um segundo levantou os olhos em direção à rua.
Nossos olhares quase se encontraram.
Quase.
Mas não completamente.
Ainda não.
Atrás de mim ouvi o barulho da porta de vidro se abrindo novamente.
— Edward?
Bella voltou para a varanda, segurando duas xícaras de café.
— Trouxe outro para você.- disse sorrindo
Eu me recostei na cadeira.
Calmo.
Tranquilo.
Como se minha atenção não tivesse acabado de se fixar em algo novo.
Como se nada estivesse começando.
Bella colocou a xícara na minha frente.
— O que você está olhando?
Eu dei um pequeno sorriso.
— Os novos vizinhos- fingi desinteresse.
Bella se inclinou levemente para ver.
— Ah… finalmente alguém comprou aquela casa.- Ela observou você por alguns segundos.— Parece simpática.
Interessante.
Muito interessante.
Bella voltou a sentar ao meu lado.
— Talvez devêssemos convidá-la para jantar algum dia.- disse me encarando
Eu não respondi imediatamente.
Porque naquele momento eu estava ocupado demais observando você novamente.
A forma como você se movia.
A forma como parecia completamente alheia ao mundo ao redor.
A forma como parecia… perdida.
Nova.
E de repente senti algo que não sentia havia algum tempo.
Uma pequena faísca.
Curiosidade.
Aquela sensação quase imperceptível que aparece no início de toda história.
A mesma sensação que senti quando vi Bella pela primeira vez.
Atrás de mim Bella falava algo sobre o quarto do bebê, sobre móveis novos, sobre o futuro que estávamos construindo juntos.
Eu ouvia.
Mas não completamente.
Porque meus olhos ainda estavam voltados para a casa do outro lado da rua.
Para você.
E enquanto Bella falava sobre nossa nova vida…
Eu percebi algo inevitável.
O ciclo nunca termina.
Ele apenas espera.
Espera pelo próximo começo.
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