Notas iniciais
Voltamos com mais um capítulo!

Scott estava agora a bordo do “Pássaro Negro”. Era assim que os invasores chamavam seu jato, um veículo dotado de tecnologias mais modernas do que qualquer coisa que Scott já vira em sua vida. Ele estava parado a poucos metros do prédio, ainda dentro do terreno de Milbury, ocultado por algum tipo de tecnologia de camuflagem que o tornava invisível aos olhos. Os seguranças do instituto demoraram para chegar à sala do confronto e, quando o fizeram, era tempo apenas de ver o Pássaro Negro decolar e ganhar distância nos céus.

Sentado na área dos passageiors da aeronave enquanto os outros três discutiam seu destino na cabine de comando, Scott refletia sobre a decisão de partir com eles. O fato de Milbury não ter sido fiel com sua palavra e ter tentado fazer com que Scott permanecesse sob sua tutela despertara a raiva que Summers mantinha contida dentro de si. Não sentira o mesmo em relação aos outros a bordo da nave quando os viu. Mais do que isso, na verdade. Havia algo de familiar neles, sobretudo em Jean, a única mulher do grupo. Scott se lembrou da voz feminina que o despertara pela manhã. Seria possível?

Foi retirado de seus pensamentos por um dos três mutantes, aquele com habilidades de gelo, que saiu da cabine e se dirigiu a ele.

— Scott, né? — perguntou. — Prazer, pode me chamar de Bobby.

Summers sorriu e levantou o olhar na direção dele. Dessa vez, Bobby não estava mais coberto por uma camada de gelo. Usava uma roupa idêntica a de seus colegas, com o “X” amarelo cruzando em seu peito. Ele era jovem, talvez com uma idade próxima à de Scott, ou até mais jovem. Tinha cabelos castanho-claro e olhos azuis, a pele clara e um pouco rosada, talvez com algumas manchas remanescentes de espinhas, o que contribuía para sua aparência jovem.

— “Bobby”? Você não ganhou um apelido diferente, como o “Fera”?

Bobby riu.

— Ganhei, mas achei ele um pouco óbvio.

— E qual era?

— “Homem de Gelo”.

Foi a vez de Scott soltar uma gargalhada.

— É, um pouco óbvio. Quem é que escolhe essas coisas?

— Ah, o Professor pediu para escondermos nossos nomes, como forma de proteger a escola. Não consegui pensar em nada melhor, e o Hank… o Fera escolheu esse. Mas pelo menos não entreguei meu nome de bandeja, como a Jean. Ela não quis usar o “Garota Marvel” que ele escolheu pra ela nem por um minuto.

Scott sorriu em resposta.

— Bom, acho que devemos algumas explicações pra você.

— Você acha? — respondeu Scott, sarcástico. — Seu amigo me avisou que não era um sequestro, mas eu já estava começando a duvidar.

Bobby se aproximou e sentou de frente para Scott, do outro lado da aeronave.

— Acho que dá pra perceber que somos novos nisso.

— É, eu saquei.

— Ha-ha. Bom, Scott, não sei o quanto Sinistro te contou sobre quem você é. Mas nós, assim como você, somos mutantes.

Aquela palavra novamente. Scott ainda não havia digerido essa ideia.

— Isso significa que nascemos com habilidades especiais dormentes dentro de nós, esperando para serem acordadas. Cada um de nós teve o seu momento, assim como você deve ter tido o seu. E sabemos o quão assustador isso pode ser. Mas o lugar para onde estamos indo… É um lugar seguro para pessoas como nós.

— Não sou como vocês — interrompeu Scott, reativo. — Não sei o que pode ter levado vocês a pensar isso, mas não sou. O que eu tenho, essa “habilidade”, só me trouxe dor e sofrimento. Me roubou de meu tempo com meu irmão e de uma vida normal.

Bobby respirou fundo, e, mudando de tom, olhou diretamente nos olhos de Scott, mesmo que seus óculos os ocultassem.

— Você não é o único que passou por esse tipo de coisa, Scott. E sim, eu sei bem como pode ser difícil aceitar quem você é. Porra… Pode acreditar que eu sei. Mas se tem alguém que pode te ajudar a se entender melhor, bom, esse alguém é o Professor.

— Professor?

Bobby sorriu.

— Charles Xavier. O maior mutante vivo. Não se preocupe, você vai conhecer ele logo.

Quase como se estivesse ouvindo a conversa deles, Jean saiu de dentro do cockpit com um aviso.

— Coloquem os cintos. Vamos pousar.

Ela voltou para dentro da cabine de comando, enquanto Bobby se apressava para afivelar seu cinto de segurança. Scott fez o mesmo, com menos pressa, enquanto repetia o nome de Charles Xavier em sua mente. Agora estava curioso para conhecê-lo, dada toda a introdução entusiasmada de Bobby. Provavelmente só mais um riquinho, pensou. De fato, que outra pessoa teria um jato como aquele em que estavam?

Ele é mais do que isso, respondeu uma voz em sua mente. Reconheceu de imediato: era Jean.

— Como… — começou Scott, em voz alta, mas logo parou, ao ver o olhar confuso de Bobby.

— Tá tudo bem? — perguntou ele. Scott não respondeu.

Como você fez isso? Sai da minha cabeça, pensou, confuso, porém irritado.

Todos nós temos alguma habilidade, Summers. Você não é o único.

Antes que Scott pudesse responder, o jato começou a descida. A velocidade do movimento roubou sua atenção. Podia sentir seu corpo quase que flutuando no ar, sem peso algum, contido pela força dos cintos de segurança. Tão rápido como veio, no entanto, essa sensação se foi. Sentiu a força do impacto do pouso dissipar a adrenalina da descida, e, aos poucos, a aeronave desacelerou ao longo da pista de pouso.

— Passageiros, chegamos ao nosso destino — disse Fera pelos alto-falantes, imitando um piloto de avião. — E desculpem o impacto. Da próxima vez vou ser mais cuidadoso.

Scott duvidava que fosse ter uma próxima vez. Mesmo que eles parecessem gentis, ansiava por uma oportunidade de despistá-los o quanto antes. Àquela altura, já era claro que não queriam fazer mal a ele. Ainda assim, Scott tinha seus próprios planos. Havia anos que sonhava em sair do Instituto e, antes tarde do que nunca, dar um início de fato à sua própria vida. Quem sabe, se tudo desse certo, poderia até mesmo ir atrás de Alex. Não deixaria seus novos “colegas” atrapalharem isso.

A fuselagem à esquerda de Bobby começou a descer, dando lugar a uma rampa. Scott se surpreendeu com o que viu do outro lado. O ambiente em que estavam parecia o de um bunker ou de uma base militar das mais modernas. Era um hangar com paredes e piso metálicos, bastante amplo, com sua saída no teto, agora fechada, encrustada nas rochas do solo.

— Está pronto, Scott? — perguntou Bobby, soltando seus cintos. — O professor deve estar ansioso para conhecê-lo.

Fera e Jean saíram de dentro do cockpit. O grandão caminhava de forma um pouco desengonçada, e suas grandes mãos, com vários e compridos pelos espalhados por elas, tornavam difícil para ele segurar qualquer coisa que fosse menor que elas. Um olhar atento repararia que esses pelos, ainda que de forma discreta, pareciam ter uma coloração levemente azulada.

— Vamos, Scott. Ele deve estar esperando — disse o Fera.

Summers concordou com a cabeça e se levantou. Os outros três tomaram a dianteira e Scott os seguiu, prestando atenção em cada palavra do que diziam.

— Pô, Hank, da próxima vez pega mais leve na descida — provocou Bobby enquanto desciam a rampa. — Achei que ia vomitar no novato.

— Desculpe — respondeu o Fera, sem entender a ironia. — Preciso praticar mais.

Bobby deu alguns tapas nas costas do amigo para confortá-lo. Os três avançaram em direção à uma grande porta de metal em uma das paredes do hangar, que se abriu ao ler a biometria de Jean. Scott estava alguns passos atrás deles e passou pela porta poucos instantes antes de ela se fechar atrás dele. Estavam agora em um corredor, com algumas entradas como aquela espalhadas ao longo de seu comprimento. Avançaram um pouco mais em silêncio, até que chegaram a uma que, diferente das outras, era de vidro. Ela se abriu para a biometria de Hank, o Fera, e Scott notou que se tratava de um elevador. Deixou que os três entrassem e, por um momento, hesitou.

— Você não vem? — perguntou Jean.

Ele levantou a cabeça e olhou para ela. Seus olhos se cruzaram e, mesmo que ela não pudesse enxergar através de seus óculos, Scott sentiu que ela o olhava diretamente. Abriu a boca, fazendo menção de dizer algo, mas Bobby o interrompeu:

— Não precisa ficar vermelho, não — disse o Homem de Gelo, rindo. — Vamos lá, entre.

Um pouco envergonhado, Scott ingressou no elevador, virando de costas para eles. De fato, sentia suas bochechas um pouco quentes, ruborizadas. Ouviu Bobby dar mais uma risada e ignorou, enquanto o elevador começava a subir. Foi rápido. Para sua surpresa, o ambiente que os esperava era completamente diferente do que o subsolo. As portas de vidro de elevador revelaram uma sala de estar aconchegante do que parecia ser uma mansão elizabetana, onde dois grandes e voluptuosos sofás, acompanhados de uma mesa de centro, repousavam sobre um grande tapete de veludo, enquanto guardavam a escadaria central do edifício atrás de si.

Scott foi o primeiro a sair de dentro do elevador. Logo percebeu que estavam debaixo do que parecia ser a lareira daquela sala — que fora soerguida pelas mesmas polias do elevador para permitir sua entrada. A expressão em seu rosto era de espanto.

— Impressionado, Summers? — perguntou Jean, rindo.

Ele se apressou em franzir o cenho, retomando o semblante sério, mas desdenhoso, que ostentava desde que haviam saído do Instituto.

— Scott Summers — disse uma

voz grave e imponente, ainda que dotada de uma sensação tranquilizante, pois expressava uma certa sensibilidade. — Seja bem-vindo à Escola Xavier para Super-Dotados.

A fonte dessas voz poderosa estava à sua esquerda. Vindo de um corredor iluminado, um homem avançava em direção a eles. Estava sobre uma cadeira de rodas, vestido com uma calça social de tom castanho. Era careca e sem barba, mas tinha sobrancelhas negras e bem marcadas, que lhe conferiam uma camada adicional de seriedade. Suas roupas eram formais, com um elegante pulôver verde sobre uma camisa branca, acompanhados de uma calça social bege.

— Então você é o tal professor?

— Eu mesmo — respondeu Charles, sorrindo.

Quando chegou perto o suficiente de Scott, estendeu a mão para cumprimentá-lo. Summers o fez, ainda que hesitante.

— Imagino que já tenha conhecido meus melhores alunos — prosseguiu o professor. — Ou, como gosto de chamá-los, meus X-Men.

Scott olhou para os outros de relance, achando aquele um nome no mínimo curioso.

— Temo que eles talvez não tenham se apresentado propriamente. Por favor, tirem as máscaras para receber nosso convidado.

Bobby já estava sem, e olhou para os outros sorrindo. Hank não pestanejou, e arrancou sua máscara com um pouco de dificuldade, dado o tamanho de seus dedos. Tinha um rosto um tanto bruto, o queixo quadrado, mas seu sorriso transmitia simpatia, e os cabelos um tanto compridos ajudavam a aliviar o peso do rosto. Levou as mãos ao bolso e, desajeitado, apanhou seus óculos. Com isso, estendeu a mão para Scott, que o cumprimentou, surpreso com a força do aperto.

— Este é Hank McCoy — disse Charles, — uma das mentes mais brilhantes que a ciência já conheceu.

Um pouco sem graça, Hank agradeceu:

— Dito por uma das mentes mais brilhantes que já existiram.

Os olhos se voltaram para Jean, a única ainda de máscara. Ela pareceu constrangida e, aos poucos, levou as mãos para a nuca, de onde puxou sua máscara para cima até removê-la. Seus cabelos ruivos, da cor do fogo, escaparam primeiro, balançando como se o vento os soprasse. Quando a máscara saiu por inteira, Scott congelou. Era a mulher mais bonita que já vira em sua vida.

— Esta é Jean Grey. Uma telepata, assim como eu. E uma das mutantes mais habilidosas que já conheci.

Scott continuou olhando para ela, até que seus olhos azuis encontraram os dele. Tímidos, ambos desviaram.

— E claro, este é Robert Drake, que está sem máscara — prosseguiu Xavier, como se não tivesse notado nada.

Ainda fugindo de Jean, Scott olhou para Bobby, cujo sorriso claramente demonstrava que ele havia percebido o que acabara de acontecer.

— Pode me chamar de Bobby, você sabe — disse o mutante, em tom discretamente jocoso.

Scott sorriu, tentando disfarçar. Novamente, só conseguia pensar em como sairia dali.

— Meus alunos, estão dispensados. Coloquem roupas mais agradáveis. Scott, enquanto eles se arrumam, gostaria de conversar a sós com você. Imagino que tenha muitas dúvidas.

Os três deram meia volta, entrando outra vez no elevador.

— Até mais, garoto — gritou Hank, acenando em despedida conforme o elevador começava a descer.

Scott olhou para Charles. Todos os elogios que Bobby tecera a respeito do professor haviam feito com que Scott imaginasse uma figura mais ameaçadora, e menos simpática, do aquela que estava diante de si.

— Me acompanha? — perguntou Charles, enquanto virava sua cadeira em direção ao corredor de onde viera.

Summers concordou, um pouco relutante.

— Precisa que eu… ajude? — disse, se referindo à cadeira de rodas.

— Com isso? — devolveu Charles, indicando a cadeira com sua mão. — Bom, se quiser. Mas não se preocupe, tenho anos de prática.

Ficou um pouco sem reação, porém, por educação, começou a levar a cadeira na direção do corredor, enquanto Charles prosseguia com sua fala.

— Obrigado. Bom, senhor Summers, acho que você deve estar imaginando o motivo pelo qual quis que eles te trouxessem até mim. E, por sinal, me perdoe a falta de educação. Imagino que eles não tenham tido tantos modos para fazer o convite como eu teria em seu lugar. São apenas estudantes, é claro, então lhes dê um desconto.

O corredor era extenso e largo, com várias portas, todas fechadas, espalhadas por ele. Scott imaginou que fossem salas de aula. Ao final, uma porta maior estava aberta, com a luz do sol que por ela entrava impedindo que se visse o que estava do outro lado dela.

— O orfanato em que você estava vivendo, Scott, era uma fachada. Adoraria poder colocar isso de uma forma mais delicada, mas infelizmente não há outro jeito de descrever. O senhor “Milbury”, que controla a instituição, é um indivíduo há muito obcecado pela espécie mutante.

— Espécie?

— Sim — respondeu Charles. — Foi pouco didático da minha parte, peço perdão. Acredito que o termo “mutante” seja novo para você.

— É…

— Pois bem, Scott. Isso é o que somos. Ainda não há certeza sobre o momento exato em que isso ocorreu, mas, há pelo menos alguns milhares de anos, alguns indivíduos da espécie humana começaram a apresentar habilidades distintas dos demais indivíduos. Algo havia mudado. Um novo gene, o gene “X”, havia despertado em cada um desses indivíduos, se manifestando nas mais diversas alterações físicas e fisiológicas, nas mais diversas mutações.

Haviam alcançado a porta aberta, e Charles sinalizou para que prosseguissem.

— Eu, você e meus outros alunos, nós somos todos reflexo dessa mudança. Somos uma nova espécie, cada um com sua própria mutação particular, e estamos espalhados por este mundo. Um mundo que, infelizmente, não nos entende. Ainda.

Quando passaram da porta, Scott pôde ver o que havia do outro lado. Era um pequeno espaço aberto, de piso de pedra, com uma mesa e duas cadeiras justapostas sob um guarda-sol. Era cercado por grades baixas e arbustos, de altura suficiente para que se visse o enorme terreno ao seu redor, em toda a sua verde exuberância. Ficou impressionado. Algo naquela paisagem, que talvez não fosse tão distinta assim daquela que havia no Instituto Milbury, lhe despertava uma sensação nova. Uma sensação de liberdade.

— Seja bem-vindo à minha escola, Scott. E, se me permite, seja bem-vindo ao meu sonho.