“A verdade não aparece de uma vez.

Ela começa como um sussurro…

e de repente você percebe que alguém já estava gritando há muito tempo.”

A varanda central do prédio era um daqueles lugares que parecem existir apenas para fingir normalidade. Um espaço aberto, cercado por grades de ferro preto e vasos com plantas ornamentais que alguém provavelmente pagava caro para manter vivas. O sol da manhã atravessava as folhas e projetava sombras tremidas no chão de pedra, enquanto o som distante da cidade subia como uma respiração constante.

Los Angeles nunca dorme de verdade.

Ela apenas finge descansar.

Eu estava encostado no corrimão da varanda quando ouvi passos atrás de mim.

— Anthony?- A voz era suave, mas carregava uma tensão que eu já tinha aprendido a reconhecer.

Eu me virei.

Bree Tunner estava parada na entrada da varanda, segurando a mochila contra o peito como se aquilo pudesse protegê-la de alguma coisa invisível.

Ela parecia cansada.

Mais pálida.

Os olhos dela estavam vermelhos como se não tivesse dormido direito.

— Bree — eu disse, forçando um sorriso gentil. — Bom dia.

Ela caminhou até mim devagar.

— Você viu a Rosie?

Meu coração deu um pequeno salto dentro do peito, mas meu rosto não mudou.

Controle.

Sempre controle.

— Não — respondi calmamente. — Por quê?

Ela passou a mão pelo cabelo preso em um rabo de cavalo desleixado.

— Ela sumiu.

Silêncio.

— O quê?- me fiz de desentendido.

— Faz cinco dias.- ela parecia derrotada

Cinco.

Dias.

Pobre Bree...Pobre Rosie...

— Isso nunca aconteceu antes — continuou Bree, a voz agora mais baixa. — Ela sempre avisa quando vai sair… sempre.

Eu inclinei levemente a cabeça, fingindo preocupação.

— Você tentou ligar para ela?- perguntei fingindo que não sbaia a verdade.

— Mil vezes.- ela disse encarando o teto

— E?

— Caixa postal.- ela suspirou e desviou o olhar para a cidade lá embaixo.— Eu sei que parece paranoia… mas algo está errado.

Meu estômago se contraiu.

Porque sim.

Algo estava muito errado.

— Talvez ela esteja trabalhando em alguma investigação — eu disse cuidadosamente.

— Ela sempre me conta.- Bree suspirou.

Silêncio.

Ela olhou diretamente para mim então.

— Você é o único adulto normal que eu conheço nesse prédio.- confessou.

Adulto normal... Bree, se você soubesse a verdade...

Interessante.

— Eu estou com medo — ela confessou.

E por um segundo eu senti algo que raramente aparece em mim.

Culpa.

Uma culpa fina e desagradável que se infiltra entre os pensamentos como água fria.

Porque Rosalie estava morta e Bree ainda não sabia.

— Ei — eu disse suavemente — Nós vamos descobrir o que aconteceu.

Ela assentiu.

— Eu preciso ir para a escola.- disse levantando

— Claro.- respondi sorrindo torto- Boa aula...

Ela deu alguns passos em direção à saída da varanda.

Mas antes de sair, voltou e disse:

— Obrigada por sempre acreditar em mim.

Eu observei Bree desaparecer pelo corredor e fiquei sozinho novamente.

Com aquela sensação horrível crescendo dentro do peito.

Esperei cerca de vinte minutos.

Tempo suficiente para Bree sair do prédio.

Tempo suficiente para o corredor ficar vazio.

Então eu caminhei até o apartamento dela.

Arrombar portas é muito mais fácil do que as pessoas imaginam.

Principalmente quando você já teve muita prática.

O apartamento estava silencioso.

Pequeno.

Bagunçado.

O tipo de bagunça que denuncia alguém que está ocupado demais tentando sobreviver para se preocupar com organização.

Eu comecei a procurar.

Gavetas.

Armários.

Mesa de trabalho.

Foi quando encontrei.

Um caderno.

Capa preta.

Dentro dele havia anotações.

Recortes de jornal.

Fotografias impressas.

E no meio de tudo…

Uma palavra.

Forks.

Meu coração começou a bater mais rápido.

Rosalie estava investigando meu passado.

Eu virei as páginas rapidamente.

Seattle.

Tanya Denali.

O psicólogo.

Fotos antigas.

Conexões.

Rosalie tinha chegado muito perto. Perto demais.

Então algo chamou minha atenção.

O celular dela.

Estava sobre a mesa.

Desligado.

Eu o liguei.

Tela rachada.

Bateria quase acabando.

Lista de chamadas.

A última ligação.

Meu corpo inteiro ficou rígido.

Emmett Higginbotham.

Interessante.

Muito interessante.

Eu desliguei o celular e o coloquei no bolso.


O Complexo Higginbotham estava cheio naquela tarde. Música suave tocava pelos alto-falantes escondidos entre as plantas, clientes conversavam em mesas de madeira clara enquanto bebiam cafés orgânicos absurdamente caros.

Tudo parecia perfeitamente normal.

Como sempre.

— ANTHONY!- A voz ecoou pelo espaço.

Emmett apareceu vindo na minha direção com os braços abertos como se estivesse prestes a me abraçar.

— Cara!- o cumprimentei fingindo entusiasmo.

Ele realmente me abraçou.

— Eu tive uma ideia genial!- disse andando com o braço enorme ao redor dos meus ombros.

Claro, o gênio sempre com seus ideias "MARAVILHOSAS"...

— O que foi agora?- perguntei

— Nós vamos escrever um roteiro.- disse ele gesticulando com as mãos como se tivesse falado que havia descoberto a cura do câncer.

— Nós?- perguntei arqueando a sobrancelha.

— Sim!- disse ele animado me puxando para fora da cafeteria.— Vamos dar uma volta...Dia dos Homens !

Beverly Hills à noite parece um cenário de filme.

Luzes douradas.

Carros caros.

Casas que parecem museus.

Emmett estacionou o carro em uma colina com vista para a cidade inteira.

— Aqui — disse ele abrindo duas garrafas de cerveja.

Eu aceitei.

Erro.

Porque alguns minutos depois percebi que havia algo errado.

Minha cabeça começou a girar.

As cores da cidade ficaram mais intensas.

O ar parecia vibrar.

— LSD — disse Emmett casualmente rindo.

Perfeito.

— Você me drogou.- o acusei

— Ajuda na criatividade, maninho- disse ele batendo no meu ombro.

Claro que ajuda.

Minha visão começou a distorcer lentamente.

— Escuta isso — disse Emmett abrindo um notebook.

Ele começou a ler.

— “Um homem obcecado por uma mulher decide protegê-la do mundo…”- disse ele animado e meu estômago se contraiu.— “Ele começa a controlar a vida dela…”- A voz de Emmett parecia ecoar.— “E então pessoas começam ao redor começam morrer.”- Meu coração disparou.— Isso é ficção, pura ! Vamos ganhar o Oscar! — ele disse animado.

Ficção.

Claro.

— Continue — eu murmurei fingindo interesse.

— “A primeira morte acontece quando ele descobre que a mulher o traiu…”- diz e meu sangue gelou.— “Tanya.”- a voz dele me paralisa — Esse é o nome da personagem — disse Emmett.

Eu senti meu cérebro entrar em pânico.

Ele estava descrevendo exatamente o que aconteceu.

— Emmett…

— Espera.- ele me interrompeu e continuou digitando.— “O homem manipula a polícia para culpar outra pessoa.”

Minha respiração ficou irregular.

— Cara — disse Emmett rindo — Isso está ficando muito sombrio.

— Talvez você devesse mudar a história.

— Não!- disse Ele e se virou para mim. — O protagonista precisa ser um assassino incompreendido...Um assassino obcecado por amor.

Quanto mais ele falava…

Mais perto da verdade chegava.

— Você já conheceu alguém assim? — perguntou ele.

Eu ri.

— Eu escrevo histórias de terror por hobby, não jornalismo investigativo.

Ele me encarou por alguns segundos.

— Às vezes você fala coisas estranhas.- disse o babaca.

— Sou criativo.- o corrigi

Ele bebeu mais cerveja.

Muito mais.

— Minha irmã também é estranha, acho que por isso vocês combinam — murmurou ele.

Interessante.

— Bella?- arqueei a sobrancelha

Ele assentiu.

— Você sabe que ela já foi casada, né?- ele disse

— Jacob.

— Isso.- Ele olhou para o céu.— Eu nunca gostei dele e me culpo por isso.

— Por quê?

— Ele era velho demais para ela... E a Bella, intensa de mais...

Silêncio.

— Quando eu era criança… — Emmett continuou — tinhamos uma babá.- Ele ficou em silêncio por alguns segundos.— Ela abusava de mim.

Eu não disse nada.

— Um dia eu vi Bella a encarando com ódio e ela desapareceu logo depois.- disse ele encarando o horizonte como se tivesse revivendo o momento.

— O quê?

— Eu não lembro muito bem.- Ele riu nervosamente.— Meus pais disseram que ela se mudou. Eles apagaram tudo, parecia que a Maria nunca havia existido...

Silêncio.

Interessante.

Muito interessante.

— E Jacob?- perguntei

— Ele ficou doente.- suspirou

— Doente?- arqueei a sobrancelha.

— Sim.- Emmett bebeu mais.— Foi uma morte trágica e Bella ficou destruída

Ele olhou para mim.

Eu senti algo apertar dentro do peito.

— Meus pais esconderam tudo da mídia.- disse ele com uma expressão vaga.

— Por quê?- perguntei, eu precisava saber mais já Bella nunca falava.

— Para ela poder sofrer em paz.- ele disse de uma vez

Silêncio.

Eu pensei em Bella.

Em tudo que ela tinha passado.

Talvez fosse por isso que ela nunca falava sobre Jacob.

Talvez fosse por isso que ela parecia carregar uma tristeza silenciosa.

— Ela merece ser feliz, cara— disse Emmett.

Eu olhei para as luzes da cidade lá embaixo.

— Sim.- concordei

Ela merece.

Mesmo que o homem que a ama…

Seja um monstro.

E enquanto o LSD continuava distorcendo o mundo ao meu redor…

Eu comecei a perceber algo estranho.

Algo perturbador.

Talvez…

Talvez Bella não fosse tão inocente quanto eu imaginava.