YOU
3 Círculos
Notas iniciais
“Toda pessoa acredita que conhece o próprio coração.
Até o momento em que encontra alguém capaz de revelar o que realmente existe dentro dele.”
Los Angeles tem um talento particular para transformar superficialidade em estilo de vida. A cidade inteira parece construída sobre um acordo silencioso entre pessoas bonitas e infelizes que decidiram fingir que são felizes enquanto bebem sucos orgânicos caros e discutem iluminação natural para fotos no Instagram. Eu observo isso todos os dias enquanto caminho até o Complexo Higginbotham, atravessando a mesma rua cheia de cafés minimalistas, estúdios de pilates e lojas que vendem velas aromáticas com nomes como Serenidade da Alma e Respiração Interior. Nada disso é real, claro. Mas essa é a beleza do lugar. Em uma cidade onde todo mundo está ocupado fingindo ser outra pessoa, um homem como eu pode existir sem chamar atenção.
E ainda assim…
Você
Sempre voltamos a você, Isabella Higginbotham.
A primeira coisa que notei naquela manhã foi que você estava rindo. Não aquele riso educado que as pessoas usam para preencher silêncios desconfortáveis, mas um riso verdadeiro, profundo, que começa nos olhos e se espalha pelo rosto inteiro como uma onda inesperada. Você estava sentada em uma mesa perto da janela da cafeteria, inclinada para frente enquanto falava com um grupo de amigos que claramente pertenciam àquele tipo específico de elite urbana que acredita que autenticidade pode ser comprada com o cartão de crédito Black ilimitado.
Três mulheres e dois homens. Com roupas caras disfarçadas de casualidade e vozes altas demais.
Eles tinham aquela arrogância sutil que acompanha pessoas que cresceram acreditando que o mundo foi construído especialmente para elas.
Jessica Stanley, a melhor amiga de Tanya, teria adorado esse grupo.
Eu fiquei parado por um momento observando a cena antes de entrar. O curioso sobre círculos sociais privilegiados é que eles sempre seguem o mesmo padrão. Existe o líder emocional, você, neste caso. Existe o satélite dramático, uma mulher de vestido branco que parecia falar demais. Existe o observador silencioso tentando parecer mais inteligente do que realmente é. E existe o oportunista que ri de tudo esperando ganhar algum tipo de benefício social.
Humanidade em miniatura.
— Anthony!- Sua voz atravessou o espaço antes mesmo de eu chegar à mesa.
Você se levantou imediatamente e esse pequeno gesto fez meu coração saltar feliz dentro do peito.
A maioria das pessoas permanece sentada quando alguém novo chega. Você não. Você sempre se move na direção das pessoas.
Isso diz muito.
— Pessoal, esse é o Anthony — você disse. — Ele trabalha na livraria.
Os olhos do grupo se voltaram para mim ao mesmo tempo.
Avaliação instantânea.
Classe social.
Valor.
Utilidade.
— Anthony, esses são alguns dos meus amigos.- disse animada, como se quisesse que fizesse parte disso.
A mulher de vestido branco e cabelos curtos arrepiados foi a primeira a falar.
— Alice — disse ela, estendendo a mão como se estivesse oferecendo uma joia rara.
Eu apertei.
— Prazer.- disse sorrindo torto.
Ela inclinou levemente a cabeça.
— Bella fala muito bem de você.- disse ela com um tom provocativo para Bella.
Interessante.
— Espero não decepcionar.- disse sorrindo
— Difícil — disse outro homem da mesa, tomando um gole de vinho mesmo sendo apenas onze da manhã. — Bella não costuma se impressionar facilmente.
Mentira!
Você se impressiona com sinceridade,com bondade e com pequenas coisas humanas que essas pessoas ao seu redor provavelmente nem reconhecem mais.
Eu sentei e imediatamente comecei a catalogar.
Roupas.
Posturas.
Microexpressões.
A mulher chamada Alice estava claramente tentando me classificar socialmente. O homem ao lado dela, Paul, parecia irritado por não saber exatamente qual era meu papel ali. O terceiro homem, Quill, estava ocupado demais admirando o próprio reflexo na tela do celular.
Você, por outro lado…
Você estava me observando com curiosidade genuína.
— Então, Anthony — disse Alice — Bella comentou que você veio de Seattle.
— Sim.- respondi tentando ser simpático.
— O que te trouxe para Los Angeles?- A pergunta veio com aquele sorriso educado que esconde uma intenção muito específica.
Eles queriam saber se eu pertencia àquele mundo. Se eu tinha dinheiro, se eu tinha poder e se eu tinha valor.
— Mudança — respondi simplesmente.
— Que específico — disse Paul, sorrindo.
Eu sorri de volta.
— Algumas histórias são longas demais para o café da manhã.- respondi sendo gentil... Gentil até de mais...
Você riu e naquele momento algo mudou na dinâmica da mesa.
Porque sua risada validou minha presença, com pequenos detalhes.
Sempre pequenos detalhes.
Alguns minutos depois, outra cadeira foi arrastada para perto da mesa com uma energia completamente diferente do resto do grupo.
Emmett Higginbotham entrou na conversa como uma tempestade.
— Anthony! — disse ele. — Cara, eu estava te procurando.
Ele sentou ao meu lado sem cerimônia passando seu braço extremamente musculoso e pesado pelos meus ombros.
— Você precisa me ajudar.- disse
— Com o quê?- perguntei arqueando a sobrancelha.
— Meu roteiro.- disse ele passando a mão pelos cabelos.
Claro...Roteiristas em Los Angeles são como pombos em Seattle. Estão em todos os lugares e sempre parecem famintos.
— Eu estou bloqueado — ele continuou. — Tipo… completamente bloqueado.
— Sobre o que é a história?- perguntei fingindo interesse.
Ai Bella, o que eu não faço por você...
— Um cara que tenta reinventar a própria vida depois de fazer coisas horríveis.- ele disse sorrindo como se aquela ideia fosse o auge da inteligencia...Mas aquilo era patetico.
Silêncio.
— Isso parece meio sombrio.- Você respomdei e inclinou a cabeça curiosamente.
— A vida é sombria, maninha- Emmett deu de ombros e voltou a olhar para mim.— Você tem cara de alguém que entende personagens complexos.
Interessante.
Muito interessante.
— Talvez — eu disse.
— Então me ajuda — insistiu ele.
Obsessão.
Ela começa assim.
Pequenas projeções.
Pequenas idealizações.
Emmett queria acreditar que eu possuía alguma chave secreta para desbloquear sua criatividade.
E talvez eu tivesse...Só não da forma que ele imaginava.
Mais tarde, naquela noite, eu estava no corredor do prédio quando ouvi música saindo de um dos apartamentos.
Alto.
Indisciplinado.
Imperfeito.
Eu sorri levemente.
Porque eu já sabia quem era.
A porta abriu antes mesmo que eu pudesse bater.
Bree Tanner apareceu com um saco de batatas fritas na mão.
— Vizinho misterioso — disse ela.
— Vizinha barulhenta.- brinquei com ela.
— Justo.- Ela sorriu dobrando a cabeça para o lado.
Eu me apoiei na parede do corredor.
— Você sempre escuta música tão alta?- perguntei
— Só quando estou evitando pensar.- ela confessou
— E funciona?- perguntei olhando para ela.
— Não — ela disse. — Mas me distrai.
Silêncio.
Ela me observou por alguns segundos.
— Minha irmã acha que você é estranho.- ela jogou na lata
— Ela é jornalista investigativa.- disse rindo.
— Exato.- Bree deu de ombros revirando os olhos.— Eu acho que você só parece… triste.
A palavra ficou suspensa entre nós.
Triste
Curioso como adolescentes conseguem identificar emoções que adultos passam a vida inteira tentando esconder.
— Você acha? — perguntei semicerrando os olhos.
— Acho.- ela falou arqueando a sobrancelha
— Quer?- disse ela abrindo o saco de batatas e me oferecendo.
Eu aceitei.
Pequenos gestos humanos e coisas simples.
Raras em uma cidade onde todo mundo está ocupado tentando parecer extraordinário.
— Por que você se mudou para Los Angeles? — Bree perguntou.
Eu observei o corredor silencioso.
— Para recomeçar.- disse sem importância
Ela mastigou uma batata e me encarou.
— Boa sorte com isso.- disse provocando
— Por quê?
— Porque ninguém realmente recomeça.- ela suspirou.
Interessante.
Muito interessante.
Horas depois, sentado sozinho no meu apartamento, eu abri o laptop e digitei: Isabella Higginbotham.
Você.
Seu perfil no Instagram apareceu imediatamente, mais de 500mil seguidores. Repleto de fotos, de eventos, fragmentos de entrevistas, amigos, lugares que você ama, horários da sua rotina..
Eu parei.
Respirei fundo.
Não.
Desta vez seria diferente, eu não faria isso.
Eu não investigaria cada detalhe da sua vida, não repetiria o padrão.
Eu fechei o laptop com força e fiquei em silêncio por alguns segundos.
E então abri novamente, porque controle não é um hábito. É uma necessidade.
Mas enquanto eu navegava pelas fotografias, outro pensamento começou a se formar lentamente no fundo da minha mente.
Um nome.
Um rosto.
Um fantasma.
Victoria.
Porque mais cedo naquele dia eu tinha visto algo estranho.
Uma fotografia antiga.
Um comentário em uma conta que não deveria existir.
Uma sombra digital.
E agora…Agora eu não tinha mais certeza.
Talvez.
Apenas talvez.
Victoria estivesse viva.
E se isso fosse verdade…Então Los Angeles não era apenas um recomeço.
Era um campo de batalha e pela primeira vez desde que cheguei aqui…eu comecei a me perguntar se o passado tinha realmente ficado enterrado.
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