Wrestling & Romance
17 Capítulo 17: Canadá
WWE Performance Center: Flórida — Abril de 2025
—Diego, você ainda está aqui? — Escuto uma voz, enquanto relembrava meu passado.
Olho para trás, mesmo tendo reconhecido a voz. Era com quem eu conversava até uma hora atrás, acertando os últimos detalhes do meu contrato com a WWE, o chefão máximo da empresa, Paul Levesque, conhecido por todos como Triple H, múltiplas vezes campeão mundial, integrante da D-Generation X e membro do Hall da Fama da empresa, além de sucessor de seu sogro, Vince McMahon no comando da mesma.
—Ah, Hunter, eu estava só relembrando algumas coisas do passado. — Respondo, compreendendo que deve ter parecido estranho você pegar um (futuro) funcionário sentado na ponta do ringue, pensativo.
Sobre a história do "Hunter", bem, o 'Triple H' vinha do nome do personagem, Hunter Hearst Helmsley. Era difícil ainda pra mim chamá-lo de Paul, diabos, a Nicole já o chamava de Paul. Mas bem, o Triple H, apesar de comandar a WWE, ainda mantinha o olho no território de desenvolvimento, o NXT, o qual ele ajudou a elevar na década passada.
—Sei lá, você parecia pensativo...
—A minha jornada foi longa pra chegar até aqui. Mas, bem... Já está tarde e depois de amanhã eu volto pro Japão.
—Bom, a gente se vê em duas semanas... — Ele me cumprimenta, e eu saio do Performance Center, pegando meu carro pra dirigir até a casa da família de Nicole, em Orlando.
Resumindo, alguns meses atrás, em novembro, a Nicole trabalhava na Stardom, uma das principais empresas de wrestling feminino do mundo, até que a oportunidade de vir pra WWE surgiu e ela aceitou. Eu sabia que em breve chegaria a minha vez de ir pra WWE, tanto que na New Japan estávamos construindo a rivalidade que levaria a minha derrota no Wrestle Kingdom de Janeiro e eu terminaria o meu ciclo lá (era o que eu sentia), e devido a isso, sugeri a ela que ao invés de alugar um apartamento ou deixar por conta da empresa, voltasse a morar com os pais até que eu fosse pros Estados Unidos.
Na casa, viviam somente os pais de Nicole e a mesma (temporariamente), já que Karen e Lucy moravam juntas fazia pelo menos cinco anos (moravam na vizinhança, aliás), e Alice estava morando em Seattle, cuidando do Braço de lá da empresa do pai delas. Após estacionar o carro, sou recepcionado por Nicole, que me dá um selinho.
—Boa noite, campeão... Por que demorou tanto? O Paul não ficou te enrolando, ficou? — Nicole pergunta.
—Não, a reunião com o Hunter foi tranquila, até, o contrato é bastante vantajoso. — Respondo, tranquilo. — Você sabe qual é o meu maior defeito, não?
—Sim, você adora ficar divagando... — Nicole ri, provavelmente lembrando de quando eu tinha meus dezessete, dezoito anos.
—Exato, e depois da reunião, fiquei num dos ringues do Performance Center, relembrando o passado. — Sorri, nostálgico.
—Bons tempos, principalmente aquela viagem...
—Eu estava lembrando justamente dela. — Concluo, ainda com um tom saudosista.
—Algumas das coisas que a gente fez... — O tom dela deixava claro algo.
—E como eu vou voltar pro Japão depois de amanhã, podíamos aproveitar pra repetir... — Meu sorriso é confiante, porque sei o que ela quer.
—Diego, eu te amo, sabe? — Ela diz, antes de me dar um beijo muito mais longo e intenso do que aquele que ela me recebera, enquanto vamos pra um dos quartos da casa, para nos amarmos mais uma vez.
Algumas horas depois...
Estamos na cama, já refeitos do que acontecera.
—Algumas coisas nunca mudam. — Comento, sem me referir a nada em específico.
—A gente correu muito pra chegar até aqui, não? — Nicole pergunta.
—Pois é, e quem diria que a Lara chegaria primeiro que nós na WWE. — Dou uma risada, me referindo ao fato de que Lara já trabalhava pra empresa há pelo menos três anos.
—E durante muito tempo, não ficamos muito tempo em um país, com exceção do Japão. — Ela comenta.
—Pois é... Me lembro como se fosse ontem, as coisas que nos aconteceram desde que deixamos o Brasil, há tanto tempo atrás. — Respiro fundo, recordando tudo o que passamos.
Junho de 2017, Calgary, Alberta – Canadá.
Esses primeiros meses de adaptação no Canadá foram tranquilos, a rotina minha e da Lara era de trabalhar de dia e treinar a noite, enquanto Nicole trabalhava de dia. Nas nossas folgas, eu passava mais conceitos básicos para a Nicole, para que ela não ficasse pra trás, e quando começasse a treinar na Storm Wrestling Academy, ela não enfrentasse problemas.
Chegando as férias de verão, decidimos passar um tempo na Flórida, onde os pais de Nicole moravam, eu, Nicole e Lara. Havia um motivo real pra eu querer ir pra Flórida, que não falei nem pra Nicole. Eu mantinha um contato constante, tanto com as irmãs de Nicole, quanto com nossos amigos no Brasil (E quem diria que Brenda e Erick ficariam juntos? Pois é.). Soube que no período de adaptação no colégio novo (Karen e Alice entraram pra um colégio da Flórida e fariam os últimos meses do ano anterior como adaptação, antes de iniciar o período letivo equivalente), Karen andara se bicando com uma garota descendente de cubanos, mas que tempos depois se tornara grande amiga dela.
Alice, por incrível que pareça, arrumou um namoradinho que era o garoto perfeito. Só que com o passar do tempo, as mensagens foram adquirindo um tom meio alarmante e o intervalo dentre elas aumentava cada vez mais, o que despertou minhas suspeitas sobre algo. Perguntando a Karen, ela disse que não sabia de nada, apesar de vez ou outra Alice parecer meio "esquisita".
Minha maior preocupação quando desembarcamos no Aeroporto Internacional de Orlando, era justamente com ela, que... Pra aumentar as minhas suspeitas, não estava lá pra nos receber.
—Mamãe, Papai, Karen! — Nicole larga as malas e corre até os parentes, os abraçando.
—Virou criança, não? — Comento rindo, com Lara.
—Pois é... — Lara sorri, enquanto caminhamos até a família de Nicole.
—Caramba, Diego, você tá mais forte, hein? — Ricardo me cumprimenta, jovialmente.
—É o que um treino mais especializado faz com a pessoa. — Respondo, minha expressão ficando um pouco pesada. — Onde está a Alice?
—Ela disse que iria encontrar o Logan... — A mãe dela responde, enquanto me dá um abraço.
Logan Graham, o garoto perfeito. Boas notas, membro do clube de Xadrez e orador da turma. Dizem ter um futuro brilhante. Mas... Por quê eu tenho a sensação de que tem algo oculto por trás disso?
—Vou tentar ligar pra ela. — Pego meu telefone e disco o número.
—Ligar? — Karen pergunta, intrigada.
—Ela não responde minhas mensagens. — Pergunto, enquanto o telefone de Alice chama.
—ALÔ, QUEM É VOCÊ? COMO OBTEVE O NÚMERO DA MINHA NAMORADA? — Uma voz nervosa, grita comigo no telefone.
—O que é... — Nicole tenta falar, mas ergo a mão, pedindo silêncio.
—Logan? Logan Graham? — Pergunto, tentando ocultar meu nervosismo.
—Agora você dá o nome do seu namorado pra qualquer otário, é? — Escuto a voz de Logan vinda de longe, ele estava gritando com alguém, aparentemente, Alice.
Escuto uma voz feminina suplicando, mas não dava pra discernir nada do que dizia. A voz de Logan replica com algo que não dá pra discernir, tamanha a velocidade da conversa. Nervoso, desligo o telefone.
—Já basta... — Minha voz treme. — Alguém tem o endereço desse tal Logan?
—O que? — Janini pergunta.
—Aparentemente o Logan vem agredindo a Alice há algum tempo. — Respondo, organizando em minha mente os fatos. — Já tem um tempo que o tom das mensagens da Alice mudou. Sem contar que o intervalo que ela me responde é muito maior.
—Eu vou mandar uma mensagem pra Lucy, talvez ela saiba onde ele mora. — Karen responde, pegando o próprio Smartphone.
—E como ela não contou isso pra gente? — Roberto pergunta, o rosto exibindo a fúria que eu sentia.
—Ela gosta bastante dele. — Respondo, olhando pra Nicole, que entendia melhor do assunto, fora ela quem redigira nosso trabalho sobre violência doméstica no ano passado, então foi ela quem pesquisou mais.
—Geralmente as vítimas de abuso doméstico evitam denunciar o parceiro por conta de afeto, promessas de mudança e entre outros fatores, elas acham que a culpa das agressões é dela. — Nicole resume, sem entrar em tantos detalhes.
—Consegui o endereço! — Karen exclama.
—Muito bem, Karen, vem comigo! — Digo, assentindo pra ela. — Roberto, ligue pra polícia, porque a encrenca vai ser grande...
—Tudo bem! — Ele acena.
—E nós? — Lara pergunta, se referindo a ela e Nicole.
—Acompanhem ele, não sei... — Minha cabeça tá a mil, enquanto puxo a Karen pra fora do aeroporto.
Lá fora, chamamos um táxi, que logo para. Karen dá o endereço ao motorista.
—Caramba, o Logan... — A voz dela é espantada. — Ele parecia tão bonzinho, nem se assemelhava ao cara que gritava no telefone.
—De certo ele pode ter feito isso com alguma outra garota, não se sabe... — Comento, pensativo, enquanto o motorista percorre as ruas de Orlando.
—Eu devia ter desconfiado mais da maquiagem excessiva dela ou das olheiras... — Karen parece mais do que chateada.
—Calma, vai ficar tudo bem... — Eu a abraço, como se quisesse protegê-la do perigo.
—Espero que sim...
O táxi para em uma rua de um bairro chique de Orlando, ou ao menos me parece chique. Karen paga ao motorista pela corrida, enquanto caminhamos até o número que a amiga de Karen, Lucy havia indicado.
—Os pais desse imbecil sabem que o filho é um canalha? — Pergunto, enquanto paramos.
—Não. Ele faz a linha de filho perfeito. — Karen responde. — Aliás, os pais dele não estão em casa esse fim de semana...
—Melhor ainda... — Finalmente um sorriso passa pelo meu rosto. — Vou poder socar a cara dele sem culpa.
Toco a campainha do interfone. Após alguns segundos, a voz que era de Logan atende.
—Quem é? — Ele parece um pouco mais tranquilo que ao telefone.
—Pizzaria, tem um pedido pro senhor aqui. — Invento uma mentira, esperando que não tenha câmera no portão da casa dele.
—Mas eu não pedi nada. — Logan retruca.
—Desculpe senhor, mas eu só faço o que me foi ordenado. E me pediram pra entregar uma pizza nesse endereço, pro senhor Logan Graham.
—Tudo bem... — Ele suspira. — Estou indo aí. — Um clique, ele desligou.
—Karen, assim que eu o imobilizar, você vai atrás da Alice. — Falo com Karen.
—Entendi. — Ela assente.
Dois minutos depois, o portão da casa se abre e um jovem moreno, com cabelos escuros e bagunçados sai, e ele me olha intrigado.
—Quem é você? E cadê minha pizza? — O tom dele é surpreso.
—Não creio que na cadeia sirvam pizza... — Puxo ele pra fora da casa e dou um soco nele, de baixo pra cima, acertando o queixo. E depois que ele cai no chão, o imobilizo com uma chave de braço. Pois é, Arm Bars everywhere! — Karen! Agora!
Karen sai de trás de um poste e entra na casa, enquanto Logan tenta se soltar, mas a diferença entre físicos e o fato de que com um movimento eu posso quebrar o braço dele impede que isso aconteça.
—Me solta, seu filho da puta! — Ele grita, porque é tudo o que pode fazer.
—Pelo que você fez com a Alice, eu devia quebrar seus braços! — Minha voz é perigosamente calma. — E se você se mexer muito, é o que pode acontecer!
Como um cachorrinho acuado e derrotado, ele para de tentar se soltar, enquanto Karen sai da casa com uma Alice extremamente abalada, com os lábios sangrando e um olho roxo. Também é possível perceber algumas escoriações.
—Karen... Já passou o endereço daqui pro seu pai? — Pergunto, casualmente. — E desculpa aí por você ter que me ver em cima de outro cara quando namoro sua irmã, Alice.
—Já passei sim, Diego... — Karen confirma. Alice parece abalada e não me responde. — E devo admitir que suas transições estão melhores.
—A gente aprende uma coisa ou duas na academia... — Brinco, apesar de tudo. — Agora é só esperar a cavalaria.
E quinze minutos depois, a cavalaria chega. Nisso, Logan é levado a delegacia, assim como Alice é levada pra prestar depoimento e fazer o exame de corpo de delito.
O resto de nossas férias em Orlando foi mais tranquila do que nossa chegada, de fato, pouco a pouco Alice começa a se recuperar do relacionamento abusivo em que estava. Claro, iria demorar MUITO TEMPO até ela ficar realmente bem, seriam necessárias muitas sessões com o psicólogo. E eu sei bem como isso é, pois apesar de parecer ter se recuperado, Nicole ainda fazia sessões por causa daquele sequestro. E ficou com certo medo de multidões também.
Calgary, Alberta, Setembro de 2017
A vida como Wrestler iniciante era difícil, conseguir bookings (ou seja, lutas) era uma tarefa árdua, você tinha que fazer um compilado de seus melhores movimentos e mandar pra diversas promoções (outro termo para federações) e QUEM SABE ser contatado para uma luta. Por sorte eu lutava com semi regularidade na Praire Wrestling Alliance, que ficava nas proximidades, então trabalho não faltava, isso graças ao namorado de Lara, o canadense Steve Markson, que era formando da SWA numa classe anterior a nossa e dava aulas lá.
Fora a PWA, eu consegui bookings em uma ou outra empresa pequena no norte dos EUA, mas era difícil conciliar com meu emprego diurno, mas a vida era tranquila, apesar de dura. Contraditório, eu sei, mas considerando que eu estava preparado pra dureza da rotina de um lutador, tudo seguia conforme o esperado.
A primeira oportunidade de crescer na Prairie Wrestling Alliance, ocorreu no fim de agosto, quando numa luta aleatória, acabei fazendo dupla com o Steve. Perdemos a luta, mas sentimos (e certamente os bookers também) que havia uma centelha de algo ali, e foi decidido que nos tornaríamos uma dupla em definitivo. Só faltou decidir que tipo de gimmick usaríamos, mas isso é história para depois.
O que acabou me deixando na mira dos bookers, foi algo que aconteceu de maneira aleatória, quando numa fria tarde de quarta-feira, enquanto eu estava a toa na SWA (de acordo com o Lance Storm, eu estava lá por causa da Nicole, que treinava. Não confirmo nem nego.), quando entra de maneira casual no ginásio, ninguém menos que Chris Jericho. Sim, meu maior ídolo no esporte entrava casualmente no local onde eu matava um tempo.
Controle-se, Diego! Controle-se! É só o Y2J, o Melhor no mundo no que ele faz, o cara que te inspirou a seguir essa carreira, cantor, podcaster e...
E quando eu vejo, boa parte dos estudantes está ao redor do Chris, pedindo fotos e autógrafos, aos quais ele atende com simpatia. Nisso, ele vai até o Lance e pede pra conversar algo em particular com ele, o que claro, acontece.
Nisso, alguns minutos depois, Lance vem até a mim e sua expressão é indecifrável... Como em boa parte do tempo. Sério, se tem um cara que é sério o tempo todo, esse alguém é Lance T. Storm.
—Então, Diego... — Ele começa, de maneira séria. — Em breve o Chris vai fazer um retorno de algumas semanas ao Smackdown Live, e para um segmento de seu retorno, ele vai precisar de um wrestler que tenha o porte físico dele. E a única pessoa aqui na academia que consigo pensar que tem o porte físico e sei que consegue executar boa parte dos movimentos do Chris, é você.
—Mas eu não sou parecido com ele. — Aponto o problema óbvio do que parece ser o planejamento.
—Sim... Pra ser sincero, eu não faria isso se não fosse pelo Chris. Mas pra esse segmento, você precisaria usar uma máscara e usar o penteado do Chris, além de pintar o cabelo da coloração dele. — Lance rebate. — Em contrapartida, isso pode te dar uma boa exposição e a compensação financeira ajuda o fato de você ser um pouco menos você.
—Eu topo. — Digo, sem pensar duas vezes. — Vai ser difícil me adaptar a máscara, mas pode dar certo.
—Obrigado... — Lance me agradece, por fazer um favor ao camarada dele.
Nisso, na sala de Lance, Chris me explica como será o segmento que ocorrerá no próximo Smackdown Live que ocorrerá na terça-feira que vem.
—Então, Diego. — Jericho começa, caminhando. — Inicialmente eu vou dar uma entrevista, ainda mascarado, falando sobre o meu retorno e uma nova fase e etc, etc, etc. E desafiarei o WWE Champion pra uma luta que não será pelo título, mas se eu vencer, irei lutar contra ele no próximo pay-per-view.
"A questão, é que não serei eu quem lutará com ele, e sim você. É, você lutará com o Jinder Mahal, interpretando e agindo como se fosse eu. Em determinado momento da luta, onde ele estará te encurralando, tocará novamente o meu tema e eu surgirei vindo da rampa, causando uma distração. Nisso, você vencerá a luta com um roll-up pin. Após a luta, e eu vou embora, os Singh Brothers irão lhe atacar e o segmento terá o fim com você sendo desmascarado. Acha difícil fazer isso?"
—Não. — Respondo, sincero. — Só preciso que me ensine os seus maneirismos de andar e se movimentar no ringue, pra poder personificar melhor.
—Isso vai ser moleza. — Chris sorri, confiante.
Naquela tarde, tive a honra de treinar com Chris Jericho, que explicou como ele usualmente se comporta no ringue, como ele caminha e os trejeitos que usa. Após isso, tive que cortar meu cabelo (que já estava enorme, parecendo o Jericho de 1999) e primeiro fazê-lo retornar ao tom castanho original para depois descolorir de modo que fique o mais parecido possível com o do Chris. Nicole foi parte imprescindível disso, já que eu não entendo muita coisa de coloração capilar.
Nos dias que se seguem, continuo treinando com Chris (inclusive ele me contara que os planos de desmascarar foram alterados pela equipe criativa), dessa vez me adaptando ao uso da máscara. Felizmente era uma máscara que cobria meu rosto, mas deixava a visibilidade boa e aplicar golpes não era tão difícil. O design da máscara foi pensado por causa do trauma de Jericho da época em que lutou (uma única vez) como Super Liger, na New Japan Pro Wrestling, muitos anos atrás.
E finalmente chega o dia, na terça-feira, chego na arena onde se realizará o show com antecedência, pois preciso aplicar a maquiagem que simulará as tatuagens que Chris possui e esse é um trabalho árduo. Cerca de três horas antes do show, fui até o ringue pra repassar com o Jinder Mahal os detalhes de nossa luta, os spots, onde faríamos. Como bons profissionais, não foi difícil ensaiar os pontos da luta.
Algumas horas depois, o momento chegara. Após diversos segmentos, era a minha vez de pisar em um ringue da WWE. A contagem no telão se inicia, com as luzes da arena apagadas. Me posiciono de costas pra arena, na entrada da rampa. E finalmente começam a tocar "Break the Walls Down", o tema de Chris Jericho e naquela noite, o meu tema também.
Permaneço alguns momentos de costas, com os braços estendidos, como Chris faz em sua entrada. Após esperar o momento certo, me viro e me dirijo ao ringue, o público está excitado, afinal, o herói que treinara em Calgary estava de volta ao lar (ainda que Chris seja de Winnipeg) e lutaria por uma oportunidade pelo título.
Após eu me posicionar no ringue, começa a tocar "Sher", o tema de Jinder Mahal, e um cara bem mal encarado, acompanhado por dois indianos desce aos ringues. Cara, eu já tinha ensaiado a luta com ele, mas ver de perto o Jinder lutador era uma experiência mais impressionante do que o Jinder pessoa, nos bastidores.
Após a subida de Jinder no ringue, o juiz ordena que se inicie a luta. Começo em alta velocidade, correndo até as cordas e retornando, pra aplicar um dropkick, mas Jinder simplesmente desvia e caio na lona. Aproveitando, ele começa a me pisotear, mas rolo para fora do ringue, correndo até a escada que fica em um dos cantos do ringue e subo nela, pra em seguida subir no poste.
Jinder vem me atacar, mas salto por cima dele, caindo de pé no ringue. Quando ele se vira, acerto um Super Kick nele e já caio pra fazer o pin logo em seguida, com o juiz caindo pra contagem e Jinder se levanta no um.
A luta continua, com trocas de golpes lá e cá, e após uma distração dos Singh Brothers, que ameaçaram me atacar, Jinder me pega pelo pescoço, me ergue, jogando-me no chão logo em seguida, tendo aplicado seu característico finalizador, Khallas.
No que ele cai pra fazer o pin no dois, começa a tocar "Break the Walls Down" novamente e Chris Jericho vai até a rampa, mascarado, fazendo com que o próprio Jinder pare o pin e vá até a ponta do ringue.
Seguidamente, me levanto e pego Jinder por trás na cintura, rolando pra trás fazendo com que os ombros dele colem no ringue e o juiz cai pra contagem. A surpresa fora tamanha que a contagem chega a três, culminando com a vitória.
—Eis o vencedor, e NOVO desafiante pelo WWE Championship... — O anunciante narra, enquanto o público vai ao delírio. — CHRIS... JERICHO!
Sorrindo cinicamente, o verdadeiro Chris Jericho volta pra trás das cortinas, enquanto Jinder e os Singh Brothers olham pra mim, com verdadeira confusão no olhar, até que os três começam a me atacar simultaneamente.
Nisso, enquanto eles tentam tirar a minha máscara, rolo pra fora do ringue e fujo correndo pras cortinas, perseguido por eles, o segmento havia terminado.
No outro lado da cortina, nos aguardando, havia o próprio Chris, o agente responsável pela luta e uma pessoa inesperada, Triple H. Por conta de nossa performance, recebemos uma salva de palmas, e assim que os três que me perseguiam, entram, nos cumprimentamos pela luta realizada.
—Você foi bem lá no ringue, garoto. — Chris elogia, após dar tapinhas no meu ombro.
—Obrigado... — Respondo, meio encabulado e ainda estranhando o fato do Triple H estar aqui.
—Parabéns, garoto. — Triple H me cumprimenta. — Olha, é raro isso acontecer pra um garoto com pouca experiência no ringue, mas o chefão gostou da sua performance.
Aí eu havia ficado surpreso, o próprio Vince McMahon gostou da minha performance de imitação do Chris Jericho?
—Por conta disso, ele me pediu para lhe oferecer um contrato como lutador da WWE, eu ponderei com ele sobre os riscos. — Triple H continua, alheio a minha surpresa. — E sugeri que mandássemos você, caso aceite, ao Performance Center, para que suas habilidades sejam refinadas no NXT. E então?
Aquilo era praticamente improvável, e impossível. O meu sonho, prestes a se realizar com tão pouco tempo de jornada? Mas algo pra mim não parecia certo. Não na proposta da WWE em si, novos talentos eram refinados no NXT e ele era um local desejado por lutadores independentes de várias partes do mundo, diabos, o 3 vezes campeão da Ring of Honor, Adam Cole havia estreado no NXT há pouco tempo atrás. Mas, basicamente eu não me sentia pronto pra WWE ainda, eu precisava melhorar muito como lutador.
—Lamento desapontá-lo, Triple H, mas terei que recusar a proposta. — Respondo, de maneira firme. — Eu amei o fato de vocês terem me proposto um contrato de desenvolvimento, mas eu ainda não estou pronto pra WWE, eu ainda quero aprender mais sobre essa arte, melhorar muito, até eu estar devidamente pronto para competir com os melhores daqui.
—Entendo... — Ele aperta a minha mão. — Então, desejo sorte e espero que nossos caminhos se cruzem um dia aqui. Boa noite, Chris. — Ele se despede de Jericho e vai embora.
—Você teve coragem pra recusar um contrato. — Jericho diz, surpreso. — Muitos sonham com algo assim.
—Meu lado fã dizia para aceitar, mas meu lado wrestler me dizia que ainda não estou pronto. — Respondo, dando de ombros.
—Me lembra um certo alguém quando jovem... — Chris comenta, pensativo. — Bem, a gente se vê por aí, quem sabe... Boa sorte.
—Obrigado. — Aperto a mão de Chris Jericho uma última vez e me dirijo pra fora da arena.
Rio de Janeiro, Janeiro de 2018
Posso dizer que depois da minha aparição na WWE, disfarçado de Chris Jericho, as oportunidades de booking aumentaram exponencialmente. Tanto é que passei os meses seguintes alternando entre lutar como parceiro de tag do Steve Markson na Praire Wrestling Alliance e lutar como lutador solo em outras empresas independentes do norte dos Estados Unidos.
O nosso ponto alto ocorrera no fim de novembro, quando eu e Steve, como a dupla "Two Saiyans", vencemos o título de duplas da empresa. Explico o porquê do nome "Two Saiyans", basicamente a nossa gimmick de dupla era baseada em Goku e Vegeta, de Dragon Ball Z, com minha roupa sendo baseada na de Goku e a roupa de Steve baseada na de Vegeta, e entrávamos no ringue ao som do remix do Steve Aoki de "Cha-la Head Cha-la", com direito a fusão dentro do ringue e tudo.
Fazer dupla com o Steve era bem legal, porque podíamos entrar no modo idiota sem problemas, por causa dos personagens. Mas, infelizmente os nossos dias de parceria estavam perto do fim, pois ele e a Lara iriam participar de um tryout para o NXT em breve e se mudariam pros EUA, mesmo que não assinassem com a empresa, por conta das melhores oportunidades de booking.
Então, em Janeiro de 2018, quase um ano depois de deixarmos o Brasil, Nicole, eu, Steve e Lara resolvemos visitar o Brasil. Seria a primeira vez que eu veria os meus amigos desde fevereiro passado.
E nosso encontro, curiosamente foi na Rodoviária Novo Rio, ao invés do Galeão, porque passaríamos o fim de semana em Rio Azul, que foi onde a minha história com a Nicole começou.
—Nossa, é meio nostálgico estarmos reunidos aqui novamente. — Erick comenta, e o visual dele mudara bastante nesses últimos 11 meses. Ele largara o cabelo espetado e o ar despojado e praiano, tendo um look mais social, por assim dizer.
—Verdade, só que você usava roupas mais casuais, pelo que me lembro. — Brinco, após dar um abraço no meu amigo.
—E você tinha uma cabeleira, hahahaha. — Ele comenta, pegando no meu cabelo, agora curto.
—E vocês até que formam um bonito casal. — Nicole comenta, vendo que Erick e Brenda estão de braços dados. Brenda ganhara algum corpo e os cabelos estão mais compridos do que antes.
—Uma hora alguém tinha que laçar ele, não? — Brenda ri.
—Mas não foi só a Brenda que saiu do zero, né? — Beatriz indica Lara e Steve. — Pelo visto você agarrou um belo gringo, hein, Lara...
—E você? — Lara pergunta, com o tom de sempre, provocativo. — Todos aqui juntamos as escovas de dente, menos você.
—Sabe como é, né... — Beatriz coça a cabeça, meio encabulada.
—Liga não Steve, elas são malucas assim mesmo. — Dou uma cotovelada de leve no meu parceiro de duplas.
Steve era um cara um tanto mais alto que eu e forte, com cabelos curtos e escuros, e olhos castanhos. A dinâmica da dupla, era que enquanto Steve era o tanque, com movimentos explosivos e fortes, eu usava minha agilidade e saltos pra movimentos rápidos.
—Diego, eu vivo com você e a Lara já tem alguns meses. — Steve fala num português com sotaque. — Já estou... Como vocês dizem? Vacinado, contra esse tipo de coisa.
Dou uma risada, enquanto conversamos amenidades e entramos no ônibus rumo aquela cidadezinha bucólica. Uma coisa que eu ainda não havia contado a Lara e a Steve, era que o tempo meu e da Nicole no Canadá também estava chegando ao fim, já que eu havia recebido contatos para booking em outro continente e estava seriamente cogitando passar algum tempo na Inglaterra.
Nicole já estava lutando, e apesar de não ter conseguido nada expressivo (até aí, a Lara também não, mas ela vez ou outra lutava por títulos em algumas índies do Norte dos Estados Unidos), Lance comentou certa vez que ela tinha mais potencial que eu ou Lara, então acho que pra refinarmos nossa técnica no wrestling, uma temporada no Reino Unido faria bem, afinal, lá haviam empresas fortes, como a Revolution Pro Wrestling, a Insane Championship Wrestling e a Progress, além da escola de Wrestling do Finn Bálor, na Irlanda, de onde Becky Lynch saíra.
Quanto a nossos empregos? Bem, eles já eram, estávamos conseguindo nos virar, eu fazia as vezes de professor na SWA enquanto arrumava lutas aqui e ali, e com quatro pessoas, dava pra ficar mais ou menos confortável.
A viagem a Rio Azul foi bastante tranquila, e pessoalmente não teve nada demais, exceto o fato de termos encontrado o pessoal da Magic Fires, tirando umas merecidas férias. Posso dizer que eles ficaram bastante famosos depois daquele concurso em 2016, e assinaram com uma gravadora. A popularidade da banda chegava a alguns países latino americanos. O que tinha de interessante nisso? A reação de Lara e Nicholas ao se reencontrarem. Foi hilário.
Mas, após o nosso fim de semana em Rio Azul, era hora de voltar pro Canadá e começar já a preparar as coisas pra próxima viagem, o próximo destino da minha jornada ao estrelato. Eu e Nicole seguiríamos pra Inglaterra, enquanto Steve e Lara iriam pros Estados Unidos.
O que me aguardaria lá? Só o tempo diria.
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