Notas iniciais
Voltamos com esse primeiro encontro tão esperado!

Scott continuava hipnotizado pelo que estava vendo. A mansão estava na encosta de uma discreta colina e, pelo que via para baixo, o terreno era imenso. Havia uma quadra de basquete logo abaixo da inclinação, onde alguns alunos mais jovens jogavam basquete. Por um momento, se imaginou no lugar deles: vivendo ali, estudando, conhecendo outras pessoas de sua idade, outros mutantes como ele próprio. Balançou a cabeça em negação, como que para afastar esses pensamentos. Tinha um dever para com seu irmão e precisava encontrá-lo.

Eu sei que está preocupado com Alex, disse uma voz masculina dentro de sua mente. Reconheceu de imediato que se tratava do próprio Charles e, por um momento, soltou a cadeira de rodas.

— Como você sabe o nome dele?

Ouviu Xavier suspirar, tranquilo.

— Sente-se, por favor. Deixe-me explicar porque quis que te trouxessem aqui.

Um tanto relutante, Scott se sentou em uma das cadeiras daquele pequeno terraço. Charles se posicionou ao seu lado, olhando para o horizonte.

— O que é esse lugar?

Xavier sorriu.

— É uma escola, Scott. Uma escola para jovens especiais como você e os outros, para jovens mutantes. Mas, acima de tudo, é um lugar seguro.

— Então você manda seus alunos sequestrarem outros mutantes por aí com frequência? — perguntou, em tom provocativo.

— Meus X-Men não estavam atrás de você, que isso fique claro. Eles foram enviados atrás do homem que atendia pelo nome de Michael Milbury.

A menção ao nome de Milbury provou em Scott uma sensação agridoce. Pedaços de memórias passaram rapidamente por sua mente em relampejos. Viu seus bons momentos com as outras crianças no orfanato, mas também a sala de vibranium no hospital.

— Você pode não saber, mas foi você quem nos levou até Milbury.

Scott olhou para Xavier, confuso.

— Eu nunca vi nenhum de vocês antes.

Xavier sorriu.

— Sim. Mas você é um mutante, Scott. Como parte de minha missão de construir um novo futuro para os mutantes, eu desenvolvi, juntamente do doutor McCoy, uma tecnologia capaz de amplificar o alcance de meus poderes telepáticos. O Cérebro, é como chamamos. Com o Cérebro, posso localizar qualquer mutante no planeta. E foi localizando você que encontramos Milbury.

Aquilo desagradou Scott. De certa forma, então, havia sido ele a ruína do lugar que, mesmo com todos os problemas, chamara de lar por tantos anos. Ao mesmo tempo, uma ideia agora pairava sobre sua mente. Seria o “Cérebro” capaz de encontrar seu irmão?

— Vocês me rastrearam?

— Sim, Scott. Você é um mutante poderoso. Seu sinal era forte, e conseguia sentir o seu sofrimento. Mal posso imaginar as coisas que você pode ter passado nas mãos de Sinistro.

Sentiu um ímpeto de dizer algo em defesa de Milbury, mas hesitou. Aquele nome, “Sinistro”, era o mesmo que ouvira os X-Men usarem para se referir a Milbury. Talvez eles de fato soubessem mais sobre aquele homem do que Scott.

— “Sinistro”?

Xavier assentiu em concordância.

— Michael Milbury é um dos vários nomes desse homem. Temos tentado rastreá-lo há muito tempo, mas o Cérebro não me permitia encontrá-lo. Milbury é um dos nomes de um homem que opera sob a alcunha de Senhor Sinistro. Ele e sua obsessão com a espécie mutante já causaram muito sofrimento. Mas ainda temos muitas peças para montar nesse quebra-cabeça, e é para isso que precisamos de você.

Scott suspirou. Tinha esse receio desde o momento em que chegara ali. Sabia que toda aquela gentileza escondia algum interesse.

— Desculpa, mas não. Não estou aqui pra ajudar vocês. Muito obrigado por terem me “salvado” ou seja lá o que vocês acham que fizeram, mas preciso ir. Tenho meus próprios planos.

Foi a fez de Charles suspirar.

— Você quer encontrar seu irmão, não é?

Summers foi pego de surpresa.

— Para de ler minha mente! — gritou, revoltado, enquanto se levantava.

Deu as costas para Charles e avançou em direção à porta. Quando a alcançou, no entanto, parou.

— Você… você acha que é possível? — perguntou, sem olhar para Charles.

— Não posso garantir, Scott. É possível que Sinistro tenha ocultado o seu irmão de alguma forma.

Isso o atingiu profundamente. Essa ideia ainda não havia lhe ocorrido: a possibilidade de que Milbury tivesse separado os dois de propósito. Xavier notou a preocupação que tomara conta de sua expressão.

— Scott, vamos deixar algo claro. Eu não sou Michael Milbury. Você é livre, e pode sair por aquela porta quando quiser. Mas, assim como você sofreu, muitos outros podem estar nas mãos de Milbury, inclusive o seu irmão. E você pode me ajudar a resgatá-los. Você conhece o interior do orfanato e do hospital de Sinistro como ninguém, e pode ajudar os X-Men a navegarem por lá.

Ficou em silêncio por alguns instantes, refletindo. Uma dúvida ainda pairava no ar.

— O Alex… o Alex também é um mutante?

— Eu não sei. O gene X nem sempre se manifesta em todos os membros de uma mesma família. Mas é possível.

Isso deixou Scott ainda mais consternado. Visualizou em sua mente o seu irmão preso em uma sala como a que passara tanto tempo, sem nenhum contato com o resto do mundo. Aquilo o deixou com raiva.

— Tá. Eu te ajudo. Mas você tem que me prometer que vai me ajudar a encontrar o meu irmão.

Charles sorriu, satisfeito.

— Eu farei tudo que estiver ao meu alcance. Você tem a minha palavra. E se depois disso vocês precisarem de um lugar para ficar, o Instituto Xavier para Jovens Superdotados estará de portas abertas para vocês dois.

Scott ignorou aquele convite. A ideia de ter algum apoio, uma comunidade, era tentadora; no entanto, para alguém que vivera por tanto tempo preso em um orfanato, o resto do mundo ainda parecia bastante convidativo.

— Por onde começamos? — questionou, desviando do convite.

— Fico feliz que perguntou. Por favor, me acompanhe.

Charles levou as mãos às rodas de sua cadeira e se moveu em direção ao corredor. Scott o seguiu. Ficaram os dois em silêncio por alguns minutos, conforme avançava Charles à frente. Diferentemente de antes, porém, a porta de uma das salas de aula estava entreaberta. Scott escutou vozes abafadas do outro lado e, deixando Charles seguir adiante, parou para olhar. Dentro da sala, vestida com roupas normais — uma fina blusa de lã verde, uma calça branca e sapatos de salto alto escuros —, estava Jean Grey. Ficou parado por alguns segundos olhando para ela, refletindo. Vestida daquela forma, Jean parecia mais velha do que Scott, ainda que a diferença de idade entre os dois fosse, muito provavelmente, pequena. Ela estava dando aula para um pequeno grupo de alunos, todos adolescentes sentados diante de pequenas mesas de madeira, e, ainda que Scott não pudesse ouvi-la, conseguia sentir o mesmo senso de determinação que ela demonstrara quando agindo como membro dos X-Men. Isso despertava uma certa curiosidade em Scott. Por mais que tentasse esconder, ele ainda transparecia o quão despreparado se sentia para enfrentar a vida. Jean não. E, dado que tinham idades próximas, Scott só conseguia pensar no que ela já havia vivenciado. As palavras de Charles sobre o ódio que existia em relação aos mutantes ecoavam em sua mente nesse sentido. Talvez estivesse se demorando demais ali, mas os olhos de Jean finalmente encontraram os seus. Ela franziu o cenho, como que o repreendendo, e, sem graça, Scott seguiu adiante, apertando o passo para alcançar Charles.

— Vejo que já encontrou Jean outra vez — disse o professor, sem esboçar nenhum juízo de valor. O rosto de Scott ruborizou de imediato. — Ela foi a primeira aluna do Instituto. Seus pais eram boas pessoas, mas o escopo dos poderes de sua filha os assustou.

Estavam de volta à sala de estar com a escadaria de um lado e a lareira, agora em uma posição mais usual, do outro. Sem graça, Scott não respondeu, esperando que pudessem trocar de assunto o quanto antes. Viu Charles se aproximar da lareira, e, com cuidado, apanhar o atiçador de brasa que estava apoiado na parede. Ele o espetou na lareira e, em vez de acertar a lenha, fincou-o no chão de pedra. Para a surpresa de Scott, o ferro se encaixou perfeitamente. Charles o puxou como uma alavanca e, em seguida, se afastou. Ouviram o som de algum mecanismo se movimentando e, como antes, a lareira foi erguida do nível do chão pelo elevador secreto. A porta se abriu e Charles entrou.

— Vamos?

Scott entrou no elevador, menos surpreso do que da última vez.

— Scott, agora preciso que você se concentre. Para que possa nos ajudar, preciso que busque em sua memória um rosto. — O elevador começou a se mover.

— Preciso que se lembre de alguém próximo de Milbury, qualquer pessoa, em quem você tenha notado algo de diferente. Alguém que possa ser um mutante.

Summers ficou em silêncio.

— Sei que algumas dessas memórias podem ser dolorosas, mas só assim podemos usar o Cérebro pra chegar perto de Sinistro outra vez.

Scott concordou a cabeça, e continuou em silêncio. Estava repassando suas lembranças, buscando algo que pudesse ajudar. Pensou em algumas das crianças com que convivera ao longo desses anos. Alguma delas poderia ser um mutante, mas como iria saber? Talvez Sinistro tivesse tentado ocultar isso. Lembrou do hospital. Os outros quartos da instituição com toda certeza deviam estar repletos de mutantes, porém, em todo seu tempo preso lá, nunca tivera autorização para sair e interagir com os demais. A doutora Reyes não permitiria. Claro!, pensou. Como pudera esquecer?

— O nome que você precisa é Cecilia Reyes.

Charles sorriu, e o elevador chegou ao subsolo.

— Você tem certeza?

— Tenho, professor. Veja com seus próprios olhos. Com seus poderes.

Xavier fechou os olhos e, se concentrando, acessou a mente de Scott. A imagem agora era nítida, e ambos assistiam às mesmas cenas. O incidente em questão provavelmente ocorrera dez anos antes, quando Scott, então uma criança, ainda vivia preso em seu “quarto” de vibranium no hospital. Cecilia Reyes era a médica que o visitava de tempos em tempos, a única que se arriscava a entrar no cômodo construído para contê-lo. Naquela época, Scott não tinha controle algum de seus poderes, e vivia entre episódios súbitos em que, sem que quisesse, uma quantidade enorme de energia escapava de seus olhos. Cecilia sempre o tratara muito bem. Diferentemente dos poucos outros funcionários do hospital com que Scott tivera contato, ela não o tratava como uma ameaça, e não se deixava intimidar por suas habilidades. Ela o tratava apenas como o que era: uma criança. Um dia, porém, quando Cecilia entrara em sua sala para fazer alguns exames, ela se descuidou. Estava tentando examinar de perto os olhos de Scott, como que para entender como suas habilidades funcionavam, quando, sem que Scott pudesse avisá-la, mais um episódio se iniciou. Scott não pôde impedir, e, por um momento, acreditou que a havia ferido. Ele se jogou contra o chão, tentando desviar de Cecilia, e a força da energia liberada o empurrou para ainda mais longe. Quando se recompôs, porém, pôde olhar ao redor, e reparou em algo de estranho. Cecilia não apenas estava de pé exatamente como antes, como tinha ao seu redor uma espécie de campo de energia, com um forte brilho branco, que refletira os disparos acidentais de Scott para longe, para que o vibranium os absorvesse.

Estou vendo, disse a voz de Charles na mente de Scott. A cena começou a se dissipar, e, de repente, estavam de volta ao elevador.

— Você tem razão, Scott. Acho que isso pode ser útil.

Summers concordou. Os dois saíram do elevador, de volta para o longo corredor de metal que Scott vira ao chegar.

— Me siga. Está na hora de conhecer o Cérebro.

Os dois caminharam em silêncio por alguns minutos até alcançarem uma grande porta de metal, com um emblema circular ostentando um “X” idêntico àquele nas roupas dos X-Men. Xavier encostou sua mão sobre o emblema, que emitiu uma luz e leu sua biometria. Quando a leitura se encerrou, as portas se abriram.

A sala do outro lado era imensa. Tinha um formato esférico, com vários painéis cobrindo o seu interior, e uma ponte de metal unia a entrada a uma pequena ilha no centro daquela esfera. Ali ficava uma plataforma circular, com uma bancada metálica que sustentava algumas telas e, ao centro, um pedestal, sobre o qual algo semelhante a um capacete repousava.

— Este, caro Scott, é o Cérebro.

Os dois avançaram pela ponte. A porta se fechou atrás deles, mas Scott não notou. Estava encantado com aquele ambiente exótico, e seu espanto era evidente.

— É incrível, não? — perguntou Charles.

— Sim. Eu não tenho ideia de como isso funciona… mas é incrível.

O professor riu. Haviam alcançado a plataforma e Scott agora podia ver o capacete mais de perto. Alguns cabos saíam da parte de trás dele e se conectavam aos computadores da bancada. Na frente, o mesmo emblema com a letra “X” estava incrustado.

— Com tempo suficiente, o Cérebro permite que eu localize qualquer mutante na face da Terra. Se estivermos corretos, ele irá me ajudar a encontrar Cecilia Reyes.

Charles aproximou sua cadeira de rodas da bancada e, com cautela, ergueu o capacete de seu pedestal e o encaixou em sua cabeça. Apertou alguns botões no teclado da bancada e, então, ficou em silêncio. Uma luz percorreu os cabos do Cérebro, e os olhos de Xavier se acenderam.

— Vamos ver o que encontro.

Scott observou a cena com atenção. Charles parecia imerso em suas visões, sem enxergar o que estava ao seu redor. Os painéis que revestiam a parte interna da sala também reverberaram essa energia.

— Ah, aqui está. Mais perto do que imaginei.

Charles fechou os olhos e, tão rápido como havia vindo, aquela energia se dissipou. Cuidadoso, removeu o capacete e o devolveu ao seu pedestal. Então, se voltou para Scott.

— Cecilia Reyes está trabalhando como médica no Bronx. Talvez isso signifique que sua relação com Sinistro terminou, mas devemos ser precavidos ao abordá-la. Vou reunir os outros.

Ele se concentrou mais uma vez e levou a mão esquerda à lateral da cabeça. Como se estivesse transmitindo um sinal, disse:

— A mim, meus X-Men!

Notas finais
Parece que a ação está a caminho...
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.