YOU

7 A Caçada


“O verdadeiro terror não é ser perseguido por um monstro.

É descobrir que alguém conhece o monstro que você é.”


Existem momentos na vida em que o mundo simplesmente… se parte.

Não de forma dramática, não com explosões ou gritos ou música de suspense como nos filmes que Emmett Higginbotham tenta escrever. Não. O mundo real se parte em silêncio. Em pequenas rachaduras invisíveis que começam a se espalhar lentamente pela superfície das coisas até que, de repente, você percebe que tudo aquilo que parecia sólido nunca passou de vidro.

E naquele momento, parado diante da cela de vidro no esconderijo, olhando para os corpos imóveis de Rosalie e do verdadeiro Anthony Masen, eu senti exatamente isso.

O mundo quebrando.

Meu primeiro pensamento foi simples.

Não fui eu.

O segundo pensamento veio logo depois.

Então quem foi?

Eu fiquei parado ali por mais tempo do que deveria. Meu cérebro tentava organizar as peças, como um detetive tentando montar um quebra-cabeça em um quarto escuro.

Rosalie estava caída de lado, o cabelo loiro espalhado pelo chão de concreto. O rosto dela tinha perdido aquela expressão de julgamento constante que sempre parecia estar ali, mesmo quando ela sorria. Ao lado dela estava Anthony Masen, o homem cuja identidade eu havia roubado, cuja vida eu havia sequestrado.

Agora ele também estava morto.

Eu não tinha feito aquilo.

E essa era a parte mais assustadora.

Porque significava que alguém mais sabia.

— Não… — murmurei, a palavra escapando como um suspiro involuntário.

Eu me aproximei da cela.

— Não, não, não…

A porta estava aberta.

Isso por si só já era impossível.

Eu nunca deixava a porta aberta.

Nunca.

Meu coração começou a bater mais rápido. Não era apenas medo, era algo mais primitivo, algo que fazia os músculos do meu corpo se tensionarem como se eu estivesse sendo observado naquele exato momento.

Controle, Edward.

Controle.

Eu entrei na cela lentamente.

O cheiro de ferro e concreto úmido se misturava com algo mais pesado.

Morte.

Eu me ajoelhei ao lado de Rosalie.

Fria.

Rígida.

Mortos não parecem mortos de imediato. Existe um pequeno momento em que o cérebro se recusa a aceitar o que os olhos estão vendo. Um momento em que você espera que a pessoa respire novamente, que abra os olhos, que diga algo sarcástico.

Rosalie não fez nada disso.

Anthony também não.

Eu passei a mão pelo cabelo, tentando pensar.

Pense.

Pense.

Pense.

Se não fui eu…

Quem entrou aqui?

A primeira possibilidade veio rápido.

Victoria, aquela vagabunda!

Claro.

Victoria tinha voltado.

Victoria sabia quem eu era.

Victoria tinha motivo.

Mas então algo estranho chamou minha atenção.

O chão.

Eu olhei ao redor da cela.

E senti um arrepio subir pela minha coluna.

Alguém tinha limpado parte da cena.

Não completamente.

Mas o suficiente.

Muito mais profissional do que eu esperaria de Victoria.

Ela era impulsiva.Dramática.Caótica.

Isso aqui…Isso aqui parecia cálculo.

Eu fiquei de pé devagar.

— Interessante… — murmurei.

Porque agora a pergunta não era apenas quem matou Rosalie.

A pergunta era:

Quem está jogando comigo?

Eu passei quase uma hora limpando qualquer coisa que pudesse me ligar ao lugar.

Luvas.

Pano.

Água sanitária.

Movimentos metódicos.

Automáticos.

Eu estava em modo sobrevivência agora.

Cada superfície.

Cada pegada.

Cada fio de cabelo.

Tudo precisava desaparecer.

Mas enquanto eu trabalhava, meu cérebro continuava rodando em círculos.

Victoria.

Rosalie.

Anthony.

Bella.

O nome dela apareceu na minha mente como um raio.

Bella Higginbotham

Eu precisava vê-la. Agora.

O Complexo Higginbotham estava estranhamente silencioso quando eu cheguei.

Não completamente silencioso, nunca está em Los Angeles, mas havia uma tensão no ar, como se algo estivesse prestes a acontecer.

Eu a vi imediatamente.

Bella estava sentada em uma mesa da cafeteria, mexendo distraidamente em uma xícara de café que já devia estar fria.

Ela parecia… diferente.

Preocupada.

Confusa.

E quando me viu, forçou um sorriso.

— Anthony.

Eu sentei na cadeira à frente dela, ela não estava normal...Agora eu pensei como o povo de LA, a "energia" de Bella estava caótica.

— Você está bem?- perguntei segurando sua mão em cima da mesa.

Ela hesitou.

— Eu estou… só cansada.- suspirou

Mentira! Eu reconheço mentiras.

É praticamente meu superpoder. Bella, você está mentindo para mim?

— Algo aconteceu — eu disse.

Ela desviou o olhar.

— Não é nada.- ela tentou sorrir

Interessante.

Porque Bella não costumava esconder coisas de mim.

— Bella…

— Anthony — ela interrompeu explodindo e logo se tocou o que havia acontecido, então ela baixou o tom e voltou a falar suavemente — Está tudo bem.

Não estava.

E eu sabia disso.

Mais tarde, enquanto caminhava pelo corredor do complexo, ouvi uma voz familiar.

Victoria.

Eu parei imediatamente.

Ela estava falando com Bella novamente e eu precisava me livrar dela, urgente!

— Eu só acho estranho — dizia Victoria, o tom doce demais para ser verdadeiro. — Ele nunca fala sobre o passado.

— Algumas pessoas preferem deixar certas coisas para trás — respondeu Bella.

— Ou esconder.- a ruiva provocou

Silêncio.

Eu me aproximei lentamente.

— Victoria.- disse seco

Ela se virou e sorriu.

Aquele sorriso.

O mesmo sorriso que eu vi pela última vez antes de enterrá-la viva.

— Anthony.

Bella olhou entre nós dois.

— Vocês já se conheciam mesmo?- perguntou bella arqueando a sobrancelha e encarando a ruiva que foi pega na mentira...

Ai Isabella Higginbotham , você é incrivel ! Pegou a vagabunda na própria mentira...Gênio! Agora eu tenho certeza que toda a inteligência da familia Higginbotham foi para ela...

Victoria inclinou a cabeça.

— Nós temos história.- ela confessou

— Bella — eu disse calmamente segurando as mãos da minha garota — você pode nos dar um minuto?

Ela hesitou, olhando para Victoria dos pés a cabeça.

— Claro.- disse sorrindo para mim.

Assim que ela saiu, o sorriso de Victoria desapareceu.

— Você parece cansado — disse ela.

— Você parece viva de mais para quem foi enterrada em uma cova bem funda.- disse sendo sarcástico

Ela riu.

— Isso geralmente acontece quando alguém sobrevive a ser enterrado por um idiota medito a serial killer.- ela provocou

Silêncio.

— Você matou Rosalie — a acusei.

— O quê?-Ela piscou confusa.

— Pare com o teatro.- disse seco

— Eu não matei ninguém, Edward- ela disse em entender.

— Você esteve no meu esconderijo.- eu continuei

— Seu esconderijo? Você é o Batman agora?-O sorriso diabólico dela voltou.

— A cela de vidro.- disse entre dentes.

Victoria ficou em silêncio por um momento.

E pela primeira vez desde que a vi novamente…

Ela pareceu genuinamente surpresa.

— Rosalie está morta?- perguntou em choque.

Eu observei cada microexpressão no rosto dela.

Confusão.

Raiva.

Algo que parecia… medo.

— Você não sabia — murmurei.

— Você matou ela — disse Victoria lentamente.

— Não fui eu.

— Ora Edward, você realmente espera que eu acredite nisso?- ela perguntou incrédula

— Eu não preciso que você acredite.- disse rispido.

Silêncio.

E então algo mudou no olhar dela.

— Espera… — disse Victoria devagar.

— O quê?

— Se você não matou Rosalie…e eu também não…

Nós dois ficamos em silêncio.

Porque agora existia apenas uma conclusão possível.

Alguém mais sabia.

Victoria deu um passo para trás.

— Isso é impossível.- ela sussurou.

— Não — eu disse calmamente. — Isso é exatamente o que está acontecendo.

Ela cruzou os braços.

— Então temos um problema.- disse ela me encarndo

— Nós temos muitos problemas.- disse entre dentes.

— Você percebe que alguém está tentando nos destruir, certo?- disse Victoria olhando ao redor do corredor vazio.

— Sim.- respondi

— E eu prometo que quando descobrir quem é…- a ruiva começou com seu discurso vingativo de merda.

— Você vai fazer o quê?- a interrompi

Ela sorriu.

— Algo muito pior do que expor você.- disse ela me encarando

Silêncio.

Eu dei um passo na direção dela.

— Você quer me destruir.- disse revirando os olhos

— Eu quero que o mundo veja quem você é.- ela deu os ombros

— Então por que ainda não contou para Bella?- questionei

Victoria inclinou a cabeça.

— Porque seria muito fácil.- ela confessou

— Você prefere brincar.- eu disse sorrindo torto

— Sempre.- ela provocou

Eu respirei fundo.

— Victoria…- disse lentamente— Pela primeira vez na minha vida…

— Sim?- Ela arqueou uma sobrancelha.

— Eu estou com medo.- confessei.

Ela sorriu vitoriosa, como criança mimada cheia de presentes numa noite de natal.

— Isso é otimo! — ela diz

E naquele momento eu finalmente entendi.

Antes…Eu era o predador.

Agora…Eu era a presa.

E alguém estava caçando.