Wrong Person
8 Tratamento de Insanidade
Notas iniciais
A pequena garota olhava, impaciente, para minha cadeira e os dois homens ao meu lado. Eu estava amarrada pelos meus pulsos, tornozelos e tórax a ela. Não respirava direito e o forte cheiro do lugar me atormentava. Era uma mistura de loucura, claustrofobia e vômito. Estava enjoada.
Respirava profundamente para manter a calma, mais pela boca para evitar sentir o cheiro do ambiente. Era uma sala branca, como as outras do prédio, mas as paredes eram amareladas e tinham marcas de mãos gordurosas que arranharam a tintura. Ao contrário das outras, era mal-iluminada e suja. Estava vazia, apenas uma estranha “engenhoca” permanecia.
Era feita de madeira no formato de uma banheira funda e quadrada. Na borda virada para a porta, uma cadeira, também de madeira, estava presa a ela por uma alça de ferro pelas duas pernas de trás. Ali eu estava amarrada. Na ponta desse lado, havia duas manivelas de ferro em cada canto, na barra de ferro da cadeira. Era para lá que Jennyfer olhava aflita.
Dois dos quatro homens torciam as barras de ferro que rangiam de modo ardido e alto. Eles faziam o máximo de sua força, mas as manivelas nem se mexiam. Eu não conseguia ver o que tinha dentro da banheira, mas sentia um ar gelado de lá.
Finalmente, depois de palavras duras e rudes em inglês de Jennyfer direcionadas aos homens, esses conseguiram fazer com que funcionassem. Um grito fino de vitória saiu da garota. Eu suspirei, com medo do que ela iria aprontar comigo.
-Então, agora que esses fracotes conseguiram colocar pra funcionar essa máquina velha, vamos começar o...tratamento. Isso. Tratamento. –ela sorriu para mim- É o seguinte, vamos mergulhar você nessa banheira enquanto nos contas sobre sua linda vidinha e como veio parar aqui, ta ok? Se não colaborar, temos outros brinquedinhos do século XVI piores que esse. Beleza?
Ela sorriu novamente e eu revirei os olhos. Já estava cansada de ser boazinha. De prestar atenção a ela. De me fazer de vítima. O que quer que ela e Sir Hopkins iriam fazer comigo, eu iria passar por cima, ser melhor. Agüentar o tipo de “tortura” que iriam me fazer. Eu iria enfrentá-los. Não ter medo dela e do olhos transparentes do outro.
Ela deu um sinal para os homens, e eles começaram a empurrar a barra de ferro. Minha cadeira deu um tranco, depois começou a rolar pára trás de maneira brusca, até parar bem perto do que seja que a banheira estava cheia.
Jennyfer fez uma pergunta banal para mim e eu a respondi, sem resistir ou fazer escândalo. A cadeira recomeçou a deitar e, de repente, senti a água fria em volta de mim. Os gelos encostando-se a meus braços nus fazendo com que eu arrepiasse dos pés a nuca. Arregalei os olhos enquanto sentia meu corpo ficar cada vez mais gelado.
Segurei a respiração pelo maior tempo que consegui, até ficar completamente sem ar e me debater por instinto. Me levantaram depressa onde recarreguei meus pulmões com uma bufada de ar imensa. Respirava de modo falho e tossia muito.
A garotinha, que me olhava indiferente, fez outra pergunta banal e a cadeira recomeçou a ir para trás. Eu estava certa de que iria agüentar, eu não ia desistir, porque era isso que ela queria. Ou eu achava que queria. Eu achava que ela me queria morta, eu não iria morrer.
Novamente a água gelada me fez tremer e me arrepiar intensamente. Mas uma coisa peculiar fez com que eu parasse de me debater e tentar guardar ar o máximo possível. Meu longo cabelo tinha soltado, e agora flutuava livremente diante de meu rosto. Não era dourado, como tinha que ser. Estava preto. Completamente escuro, como uma madrugada sem lua.
Eu levei um susto e dei um grito, abafado pela água, que me custou toda o ar que eu ainda tinha. Recomecei a me debater e senti a água gelada já entrando em meus pulmões. Achei que ia morrer, estava fraca, ia desmaiar e nunca mais acordar até que senti um puxão e o ar substituindo a água no meu peito de uma forma grotesca. Tossi feito uma louca até conseguir respirar normalmente.
O problema, é que não era apenas o ar que a água daquela banheira estava roubando de mim, mas também o calor. Eu tremia de modo que batia a cabeça na cadeira. Foi para isso que ela tinha tirado minha camisa de força e colocado um shortinho e camiseta sem manga, para eu sentir frio. Mesmo fora d’água, parecia que o gelo ainda estava encostado em mim.
Chorava de raiva e frio enquanto fuzilava a pequena garotinha, que parecia culpada, com meus olhos de água gelada e salgada.
Então, voltei a ver meu cabelo, solto pela água, jogado no meu ombro e no meu rosto. Ele estava realmente preto. Realmente, totalmente preto.
-O QUE VOCÊ FEZ COM MEU CABELO? –gritava enlouquecida- O QUE VOCÊ FEZ COM ELE?
-Eu, nada. Foi Sir Hopkins.
Senti uma onda de medo quando ela citou o nome dele. Eu não podia sentir medo.
-O que...ele fez com meu cabelo?
Fitava uma mecha preta no meu ombro, e já não gritava mais.
-Pergunte para ele. Creio que Sir gosta mais de meninas de cabelo escuro.
Suspirei, exausta.
-Você vai me “afogar” de novo?
-Sinto muito, querida, mas são mais 18 perguntas.
-Então, mais 18 idas ao inferno, certo?
-Normas da empresa, querida.
Normalmente eu iria me irritar com ela me chamando de querida, mas queria acabar logo com isso. Apenas suspirei e respondi a ela a mais uma de suas estúpidas perguntas. Antes de me afundar na banheira, porém, ela veio até mim e, com a ajuda de um banquinho, ficou da altura da cadeira e me deu um beijo no rosto. Como se fosse adiantar alguma coisa. Ela também murmurou algo em inglês no meu ouvido, mas eu não falo inglês.
Jennyfer voltou para frente da banheira.
Mergulhei na água gelada até quase morrer mais 18 vezes.
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