Xadrez

3 Sorte de principiante


Notas iniciais
Estou postando durante o Oscar, é pois é. Muita emoção junta.

– A vida só se dá para quem se deu.

– O quê? — Lestrade se sentou no sofá de camurça.

– A tradução da frase na sua camiseta. "La vie se donne à qui s’est donné".

O grisalho ergueu as sobrancelhas. A cada minuto com Mycroft, era surpreendido. Nem Sherlock conseguia isso! Sherlock Holmes surpreendia a todos com as suas deduções, mas isso era o esperado. Até mesmo os comentários maldosos eram esperados. Mycroft Holmes era uma caixinha de surpresas, um novo universo a ser desvendado.

Assobiou baixo.

– Francês, é?

– E mandarim. Português, latim, espanhol e árabe também.

– Bem, eu sei cozinhar. E imitar o Chewbacca.

– Imitar o que?

Riu. Puxou a manga cinza da camisa do castanho.

– Não me deixe sentado aqui sozinho, Mycroft.

O outro apenas se afastou, buscando por algo na estante, e logo colocou o seu mais novo presente no aparelho de som. Voltou e se sentou na poltrona ao lado do sofá.

Greg jogou a cabeça para trás, apreciando os primeiros acordes da música "What Ever Happened?". Cantou algumas palavras antes de sentir aquele formigamento na nuca que indica que alguém está te observando. Olhou para o lado. Mycroft carregava a sombra de um sorriso nos lábios.

O grisalho desviou os olhos, subitamente se sentindo corar. Procurou algo — mesmo não sabendo o que — e encontrou um tabuleiro de xadrez impecavelmente arrumado na parte mais baixa da estante.

– Você joga? — Mycroft apontou com a cabeça.

– Está perguntando se eu quero perder? — Sorriu — Tudo bem.

Mycroft pegou o tabuleiro e colocou na mesinha de centro. Sentou-se no chão, as pernas cruzadas e as costas sempre eretas.

– Se importa?

– Claro que não — Lestrade sentou-se do outro lado.

Fazia algum tempo desde a última partida do Detetive Inspetor. Gostava de jogar para se distrair, e não era competitivo o suficiente para entrar em uma partida querendo ganhar, assim não aproveitando o desenvolvimento do jogo.

Por um tempo, jogaram em silêncio. A música preenchia o vazio entre eles, mas ambos estavam concentrados demais nos movimentos das peças para prestar atenção. Para a surpresa de Greg, o jogo estava equilibrado. O grisalho era inteligente o suficiente para prever as jogadas de Mycroft e arriscar nas sua, confundindo seu oponente.
Mycroft bufou, um sorriso escapando.

– O que? — Greg estranhou, tirando os olhos das peças.

– Acho que minhas deduções estão um pouco... Enferrujadas.

O grisalho riu alto. Tinha a gargalhada gostosa, alta e fluida, daquele tipo que faz quem ouve sorrir.
Mycroft moveu uma peça.

– Quer dizer que estou batendo o Sr. Holmes no xadrez? — Se inclinou para frente.

O castanho a sua frente ostentava uma expressão mista de divertimento e apreensão. Era competitivo, mas algo estava fazendo com que ele se deixasse levar. De repente, ganhar não era tão mais interessante do que observar o homem a sua frente rindo e mordendo o dedão — coisa que fazia quando estava pensando.

A próxima jogada demorou uma eternidade. Quando Mycroft finalmente moveu uma das peças, perder não foi o que o surpreendeu.

O beijo o surpreendeu. O colar de lábios rápido e doce, as mãos na lateral do seu rosto. O sorriso de Greg Lestrade, que após o beijar, moveu seu único cavalo que continuava no tabuleiro e gritou "cheque mate".

Por uma fração de segundos, Greg riu, como se tudo o que importasse fosse o jogo ganho. E então percebeu. O Holmes mais velho o encarava, os olhos minimamente arregalados, branco como uma folha de papel. Levantou-se desajeitadamente.

– Eu, hm, acho que... Tenho que ir embora.

Mycroft não se moveu enquanto o grisalho pegava sua carteira e se dirigia para a porta. Não olhou para trás. Lá embaixo encontrou um carro o esperando, mas com um gesto rude, mostrou que preferia ir de qualquer outra maneira.

Não saberia dizer se preferiu que o silêncio de Mycroft, ou se esperava que ele tentasse fazer com que Greg não fosse embora

***

– Acho que Greg está sentindo falta da mulher.

O moreno ergueu as sobrancelhas.

– Greg?

– Sim.

– Que Greg?

John espalmou a mão em sua própria testa. Não conseguia se convencer de que aquilo era realmente sério.

– Lestrade, Sherlock. Greg Lestrade.

– Oh, sim. Claro. — Sherlock se virou, deitado no sofá — Entediante.

O loiro suspirou. Lestrade passara os últimos dias enfurnado na New Scotland Yard, horas lendo arquivos, respondendo a todo chamado que chegava até lá. John imaginava que isso se devia a saudade que ele sentia da mulher. Sherlock, se parasse para se importar, veria o quão errado seu colega de apartamento estava.

Greg tinha sim uma pessoa na cabeça, mas, não só era um homem, como era irmão do detetive consultor. Mycroft Holmes. Não conseguia entender o que havia acontecido. Não sabia o que fazer. O beijara, sim, mas de um modo tão impulsivo e natural... Não conseguira se controlar. E agora não conseguia tirar isso do pensamento. O que diabos podia fazer agora? Ir atrás de Mycroft e se desculpar? Agir como se nada tivesse acontecido? Ou — o que lhe doia pensar — esquecer que um dia se considerou um amigo do Holmes mais velho?

Ele realmente o considerava um amigo. Um bom amigo. O castanho o ajudara a superar o processo de divórcio que estava passando. Quem diria que a ajuda viria de quem ele menos esperava?

Se jogou na poltrona de seu escritório. Respirou fundo. Não queria admitir a si mesmo o que estava estampado em seu rosto.
Acontece que mesmo sendo tão diferentes, no momento, o cavalo e a rainha eram espelhos perfeitos.

Mycroft organizava papéis em sua mesa. E os organizava de novo. E de novo. Anthea — que entrara há alguns segundos — observava encostada no batente. Conhecia seu chefe há tempo o suficiente para saber que aquilo não era apenas o TOC, ou estresse. Era algo novo, que ela nem sequer achava possível acontecer. Era uma criança descobrindo o louco desejo de ter um peixinho dourado.

A morena limpou a garganta.

– Senhor, precisamos sair. Uma negociação delicada com os Estados Unidos.

– Os Estados Unidos, é claro. Sempre eles. — Se levantou, alisando o terno azul royal — Vamos.

Saíram do prédio e entraram no carro. Mycroft abaixou o vidro, apenas o suficiente para o ar frio de Londres sussurar contra seu rosto. Sua visão se perdia nos prédios passando, até que pararam em um semáforo fechado. O castanho olhou por um bom tempo a fachada da loja a sua direita, até que realmente lesse o que ela dizia. Virou-se, para trás do carro, e tomado por um impulso, abriu a porta.

Anthea se virou assustada, quase discando o número que acionava os seguranças do chefe. Mas o homem simplesmente dera a volta no carro e atravessava pela faixa.

– Senhor! — Colocou a cabeça para fora — Senhor!

– Um momento, Anthea.

Voltou alguns momentos depois, trazendo um belo embrulho quadrado nas mãos. Os americanos teriam que esperar. Mycroft Holmes tinha uma entrega a fazer.

Notas finais
Já sabem, né? Se conveniente, comentem. Se inconveniente, comentem do mesmo jeito.