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8 008 — Coração
Notas iniciais

*
Londres, Inglaterra.
Para Dagna, planejar o assalto à um banco soa como um piquenique em família; algo tão comum para ela que chega a ser cômico. Depois de duas horas de viagem de Oslo para Londres, a ruiva não espera muitas emoções ao se reencontrar pessoalmente com os outros mutantes; afinal, foram apenas dez meses separados, não dez anos. Além disso, nenhum deles é fã de sentimentalismo — em especial Yoongi —, então Dagna está preparada para apenas cumprimentos e sorrisos. Ela compreende que a viagem de quatro horas da capital para Liverpool, onde iriam planejar o resto com mais calma na casa de Henry, atravessando todo o país apenas com a caminhonete de Gideon, será cansativa, por isso compra alguns salgadinhos numa lanchonete do Aeroporto enquanto espera a chegada dos quatro.
Segundo o que Elise havia lhe dito, eles estão vindo de Manchester e iriam dar duas paradas. A primeira em Liverpool, para ver se as coisas já estavam preparadas com Henry, e a segunda em Bristol, para comer. Segundo as contas de Dagna, eles estavam em ativa há oito horas sem descanso e doze se contasse com o tempo que levariam para chegar em Liverpool. "Talvez eles estejam dirigindo por turnos." Ela pensa para si mesma, enquanto toma um gole de café forte para manter-se acordada durante a viagem. Após trinta minutos de espera, a norueguesa está lendo um jornal que comprara há poucos minutos, sentada de frente para a televisão do aeroporto. Foi naquele momento que alguém se senta ao seu lado.
— Pensei que vocês nunca mais iriam chegar. — Dagna diz, sem tirar os olhos do jornal, para a outra ruiva ao seu lado. Nikita mal se mexe e a norueguesa quase pensa que ela não houvesse ouvido, até que a mulher suspira e sorri. Essa é uma das coisas que fazem Dagna não gostar da companhia da Nikita; a outra é demasiadamente quieta em alguns momentos, ou demasiadamente gentil para alguém que estava preso no inferno na Terra.
— Elise passou mais de duas horas conversando com o Henry às escondidas sobre alguma coisa que eles estão planejando e não querem nos contar. Acho que é por causa da possível fuga do Jasper. — Ah, verdade. Como ela poderia ter se esquecido? Uma área do Pentágono tinha sido explodida e o Governo havia dito que era apenas um teste que não dera certo; obviamente, eles estavam encobrindo uma fuga ou algo do gênero do público. E quem mais estava preso lá, a não ser o alemão? — Acho que ela vai tentar hackear de novo o sistema da CIA com a Nina. Isto é, se a encontrarem a Valdez. — As ênfases de Nikita fazem Dagna revirar os olhos.
— Nada da Ninally até agora? — "Onde será que ela se meteu?" Dags murmurou para si mesma de forma inaudível, e deu graças por Nikita não tê-la ouvido. Várias semanas haviam se passado e a hispânica não dava notícias, algo que está preocupando não só Dagna, mas como toda a pequena Resistência; se Nina houvesse sido capturada e torturada até falar, significa que era apenas uma questão de tempo até que o CCM os encontre. Por mais que Dagna tentasse se manter otimista, todas as probabilidades indicam que algo de ruim está acontecendo.
— Nada. Tentamos ligar para ela praticamente todos os dias, mas o número não existe. É como se a linha dela nunca tivesse existido. — A forma com que ela fala deixa a Solberg inquieta. É nesse exato momento que ela vê uma juba de cabelos escuros sentar-se ao seu lado, a fazendo largar o jornal e encarar a nova pessoa. Para sua surpresa, é Elise. E Dagna mal a reconhece.
A norueguesa estava aguardando a mesma pessoa de sempre quando se tratava de Elise; a mulher de vinte e dois anos que parecia um cadáver. As olheiras, a pele assustadoramente pálida para uma pessoa viva, o cabelo escuro e os lábios roxos como se ela estivesse com frio. Era assim que Dagna se lembrava de Elise. No entanto, a alemã parecia muito mais viva agora.
Os cabelos eram da exata cor de ébano, raras vezes parecendo mais claros com a luz. Entretanto, eles estavam mais arrumados e a mulher agora era capaz de notar que era ondulado. Elise continuava branca como papel, mas agora havia uma coloração cor-de-rosa nas maçãs do rosto, nos lábios e no nariz; e ela podia notar que sardas imperceptíveis em seu rosto, algo que a surpreendeu, porque Dagna acreditava ser uma ótima fisionomista. Seus olhos eram muito azuis e expressivos, embora ainda estivessem mantendo a frieza típica da alemã; como sempre, era impossível compreender o que se passava por trás deles. 1,77 de altura e era esguia, mas não estava mais tão magricela e anoréxica como antes. Ela estava um ano mais velha, é claro, por isso parecia estar mais séria do que já era. Vinte e três anos. E Elise parecia ser outra pessoa em um intervalo de apenas dez meses.
— Yoongi conseguiu entrar no email da Nina. — A alemã diz, mascando chiclete enquanto pega um celular na bolsa e o direciona para Dagna, que surpreendentemente parece alheia a tudo. — Uma passagem de ônibus para Camberra foi comprada há um mês. E isso aqui é para você. Me dê o seu; não queremos ser rastreados e nem ter dor de cabeça com as ligações do seu chefe. — A norueguesa recebe o Samsung A3 e vê um screenshot na pasta de imagens do email da hispânica; e ali está a confirmação de compra da passagem.
— O que Nina faria em Camberra? Ela não conhece ninguém que more lá. — Nikita a questiona, com seus olhos claros expressando tanta confusão quanto Dagna. A ideia de Ninally ter fugido sem motivo nenhum e sem avisá-los lhe era muito estranha; ela não faria isso nem nos mais insanos sonhos.
— E é esse o mistério que o Henry acabou de resolver. — Elise tira da bolsa uma pasta, de estilo top secret do Governo Americano e entrega para Nikita. A alemã faz uma bolha de chiclete enquanto vê Gideon se aproximando com um sorriso enquanto segura um pacote de balas ao lado de um Yoongi impassível. Dagna franze o cenho ao ver o coreano; ela não gosta dele, afinal, portanto não é obrigada a "fazer a social". E o Cho parece retribuir a indiferença. — Isso aí é um conjunto de mensagens trocadas entre a Nina e uma pessoa cujo nickname é "Camberra408" num período de seis meses antes do desaparecimento dela. — Enquanto Nikita folheia a papelada, Dagna nota que há um clima estranho entre o grupo; o sorriso de Gideon lhe parece forçado e ele não está com aquele ar de pura felicidade e alegria, Elise e Yoongi estão trocando olhares preocupados com mais frequência do que o normal e as mãos de Nikita parecem estar tremendo. Quando Nikita para de ler e seus olhos vão na direção de Elise, Dagna nota que ela está chocada.
— Elise, você acha que essa pessoa pode saber o que está acontecendo? — Tanto Dagna quanto Elise sabem que Nikita não precisa de uma resposta verbal para aquilo. Embora a ideia de ir atrás de Nina e da tal Camberra408 seja tentadora, ainda há aquela parcela de probabilidade os incomodando; a de que tudo seja uma armadilha do CCM para levá-los em custódia. E aí entrava a parte do campo de fuzilamento por serem inimigos de estado. Maravilhoso.
Aquele seria um longo dia.
*
São Petersburgo, Rússia.
Valentina não está acostumada com a liberdade.
O vento se choca contra seu rosto, provocando uma sensação de calma que ela nunca havia sentido em anos. Seu coração começa a bater devagar e sua respiração fica mais lenta, e Valentina sorri. Apesar de estar frio — de fato, ela está no ápice do inverno de Dezembro —, um calor se enche pelo corpo dela de forma devagar e, então, de repente. Val não queria que aquele momento acabasse. Era a primeira vez que ela sentia algo bom, depois de tanto tempo se achando incapaz de sentir alguma coisa. Quando as orbes azuis se abrem e encaram a paisagem, ela se sente em casa.
A casa de Ravena é grande e bem guardada, cheia de câmeras e sistemas de segurança modernos e caros. Uma fortaleza, mas uma fortaleza que ao menos permite que sua "prisioneira" saia para fazer alguma coisa útil invés de ficar encarando para a parede. Como a cientista passava pouco tempo no local, geralmente era apenas ela, Caleb e Jasper perambulando pela casa; ou melhor dizendo, Valentina passava a maior parte do tempo encarando o golfo da Finlândia pela janela enquanto os dois homens ficavam andando pela casa ou conversando entre si. Ela já não se importava mais com a presença deles, especialmente a de Jasper.
Valentina estava plenamente ciente sobre os sentimentos dele.
Mas ela nunca os retribuiria.
Suspirou, se levantando da cadeira e andando pelo quarto. Era o quarto da filha mais nova de Ravena e Caleb, Marilyn, que estava passando uns dias na casa da avó, na Nova Inglaterra. Ou seja, até a garota voltar, aquele era seu lar. O papel de parede florido, amarelo, e acompanhado de algumas partes do mesmo tipo de madeira do piso. Haviam várias pequenas lâmpadas presas no teto, seguradas por um curto fio preto, que faziam o lugar parecer mais aconchegante. As estantes de Marilyn eram lotadas de livros, portanto Val passava muito tempo os lendo para ignorar a solidão; ela já tinha terminado de ler O Grande Gatsby e E o Vento Levou, por isso estava concentrada nas obras de Edgar Allan Poe e Agatha Christie no momento. Marilyn tinha todas, sem exceções. E a havia uma cama de casal vestida de amarelo-claro e uma pequena televisão, embora Val não sentisse vontade de ligá-la.
Ela saiu do quarto e trancou a porta, por puro instinto, e desceu as escadas. Queria comprar esmaltes, visto que os seus tinham acabado e ela precisava repôr seu "estoque". Eram cinco e trinta e cinco segundo o relógio da cozinha e Valentina estranhou ao ver Ravena na casa, conversando com Caleb em um canto escuro; a mulher loura geralmente chegava às oito quando vinha ao local e sempre se dirigia apenas a Jasper, para conversar sobre algo que ela não se dava o trabalho de saber. Afinal, Valentina não tinha nada a ver com aquilo. E ela definitivamente não era tão curiosa para saber o que eles estavam falando.
— ... Vladimir está ficando impaciente. Ele e Wessex estão investindo muito dinheiro para poucos resultados e nem mesmo confirmamos a nossa cooperação na ideia deles. Na visão do Russo, podemos muito bem estar planejando algo com o Ted para tirá-los do poder; Vena, você sabe que o relacionamento entre Reino Unido, Rússia e Estados Unidos está péssimo. Se quer mesmo vingar o Uriah sem causar uma guerra mundial e nuclear, precisamos terminar isso logo.
— E o que você quer que eu faça, Roth? Já estou abdicando de tudo, até da minha reputação como cientista respeitada pelo Vladimir. Estou me fazendo de cega e burra para que Worthington não os encontre; todos do Esquadrão estão me chamando de incompetente e você sabe como eu ajo quando me chamam de incompetente. Se Vladimir quer uma confirmação, que ele cale a boca e espere!
Valentina ouve um suspiro, possivelmente de Caleb.
— Ele nos deu treze dias. Nem um minuto a mais, nem um minuto a menos. Se não provarmos que estamos do lado dele até lá, ele vai cortar as verbas e nos delatar para o Ted antes de iniciar uma guerra. E disse que quer ver a garota; a mãe dela descobriu sobre a fuga e está infernizando a vida dele.
— É loucura. Se ela sair daqui, ele também vai. E se dermos sorte, os dois vão presos e perdemos os únicos aliados que temos depois de nove meses de operação, Caleb. Além disso, ela não parece querer saber da família. Vive trancada naquele quarto, olhando para a água como uma maluca; se realmente pensasse neles, os teria procurado logo de cara quando chegou a Peter. E treze dias é muito pouco tempo; não é o suficiente!
— Vai ter que ser. E eu recebi o memorando de Londres, sobre os cinco. — Cinco... Provavelmente eram a irmã de Jasper e os outros mutantes do MIT. Ao menos, era isso o que o alemão vivia dizendo para ela. Valentina estava estranhando tudo aquilo e estava chocada com a história de que sua mãe, Verônica, queria vê-la depois de tanto tempo. Sentira e ainda sente raiva da mulher, mas aquela reação lhe era no mínimo intrigante. Deu de ombros e se afastou do lugar, abrindo a porta para continuar o que ia fazer antes de ouvir a conversa alheia, colocando o capuz em cima da cabeça e enfrentando a neve de São Petersburgo.
Depois de comprar os esmaltes escuros e mais algumas coisinhas e deixar alguns rublos extras para a atendente por estar com preguiça de fazer contas, Valentina saiu da loja de conveniência com um olhar entediado. Sentiu seu telefone vibrar e se deparou com o número e o rosto de Jasper na tela, e atendeu enquanto colocava um chiclete na boca.
— Privet. Quem estaria me ligando a esta hora? — Voz sedutora, sarcasmo. Aquilo fez Jasper rir do outro lado da linha e a russa sorriu imperceptivelmente para si mesma. Era engraçado como Jasper compreendia seu sarcasmo melhor do que qualquer um; essa fora uma das coisas que a fizeram sentir curiosidade por ele.
— O Presidente. Estou ligando para informá-la que você está presa.
— Pelo o quê, Senhor Presidente?
— Por ter fugido da prisão sem dizer "tchau". Onde você está? São quase dez da noite e você sabe como a cidade fica perigosa nesse horário, mesmo que... Sei lá, a Rússia seja um dos países mais seguros do mundo? Vai que tem algum torcedor maluco ou um estuprador em potencial atrás de você e a senhorita precise de um super-herói cujo nome começa com "J" e termina com "asper". — Ele ri da própria piada e Val revira os olhos, mas ainda com um sorriso no rosto.
— Estou saindo daquela loja de conveniência perto daquela floricultura onde você e o Caleb compraram o buquê da Ravena. Lembra? Aquele que ela recusou e você insistiu em dar para mim, mesmo que eu tenha dito que não gosto de flores.
— Ah, fala sério! Eram tulipas! Todo mundo gosta de tulipas! Admita que as achou bonitas, Valentina Monroi Dewitt Bukatter! É pela honra de um homem! — Ela quase se arrependeu de ter dito seu nome completo para Jasper naquele dia tedioso, mas surpreendentemente Valentina apenas riu e sua risada deve ter feito o alemão sorrir, porque ele ficou calado até ela terminar. Eram aqueles momentos que faziam Valentina se sentir péssima, por dar esperanças a ele. E esperanças a si mesma.
E então ela vê alguém se aproximando por trás.
Que estranho.
Jasper continua tagarelando no telefone, mas Valentina mal o ouve; ela está totalmente concentrada no desconhecido que insiste em persegui-la. A mulher acelera o passo, olhando de esguelha para a pessoa. É um homem alto, musculoso. Numa briga direta e física, ele poderia facilmente quebrá-la ao meio. Valentina não fica com medo ou nervosa, pois ela sabe que o venceria com facilidade por ser mutante, mas a mera ideia de alguém tentando tirar algo dela a deixava inquieta. Desligou o telefone de repente, dizendo um rápido "tchau" para Jasper, que poderia ser seu último. Ela continua andando, até chegar em um beco e começar a correr; Valentina usou o clichê a seu favor. Iria enfrentá-lo, porque era o único jeito.
Tudo aconteceu tão rápido.
Flertes, um ataque com a tentativa de tirar as roupas dela e gritos.
Um cadáver foi tudo o que restou da "pequena" aventura de Valentina Dewitt.
*
Liverpool, Inglaterra.
Não era como se Elise fosse uma fanática pela mera menção de dinheiro ou uma cleptomaníaca. Na verdade, ela havia até esquecido a existência do mesmo até alguns meses atrás, quando Yoongi lhe disse que precisavam arrumar alguns dólares para fugir dos Estados Unidos. Por mais que não gostasse do mesmo, era algo necessário para a conclusão de seu plano B; visto que o plano A, o de tirar Jasper do Pentágono, falhara antes mesmo dela planejá-lo com mais calma e antecedência. Embora o plano B estivesse sendo até agora apenas uma conversa entre ela e Henry, era definitivamente a primeira forma de ir contra Ted sem arriscar a vida de maneira insana como antes.
Bem, Elise falava de roubar todo o dinheiro do Presidente dos EUA como alguém fala de jogar ping-pong com os amigos.
Esconder todo aquele plano dos outros participantes e fazer tudo no improviso não era seu estilo, mas ela tinha receio que, se contasse para eles, acabassem recusando ou chamando-a de louca. Embora adorasse ser dita como demente, sua paciência para ficar adiando aquele plano já estava no zero; ou terminava aquilo, ou acabaria matando alguém para relaxar. E não matar no sentido figurado da palavra.
A casa de Henry era razoavelmente velha, pintada quase que totalmente de cores claras por dentro e um vermelho forte por fora, dois andares — um sobrado, obviamente. Elise estava sentada em uma das cadeiras brancas da cozinha, encarando a pequena mesa redonda onde o mapa do local estava jogado junto com algumas garrafas de refrigerante e copos de café, ao lado de Gideon e Dagna. A ruiva estava com os braços cruzados sobre o peito, entretanto, ela mal prestava atenção ao que acontecia; e, naquelas horas, Elise se admirava da capacidade da norueguesa de manter a calma.
Henry e Nikita pareciam estar nervosos, ambos tomando altas doses de café praticamente sem pausa. Yoongi estava estranhamente quieto, quase como um boneco humano, sem tirar os olhos do mapa enquanto a alemã falava. No entanto, ela sabia que a razão para ele agir daquela forma não tinha nada a ver com o roubo; e o mero pensamento do que ocorrera naquela floresta lhe era tão problemático que ela continuava a fingir que aquilo nunca tivesse acontecido. Durante os dias em que passaram na fazenda em Manchester, Elise adquirira a mania por mascar chicletes quando estava nervosa e já perdera a conta de quantos colocara na boca desde que teve aquela ideia. E Elise notara uma única coisa ruim: falar e mascar ao mesmo tempo era bem difícil, mas nada que não pudesse ser ignorado.
O plano era simples e fácil. Henry seria responsável por hackear a sala de segurança e a sala de controle; um blecaute ocorreria assim que ele desligasse a energia e tudo ficaria às cegas. Yoongi e Dagna teriam duas responsabilidades: a primeira, o "plano B", caso ocorresse algum erro de cálculo e eles fossem descobertos; basicamente iriam "dar alguns socos e chutes". A segunda seriam distrair os desesperados e Dagna também deveria convencer os seguranças do local que ela estava prestes a ter um "piripaque", apenas para aturdi-los e roubar suas roupas. Nessa hora, Gideon entrava em ação como um dos guardas e ia junto com Nikita até o cofre número quinhentos e quinze, abrindo um buraco no chão. O dinheiro ficaria ali até Elise — que também era encarregada de guiá-los pelo escuro por meio de telepatia — transportá-lo via "magia" para dentro de um caminhão que iria direto para Liverpool; o motorista nunca imaginaria estar levando dois bilhões de dólares em barras de ouro.
"Ah, como é bom ser mutante." Era o que Jasper diria naquele momento. E Elise nunca concordou tanto com uma frase do irmão como naquela ocasião, mesmo que ele não tivesse realmente dito.
Quando a noite caiu, a mente da alemã estava processando tantas coisas que ela não conseguia dormir. Embora tivesse começado a adorar a tarefa de dormir, Elise simplesmente não se sentia disposta a deitar em uma cama e fechar os olhos. Por isso ela se levantou, calçou os sapatos e colocou um casaco, pronta para uma caminhada noturna pela cidade que mal tivera tempo de conhecer com calma. Liverpool era um lugar bonito e, ao passar pelo Beatles Story, Elise teve vontade de ter nascido há vários anos atrás; 2010 fora uma década interessante, cheia de surpresas, mas Elise se sentira um tanto quanto triste ao pensar naqueles Anos Dourados. A razão pela qual 2040 agora é marcada pela corrupção, falta de recursos naturais, fome, pobreza e mutantes se iniciou lá naqueles dias, em 2010; o preconceito, a poluição, a maldade... Aos poucos, foi se formando uma base para tudo aquilo. Talvez tenha sido isso que desencadeou a criação do Gene Mutante. Evolução. Tirar o lado ruim e substituí-lo por algo novo, algo idealmente bom.
Hah, isso sempre foi tão óbvio.
Depois de mais alguns passeios e devaneios, Elise chegou ao Estádio Anfield. Já eram quase seis da manhã e o dia estava amanhecendo, e Elise não teve dificuldades para burlar a segurança do estádio e entrar no local. Sentada em uma das cadeiras e encarando o gramado, ela se perguntava no que faria se conseguisse chegar ao seu objetivo de tirar o preconceito enraizado da sociedade. Talvez ela fosse terminar os estudos e cursar alguma coisa, possivelmente Diplomacia ou algo do tipo. Compraria uma casa e... E talvez formaria uma família, com crianças e um marido. Seria feliz? É, talvez ser feliz seja algo concebível para alguém que passou tanto tempo sem esperanças e que agora está lutando para consegui-la. A ideia, que antes lhe parecia impossível, agora parecia estar a um palmo de distância. E Elise se permitiu sorrir.
— Sorrindo para o nada de novo, Wagner? — A voz do coreano não a assustou; ela já estava ciente da presença dele a seguindo por todas essas horas. Os olhos dela se deixaram ir na direção dele e Yoongi notou que ela estava chorando, mas antes que pudesse falar ou fazer qualquer coisa, a mulher secou as lágrimas com a ponta do casaco, ainda sorrindo. Elise gostava da companhia de Yoongi; e depois da floresta, ela gostava ainda mais de tê-lo por perto. Ela deu uma risada baixa, olhando para o céu.
— Hah. Só estava pensando em algumas coisas. — Ela não esperou uma pergunta. Sabia que Yoongi tinha interesse em saber o que passava pela mente dela tanto quanto qualquer um, porque ele era como ela naquele quesito; ambos queriam saber mais sobre o outro, mas sem forçar ou extrapolar os limites. — Sobre... Sobre o que vamos fazer depois que tudo isso acabar, sabe? Tipo, como vai ser a nossa vida depois dessa confusão.
— E o que você quer fazer? — Aquilo a pegou de surpresa, mais pelo fato dele mal ter esperado ela terminar de falar para questioná-la do que pela pergunta em si. O olhar dele estava atento, ela notou, cheio de curiosidade e, lá no fundo, um pouco de fascínio. Elise estranhou aquilo, mas se manteve quieta quanto isso.
— Eu não sei direito. Terminar os estudos, trabalhar, casar, ter filhos. Esse tipo de coisa, eu acho. É isso o que todo mundo vai fazer mesmo. Henry já disse que quer conhecer alguém e comprar uma casa grande para a família dele, onde todo mundo poderia morar junto e se divertir o tempo todo. E a Dagna... Bem, por mais que isso não faça o estilo dela, — Elise deixou escapar uma risada. — Acho que a Senhora Solberg talvez possa parar com os olhares homicidas por um tempinho.
— Não sabia que você tem vontade de se casar.
— Admito que nem eu sabia disso. E você?
Yoongi suspira profundamente antes de responder, parando para olhar o gramado do estádio antes de responder. Elise continua o observando, absorvendo quaisquer emoções que possam aparecer discretamente pelo rosto dele. Ela se sentia feliz por poder ter a capacidade de compreender uma pequena fração de Yoongi; isso significava que ele confiava nela o suficiente para revelar um pouco sobre si mesmo.
— Eu... Eu quero encontrar o meu irmão. Com toda essa confusão, não consigo imaginar em uma maneira de tentar chegar a ele. Woo Ho fez tanta coisa por mim e ele é a única família que eu... Que eu tenho. — Hesitação. Que estranho. — Quando eu o encontrar, vou pensar no que fazer depois. Talvez eu faça o mesmo que você, ou não.
O silêncio se mantém entre os dois por alguns minutos, o tempo em que o som fica altivo e o Firmamento parece estar cada vez mais próximo. Yoongi acha os olhos dela parecidos com o céu, mas continua calado, sem nada dizer. Elise continua sorrindo para o alto, devaneando, completamente imersa e distraída. E, por um segundo, Yoongi pensa em como seria viver ao lado dela.
E aparentemente Elise pensou o mesmo.
— Acho que estou apaixonada por você, Cho.
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