Wrecking Ball
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Capítulo 5
Parecia algo natural. O mundo havia desabado, mortos andavam e comiam os vivos, homens haviam se tornado monstros, monstros tornavam-se heróis, sobreviventes escapavam das garras da morte todos os dias. Porém, ali, era algo natural. Algo natural acordar, limpar-se, verificar a horta, observar a cerca, fazer o café, esperar pelos rapazes para que pudessem começar o dia. Porque todos os dias eles cuidavam da fazenda, todo dia se tinha serviço. E Beth acreditava que era natural. Era a ordem certa das coisas, o mundo deveria voltar a rodar normalmente, os humanos, os sobreviventes, deveriam retomar o controle do que era deles por direito. Afinal, se estavam vivos, resistindo, aprendendo a sobreviver ao fim do mundo como conheciam e viver a cada dia com um motivo, um propósito; era porque o mundo ainda era deles.
Entrou na cozinha após um banho, as luzes das velas iluminando o local já escuro. Ela e Daryl haviam discutido pelo modo como ela havia colocado algumas armadilhas, e alguns animais que haviam sido capturados, conseguiram escaparam com a isca. A briga em si não havia surtido grande efeito em Daryl, mas o modo como ele a enfrentara quando voltaram para a fazenda havia tido um efeito que ela não esperava em si mesma. E ao levantar a mão e lhe mostrar o dedo fora o ponto final para ele também.
Resultara em marcas no pescoço que agora começavam a aparecer devagar e quase sem cor. Mas lá estavam, ela conseguia ver pelo espelho após o banho e enquanto trocava-se no quarto principal. Olhou pela cozinha achando o que queria, ouvindo passos vindo de fora. Ambos entraram pela porta dos fundos, Merle com um sorriso conhecedor e Daryl sério. Beth sabia que ele estava arrependido de lhe machucar, mas aquilo nada era. O mundo era como era, e Daryl era violento, mesmo com aqueles que amava. Merle era possessivo, mesmo com as coisas que já tinha. E ela… Beth suspirou olhando-os de canto de olho, Beth era a mesma menina da fazenda, mas que agora matava errantes, defendia suas terras e seus homens. Porque era o que eles eram: seus homens.
Merle lavou suas mãos enquanto via Beth sorrindo, movendo-se pela cozinha, pegando o que era necessário para fazerem a comida. Viu Daryl aproximar-se dela, olha-la como se ela fosse de porcelana, e afastar-se, lavando as mãos em silêncio e de cabeça baixa. Por um momento achou uma ótima coisa, Daryl já havia feito estrago suficiente. Conseguia ver as marcas no pescoço dela, algumas eram as formas dos dedos dele, formas que logo ficaram ainda mais visíveis e isso era o suficiente para que quisesse marcar Daryl por inteiro com um bastão de ferro.
Via que ela sorria minimamente enquanto movia-se pela cozinha, como se nada daquilo lhe importasse. Mas para Merle importava, importava e muito que algo daquele gênero acontecera. Beth estava marcada, e não era por uma marca sua. Viu-a vir para perto da pia, deixando algumas coisas próximas da vela que estava perto do fogão e puxou-a, segurando seu braço e trazendo seu corpo para perto do seu, prensando-a no mármore, vendo-a surpresa e depois sorrindo em desafio.
“Garota, esse seu pescoço parece que recebeu alguma atenção extra hoje.”
Daryl que assistia tudo alguns passos afastado, mudou o peso do corpo de perna, olhando para Beth, ficando sério ao vê-la sorrir condescendente para Merle.
“Você sabe que não é nada.”
Beth respondeu, olhando Daryl abaixar a cabeça, como que sentindo-se culpado. Ele sabia bem que ela não o culpava, que aquilo era quem ele era. Mas Merle parecia obstinado a deixar o irmão pior.
“Nada, hein? Cachinhos, consigo ver cinco dedos enrolados aí.” Empurrou o quadril dela para trás, com o seu, vendo-a sorrir mais maliciosa agora, mas não dizendo ou fazendo nada. “Acho que é bom que você me deixe marcá-la também, assim pode esfregar na cara dele isso.”
Beth sorriu mais e Merle também, mas Daryl não. Daryl não conseguia pensar em Merle marcando Beth como ele havia feito, por mais que soubesse que ele nunca a machucaria de verdade, que ele nunca a colocaria em perigo, o pensamento de Beth sentindo dor por culpa deles o corroía de raiva. Engoliu em seco ao vê-la assentir.
“Essa não é uma marca permanente, Merle… nem ao menos a sinto direito. Mas se quiser, pode me marcar.” A pausa gerou uma tensão grande na cozinha, e Beth riu disso. “Mas eu também terei direito.”
Por vários segundos, Daryl e Beth apenas observaram Merle. Daryl sabia que ele não deixaria que ela o marcasse, que para ele, a vida e seus pais já haviam feito o suficiente, mas então algo estranho espalhava-se pelo rosto marcado pela vida de Merle; Daryl reconheceu como sendo alívio.
“Ok, Dona de Casa, pode marcar.”
Beth riu enquanto beijava brevemente os lábios de Merle e desvencilhava-se de seus braços, seguindo novamente para o que fazia. Os irmãos agora se olhavam, e um reconhecimento estranho aconteceu. Daryl vira que algo dentro de Merle parecia ter libertado-se, como se ele conseguisse apenas agora entender o significado de ter Beth, de ser dela, de que o mundo terminaria apenas com eles. Viu-o sorrir, apontando para ela, que agora cortava algumas coisas na pia, de costas, como se não sentisse medo, como se confiasse tanto nos dois, que eles nunca a machucariam, nunca a deixariam.
Engoliu em seco quando olhou novamente para Merle e viu que o que brilhava nos olhos do irmão era amor, e ele tinha muito medo desse amor. Porém, via que agora esse amor o consumia, levando o medo e a aceitação junto. Daryl tremeu ao não saber se isso aconteceria com ele algum dia.
–-*--
“Aperte os dedos no pescoço dela outra vez daquele jeito, irmãozinho, e vou apertar minha lâmina em você.”
Merle passou por Daryl, que estava sentado na varanda, fumando, o arco deitado no colo, observando atentamente os arredores da fazenda a noite. Viu Daryl mover-se desconfortável na cadeira de madeira, mas não dizer nada. Ele sabia que o que fizera também o incomodava, mas nada mais disse, o recado estava dado.
“Ela… Beth me deixa… sem controle.” Merle sentou-se na outra cadeira observando a noite, entendendo perfeitamente o que o irmão dizia. “Eu perco controle com ela… como quando lutávamos, lembra?”
Merle riu disso, era claro que lembrava. Por muito tempo aquele foi seu meio de vida, lutas clandestinas. Merle sabia ser bom, mas após ver Daryl perder o controle e lutar, derrubando o outro homem com cinco golpes, soube que tinha um companheiro perigoso em mãos. Balançou a cabeça, parar Daryl, perder o controle era ver vermelho, não pensar, e isso ao redor de Beth não era seguro.
“Lembro, Darlina. E lembro de você quase matando o Cian uma vez.” Olhou-o sério, vendo-o juntar as sobrancelhas e morder o dedão, enquanto o cigarro queimava na outra mão. “Se perder o controle e machucar Bethanie, vou te matar, Daryl. Último aviso.”
Daryl sentiu como se algo frio escorresse por sua espinha. Lembrava-se de Cian, um rapaz que o desafiara uma vez e perdera. Lembrava-se do fim da luta, dentes e sangue por todos os lados, e Daryl estava com apenas alguns cortes nas mãos. Lembrava-se de levantar do coro do outro e olhar o estrago que havia feito e não se lembrar. E hoje com Beth fora parecido, apesar de que estava consciente de sua mão no pescoço dela o tempo todo. Estava consciente dos olhos assustados e sedentos dela o tempo todo. Estava consciente de que ela gemia e pedia por mais com a voz esganiçada e falhada o tempo todo. Beth despertava e deixava Daryl liberar seu pior lado, como que se apenas com ela, ele conseguisse ser ele mesmo, o melhor e o pior.
“Ela sabe que eu nunca a machucaria.”
“Ela sabe disso… mas eu não, irmãozinho. Eu também te conheço.”
Ambos ficaram em silêncio após isso, a frase surtindo efeito. Merle não permitiria que Daryl machucasse Beth, e Daryl não se permitiria machucar Beth. Eles apenas não estavam pensando que Beth já sabia que a dor era parte de ser dos irmãos Dixon. E que ela aceitava de bom grado.
–-*--
Dois dias de caça, chuva forte e todos os animais estavam escondidos ou haviam fugido para lugares mais afastados. Já estava perdendo toda e qualquer esperança de achar algo para comer. Beth e Merle ficaram na fazenda e Daryl sabia que Merle iria se aproveitar disso. Vira nos olhos dele quando havia dito que iria caçar. Balançou a cabeça e empurrou os cabelos molhados para trás. Pensar nisso não ajudaria em nada.
Um galho se quebrando a direita lhe fez se virar rápido e levantou o arco, seus olhos se arregalando quando reconheceu o chapéu de Xerife na cabeça de um adolescente magro. Sorriu andando rápido até ele. Carl segurava uma arma grande e pesada, mas abaixou-a ao ver quem era.
“Onde estiveram?”
Carl apenas abraçou Daryl e virou-se mostrando atrás de si e Daryl deixou o sorriso morrer no rosto. Judith, Glenn e Michonne estavam com ele, mas eles arrastavam algo em uma placa de metal. Aproximou-se devagar, já não havia mais chuva, era noite e não estavam mais em uma floresta. Estavam em campo aberto e todos eles estavam usando roupas negras, sangue escorria de seus dedos. Olhou a placa de metal e viu que era Rick deitado. Ele estava com o rosto destruído, os olhos pareciam inchados, uma mão faltava, alguns dentes estavam quebrados e o nariz estava destruído. Levantou os olhos para Carl e o viu apontando para si.
“É sua culpa, Daryl. Você não nos procurou. Ele não sabe mais sobreviver sem você. Você é o melhor amigo dele. Você desistiu dele. Desistiu de todos nós.”
Engoliu em seco e levantou o corpo, seus olhos ardendo pela forte luz que entrava no quarto. Sua respiração estava rápida e sentia suor escorrendo por suas costas. Aquilo fora um pesadelo, mas Daryl conseguia sentir que poderia ser realidade. Eles haviam colocado de lado a busca pelos outros, eles haviam deixado de lado aquilo realmente.
Passou a mão pela testa, afastando os cabelos sujos que colavam ali e se levantou. Ouviu atentamente pela casa, os barulhos eram fracos ao redor da casa, Beth e Merle já deveriam estar de pé.
“Merda!”
Sua voz estava rouca por ser de manhã e sabia que ficaria daquele jeito por mais algum tempo. Respirou fundo e puxou a calça jeans surrada que usava para trabalhar na moto, sua camisa sem mangas imunda e colocou as botas. Ver Carl apontando e lhe acusando de ter desistido deles… era mentira. Eles procuraram, e nunca encontraram nada. Ficaram meses e meses apenas tentando achar um sinal, qualquer esperança de que algum deles estava vivo, mas não. Nada viera, e isso lhe trouxera dor. E vira que também trouxera dor para Beth.
Saiu do quarto e seguiu para a escada, seus passos quase não fazendo barulho no chão de madeira. Sabia que havia sido melhor para eles aos poucos apenas saber que eles poderiam estar por aí ou não, mas que não mais seguiriam juntos. Pensar demais lhes trazia dor, e Daryl não aguentava ver Bethanie com os olhos marejados e o coração partido por sua família possivelmente estar morta. Chegou ao último degrau e parou diante a cena que via.
Merle estava de costas para si e Beth estava de frente, sentada na pia da cozinha, Merle entre suas pernas. Beth ria de algo que Merle havia falado e Daryl observou-a rir. O riso dela era lindo, mostrando dentes perfeitos, um som baixo e fino. Daryl sabia bem que ele e Merle nunca mais teriam tanta sorte na mesma vida. Bethanie era um anjo enviado na Terra para salva-los, e eles deveriam agradecer todos os dias por ela.
“Você não presta.” a ouviu dizer antes de beijar Merle.
Daryl via que os beijos eram diferentes. Com Merle, Beth parecia saber que o beijo seria carinhoso, e que com ele não. Engoliu em seco e observou-os. Daryl não gostava de ver o irmão com a mão a segurá-la pelos cabelos, como que forçando-a, mas Beth o segurava contra ela, como que não querendo deixá-lo escapar.
Viu que ela separou a boca da de seu irmão e seguiu o maxilar, beijando devagar e dizendo algo bem baixo em seu ouvido, os olhos fechados, as pequenas e calejadas mãos acariciando-o nas costas. E foi então que Daryl viu. Primeiro não entendeu a expressão de dor de Beth, mas então olhou para a mão direita de Merle e o viu com a lâmina, o fio cortando a coxa de Beth, logo abaixo da linha do shorts que ela usava. Pensou em reagir, matá-lo por fazê-la sangrar, mas ela gemeu de dor e voltou a beija-lo, sorrindo enquanto fazia isso.
Balançou a cabeça, Merle e Beth não estavam fazendo o menor sentido, aquilo era loucura. Já estava com a cabeça fervendo pelo pesadelo que tivera, e agora teria que confortar Merle pelo que havia acontecido. Aquela merda não estava certa. Afastou-se pelo corredor lateral e saiu da casa, indo para a garagem onde estava a moto e o carro. Trabalharia na moto hoje, não queria pensar muito. Porém, poucos minutos depois Merle entrou na garagem e Daryl sentiu o sangue ferver.
“Cachinhos está chamando para tomar café, Darlina.”
“Que merda foi aquela na cozinha?”
Daryl viu Merle levantar as sobrancelhas surpreso e divertido ao mesmo tempo, aquilo o irritou ainda mais. Queria saber porque Merle estava cortando Beth, e porque ela estava deixando.
“Bom dia para você também, irmãozinho.” Merle riu enquanto puxava um cigarro de palha do bolso e um isqueiro Zippo, acendendo a ponta do cigarro logo após. “Aquilo? Foi minha marca em Bethanie.”
O irmão Dixon mais novo viu o mais velho virar-se, subindo a camisa pela nuca, ara lhe mostrar as costas. Daryl sabia o que tinha lá. As costas de Merle era como a sua, toda marcada. Cicatrizes de um passado sombrio, assustador e que eles não queria lembrar. Merle tinha marcas extensas, maiores que as de Daryl, e também lhe incluia algumas cicatrizes pequenas e redondas, onde seu pai havia apagado cigarros em Merle quando ele era pequeno e Daryl ainda não havia nascido. Aquilo lhe revoltava toda a vez que Daryl via.
Entretanto, não era aquio que Merle queria que o mais novo visse. Daryl via agora um corte logo abaixo das costelas, um corte recente, que ainda vertia certo sangue, apesar de estar parecendo recentemente limpo. Aproximou-se um passo, seus olhos vendo que era um lugar onde não haviam cicatrizes, e que o corte era de faca, limpo, raso para não fazê-lo sangrar até a morte e fundo o suficiente para ser permanente em sua pele.
Merle virou-se e olhou fundo dentro dos olhos do irmão mais novo e Daryl não soube o que dizer. Mas Merle sorriu, dando tapas no ombro de Daryl e falando enquanto fumava.
“Isso é a marca permanente de Bethanie em mim.”
Com isso Merle saiu da garagem, e Daryl apenas analisou o que o irmão havia dito. Aquilo era a forma de Merle dizer que amava Beth, pois ele sabia que o irmão nunca conseguiria dizer aquilo em voz alta, e talvez Beth tivesse percebido isso, e por isso havia deixado que ele a marcasse. Engoliu em seco. Nunca conseguiria dizer que a amava, conseguiria? Se conseguisse, realmente sabia amar? Se soubesse, ela o amaria de volta? Se não conseguisse dizer, o que Beth estaria disposta a deixar acontecer para que ele mostrasse isso? Estremeceu com o pensamento sombrio que seu lado mais violento pintou. Saiu da garagem decidido a tomar café, Beth, Merle e amor poderiam esperar um pouco mais.
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