Xadrez
4 Xeque-mate
Notas iniciais
Mais uma vez Lestrade chegava tarde em casa. Subia as escadas lentamente, arrastando os pés no carpete encardido. Rejeitara o convite de John para irem ao pub mais próximo, mas sentia uma imensa vontade de tomar uma cerveja.
Suspirou. Dormir também seria ótimo.
Antes que pudesse girar a chave na fechadura, sentiu seu pé bater em algo. Abaixou-se, pegando o embrulho dourado. Entrou em casa, e se sentou no chão mesmo, curioso para abrir o presente misterioso.
Desembrulhou-o com cuidado. Era pesado e continha várias camadas de papel seda. Depois dos papéis, encontrou uma caixa de papelão preto. Abriu-a, empolgado. Parou um instante, apreciando o conteúdo. A caixa tinha plástico transparente separando dezesseis peças transparentes, de outras dezesseis peças de um tom metálico e escuro. O tabuleiro era branco e cinza, com uma borda prateada e elegante.
Não havia bilhete, mas ele sabia quem havia deixado aquilo ali. Levantou-se, sorrindo, e pegou as chaves de casa. No seu trabalho, muitas vezes o instinto levava os policiais a seguir o caminho certo, e era exatamente isso o que Lestrade ia fazer: Seguir seu instinto.
Desceu as escadas correndo e saiu do prédio da maneira osposta a como entrou: Sorrindo, a cabeça erguida, determinado.
Andou dois quarteirões até conseguir um táxi. Quando chegou, pediu para que o porteiro falasse com a "garota do blackbarry" — Anthea, como ele o corrigiu -, para que pudesse fazer uma pequena surpresa. Subiu de elevador. Parou em frente a porta de madeira escura, e antes que perdesse a coragem, bateu.
A porta se abriu. Mycroft abriu a boca para falar, mas a fechou logo em seguida. Lestrade apertava a pequena rainha metálica que inconcientemente trouxera.
– Obrigado — Se ouviu dizendo. Estendeu a mão, mostrando a peça — Obrigado por isso. E por tudo. Por ser meu... Amigo. Você estava aqui quando ninguém mais estava. Não do jeito certo, entende?
Na verdade Mycroft não entedia. Mas sorriu, automaticamente, porque algo dentro dele dizia que isso era o certo, e que aquele era um momento para se sentir, não para se pensar. Deu um passo para o lado, convidando Lestrade a entrar com um gesto.
O grisalho entra, desajeitado, sem saber o que fazer. Tenta não pensar muito, continuando a falar o que lhe vem à cabeça:
– Eu só... Precisava vir agradecer. O tabuleiro e as peças são lindas, mas eu preciso de alguém para jogar comigo... Espero que possa ser você.
Parou a cinco passos depois da porta. Mycroft ainda não entendia, então sorriu mais uma vez.
– E então? — Lestrade esfrega a peça em suas mãos.
– Gostaria de jantar conosco? — Mycroft pergunta.
E é isso. Uma pergunta usada como resposta, que mesmo não esclarecendo nada, era assustadoramente positiva.
O grisalho respirou fundo. Olhou para baixo, finalmente se dando conta de que estava consideravelmente desleixado se comparado com seu anfitrião: A calça social preta, risca de giz, totalmente amassada, a camisa cinza com as mangas arregaçadas, a gravata frouxa e o casaco velho. Mycroft usava a calça do conjunto azul royal, uma camisa branca e gravata azul petróleo. As abotoaduras eram prateadas e discretas.
– Eu adoraria.
Anthea apareceu na porta. Segurava um sorriso, mas seus olhos carregavam aquele olhar provocativo de sempre.
– Já que o senhor tem companhia, gostaria de sair.
Mycroft ergueu as sobrancelhas.
– Sair?
– Beber um pouco. Se possível, é claro.
– Como queira, Anthea.
A morena pegou a bolsa pendurada no hall e sorriu para os dois.
– Aproveitem a noite — Piscou. E saiu.
Os dois se dirigiram para a cozinha. O castanho tirou a gravata, pendurando-a em uma cadeira, e dobrou as mangas da camisa. Pegou um avental branco, e Greg apressou-se para amarrá-lo na cintura do anfitrião.
– Obrigado. Quer comer o quê?
– Eu poderia comer uma pizza inteira... — Sorriu.
Mycroft ergueu as sobrancelhas.
– Mas, hm, bem, não. — Sorriu amarelo — Você é o cozinheiro, Mycroft, você decide...
O Holmes parou por um momento. Observou o homem a sua frente corando e soube exatamente o que deveria fazer.
– Pizza.
– Oi? — Lestrade coçou a nuca.
– Vamos fazer pizza.
A certa altura, um avental verde apareceu no corpo de Gregory Lestrade. O clima estranho havia passado, e os dois se divertiam esticando algo que se tornaria massa de pizza. Enquanto Mycroft gastava intermináveis vinte e três minutos deixando a pizza perfeitamente redonda, Greg procurou algo na geladeira para ser usado como recheio. Voltou para o balcão carregando três tipos de queijo, algo que ele imaginava ser frango, rúcula, tomate, azeitonas pretas, temperos que ele não conseguia identificar e peito de peru.
– Você pretende colocar isso tudo na pizza, Greg?
O grisalho o olhou. Parecia uma criança perguntando "por que não?". Só depois de muito tempo notou que Mycroft o chamara de Greg.
No fim, dividiram a pizza em três partes: Uma de três queijos, outra de tofu — o que ele pensava ser frango — com rúcula, tomate e azeitonas, e a última de peito de peru com mussarela.
Abriram uma garrafa de vinho branco enquanto a pizza assava. Riam da farinha que insistia em grudar na bochecha. Lestrade escolheu um CD de música instrumental que achou entre os vários na estante, e colocou para tocar.
Mycroft saiu da cozinha por alguns minutos. Greg aproveitou para estender um forro vermelho no balcão, colocando um pequeno cacto entre os pratos.
–... Mas o que?
O grisalho sorriu.
– Vermelho e verde. Pizza. Bem italiano, eu acho. Só faltou acender umas velas — Gargalhou.
Sentaram-se e comeram, quase sem trocar palavras, e o silêncio não os incomodou. Trocavam olhares como cúmplices e sorrisos como amantes. Brindaram o momento e o momento retribuiu, criando um clima acolhedor entre eles.
Greg lavou os pratos enquanto Mycroft guardava tudo. Quando se sentaram, para a última taça de vinho, notaram as horas. Duas e dezoito da manhã.
– Nossa. — Lestrade se levantou — Já está tarde. Tenho que ir embora.
– O quarto de hóspedes continua vazio. Mas... Posso pedir para que te levem até a sua casa.
– Se não for incômodo. – Deu de ombros.
Mycroft levantou-se, em busca do interfone. Avisou que precisaria do seu motorista pronto para levar Gregory para casa.
Os dois se dirigiram para a porta. Lestrade pegou a pequena rainha, apertando o material frio entre os dedos.
– Foi uma noite agradável. – Mycroft sorriu polidamente.
– Foi sim.
Encararam-se. O movimento para apertar as mãos foi automático, mas estranho. De repente parecia tão pouco! Pareceu uma eternidade o tempo em que suas mãos se aproximaram, se tocaram e por fim se separaram. Respiraram fundo ao mesmo tempo. A porta foi aberta, e Lestrade se virou para ir embora. Hesitou.
– A vida só se dá para quem se deu... — Sussurrou.
Mycroft foi calado antes mesmo de ter a chance de perguntar o que Lestrade queria dizer com aquilo. Dessa vez, porém, se entregou.
Os lábios de ambos se encaixaram perfeitamente, assim como os corpos — finalmente tão perto — e as mãos, que pareciam moldadas para aquele momento. Era o famoso clichê de que nada mais importava, a não ser aquele momento. Era como se as duas almas estivessem fadadas a aquilo, e aquele beijo era só o resultado da atração irrefreável entre os dois. O cavalo e a rainha, em um xeque-mate sem perdedores.
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