Capítulo 7

Chegou olhando ao redor para ter certeza de que nada o havia seguido, que ninguém poderia estar ali esperando para pegá-lo de surpresa, entrar na propriedade deles e pegar tudo que era dele; e isso incluía Beth. Respirou fundo, sabendo exatamente que ela estava vigiando, conseguia sentir os olhos dela em si, conseguia sentir o cano da arma apontado para sua cabeça. Mas conseguia sentir também o tremor dela, conseguia sentir o medo dela de atirar, por mais que ela não demonstrasse.

Daryl sabia bem que Beth atiraria, mas ainda via que ela desligava-se antes de fazer isso. Que ela não queria estar presente. E entendia. O mundo tornara-se algo que ele não esperava, e tornara-se violento. Mas Beth… por mais que ele sabia que agora poderiam retornar para o antigo grupo, voltar a viver, Beth ainda não era a guerreira que alguns esperavam. Mas ela era tudo para ele. Exatamente tudo para ele. E para Merle também.

Atravessou a cerca e entrou no terreno, olhando para a janela onde viu a sombra de Beth desaparecer segundos antes. Ouviu em alto e bom som Beth descer as escadas, correndo. Sabia bem que ela estava com saudade, e também estava sentindo saudade. Estava querendo prensá-la na parede, entrar no corpo dela, dizer que ela era sua; como tinha certeza que Merle fizera nesses dias que ficara sozinho com ela.

“Daryl.”

Ela pulou nos braços dele e Daryl só poderia agradecer por tê-la. Ela sabia bem que não conseguiria ser mais feliz que aquilo. Mas talvez, se tivesse todo o grupo reunido ela ficasse mais feliz, e a felicidade dela vinha primeiro.

Beth agarrou Daryl com os braços e as pernas, enrroscando-se no corpo dele. Ficava feliz quando eles voltavam, o medo era muito grande. Ficava pensando que talvez um deles fosse mordido, capturado por outros, se ferisse gravemente. Fechou os olhos e enterrou o rosto no pescoço dele, evitando pensar em perdê-lo. Não, aquilo nunca aconteceria. Ela o defenderia, ela o faria ficar a salvo. Exatamente como ela faria com Merle. Nunca deixaria nada acontecer com eles.

“Entre, tem algo que precisa saber.”

Ela não o soltou e Daryl olhou-a, sorrindo pelo canto da boca, levando-a para dentro da casa em seus braços, as pernas dela fechadas contra sua cintura com força. Entrou na sala e viu Merle descendo as escadas, sono ainda em seu rosto. Sabia que Merle deveria estar cansado, cuidar sozinho das coisas enquanto Beth fazia a segurança, não era fácil. Soltou-a em pé no sofá, sorrindo da facilidade do sorriso dela e abraçou rapidamente Merle, que o olhava como que o lendo.

“Algumas milhas no Norte encontrei marcas.” Ambos o fitaram com interesse. “Eles não estão longe.”

O silêncio reinou na sala. Ao longe, ouviam um pássaro, mas nada além disso. Daryl olhou Beth, querendo saber qual seria a reação dela, afinal a família dela estava ali, a família de sangue, pela qual ela chorara meses. Esperou pacientemente vendo que ela se sentava no sofá agora, colocando as botas no chão, os olhos observando o nada. Olhou para Merle, ele também a analisava, esperando uma reação dela. Mas então o viu voltar os olhos para si, a lâmina brilhando na pouca luz.

“São eles mesmo?” Assentiu e viu Merle passar a mão na cabeça, os olhos indo e voltando dele para Beth. “Como tem certeza?”

“Rick está deixando algumas marcas em árvores. Uma estrela de Xerife.”

Beth olhou-o, os olhos verdes brilhando com lágrimas. Abaixou-se perto dela, olhando-a sério. Não estava entendendo a reação dela, achou que ela ficaria feliz, que ela não iria querer esperar um momento para que fosse atrás deles. Porém, não era isso que via ali. Ali estava alguém receoso, surpreso.

“Porque está chorando?”

“Eles… eles não vão nos aceitar.”

O silêncio caiu novamente na sala, Merle apoiando-se na pilastra da sala. Tudo ali gritava que algo não estava certo. Balançou a cabeça. O conflito dentro de Beth era imenso, ela estava dividida entre a vida que tivera, e a que tinha agora. Entre a família que tivera e a que tinha agora. Tudo ali gritava problemas, tudo ali gritava com Merle que aquele era o início do fim.

Cruzou os braços. Lembrava-se de Beth no começo. Aquela menina assustada, que não conseguia nem ao menos ficar sozinha sem sentir medo e querer fugir, naquela menina que fora obrigada a ver a família partir e deixá-la para trás, sozinha, para morrer. Olhou seu irmão sem saber o que fazer. Era hora de intervir, porque esse era o modo como amava Beth, ela vinha primeiro. E foda-se o que ele e o irmão sentiam.

“Isso agora não interessa, Bethanie. Vamos buscar sua família.”

Daryl e Beth olharam Merle que já estava se virando, seguindo para a cozinha. Ambos ficaram em silêncio e Beth olhou para Daryl. Queria sua família, queria ver todos, a saudade pareceu voltar e agora carregava um peso ainda maior. Doia em seu peito pensar em não ir encontrá-los, mas… e Daryl e Merle? Como viveria se não pudesse mais tê-los? Como seria se não pudesse mais tocá-los? Se não pudesse mais beijá-los? Abraçá-los? Dizendo que os amava? Como sobreviveria a isso?

Balançou a cabeça. Sua família estava próxima, eles os achariam e então lidariam com isso do modo como viria. Respirou fundo. Nada nem ninguém ficaria entre ela e Daryl e Merle, não deixaria nem mesmo sua família fazer isso. Sorriu fracamente para Daryl enquanto limpava os olhos:

“Vamos buscá-los. Eles vão ter que entender.”

Daryl apenas assentiu sabendo que de modo algum a família dela aceitaria o que eles eram. Mas ela não parecia disposta a deixar que isso fosse um problema.

–-*--

Merle já estava dentro do carro, os olhos observavam o sol nascendo e seu nível de raiva extremamente alto. Bethanie exigira ir com eles, e ele a impediria, dizendo que seria mais fácil se eles fossem e ela ficasse para vigiar a casa deles. Beth disse que tinha experiência em rastrear e que poderia ser de grande ajuda, mas Merle apenas pegou suas coisas e saiu, deixando que Daryl resolvesse.

Viu quando o irmão saiu da casa, os olhos pareciam estar pegando fogo de raiva. Quase riu, se não soubesse que os seus deveriam estar iguais. Respirou fundo e olhou quando Daryl entrou no carro batendo a porta com força.

“Ela não está feliz.”

“Foda-se. Ela é a mais emotiva, não ajudaria merda nenhuma.”

A declaração de Merle era verdade, Daryl sabia. Mas entendia Beth. Ela tivera a esperança de ter sua família de volta, e caso não tivesse, seria devastador e ela não estava disposta a deixar isso acontecer. Mas sabia bem que caso ela fosse, nada daria certo, ela se tornaria distraída pelo sentimental e poderia acontecer o pior.

Daryl sabia bem que ele próprio já não estava em seu estado mais certo, a esperança de reaver sua família era… devastadora. E apenas conseguia imaginar o que deveria ser para Beth. Bateu as mãos no voltante, olhando para a janela da sala, onde Beth estava com a arma na mão, os braços cruzados, os olhos sérios e vermelhos. Odiava deixá-la daquele modo, mas… era o melhor. Ele só voltaria com a família deles. Ele havia prometido.

–-*--

Beth sentou-se na cama do quarto que era virado para o portão principal. Seus olhos estavam ajustando-se a escuridão. Não queria acender velas ou lampião, chamando atenção desnecessária. Estava sozinha e era um grande terreno para cuidar sozinha sabia-se lá por quanto tempo.

Merle lhe dissera que no dia seguinte estaria ali, mas ela já duvidava, Daryl correra demais e eles deveriam estar a pelo menos um dia atrás de sua família. Jogou o corpo para trás, os olhos seguindo para a porta barriacada com o guarda-roupa e com a cômoda. Para alguém entrar ali, teria que fazer muito barullho. Sem contar nas latas presas em fios que estavam na escada, e nos pregos no primeiro degrau. Não, ninguém chegaria até ela com facilidade, fosse vivo ou morto.

Respirou fundo, sabia que todos os argumentos de Merle e Daryl eram válidos, que eles estavam certos em deixá-la ali, eles eram melhores caçando, rastreando como ela nunca seria. Mas… lá fora era seu sangue, sua família também, eles deveriam entender o desespero dela em querer ir. Passou a mão pelo rosto e pelos cabelos loiros espalhados no colchão. Beth estava feliz e com medo. Não tinha ideia de como seria sua vida novamente com seus familiares, com seus amigos e companheiros na sobrevivência. Deus, havia passado um ano no mínimo, e ela sabia que seu sobrinho deveria ter quase isso de idade agora.

Como seria entre ela e eles? Como seria entre seu pai e Daryl e Merle quando tudo viesse a tona? Tirou a blusa de frio e a embrulhou, deixando-a a seu lado. Não tirou as botas, não tirou o cinto, nada. Se havia aprendido algo sobre fugir, era que seria melhor estar preparada, sempre.

–-*--

Beth tropeçou ao correr para a sala, os ouvidos mais apurados nesses últimos dias. Eles haviam saído há três dias e ela começava a pensar no pior. Por mais que soubesse bem que Daryl e Merle eram feitos para esse fim do mundo, algo sempre poderia acontecer. Beth pegou a arma que estava próxima a janela e se assegurou que a que estava em sua cintura estava ali mesmo e preparada. Se havia algo que ela havia aprendido com Merle e Daryl, era que meios de se defender nunca eram demais.

Era noite, e não havia muito luz do lado de fora, e três carros estavam parados no portão. Pela falta de luz Beth sentiu todo seu corpo tremer, ninguém havia descido dos carros e poderiam ser muitas pessoas tentando invadir o local. Olhou ao redor, procurando onde deveria esconder-se para poder atirar e não ser atingida. Olhou novamente para fora e viu que alguém descia do primeiro carro; porém, não esperou mais. A silhueta do homem vinha com uma lâmina no lugar da mão direita.

Correu para o lado de fora da casa, correndo a toda velocidade para o portão e ajudando Merle a abri-lo. Primeiro o abraçou e então ouviu a voz de Maggie. Soltou Merle e procurou por Maggie na escuridão, achando-a logo após. Por um segundo apenas a olhou, mas então ela correu da porta do carro em que estava e ambas caíram no chão abraçadas, os olhos fechados de choro.

Todos os outros desceram e foram para perto de Beth, e a loira achou que talvez nunca fosse estar tão feliz como estava agora. Apertou a todos, em abraços fortes, demorando mais em seu pai e em seu sobrinho. James tinha os olhos de Maggie e os traços de Glenn. Por um momento, apenas observou seu sobrinho, mesmo sem luz, mesmo apenas com alguns filetes de luz do luar raca passando pelas nuvens. Olhou para cima, vendo Merle e Daryl. Ambos a olhavam sérios, mas ela os conhecia, ela sabia que eles estavam felizes por ela também, ela conseguia ver nos olhos deles. E isso, para Beth, era o começo de algo bom. Mas que ainda daria muito errado.

–-*--

Estavam todos sentados na sala, apenas um lampião acesso, mas era suficiente. Era suficiente para que todos vissem os sorrisos que estampavam cada rosto. Daryl estava ao canto, conversava com Rick sobre as coisas que aconteceram, conversavam sobre como sobreviveram todo aquele tempo. Sua mente registrava parte do que Rick dizia, mas a outra parte estava em Beth, que estava sentada no sofá ao lado de Maggie, com o sobrinho no colo.

Os olhos dela observavam o pequeno e todos ao redor, e via Judith tentar se equilibrar em um móvel perto dela. Via como ela estava feliz, e como parecia que ela não precisava de mais nada. Algo dentro de si revirou e quase rosnou de raiva. Olhou Merle, ele estava do outro lado da sala, os olhos atentos em todos, mas via que ele olhava muito Beth também. Sabia que seu irmão estava vendo a mesma coisa.

Voltou seus olhos para ela, vendo naquele momento que Beth o olhava. E ali estava. Ali estava a confirmação de que não estava totalmente feliz, ali nos olhos verdes claros estava a confirmação de que os dias de sexo, paixão, carinho, briga, gritos, insultos, desejos, sonhos, tristeza, liberdade chegaram ao fim; mas não dentro dela. Daryl via dentro de Beth que nada daquilo iria acabar, ela era sua, como era de Merle, e eles continuariam a ser dela, mesmo que eles achassem que fosse necessário se afastar.

Ela não permitiria, ela não deixaria que eles não estivessem juntos. Via aquilo dentro dos olhos dela, e isso o deixava feliz. Voltou olhar para Rick, vendo que esse sorria, mas nada disse, apenas continuou lhe falando as coisas. Por um momento Daryl achou que esconder certas coisas não seria bom, mas… porra, esconder o que tinha do mundo com Beth parecia bom, ninguém atrapalharia. Ninguém lhe diria que era errado, ninguém lhe diria de que ela não era mulher para isso, ninguém lhe daria trabalho tentando tirá-la dele. Ela era e seria sua. Ela era e seria de Merle.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.