Wrong Ways
1 Vestígios do passado - Prólogo
Notas iniciais
Logan
Estávamos sentados no telhado da minha casa, como era de costume. O vento era sempre gelado naquela época do ano, mas não era como se nos importássemos com isso.
– Você sabe que esse lugar não é para nós. As pessoas daqui, elas não nós merecem.
Ela dizia enquanto analisava os machucados no meu rosto.
Em resposta, eu apenas esbocei um sorriso irônico.
– Eu sei que um dia estaremos longe daqui, longe dessa cidade, desse lugar maldito. Num lugar onde realmente pertencemos. — Continuou ela.
– Diga isso por você. Não acha que isso é pretensão demais ?
– Eu a respondi com um tom melancólico, no fundo, eu sabia que pior que tudo estivesse, o meu destino era ali, eu não possuía muitas opções.
Ela já conhecia essa minha falta de entusiasmo, então já nem se importava mais.
– Cale a boca, Logan . Eu que decido o quão alto vão ser meus sonhos e quais serão os meus caminhos, não você. Então quando eu disser que vamos sair daqui, é porque é verdade.
E deu seu melhor sorriso esperançoso.
Desde de aquela época eu não acreditava nesses tipos de ilusões, mas as dela me faziam querer acreditar.
Oito anos mais tarde.
O toque do celular ao fundo,me despertava aos poucos desse sonho. Até enfim retomar a consciência. Já se passaram oito anos e eu ainda tenho esse tipo de sonho? Só pode ser brincadeira.
Atendi o celular, era Mike.
– O que é Michael? Será que não dá pra resolver nada sem mim?
– Bom dia Princesa, o que houve? Ainda não recebeu um beijinho de bom dia ?
– Vai direto ao ponto, cara.
–Bebe uma água aí, porque você tá seco demais. Enfim, estamos tendo um problema com as encomendas aqui, o pessoal da zona sul, já sabe.
Suspirei
–Puta que pariu, já estou indo aí. Esse não é um bom tipo de assunto pra se tratar por telefone.
– Ok, rápido, Shaw.
Me levantei rapidamente e me dirigi ao galpão, que ficava no interior da cidade
Durante o caminho, eu tentava distrair a minha mente com a paisagem. Mas digamos que o cenário monótono da cidade de Scarlet Oak, não é lá muito animador, tudo o que havia eram casas de classe média, poucos prédios,um céu nublado e alguns esporádicos carvalhos que faziam jus ao nome da cidade, apenas vestígios de uma província esquecida pelo governo, onde por baixo da fama de município pacato e cheio de famílias que vendem geleia, a criminalidade ocorria livremente.
Mesmo assim a minha mente fazia questão de se torturar com aquele sonho. Eu via tudo claramente, cada detalhe, eu lembro que o telhado da minha casa era alaranjado, quase o mesmo tom que as árvores possuíam naquele mês, pois era outono. Lembro também que o suéter dela era azul e destoava completamente da atmosfera vermelho- alaranjada que cobria o bairro. Essa riqueza de detalhes é porque não era só um sonho, era uma lembrança que ainda vivia em mim.
Eu não me apegava ao passado, á memórias, á pessoas, á mais nada. Eu só seguia em frente, e o que ficava para trás era inútil.
Mas ela ficou. Ficou em minha mente, como um fantasma, rondando meus pensamentos a cada dia durante esses oito anos, e ainda me pergunto onde ela está. Diferente de mim, ela tinha algo para acreditar, ela tinha um futuro.
Me faz rir essa minha infeliz curiosidade de saber como ela está.
É até um tanto ridículo, ela com certeza traçou um caminho diferente do meu. Como qualquer garota de 18 anos, ela deve estar tentando entrar numa universidade, namorar um cara legal e planejar casar no futuro.
Era o que ela queria, viver feliz longe daqui e ir pra capital, apesar de que uma vida tão medíocre como essa não combinar muito bem com ela.
De qualquer forma, não importa mais.
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Summer
– Droga, droga, droga, eu não acredito que isso não vai funcionar agora!
Eu remexia nos fios daquele carro, eu sabia fazer ligação direta como ninguém, mas hoje, justo hoje que eu precisava daquele carro, não estava funcionando.
Olhei pelo retrovisor do carro e vi o guarda do estacionamento com uma lanterna. Me estreitei entre os bancos e esperei ele passar. Cada passo parecia uma eternidade, só para me torturar.
Senti os passos se aproximarem. É agora ou nunca. Tentei pela última vez ligar o carro, e finalmente consegui ouvir o doce barulho do motor, nunca fui tão grata em ouvi-lo.
Num impulso sentei no banco do motorista e arranquei com o carro antes mesmo que qualquer um pudesse ter visto quem o dirigia.
O guarda, claro, tentou correr atrás, mas eu já estava saindo do estacionamento. Ele iria avisar a polícia, então precisava ser rápida.
Peguei a estrada, e logo estava na casa dele, Frank Thompson.
Abriram os portões para mim e eu estacionei o carro de qualquer jeito no pátio da casa, que não era bem uma casa, era uma mansão escondida na parte baixa da cidade.
Ele logo me viu, e veio até mim.
– O que temos aqui ? Se não é o meu Mustang. Bom trabalho, Summer.
Disse irônico.
– Aqui está, o que você queria. Agora cumpra o acordo.
Ele andou em volta do carro, analisando suas condições.
– É um belo modelo, não acha ? Disse ele ignorando minha objetividade.
– Que seja, agora me dê a minha parte. — disse severa
Ele me entregou um pacote, com um sorriso cínico.
– Boa garota, se continuar assim, nosso acordo durará anos.
– Não conte com isso, pagarei o que lhe devo, e não pretendo ver sua cara novamente.
Contei o dinheiro no pacote, e sai andando, decidida a não ouvir alguma graça dele e mata-lo ali mesmo.
– Espero que sua mamãe melhore logo então. E riu
Apenas ignorei, por hora eu não podia fazer nada.
Voltei para casa caminhando, atenta a tudo ao meu redor. Quando estava perto de casa, dei duas voltas no quarteirão para me certificar que não estava sendo seguida.
Enfim adentrei em casa, contemplei o vazio que estava e fui para o meu quarto e me joguei na cama. Encarei o relógio que havia na parede, eram 4:57 da manhã. Fechei os olhos por um momento, "cheguei cedo" em casa. Acabei por adormecer.
Quando acordei já eram 8:30 da manhã. Tirei as roupas de ontem e tomei banho. Tomei café rapidamente e fui até o hospital.
Ao chegar lá, era trágico como todos já me conheciam e como eu já sabia trilhar os caminhos daquele lugar. Fui em direção ao quarto da minha mãe, abri a porta e me deparei com ela de pé, observando a janela.
–Como está se sentindo ? Perguntei.
–Um pouco melhor, acho
Sorri em saber que ela estava bem.
– Por que não apareceu ontem, Sam?
Sam, poucos pessoas me chamavam por esse apelido, era por causa da sonoridade que Summer tinha.
Seus olhos cansados me encararam profundamente, ela sabia onde eu estava e se culpava por isso.
– Mãe, você sabe que não precisa se preocupar comigo, eu vou sempre ficar bem. Confie em mim.
Tentei ser o mais convincente possível, mas não sei se foi o suficiente.
A porta do quarto foi aberta vagarosamente, era o médico que supervisionava o tratamento dela.
– Senhorita Woods , poderíamos conversar um pouco ?
– Claro. Já volto, mãe.
Eu o segui, e adentramos no seu consultório.
– E então ? Como ela está ?
Me apressei em perguntar.
– Bem melhor do que eu esperava, eu diria. A cirurgia foi um sucesso e a recuperação está sendo ótima.
– É bom ouvir isso.- disse aliviada
– Acho que você vai gostar mais ainda de saber que ela já pode ir para casa, mas claro vai precisar de cuidados especiais.
Fiquei feliz em receber a notícia, mas por um lado eu ficava preocupada. Eu praticamente não ficava em casa, passava madrugadas inteiras fora de casa, me arriscando para pagar minhas dívidas com Frank e ainda mais pagar o tratamento da minha mãe.
Depois de conversar mais alguns assuntos com o médico e usar o dinheiro da noite passada para pagar meses de atraso no tratamento da minha mãe. Finalmente eu e minha mãe fomos para casa. Essa era a minha rotina, de casa para o hospital, do hospital para o colégio, do colégio para qualquer lugar em que eu pudesse roubar um carro. Não, eu não me orgulhava disso. No auge dos meus dezessete anos essa era a última coisa que eu esperava estar fazendo, porém eu não tive escolha além disso. Alguns pais deixam herança para os filhos, carros, casa, apartamentos na praia, jóias, no entanto tudo o que meu pai me deixou antes de desaparecer foi este fardo; uma dívida de valor incalculável com um traficante.
Agora eu precisa arrumar um espaço no meio de tudo isso para cuidar da minha mãe e eu gostaria de saber como. Eu não podia parar de "trabalhar" para cuidar dela, se é que o quê eu faço pode ser considerado trabalho. Me pergunto como seria a minha vida se eu nunca tivesse saído de Scarlet Oak...
Espere.. Scarlet Oak.... É isso!
Enquanto eu preparava algo para jantarmos, eu conversei com minha mãe. Já tinha a solução para os cuidados que ela precisava.
– Mãe, o que você acha de voltarmos para nossa cidade e morar com a tia. Susie?
– Bem, seria uma ótima ideia. Mas você não acha que Frank e os caras dele não iriam nos perseguir ?
– Claro que iriam, mas eu posso conversar com ele e continuar roubando os carros para ele de lá.
Ela fez uma cara de quem não achou a ideia grande coisa.
Peguei na mão dela e disse:
– Olha eu sei que você odeia me ver em perigo, mas eu não tenho muita escolha. Meu pai deixou essa dívida para nós e nós vamos nos livrar dela em breve. Mas eu preciso que a senhora confie em mim, se voltarmos para Scarlet Oak, Tia Susie vai cuidar de você e eu poderei ficar mais tranquila.
Ela assentiu, e beijou o meu rosto.
No dia seguinte acertei tudo. Fiz um acordo com Frank, que aceitou um tanto relutante, mas era isso ou me me perder, depois que meu pai desapareceu e não trabalhava mais para ele, eu era a melhor ladra de carros que ele possuía. Mas deixou claro, se eu tentasse fugir, ele iria me matar.
Liguei para Tia Susie, que adorou saber que iríamos voltar, ela era sozinha, suas melhores companhias eram seus gatos e vivia com o lucro de uma pequena loja de souvenirs deixada pelo marido . Eu estava até fazendo uma boa ação para ela, eu sei, sou genial!
Eu minha mãe passamos a tarde inteira, empacotando a mudança. Não era muita coisa. Desde que meu pai sumiu e minha mãe adoeceu vivíamos apenas com o suficiente.
Tirei as últimas coisas da estante da sala e levei para o carro. Fui ver se minha mãe havia terminado de pegar suas coisas.
– E aí já terminou ?
Vi ela agachada mexendo em algumas fotos.
– O que é isso? Perguntei curiosa.
Ela sorriu, olhando as fotos e me entregou algumas.
Eram fotos dela e do meu pai quando jovens.
Minhas fotos ainda bebê.
Meu pai com alguns amigos, ele sempre falava deles, mas não lembro muita coisa agora.
– Lembra deles Sam ? Olha como você era pequena!
Ela disse e me entregou a foto.
Era eu, Logan e seu irmão Leonard.
Eu devia ter uns nove anos, e eles dez ou doze. Estávamos brincando num parque de diversões. Aquela foto me trazia boas lembranças.
Eu estava toda suja de algodão doce, mesmo assim sorria sem me importar. Leonard tinha um sorriso enorme, por ter um algodão doce maior que de nós dois. E Logan tinha um doce também, eu lembro que ele estava feliz naquele dia, mas sempre foi tímido para fotos, então saiu com uma cara mal humorada, era até um pouco fofa.
Eu ri com todas essas memórias.
– Eles já devem estar tão diferentes, como o tempo passou rápido... — disse minha mãe nostálgica.
Apenas assenti.
Voltar á Scarlet Oak, eu não havia pensado nisso. Rever todos esses rostos conhecidos, será que eles ainda lembram de mim? Será que ele ainda lembra de mim ?
Depois de todos esses anos, muita coisa deve ter mudado...
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