YOU
4 Justiça
Notas iniciais
“O mundo gosta de chamar certas pessoas de monstros.
Mas às vezes os verdadeiros monstros usam ternos caros e fazem piadas na televisão.”
Los Angeles adora homens como James Hanther.
Homens engraçados, carismáticos...Homens que fazem multidões rirem enquanto escondem coisas horríveis atrás de portas trancadas.
Eu aprendi isso cedo sobre esta cidade: quanto mais alto alguém sobe na indústria do entretenimento, mais cuidadosamente as pessoas escolhem não ver o que está logo diante delas.
Mas naquela tarde, parado no corredor do prédio onde eu morava, eu ainda não sabia que estava prestes a descobrir exatamente que tipo de homem James realmente era.
A música vinha novamente do apartamento ao lado.
Alta.
Desordenada.
Uma mistura caótica de guitarra e bateria que parecia bater contra as paredes como um coração acelerado demais.
Eu bati duas vezes na porta.
Ela abriu quase imediatamente.
Bree Tunner estava sentada no chão da sala com o laptop aberto e um monte de papéis espalhados ao redor.
— Vizinho misterioso — disse ela, jogando uma batata frita na boca.
— Vizinha barulhenta — brinquei.
Ela sorriu.
— Você ama.- disse ela piscando.
Eu entrei naquele apartamento, era extremamente pequeno, bagunçado de um jeito jovem. Livros empilhados em mesas, uma câmera fotográfica largada no sofá, pôsteres de filmes antigos colados nas paredes com fita adesiva.
Vida real.
Não aquela versão esterilizada que pessoas ricas fingem ter.
— O que você está fazendo? — perguntei.
— Tentando decidir se abandono a escola e viro diretora de cinema ou se abandono a escola e viro criminosa internacional.
— Escolha difícil.- disse analisando seu rosto e ela riu, mas algo no riso não chegou aos olhos.— Você está estranha hoje...
Bree ficou em silêncio por um momento e pegou outra batata frita levando a boca.
— Você já teve aquela sensação de que algo ruim aconteceu… mas que você não pode contar para ninguém?
Silêncio.
Porque sim, eu conhecia essa sensação muito bem.
— Já — respondi sincero.
Ela mastigou devagar.
— Eu consegui um estágio.- confessou
— Isso parece bom.- disse amigavel
— Parece.- ela falou e não parecia nem um pouco animada com isso. Bree apoiou os cotovelos nos joelhos e continuou falando.— Com um comediante famoso.
Meu cérebro fez a conexão imediatamente.
— James Hanther?- perguntei
Ela levantou os olhos.
— Como você sabe?
Interessante. Aquele cara era um babaca...
— Ele é amigo da família Higginbotham.- disse fingindo indiferença
Ela fez uma careta.
— Claro que é...Sabe, não entendo como a Bella pertence aquela família e aquela classe...- disse Bree julgando.
Silêncio.
Então ela disse algo que mudou completamente o ar da sala.
— Coisas estranhas acontecem lá no escritório do James.- Bree completou
Minha postura mudou.
— Estranhas como?- perguntei
Bree ficou olhando para as mãos.
— Meninas — disse ela envergonhada.
— Que tipo de meninas?- insisti.
— Jovens, jovens de mais para estar ali...
A palavra caiu no chão da sala como vidro quebrado.
— Bree — eu disse calmamente — o que exatamente está acontecendo?
Ela respirou fundo.
— Ele oferece estágio para garotas que querem trabalhar na indústria.- ela disse encarando o saco de batatas.
— E depois?- insisti
— Depois… ele as chama para festas privadas.- ela confessou com um suspiro.
Meu maxilar se tensionou.
— E você?- perguntei entre dentes.
Ela demorou alguns segundos para responder.
— Eu fui uma vez.- confessou envergonhada. Silêncio absoluto reinou no espaço.— Ele tentou me beijar — ela continuou, a voz baixa. — Eu disse que não.
Minha respiração ficou lenta.
Muito lenta.
— E então?
Ela levantou os olhos.
— Ele me agarrou.- as palavras saíram secas.Cruas.— Eu consegui escapar — ela disse rapidamente. — Eu corri.
Silêncio.
Algo dentro de mim se moveu.
Não raiva.
Não exatamente.
Algo mais antigo.
Mais frio.
— Por que você não contou para Rosalie?- perguntei sério.
Bree soltou uma risada amarga.
— Minha irmã odeia o James.- ela disse
— Isso parece um bom motivo para contar.- eu a repreendi
— Ela me mataria se descobrisse que eu fui trabalhar para ele.- Bree confessou.
Interessante.
Muito interessante.
Porque Rosalie já suspeitava de mim, mas aparentemente não suspeitava dele.
— Bree — eu disse — você não fez nada errado.
— Eu sei.- Ela deu de ombros.
Mas ela claramente não sabia, eu fiquei em silêncio por alguns segundos.
Então perguntei:
— Você tem o endereço dele?
Ela hesitou.
— Por quê?- perguntou me olhando confusa.
— Curiosidade.- Eu sorri levemente.
Duas horas depois eu estava parado do lado de fora da casa de James.
Uma mansão moderna nas colinas de Los Angeles.
Vidro.
Concreto.
Vista panorâmica da cidade.
Exatamente o tipo de lugar que homens poderosos escolhem para esconder seus segredos.
Eu escalei o muro lateral com facilidade, portas de vidro deslizantes.
Alarme desativado, graças ao nosso amigo enjaulado.
Obrigado, Anthony Masen. Você é especial!
Dentro da casa tudo era silêncio, luxo minimalista.
Arte moderna nas paredes e aquele cheiro leve de álcool caro e cocaína da boa.
Eu comecei a investigar.
Primeiro o escritório, computador sem senha? James era um pedófilo abusador de ultima qualidade.
Pastas repletas de provas. Que imbecil...
Um cofre pequeno atrás de um quadro e dentro dele…
Fotografias.
Meu estômago se revirou e eu me segurei para não vomitar ali mesmo..
Meninas.
Muito jovens.
Algumas claramente drogadas...Algumas inconscientes.
Monstro!
Eu continuei olhando, mensagens, conversas, convites para “festas privadas”.
Histórico de anos e então ouvi a porta da frente abrir.
Passos.
— Olá?- Uma voz pesada, mas não sabia se era por excesso de drogas ou ressaca.
James.
Droga! Merda!
Eu me movi rapidamente pela casa, mas ele já tinha me visto.
— Quem diabos é você? — ele perguntou muito chapado.
Eu fiquei parado no meio da sala.
— Anthony Masen.- disse seco.
— Você invadiu minha casa?- Ele franziu a testa confuso.
— Eu estava curioso.- disse o encarando.
Ele riu freneticamente.
— Você sabe quem eu sou?- perguntou entre risos
— Sim.- respondi seco
— Eu vou chamar a polícia.- disse ele pegando o celular, mas ele estava tão chapado que fazia tudo em câmera lenta.
— Você pode tentar.- disse rindo para ele.
Silêncio.
Então ele percebeu.
— Você viu o cofre.- ele murmurrou.
Eu não respondi.
Ele suspirou.
— Olha… você não entende como esse mundo funciona.- ele tentou se vitimizar
— Eu entendo perfeitamente.- disse tranquilo o encarando.
Ele deu um passo na minha direção.
— Essas garotas querem estar aqui.- ele mentiu abrindo um sorriso nojento.— Elas querem carreira.
Mentiroso...
— Você é um predador.- disse o provocando.
Ele gargalhou.
— E você é quem? Batman novo do Christopher Nolan? — ele brincou
Algo dentro de mim quebrou com o sarcasmos daquele verme.
— Eu sou alguém que não gosta de monstros.- disse entre dentes.
Ele avançou e então tudo aconteceu muito rápido.
James agarrou um copo da mesa e o quebrou contra minha cabeça.
VIDRO! PUTA MERDA!
Uma explosão de dor cortou meu supercílio.
Sangue desceu quente pelo meu rosto.
— Idiota — ele gritou.
Mas eu já estava em movimento.
Eu o agarrei pela camisa.Empurrei e ele tropeçou nos proprios pés.
A escada. O corrimão.
Ele tentou se segurar.
— Espera — ele implorou.
Tarde demais...Eu empurrei.
O corpo dele caiu escada abaixo.
Um som seco.
Silêncio.
Eu fiquei parado no topo da escada admirando com a respiração pesada.
Sangue escorrendo pelo rosto.
— Porra!- murmurei
Eu desci devagar as escadas.
James estava espatifado no chão, com pescoço torto.
Olhos arregalados mostrando desespero.
Silêncio absoluto.
Meu cérebro começou a correr...Rápido.
Muito rápido.
Pense, Edward...Puta merda!
Pense,Edward...Caralho, o que eu fiz?
Pense, Edward! Pense!
Então eu vi, na mesa da sala como se tivesse sido iluminado por anhos.
Um saco de cocaína bem cheio.
Muito.
MUITO.
Perfeito.
Eu comecei a trabalhar. Luvas. Pano.
Limpar superfícies perfeitamente sem deixar vestigios.
Mover objetos.
Colocar cocaína perto do corpo.
Mais no nariz,mais no chão.
A cena começou a tomar forma.
James drogado.
Em transe.
Bate a cabeça no vidro.
Cai da escada.
Trágico.
Eu limpei o sangue do corrimão.
Limpei minhas pegadas.
Respirei fundo.
Então olhei para o corpo.
— Você fez isso consigo mesmo — murmurei.— Tadinho...
Porque homens como você sempre fazem.
Eu saí da casa pela mesma porta.
A noite de Los Angeles parecia exatamente igual.
Carros passando, luzes da cidade brilhando.
Pessoas rindo exageradamente.
Ninguém sabia.
Ninguém nunca sabe.
E enquanto eu caminhava de volta para casa, uma única ideia girava na minha mente.
Eu não sou um assassino, eu sou apenas alguém que faz o que precisa ser feito.
Alguém precisa proteger pessoas como Bree.
Alguém precisa impedir monstros como James.
Se o mundo fosse justo…
Eu não precisaria existir.
Mas o mundo não é justo.
Então homens como eu precisam existir...
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