Capítulo 6

Olhava pela janela da cozinha enquanto tirava o sabão dos pratos. A mente entrava em contato com as lembranças recentes, com o corte de Merle em si. Sorriu disso; Beth não enganava-se, ela sabia que aquele era o modo de Merle lhe dizer que a amava. E ela sentia isso, sabia bem que ele a amava, e sabia bem que ele nunca diria aquilo. E não importava-se, não poderia importar-se na atual situação em que estava. Mesmo quando o mundo havia acabado, ela conseguira encontrar o amor, ela conseguira encontrar quem cuidasse dela e quem a deixasse cuidar.

Não poderia reclamar, não poderia pedir mais, apenas que sua família voltasse e que ela pudesse envelhecer e morrer feliz ao lado dos homens que ela escolhera. Fechou a torneira e colocou o restante da louça para secar. Tinha plena certeza de que de algum modo o mundo nunca aceitaria o que ela tinha com Daryl e Merle, mas de algum modo ali não lhe importava. Ali, naquela fazenda, naquela casa, naquele lugar, com Merle e Daryl, nada importava. Nada importava como importava antes, nada era como era antes, e Beth sabia que após isso, nunca mais seria.

Ouviu barulho atrás de si e virou-se encontrando Daryl a observá-la, os olhos dele estava semi-cerrados. Olhos sérios. Secou as mãos em um pano velho e cruzou os braços, esperando pacientemente que ele lhe dissesse o que estava acontecendo. Conhecia Daryl bem demais para saber que se o pressionasse, nada conseguiria. Viu-o descruzar os braços e cruzá-los novamente, aquilo queria dizer muito. Daryl era o mais arredio dos dois irmãos, mas Beth não se enganava, Daryl era o mais violento, o que mais via sangue em todos os cantos, mortes corria em suas veias, e a vida era apenas um simples borrão de violência e depravação. E o amava por isso. Daryl era um homem perdido, mas que encontrava-se nela, que encontrava-se no irmão.

“Não acha que deveria me dizer o que está acontecendo?”

Daryl descruzou os braços e observou atentamente Beth, sua mente rodava na imagem de Merle a cortando, e do corte que ela havia feito nele. Questionava-se quem era aquela Beth. Deu um passo para dentro da cozinha, o dia terminando devagar, a luz morrendo do lado de fora, deixando o mundo escuro novamente.

“Que merda foi aquela dos cortes?”

Beth assustou-se um pouco com seu tom de voz. Não fora alto, pelo contrário, fora baixo, com raiva. Ele odiara o modo como a vira sentir dor, como a vira deixar Merle marcá-la, e não entendia.

“Aquele é o modo dele me dizer.”

“Dizer o que?”

Entrou na cozinha de vez, aproximando-se dela, vendo-a lhe olhar com os olhos surpresos; não com medo, mas surpresa. Fechou os punhos, queria se acalmar, não querendo deixá-la com medo.

“Que me ama. É o único modo como sei que Merle algum dia falará isso.”

Para Daryl, Bath assumir aquilo com tanta calma o enervava. Ela tinha que ser amada, ela tinha que ser querida, e ela tinha que escutar isso todos os dias. Dele e de Merle. Aproximou-se mais dela, vendo-a abrir os braços para recebê-lo. Ela tinha muito carinho, muito amor para dar. Porém, eles tinham? Eles sabiam o que era isso? Para ela, Merle cortá-la, marcá-la, fazê-la sofrer, era mostrar exatamente como ele a amava. Mas como ele demonstraria? Como Daryl demonstraria?

Respirou fundo e segurou-a pelo punho, arrastando-a pela cozinha, subindo a escada sem resistência alguma dela. Empurrou-a para dentro do seu quarto, jogando-a em sua cama. Beth confiava demais nele, Beth não tinha medo dele. Observou-a deitada no colchão, os cabelos claros espalhados no lençol velho, a pele clara escurecendo com a noite que começava. Os olhos claros dela lhe fitavam esperando o que viria a seguir.

Puxou a camiseta pela cabeça, jogando-a em algum lugar. Olhou-a novamente com os olhos semi-cerrados quando a viu descer os olhos por seu peito. Beth não conseguia refrear os desejos, os sentimentos, nada.

“Vai me deixar marcá-la?”

Os olhos dela voltaram aos seus e Daryl viu tudo que precisava ali. Adoração, carinho, medo, violência, sexo, desejo, paixão, ódio, raiva e aquilo que mais o assustava: amor. Ela o amava e pronto. Viu Beth levantar-se nos cotovelos enquanto chutava as botas desgastadas para longe com os pés.

“Você me ama, Daryl?”

“Sim.” A palavra saiu distorcida de sua garganta.

“Acaba de me marcar com isso.” Desceu as mãos pelo corpo, tirando o shorts que usava, vendo-o olhar suas pernas nuas. “Mas se precisar me marcar… quero.” Beth viu como Daryl respirou fundo, e como parecia que cada fibra dentro do corpo dele já não obedecia. Como cada pequeno pedaço de pele arrepiava-se com as palavras dela. Mas não de medo, não. A pele de Daryl arrepiou-se com a possibilidade de marcá-la ainda mais, com a possibilidade de deixá-la com algo somente dele.

Homens como Daryl eram territorialistas, se pudessem, colocariam um sinal e arame farpado ao redor dela, apenas para não dar a oportunidade de que alguém não visse que ela era dele. Sorriu disso. Para ela não era necessário, para eles, era. Era muito necessário. Viu-o aproximar-se devagar, mas a postura tensa. Daryl era o predador no momento, e ela a caça. Sorriu quando ele apoiou o joelho na cama entre suas pernas, os braços indo para o lado de seus ombros. Beth não sentia medo, sorria o tempo todo, e então ele a beijou, e toda a tensão transformou-se em desejo, todo o medo que ele sentia sobre algo transformou-se em carinho.

Daryl observou como ela sorria enquanto a beijava, e como o corpo dela aceitava o seu, enquanto procurava sem delicadeza alguma seus seios, apertando-os com força. Viu o corpo dela armar um arco perfeito, como toda vez ela fazia. Os cabelos caindo na cama de lençol antigo, o cheiro da excitação chegando a seu nariz, os olhos fechados com força enquanto a boca abria-se deixando sons perfeitos escaparem.

E foi então que sabia. Sabia exatamente o que dar para ela. Sabia exatamente o que precisava dar para marcar e ser marcado. Sua camisa estava fora de seu corpo em um segundo, e no segundo seguinte ele estava empurrando-se contra ela novamente. Ouviu-a gemer quando empurrou sua ereção contra ela, cavando seu jeans com força em sua perna já nua. Segurou-a pelo rosto, os olhos olhando dentro dos olhos dela, a verdade de tudo e qualquer sentimento. Beth era sincera ao que sentia, e não queria que ela escondesse isso de ninguém.

Ofereceu seu ombro para ela. O primeiro olhar que ela lhe deu foi um questionamento, mas para o Inferno, Daryl não ficaria falando sobre isso. Merda, ele não tinha a mínima ideia do que falar sobre isso. Com alguns movimentos, estava dentro dela, empurrando com força, mas parando no segundo seguinte, dando novamente seu ombro, e não foi necessário que dissesse nada.

Beth respirou fundo, olhando para o ombro que Daryl oferecia. Era aquilo. Aquele era o modo de marcá-lo, de deixá-lo sempre ciente de que o amava. Por mais que em seu cabeça não fosse necessário, para Daryl aquela violência era o que ele sabia e conhecia. Beth apenas beijou seus ombros enquanto o sentia mover dentro de si, indo devagar para provocá-la, deixá-la fervendo, e com força para deixá-la sem ar, para deixá-la estremecendo por mais.

E Beth sentia. O corpo forte, com músculos firmes, de pele quente e queimada do sol. Ela sentia o corpo, sentia o homem, e a cada vez que Daryl empurrava para frente, ela gemia e pedia por mais. Cada vez que ele se retirava, Beth queria chorar. E foi então que entendeu que o ombro era mais do que apenas a marca. O ombro que ele oferecia era um pedido para mais, fosse o que fosse. Beijou novamente seus ombros enquanto enlaçava sua cintura com as pernas, puxando-o mais para dentro.

A dor atravessou seu ombro, subiu por seu pescoço e chegou até seu couro cabeludo. Ela havia mordido seu ombro direito com certa força, mas isso fora apenas a primeira mordida. Conforme ele se movia, Beth apertava mais os dentes, e Daryl sentiu quando a pele partiu-se e carne reclamou, liberando sangue. Por um segundo aquilo o assustou, mas então o deixou totalmente excitado.

Pressão, força, suor, gemidos e sussurros, sangue. Beth nunca estiver tão desconectada com seu corpo como estava agora. Parecia que tudo movia-se de forma diferente, e apenas ela e Daryl estavam movendo-se certos. Os beijos, as carícias, esquecidas. Tudo parecia simplesmente incrível, tudo parecia simplesmente… doloroso. Seu corpo pulsava, a cada movimento forte, violento do quadril dele, Beth gemia, sangue atacando sua língua e lábios enquanto o mordia. Sangue vermelho e com gosto metálico.

Os braços dele lhe seguraram com força, pressando-a contra a ele, o suor transferindo-se de um corpo ao outro. E conforme Beth o mordia, cada hora em um novo lugar, mais sangue transferia-se para sua boca, mais forte o quadril dele batia contra o seu, mais ele rosnava em seu ouvido, e mais fundo ele ia em seu corpo. Tudo parecia rodar, tudo parecia deixar de existir e seu corpo descolou totalmente do colchão, um grito ecoou pelo quarto.

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Merle terminou seu cigarro e apagou-o na lata que usavam para cinzeiro na sala. Seus olhos dirigiram-se para o teto da casa, a sala totalmente escura, a luz da lua fraca nessa noite. Ele ouvira os primeiros gemidos e resolvera ficar na parte de baixo da casa, sabia que Daryl queria ter seu tempo com Beth, ele precisava expressar o que Merle havia visto faiscar em seus olhos quando lhe mostrara a marca dela em si. Sabia bem que Daryl estava a sentir o mesmo, mas ele não conseguia, ele simplesmente não iria deixar aquilo sem ser dito ou demonstrado, mas sempre de modo que doesse.

Esse era Daryl, o violento, o que fazia doer. Fosse qual fosse o sentimento. As batidas da cama ficaram mais fortes, os gemidos mais altos, doloridos. Merle respirou fundo, seus dedos cavando a almofada do sofá com força. Ele a estava machucando, os gemidos eram de dor, mas eram de prazer também. E Bethanie aguentaria o que Daryl lhe desse, Beth aguentaria tudo. Ela o amava. Assim como aguentara seus cortes, assim como aguentava suas mudanças de humor, seu gênio, suas merdas.

Bethanie era mais do que eles mereciam. Ela era muito mais do que eles mereciam ter em qualquer fase de suas vidas. Ela era muito mais do que eles conseguiram cuidar em um mundo normal. Um grito ecoou pelo quarto, reverberando pela casa. Merle levantou-se e saiu, não queria ouvir a dor dela, ou entraria naquele quarto e mataria Daryl. Seu irmão não poderia estar fazendo isso com ela, não poderia apenas estar marcando-a, algo mais estava acontecendo. Parou próximo a grade, seus olhos focando-se em tudo, menos na casa. Não conseguia entender o que acontecia dentro de si, talvez… talvez a merda toda fosse porque sentia-se dono dela. A merda toda era porque mesmo que amasse seu irmão, marcá-la daquele modo não fosse certo, mas era preciso. E entendia a revolta de Daryl agora. Entendia o ódio e o entendimento que ele sentira quando vira a marca dela em suas costas e quando assistira marcar Beth.

Olhou para a casa quando viu movimento. Daryl estava na janela aberta do quarto no andar de cima, os olhos colados em si. Fechou o punho, a respiração rápida, ódio borbulhando dentro de suas veias. Porra, não tinha mais idade para aquilo, não era mais um adolescente para ficar com raiva de algo tão ridículo como uma mulher. Observou seu irmão acender um cigarro e então viu. A luz fraca da lua, com a luz feita pela chama do isqueiro de Daryl permitiu que Merle visse; o ombro de Daryl tinha sangue, parecia que Beth havia feito um estrago ali. Beth o tinha marcado também.

E entendimento o acertou. Aquilo, como seus cortes, eram o ‘eu te amo’ de Beth para o mundo, e o ‘eu te amo’ deles para ela. Ela sabia bem que as palavras nunca sairiam de sua boca, mas o sangue dado para ela era mais do que apenas palavras. E Merle sentia-se livre como nunca antes sentira-se, mesmo preso entre cercas e arame farpado. Mesmo com mortos a voltarem a vida e atacarem os vivos, mesmo que o mundo havia resumido-se em Daryl, Beth e ele. Merle Dixon era um homem livre finalmente após mais de 40 anos vivo. E isso ele nunca mais esqueceria. Junto com os olhos libertos de seu irmão no andar de cima de sua casa.

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Sempre era mais fácil caçar quando não precisava preocupar-se com distância. E era o que estava acontecendo agora. Havia saído da casa há dois dias, andando sempre para o Norte. Precisava seguir para onde a trilha de fuga dos animais seguia. E Daryl sabia bem que eles estavam indo para o norte. Remexeu o ombro ferido e sorriu com a dor. Bethanie havia feito um belo estrago. 4 mordidas profundas mostravam-se por debaixo do curativo que ela fizera na manhã seguinte aquela noite de confissões.

O rosto dela empalidecera quando vira o que havia feito, mas Daryl apenas sorrira, beijando-a. Merle havia levantado uma sobrancelha e sorrido, aceitando aquilo como algo deles. Ele nada tinha a ver. Mas merda, aquilo doera no primeiro dia. Ela havia cortado a pele quatro vezes, marcas próximas e que Daryl apenas examinou por alguns minutos no espelho sujo e quebrado da casa. Beth não tivera noção enquanto as fazia, ela desligava-se como ele enquanto estava juntos na violência. E isso Daryl agradecia, ou ela não teria marcado seu corpo como dela. Não teria exposto ao mundo o quanto o amava e o quanto ela era como eles.

O sol fazia o suor escorrer por seu pescoço, indo para debaixo do curativo e ardendo contra a ferida que começava a querer formar casca. Sentou por um momento na raiz alta de uma enorma árvores e então algo pareceu chamar a atenção de seus olhos. Levantou-se rápido, correu para a pequena estrada de terra que margeava seu caminho desde quilômetros atrás. Marcas de pneu, recentes. Levantou os olhos do chão de terra e então notou algumas árvores marcadas mais para frente. Seu coração bateu forte e doeu em suas costelas. Um pequeno sinal de xerife via-se em duas árvores, seiva ainda escorrendo devagar da marca, quase seca.

Correu para as árvores mais a frente, seu coração martelando no peito. Eram eles. Era sua família. Correu mais e mais. A cada pouco achava a mesma marca estrelada de um emblema de xerife. Rick estava deixando mensagem, mostrando um caminho a seguir. Parou. Respirou fundo. Queria gritar, continuar correndo e encontrá-los. Mas poderia ser perigoso. Precisava voltar, precisava de Merle e de apoio se fosse atrás de sua família. E caso não fossem eles, fosse uma armadilha, ele teria reforços, teria um meio de escapar. Sua mente trabalhava rápido e quando notou, já estava correndo de volta para a casa, sem comida alguma, mas com as melhores notícias que poderia ter em algum tempo.