Notas iniciais
Usando a inspiração de X-Men '97 pra escrever essa história da verdadeira "primeira classe". Espero que gostem!

— Acorde, Scott.

A voz distante de uma mulher despertou Scott Summers de seus sonhos. Lentamente, abriu seus olhos e se espreguiçou, enxergando aos poucos o mundo pelas lentes vermelhas de seus óculos.

— Ele acordou! — gritou uma criança.

— Feliz aniversário, Scott! — exclamavam em uníssono as vozes de seus colegas do Instituto Milbury para Jovens, afastando a sonolência que ainda dominava Summers.

Ele ergueu a cabeça e olhou em volta. Aquele quarto compartilhado talvez nunca tivesse visto tantas crianças, de todas as idades, reunidas de uma vez. Agora era oficial. Scott tinha vinte e um anos e, por lei, estava livre para viver sua vida. Ou ao menos era assim que encarava sua própria situação. Por mais gentil que o senhor Milbury, o diretor da instituição, tivesse sido com Scott ao longo de seus anos ali, aquele lugar era um repositório de todos os seus traumas.

A dor da perda de seus pais ainda ecoava em Scott. A separação de seu irmão Alex, que, diferententemente da maioria dos jovens do instituto, fora adotado pouquíssimos meses após os dois chegarem ao orfanato, também lhe doía muito. Nem mesmo o tempo em que estiveram juntos na instituição fora, de fato, juntos. O trauma físico que Scott sofrera no acidente que matou seus pais deixou um legado de destruição inexplicável. Por esse motivo, os primeiros anos de Scott foram perdidos em espaços de contenção e salas de cirurgia, em tentativas infrutíferas de curar sua condição. Milbury fora o único capaz de, ao menos, ofertar a Scott um meio de viver uma vida mais próxima do comum. Mais do que isso — para além de lhe dar os óculos de quartzo-rubi, capazes de conter a energia destruidora que escapava de seus olhos, Milbury lhe dera uma explicação. Aquilo não era sua culpa. Estava em sua natureza e, por esse motivo, além de seu controle. Estava escrito em seus genes, como uma mutação.

Mas, agora, era finda essa longa fase de sua vida, e Scott poderia enfim ser senhor de suas próprias decisões.

— Muito obrigado, gente — respondeu, tímido, se levantando.

Antes que pudesse cumprimentar seus colegas, no entanto, foi interrompido.

— Senhor Summers, para a minha sala — disse a voz do Sr. Milbury, irrompendo pelos auto-falantes do prédio e se sobressaindo aos vários gritos de comemoração no quarto.

Imediatamente, todas as crianças pararam. Como Scott, deviam estar estranhando aquele chamado tão cedo, antes mesmo do café-da-manhã coletivo. Os colegas de Summers voltaram seus olhares para ele novamente, agora menos animados do que antes. Ele usava seus óculos vermelhos e pijamas azuis, os cabelos castanhos bagunçados, formando uma franja que caía sobre sua testa. Se levantou da cama em um pulo e, abrindo espaço entre as crianças, correu até seu armário.

— Valeu, pessoal. Mas preciso ser rápido — disse, passando entre alguns deles.

Do armário foi ao banheiro e, em poucos minutos, estava trocado, com uma jaqueta de couro sobre sua camisa listrada

branca e vinho, acompanhada de uma calça jeans larga e com alguns rasgos. A festa em seu quarto já havia se dissipado e, com a mesma velocidade, se apressou em subir as escadas rumo ao escritório de Milbury.

— Senhor, me desculpe a demora — disse, anunciando a sua entrada ao mesmo tempo em que abria a porra.

A mesa de Michael Milbury era uma escrivaninha de madeira bastante escura, talvez ébano, posicionada entre a porta e as janelas. O sol forte e ainda baixo do lado de fora projetava um brilho forte para dentro da sala, tornando Milbury apenas uma silhueta para olhos ainda não adaptados à claridade. Alguns documentos estavam sobre sua mesa — os arquivos de Scott, muito provavelmente — e também alguns livros, cujos lugares de costume estavam marcados pelos poucos espaços vazios nas estantes espalhadas pelo cômodo.

— Ah, Scott — disse Milbury, se ajustando em sua cadeira. — Não se preocupe.

O diretor do orfanato era um homem um tanto antiquado em sua forma de se portar. Usava roupa social, com terno e calça marrom-claros, com finas listas brancas se sobrepondo. Por baixo, uma camisa branca de uma seda bastante delicada, acompanhada de uma gravata vermelha. Ele era bastante pálido, os cabelos negros laqueados e penteados para trás, completados por um bigode e um cavanhaque de igual tom.

— Sente-se, por favor — disse Milbury, apontando para a cadeira de couro marrom posicionada de frente para sua escrivaninha. — Acho que já deve imaginar os motivos pelos quais te chamei aqui.

Scott concordou com a cabeça.

— Hoje acaba minha tutela — respondeu.

— Sim, de fato. De acordo com a lei, de hoje em diante a decisão de permanecer ou partir é completamente sua. — Milbury se aproximou do globo terrestre que tinha em uma de suas estantes. — Imagino que esteja curioso para conhecer o mundo lá fora, não é mesmo?

Scott esboçou um sorriso em concordância, ainda que disfarçado. Há anos sonhava com as infinitas possibilidades que lhe aguardavam quando saísse do instituto, e a sensação de tê-las a um mero palmo de distância o enchia de energia e empolgação.

— Posso ver que sim. Não se engane, meu caro, eu já fui jovem como você. Sei como é ter todos os seus sonhos e instintos pulsando dentro de você. Mas não se engane, Scott. O mundo lá fora é perigoso. Sei que você já vivenciou muitas coisas. Mas há muitos perigos espreitando dos lados de fora desse prédio. Ainda mais para alguém como você.

O semblante de Scott se alterou quando ouviu aquela última parte. Nunca tinha gostado de ser tratado daquela maneira. De ser tratado como diferente.

— Você está falando disso? — perguntou, levando a mão aos óculos para mostrar ao que se referia.

— Sim, Scott. Sei que conviver com sua condição ficou mais fácil com o tempo, principalmente depois que descobrimos as propriedades do quartzo-rubi. Mas lá fora… lá fora você seria julgado por isso.

— Julgado, senhor? Não sou o único que tem sequelas de algum acidente.

Milbury suspirou, e desviou o olhar de Scott por alguns instantes.

— Scott, talvez eu não tenha sido completamente honesto sobre a sua situação ao longo desses anos.

Ele franziu a sobrancelha e encarou Milbury com firmeza.

— Como assim?

— Scott, o acidente com o avião de seu pai não causou isso a você. Na verdade, tendo observado o seu caso há tanto tempo, acredito que o acidente apenas danificou sua capacidade de conter essa sua… condição.

Ele não soube como reagir. Quis dizer algo, mas ainda precisava processar aquela informação.

— O que… o que é, então? O que eu tenho?

— Você, meu caro, é parte do próximo estágio da evolução humana. Existem vários como você pelo mundo. Portadores de uma mutação, de um gene especial, que lhes confere capacidades além daquelas de um ser humano comum.

— Eu sou… um mutante?

— Sim, Scott. Não leve isso como uma má notícia, porque não é. Há décadas venho acompanhando pessoas como você, e vocês sempre superam as minhas expectativas. A quantidade de energia que você é capaz de liberar em uma fração de segundo, senhor Summers, levaria anos para ser produzida por usinas elétricas dotadas da melhor tecnologia disponível.

— Eu… como isso é possível?

Milbury sorriu.

— Não deveria ser, é claro. Ao menos não de acordo com os modelos físicos que temos. Mas a evolução toma caminhos misteriosos. O ponto, caro Scott, é que nem todos os humanos comuns, como eu, aceitam isso com tanto otimismo. De forma tola, eles enxergam vocês, mutantes, como ameaças. E é por isso que te trouxe aqui hoje, Scott.

Summers estava confuso. Tinha aguardado aquele dia por muito tempo e, de repente, parecia que sua chance escapava de suas mãos.

— Eu tenho uma oferta para te fazer. Quero que você trabalhe no meu hospital, não mais como um paciente, mas como um terapeuta, uma companhia para os pacientes.

A menção ao hospital fez Scott arrepiar. O Hospital Milbury, a instituição-irmã do orfanato, fora onde Summers passara boa parte de sua infância, até que Michael finalmente descobrisse, com o auxílio de uma de suas médicas, como conter os poderes de Scott. Durante aqueles anos, Scott não tivera um cômodo e colegas como no orfanato — apenas uma sala vazia, feita de vibranium, onde dormia em um colchão que, por vezes, precisava ser reposto, e onde era alimentado por alguma das enfermeiras ao longo do dia.

— Você conhece as dores dos pacientes como ninguém, Scott. Seria uma honra contar com você para conversar com eles, explicar a sua condição, e tornar a experiência no hospital melhor para todos.

Scott refletiu sobre aquilo por um momento. Ajudar outros que sofressem de mutações como a sua parecia algo nobre. Mas Scott não estava pronto para isso. Mal compreendia a sua “condição”, como Milbury chamava, quanto mais a de outros. E não podia ceder. Aquele era o seu dia, o momento em que poderia recomeçar. Uma vez fora dali, poderia encontrar um emprego, uma casa. Buscar seu irmão. Não, Milbury não estragaria aquilo. Em vez de se dobrar, Scott cerrou os punhos.

— Não. Eu não posso.

Milbury franziu o cenho.

— Não? Scott, peço que reconsidere. Pense nas vidas que você pode ajudar. Pense…

— Vidas como a do meu irmão? — disse, mais alto dessa vez.

— Alex…

— Sim, Alex. Ele precisava de mim, e você nos separou. Como acha que eu ficaria do seu lado depois disso?

Milbury respirou fundo. Parecia um pouco impaciente.

— Separei? Scott, use a cabeça — respondeu o doutor, subindo o tom. — Você teria matado o Alex se tivessem ficado juntos. É isso que você queria?

Scott sentiu seu sangue ferver. Alex era uma criança pequena quando foram separados. A essa altura, talvez nem se lembrasse mais de que tinha um irmão.

— Milbury, você…

Não completou a frase. Havia algo de errado. Pela janela atrás de Milbury, Scott podia enxergar algo se aproximando, uma mancha escura que crescia à medida que chegava mais perto. Antes que pudesse dizer algo, a janela foi atingida, e aquilo atingiu Milbury, jogando-o sobre a escrivaninha, que quebrou.

Scott sentiu algo cortando sua perna. Era um pedaço de madeira, que o atingira com o impacto. Por reflexo, jogou-se ao chão, e levantou os olhos para ver o que tinha acontecido.

A mancha escura, na verdade, era um homem. Um homem corpulento, maior do que o normal. Usava uma roupa preta de collant, com duas retas amarelas no peito, que se cruzavam, formando um “X”. Ele tinha a cabeça coberta por uma máscara, também de collant preto, que lembrava a de daqueles lutadores de luta-livre mexicana. Suas mãos e pés estavam descobertos e eram maiores do que o comum, proporcionais ao seu corpo, e um tanto peludos.

— Prazer, garoto — disse ele, sorrindo. — Pode me chamar de Fera.

Não puderam conversar mais. O alarme do prédio soava alto, dificultando a compreensão. Milbury se levantava, mas, antes que conseguisse se erguer, dois colegas do invasor surgiram no buraco deixado na parede.

— Você perdeu, Sinistro — disse um deles, cuja pele inteira, e a roupa, pareciam cobertas por uma camada grossa de gelo. Ele flutuava no ar, como que puxado por algo invisível.

Ao seu lado, com um braço estendido, estava uma garota, que usava uma roupa bastante parecida com a do “Fera”. Sua máscara, no entanto, deixava seus longos cabelos ruivos para fora.

— Você vem conosco — completou ela.

Milbury havia se levantado, e, antes de responder, lançou um olhar rápido para ela.

— Digam a Charles que mandei um abraço.

O doutor mordeu algo em sua boca e, como mágica, seu corpo começou a se desmanchar. Era como se estivesse derretendo sob as roupas, deixando apenas seu terno para trás.

— Merda! — reagiu o homem de gelo. — E agora, Jean?

A mulher parecia um pouco hesitante. Pensou rápido, olhando para Scott.

— Vamos embora. E o menino vem com a gente — respondeu ela.

— Tem certeza?

Ela olhou para seu colega, como que o repreendendo. O Fera estendeu a mão para Scott, como que tentando parecer simpático.

— Você vem? Não é um sequestro, eu prometo — ele disse.

Algo no despreparo daqueles três fez com que Scott não se sentisse ameaçado. Aquelas habilidades especiais pareciam o que Milbury chamara de “mutação” — condições como a sua própria.

— Vou.