Notas iniciais
Uma pequena explicação sobre o capítulo: No último capítulo vocês viram no final que Beth quis mudar, mas ainda não sabia o que precisava para isso. Então, aqui eu lhe dei um motivo e aos rapazes uma brecha para entrar na pele dela. Novamente, essa fic contêm todos os tipos de sentimentos. E lembrem-se, estamos falando de Beth, uma personagem fechada dentro de si mesma, mas de bom coração. Daryl, um homem violento apenas esperando um modo de estourar, e Merle, um homem cru e duro, mas que pode ser um homem correto quando quer. Aviso dado! Boa leitura!

Capítulo 2

O frio acertara a orla daquele riacho com força. Beth batia os dentes quando chegaram, a lua já estava alta, e seguiam tão devagar para não fazerem barulho desnecessário, que por vezes Beth encostava-se e apenas tremia esperando pelos próximos passos que poderia dar. Daryl ia à frente e Merle vinha mais atrás, parecendo mais e mais cansado a cada momento que passava. Sabia que eles estavam com fome, que as pequenas porções de carne seca que os três comeram no caminho, não alimentara nada nenhum deles.

Apesar de Beth não estar sentindo fome, sabia que eles estavam. Eles faziam tudo, eles eram os que mais se cansavam. Mordeu o lábio quando finalmente entraram na cabana, os olhos vasculhando pela noite a procura de algo que pudesse deixá-los em perigo. Mas Daryl nada disse e Merle verificou o local uma segunda vez e nada achou também.

“Acha… que eles vão aparecer... logo?”

Daryl olhou para Beth, vendo-a encolhida em um canto próximo a janela, os olhos brilhando no escuro da cabana, como um animal ferido que tentava escapar de um predador que não daria descanso até tê-lo sob os dentes. Deu de ombros, sem saber se ela tinha lhe visto ou não.

“Vou colocar luz aqui dentro, feche as duas janelas da frente e uma de trás.”

Beth obedeceu ao comando de Daryl, enquanto Merle subia os dois degraus que levavam a cabana, tendo certeza de que não havia nada do lado de fora; ao menos o máximo que poderia vasculhar na noite que já cercava tudo.

“Momento certo para achar uma cama.”

Beth e Daryl olharam para o que Merle olhava, e viram alguns pequenos e finos colchonetes empilhados ao canto. Poeira se acumulava por cima deles e pareciam tão velhos quanto a cabana. Foi quando Daryl moveu a chama presa dentro do lampião, que Beth conseguiu realmente ver o local. Era uma cabana de um cômodo amplo, que servia de quarto, sala, cozinha e para o banheiro, um espaço de metal mais ao canto, quase ao fundo, separado e precariamente dividido.

Era uma cabana rústica, feita totalmente de madeira, feita para apenas temporadas de caça. Haviam colchões, um armário de madeira, pia, mesa e duas cadeiras e um pequeno guarda-roupa. Nada mais. Aproximou-se do registro do cano que encenava um chuveiro e girou-o devagar, ouvindo a tubulação chiar, deixar escapar um gemido rouco e então água congelante desceu pelo cano, acertando seu braço descoberto previamente, caso algo assim acontecesse. Virou-se para Daryl e Merle, desligando a água e vendo que eles a olhavam incertos.

“Gosto de tomar banho todos os dias.” Sua voz saiu baixa e incerta, dando de ombros.

Merle riu e aproximou-se dos pequenos colchonetes, olhando-os com atenção.

“Garota, se for tomar banho, me avise. Quero assistir na primeira fileira.”

Merle viu que o rosto dela incendiou-se, e ele riu ainda mais. Era divertido demais provocá-la, principalmente porque ela não respondia. Ela havia feito aquele acordo. Aquela garota era presa fácil. Mas sua mente apenas fazia isso para fingir se distrair. Estava em alerta. Qualquer barulho ou movimento estranho, fosse onde fosse, lhe faria atacar. Sabia que Daryl também estava assim. O problema era que aquela garota não. Isso era um risco. Isso era um perigo. Ela não era forte, ela não estava pronta, ela não estava alerta, ela era um risco desnecessário.

“Vou colocar uma cortina aqui.”

Riu ainda mais da resposta dela. Era necessário que ela ficasse dura, que ela ficasse pronta. Sabia bem que ela não duraria dez minutos sozinha, e que não seria suficiente para lhes dar cobertura caso algo acontecesse. Puxou três colchonetes para cada um, jogando-os de qualquer jeito no meio do cômodo, poeira grossa subindo pelo ar, fazendo com que todos tossissem por algum tempo.

“Pronto, donzelas, as camas estão prontas.”

Daryl bateu seus colchonetes na parede do fundo e jogou-os ali mesmo, sentando-se ainda com a arma nas mãos. Viu Beth pegar os dela, jogando um grande lençol manchado que tirara da mochila por cima e deitar, sem se trocar, sem tirar os sapatos. Olhou Merle. Ele arrumava-se em outro canto da cabana, assim cada um estava em um canto, deixando apenas a parte em que ficava o banheiro, vazia. Era uma boa estratégia, cada um vigiaria uma ponta.

Respirou cansado. Beth não vigiaria nada, ela parecia já estar dormindo pesado. Olhou Merle, que estava sentado com a arma na mão e a lâmina descansando em sua perna.

“Ela precisa de treinamento.”

“Ela precisa é de uma nova vida.” Merle disse rindo, mas ficou sério logo após. Daryl sabia que ele estava considerando o que dissera. “Vai precisar de resistência primeiro. Qualquer vento derruba ela.”

“Isso vai ser com você.”

Merle coçou o queixo com a mão que segurava a arma. Não sabia bem o que teria que fazer, mas faria aquela garota virar um muro. Assentiu, olhando dela para seu irmão mais novo. Via o cansaço nos olhos dele.

“Durma, irmãozinho. Eu cuido da pequena.”

“Cale a boca.”

Porém, Merle viu que não foi necessário que falasse mais de uma vez. Poucos minutos após Daryl estava dormindo, a besta presa firmemente entre os dedos. Via como seu irmão era apegado aquelas pessoas, e que aquela menina parecia uma filha para ele. Daryl preocupava-se com ela. Observou-a. Sua mente viajou em tudo que poderia fazer com ela, e e em tudo que teria que fazer com ela. O pai dela havia a transformado em uma boneca de porcelana intocável, e eles teriam que tirar um soldado dali de dentro. Não seria fácil, mas ele faria. Ou a mataria no processo. O que viesse primeiro.

–-*--

Acordou com o barulho de algo de metal próximo a sua cabeça, e então abriu os olhos apenas para ver uma lâmina a frente de seus olhos. Estava escuro, e agora uma mão segurava sua boca, um quadril fazia pressão em suas coxas, hálito quente acertava seu pescoço. Era isso, eles haviam lhe encontrado. Tentou mover-se, mas o peso do corpo daquele homem não deixava.

Olhou para o lado, vendo o corpo de Merle há alguns passos, sangue escorria pela boca dele, um tiro no peito abria-se horrivelmente. Desceu os olhos e viu Daryl observando-a. Os olhos deixavam lágrimas grosas escaparem e a boca movia-se como se ele tentasse respirar. Uma das mãos fora cortada, estava caída próxima ao corpo. Um corte deixava sangue escapar por sua garganta e ele a olhava como pedindo desculpas por não poder ajudá-la.

Soluçou. Sua respiração saia interrompida, o homem que a segurava não permitia que respirasse direito. Virou os olhos para o teto, a mão do homem que segurava sua boca, desceu, agarrou sua camiseta, levantando-a devagar e a boca dele encostou-se em seu ouvido, a voz baixa perto de si.

“Espero que eles tenham aproveitado esse seu corpo, garota. Não vai sobrar muito quando eu terminar com você.”

Gritou alto. Beth não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo. Não conseguia entender como eles foram pegos desprevenidos. Como Daryl e Merle estavam mortos e agora ela seria… Não! Não conseguia nem ao menos pensar naquilo. Empurrou com os dois braços o corpo do homem, ouvindo-o rir e pouco se mover, não era forte, não saberia se livrar dele. O barulho de metal novamente perto de sua cabeça. O quadril dele forçava em sua perna, conseguia sentir a excitação dele em sua calça jeans. Sentiu asco, quis vomitar.

“Grite. Por favor, grite mais. Vai doer e eu vou adorar ouvir você chorar e gritar enquanto eu te foder.” A língua dele correu sua bochecha e Beth quis gritar de raiva e impotência perante aquele abuso. “Em todos os buracos possíveis.”

Beth juntou os lábios com força, mas a mão que segurava-a pelo ombro agora não soltava-a. Era forte, era grande e ela não conseguia escapar. Seu pé subiu até onde conseguiu, empurrando com força, mas mesmo assim não conseguia tirar o corpo do homem de cima do seu. Ele parecia preso em si.

“Beth!”

Fechou os olhos e abriu, a luz forte atingindo sua retina, contraindo-a e deixando momentaneamente cega. Levantou as mãos, o peso do homem não estava mais lá e conseguiu arrastar-se para o canto pelos cotovelos. Sua visão voltou aos poucos e conseguiu divisar Merle e Daryl próximos, olhando-a. Todo seu corpo tremia e ainda sentia a mão do homem em sua barriga, abrindo sua calça, pronto para… Engoliu em seco ao ver que Merle e Daryl estavam vivos, estavam bem. Era como se… respirou fundo. Aquilo fora um sonho. Não, aquilo fora um pesadelo. Abaixou a cabeça e abriu a boca, deixando uma lufada pesada de ar escapar. Não conseguia acreditar que sonhara com aquilo. Mas a verdade era um milagre não ter sonhado com aquilo até aquele dia. Aquela possibilidade era tão real quanto qualquer outra naquele mundo.

“Beth?”

Daryl olhou-a. Quando ela gritara a primeira vez, resmungando ‘não’ logo após, soube com o que ela sonhava, e olha-la se contorcer no colchão, as pernas enrolando-se no lençol era horrível. Não conseguia imaginar o desespero que ela sentia, mas conseguia sentir o desespero de que algo assim realmente pudesse acontecer. Tentou acordá-la algumas vezes, mas ela apenas lutava mais e mais, lágrimas escorrendo do canto de seus olhos fechados com força.

“Estou… estou bem.”

Viu-a passar a ponta da língua pelos lábios secos, os olhos ainda ajustando-se a claridade. Levantou-se e olhou Merle, que olhava pela janela aberta, vendo se os gritos de Beth haviam atraído atenção desnecessária.

“Cachinhos, se essa for sua defesa contra um estupro…” Merle virou a cabeça devagar, olhou-a, os olhos claros brincando ao descer pelo corpo dela. “Acho melhor que relaxe e aproveite, porque gritar vai apenas fazer o cara te comer com mais gosto.”

Daryl afastou-se de Merle, passando a mão pelo cabelo e olhando para Beth, que agora olhava para as próprias mãos. E ele sabia que era verdade. Caso ela precisasse se livrar de alguém que tentava estuprá-la, aqueles chutes e gritos não ajudariam de nada. Ela morreria na mão de quem a pegasse, mas antes seria usada, de todos os jeitos. Era… inaceitável.

“Eu… eu sei. Sei disso.”

“Então levanta essa bunda daí, lava o rosto e vamos lá pra fora. Preciso quebrar essa boneca que você é e te transformar em um soldado.”

A mudança foi visível. Merle vira como ela o olhou rapidamente, os olhos azuis brilhando fortemente contra os seus olhos. Ela estava feliz. Ela estava realmente feliz em ser treinada. Talvez fosse mais fácil do que estava esperando. Cruzou os braços ao ver que ela não havia se movido do chão.

“Vamos Cachinhos, não sou de falar duas vezes.”

Levantou correndo, indo até a pia, abrindo a torneira e ouvindo o encanamento chiar também. Esperou pela água chegar, deixou-a escorrer um pouco e jogou no rosto. Estava gelada e acordou todos seus sentidos, acordou todo seu sistema nervoso. O sonho retornou por trás de suas pálpebras fechadas. Era fraca, despreparada. Era apenas uma garota de 18 anos que cuidava de uma recém-nascida. Não era uma guerreira. Não sabia atirar direito, não sabia defender-se em combate, não sabia matar apenas com suas mãos.

Abriu os olhos. Suas mãos tremiam agarradas a pia. Viu pelo canto de olho Daryl mover-se, olhando-a. Olhou-o e tentou sorrir, não queria que ele tivesse algo mais para se preocupar. Não queria que nenhum deles tivesse algo mais para se preocupar. Retirou o excesso de água do rosto com as mãos e soltou os cabelos, prendendo-os com mais força dessa vez, alguns fios loiros soltando-se, mas ignorou-os. Tirou o pesado casaco com que dormira e olhou para Merle, que olhava-a sério. Sabia bem que Merle a treinaria sem dó, e a machucaria para fazê-la uma guerreira. E Beth aguentaria o que ele lhe desse. Não importaria o que fosse. Ela seria uma guerreira, ela valeria a pena não mais ser deixada para trás. Ela seria como ele, fosse como fosse.

–-*--

Dias. Semanas. Meses. Não havia sinal, não havia resposta da mensagem. Já haviam se passados dias e dias de esperança, e agora ela apenas era uma lembrança vaga e solitária na mente deles. Não desistiram, mas acostumaram-se. Não deixaram de sofrer, mas pararam de chorar. Era uma nova realidade, e eles viviam conforme ela lhes era dada. Não era o que pediam, mas era o que tinham, e no apocalipse, no fim do mundo, era o que poderiam aceitar: um família.

Desfuncional, estranha, onde haviam dois machos Alfa e uma Beta. Onde essa Beta por vezes mandava mais que os Alfas. E eles gostavam. Eram irmãos. Amigos. Inimigos. Se conheciam, se moldavam. Merle e Daryl nunca haviam morado com uma garota, e Beth nunca havia morado com dois homens que não fossem seus parentes. Mas eles conseguiram. Eles haviam feito dar certo; mesmo que por vezes um deles quisesse atear fogo na cabana com os outros dois lá dentro. Ou que uma briga levasse um deles para uma caça de alguns dias. Ou Beth a não cozinhar por algumas refeições, deixando-os com fome.

Eles estavam aprendendo a lidarem com a possibilidade de que o mundo seria apenas eles. De que o restante de suas vidas poderiam ser apenas os três, mais ninguém. E isso assustava Daryl mais do que muita coisa. Viver mais alguns anos apenas com Merle e Beth, sem vê-la crescer como mulher, sem vê-la viver o que poderia no mundo como aquele. Ele e Merle já haviam crescido e aproveitado o mundo, Beth era apenas uma garota.

Observou enquanto ela abaixava as mãos até os pés, os músculos das pernas se sobressaindo. Dois meses de treinamento diário, mais um mês de treinamento em luta e Bethanie já era outra garota. Apoiou-se na árvore mais próxima, fumando enquanto a olhava de costas para si. Ela havia evoluído, ela havia mudado, e Daryl ainda não sabia se gostava disso.

Gostava da antiga Beth de meses atrás, que cantava na fogueira, que dava risada das graças de Judith, que era sempre boa. Mas não negava, a Beth que ele e Merle estavam moldando, era muito boa. Os olhos ficavam de um azul frio quando lutava, e quase esbranquiçados quando matava. E Daryl viu que ela crescia. Via que ela já era uma mulher, mas ele ainda via partes de garota.

Tragou enquanto a via lhe observar, os olhos ao lado da perna esquerda, ainda encostando as mãos no chão, esticando os músculos da perna, preparando-se para uma corrida. Aquela posição era sugestiva, mas Daryl forçava-se a pensar em Beth de qualquer outro modo, menos aquele. Viu-a sorrir, levantando-se e aproximando-se, girando os braços e o tronco para esticá-los antes da corrida matinal.

“Não é seguro ficar distraído assim.”

Daryl não sabia se gostava desse lado em particular dela. Beth havia adquirido algumas manias suas e de Merle. Suas manias de limpar armas sempre que sobrava um tempo entre as outras tarefas, e a mania de frases maliciosas de Merle. Essa, Daryl via que ela ainda era tímida, e não dizia as mesmas coisas que Merle, mas ela vinha provocando-os mais e mais a cada dia, deixando bem claro que a antiga Beth, a garotinha de porcelana havia quebrado-se em muitos pedaços.

E uma mania que ela havia pegado de ambos eram os palavrões. Começara com apenas alguns ‘merdas’, mas agora quando ela errava algo ou algo não estava correto, ela falava em alto e bom som ‘caralho’. Merle ria, como um pai orgulhoso de ter estragado o filho. Já Daryl preocupava-se com isso, como uma mãe. Beth era doce, delicada, não deveria falar aquelas coisas. Apesar de que a cada vez que Beth xingava, Daryl sentia sua mente registrar que aquilo era algo entre eles. Que eles compartilhavam, como uma família desfuncional.

“Vai correr até onde?”

“Uns dois ou três quilômetros.”

Olho-a sério. Não gostava quando ela se afastava daquele jeito. Era muito longe e não havia necessidade para tanto.

“Corra por aqui, não a quero longe, vou sair para ver as armadilhas.”

Ela sorriu timidamente e levou dois dedos para cima, em sinal de continência. Viu-a se virar e começar a correr devagar, afastando-se. Ouviu a porta da cabana se abrindo e viu Merle descer os degraus com uma caneca vermelha velha de metal desbotado nas mãos. Olhou para o rosto do irmão. Merle havia ficado a noite toda de guarda, o café que tomava deveria ser a benção dos Deuses.

“Vou ver as armadilhas. Beth foi correr.”

“Com aquele shorts? Essa garota tem uma placa de estupro no pescoço.”

Daryl assentiu uma vez. Beth não parecia ter noção do próprio corpo. Usava shorts e blusas que pareciam dois números menores, fazia movimentos que deixavam aquela diferença mais e mais evidente, dizia coisas que não condiziam com o que realmente deveria ser interpretado. Ea realmente tinha uma placa escrito estupro no pescoço.

“Próxima vez que sair vou ver se acho roupas pra idade dela.”

Daryl disse e viu Merle concordar, tomando um longo gole de café e olhando para onde Beth havia corrido, vendo-a voltar. Afastou-se, olhando para os lados e vendo que Beth vinha concentrada ao redor, olhando para o chão e para os lados também. Eles a estavam treinando bem, apenas precisavam colocar alguma noção da própria idade e corpo nela.

–-*--

“Ohhh, então você já sabe se virar sozinha?”

Merle provocou passando por detrás de Beth, vendo-a arrumar a postura, ficando pronta para o ataque. Estavam dentro da cabana, haviam afastado tudo e estavam começando o treinamento de luta de Beth naquele dia. Daryl cercou-a pela frente, a faca em sua mão direita. Merle sabia que ela não escaparia daquilo. Eram dois atacantes de uma só vez, ela não teria por onde fugir, não do modo como eles estavam cercando-a. Não do modo como havia combinado com Daryl.

Aproximou-se rápido, segurando ambos os braços dela para trás, enquanto puxava-a contra sua corpo. Viu que ela tentava se soltar, mas não conseguia, e nem ao menos os pés acertavam os seus ou seus joelhos. Viu Daryl aproximar-se, davagar, avaliando se não haveria a possibilidade dela soltar-se e atacá-lo.

“Vamos lá, Daryl, podemos fazer o que quiser com ela.”

A frase fez o efeito necessário. Beth começou a debater-se, empurrando o corpo para trás, fazendo com que Merle desse alguns passos para trás, e batesse as costas em uma parede. Porém, ele não a soltou, prendendo-a com mais força ainda em seus braços. Merle sorriu, ela ainda estava tentando se soltar e quase acertara seu nariz com a cabeça duas vezes. O treinamento estava fazendo o efeito necessário em Beth, ele e Daryl estavam tirando um soldado de dentro dela.

Daryl viu, alguns passos afastado, Beth lutar com Merle, tentando se soltar, mas via os braços de seu irmão se fecharem contra o corpo dela, prendendo-a. Mas então viu-o sorrindo malicioso, sua boca próxima ao ouvido dela. Não sabia o que ele dizia, mas alguns segundos depois os olhos de Beth estava presos aos seus, e ela estourava em uma risada leve relaxando nos braços dele. Aproximou-se, apenas para ver Merle beijar atrás da orelha dela, soltando-a e a vendo lhe dar um tapa no ombro.

“O que foi isso?”

Daryl questionou o irmão, enquanto Beth voltava para a posição inicial, pronta para tentar novamente soltar-se deles.

“Isso o que, irmãozinho?”

Viu Merle afastar-se da parede rindo e arrumar-se dentro da calça. Aquilo fora desnecessário.

“Ela é uma garota.”

“Ela já sabe o que vai acontecer se ficar se esfregando em mim pra tentar escapar.”

Daryl apenas observou Merle voltar para perto de Beth, a evidencia de sua excitação visível para qualquer um que o olhasse. E ela parecia não importar-se, apenas ouvindo o que Merle falava sobre como mover os pés, como acertar de verdade o rosto de quem segurava-a por trás.

“Daryl, dessa vez você me segura?” A pergunta dela fez Merle sorrir malicioso novamente. “Merle está focado demais em outra coisa.”

Merle riu e olhou em expectativa para o irmão mais novo. Sabia que Daryl olhava a garota de forma diferente. Vira por várias vezes que ele a avaliava de modo como alguém avalia uma opção viável para foder. Sim. Seu irmão queria a garota, mas ele nunca a teria. Daryl não tinha peito suficiente para pegá-la para si. Mas Merle tinha, e mesmo que soubesse que poderia, talvez até mais fácil do que pensava, não era o momento. Precisavam se focar em não morrer, se sobrasse tempo para ter a Cachinhos Dourados gritando o nome dele, ele teria.

Beth ouviu os passos de Daryl atrás de si, baixos, calmos. Olhou Merle a sua frente. Desligou. Sua mente caiu em estado de sobrevivência, como fazia quando via os errantes vindo em sua direção. Sua mão fechou-se e acertou o peito de Daryl atrás de si, empurrando-o. Sua mão esquerda levantou-se até a virilha de Merle, acertando-o e vendo-o se inclinar para frente. Ouviu os passos de Daryl e logo o metal frio estava preso em sua garganta, a faca pronta para cortá-la.

Respirou devagar, os ombros tensos, as costas arqueadas, apoiadas em Daryl. O corpo dele era parecido com o de Merle, era largo e forte, e seria difícil sair daquele aperto. Olhou Merle olha-la de baixo, os olhos sérios. Sorriu para ele quando o viu sorrir malicioso. Soube o que fazer. Suas mãos subiram rápidas e seguraram os braços de Daryl, seu quadril foi com força para trás, acertando o dele, girou o corpo para fora do aperto dos braços dele, rodando seu braço e escapando.

Seu rosto era puro triunfo, mas então, uma mão segurou seus cabelos, puxando-os para trás e Beth viu-se presa pelo punho de Merle novamente. Fechou os olhos derrotada, havia se esquecido disso.

“Nunca dê as costas para seu inimigo.”

Repetiu antes mesmo que ele lhe dissesse aquilo. Odiou-se por isso. Havia escapado bem de Daryl, mas se fossem outras pessoas atacando-a, agora estaria presa pelos braços de outro homem, que muito provavelmente a esse momento estaria segurando-a para que apanhasse do outro por ter tentado escapar.

“Não cante vitória antes de realmente escapar, Beth.”

Daryl disse olhando-a sério, não querendo na verdade, olhá-la. O movimento que ela havia feito com o quadril era errado, e só de pensar que ela poderia fazer aquilo em outra pessoa lhe fazia ficar irritado.

“Cachinhos, foi golpe baixo.”

Beth olhou para Merle séria, realmente achando que ele estava bravo, mas ele estava sorrindo. Balançou a cabeça e sorriu, sentindo-o lhe soltar os cabelos, ele estava certo. Fora um golpe baixo, mas com outras pessoas teria que ser assim. Não poderia baixar a guarda, não poderia simplesmente deixar que a levassem. Se pudesse, daria o máximo de trabalho possível. Se pudesse, mataria alguns no processo.

“Vou preparar algo para comermos.”

Ambos concordaram e a viram se afastar. Por alguns segundos Daryl apenas observou Beth afastar-se, mas então olhou Merle. Ele fez um movimento para que saíssem da cabana. Seguiu-o, puxando um cigarro para a boca e acendendo-o.

“O que acha?”

Merle cruzou os braços, a prótese estava sem a lâmina, e parecia estranha daquele modo. Olhou-o seriamente. Não sabia o que Merle queria, mas tinha ideia do que ele falava. Tragou mais uma vez antes de responder, soltando a fumaça para cima.

“Ela ainda… ela é… ela vai arrumar problemas desse jeito.”

Merle riu e pegou o cigarro dos dedos do irmão. Era engraçado, Merle via que Daryl ainda não sabia lidar com mulheres. Ele era arredio com todos, mas com mulheres era ainda pior. Tragou o cigarro, olhou para dentro da cabana. Viu Beth passando de um lado para o outro, algumas coisas na mão, os olhos sérios, a cabeça abaixada, como se pensasse seriamente em algo.

Sabia que ela estava novamente pensando na família, nas outras pessoas que viviam na prisão. Respirou fundo e entregou o cigarro para Daryl, ele também olhava para a garota dentro da cabana. Não sabia se ele via exatamente o que ele via, mas Daryl parecia não entender o que ele próprio sentia. E Merle riria disso no futuro.

“Ela sabe se defender. Leve-a para caçar.”

“Leve você.”

Merle riu e arrumou o cinto da calça.

“Ohhh se levá-la pra caçar, ela vai voltar com mais do que apenas um animal morto pra refeição.”

Daryl olhou sério para Merle. Não gostava quando ele brincava com ela daquele jeito.

“Ela não é… assim.”

Merle riu ainda mais e começou a entrar na cabana, sua mão agarrando a parte da frente da própria calça.

“Ainda não, irmãozinho, mas logo ela começa.”

Beth ouviu a frase de Merle e olhou por cima do próprio ombro para ele. Sorriu. Merle era um homem diferente. Aprendera isso. Aprendera as duras penas que ele era complicado, que ele era fechado no próprio mundo, que não sabia compartilhar sentimentos, vulgar em muitos níveis, mas após todos aqueles meses, eles eram família. Ainda não haviam as palavras de amor, mas haveriam. Beth sabia. Continuou a cozinhar para eles. A vida era aquela agora, ela teria que se acostumar a ser de Daryl e de Merle, e eles a serem dela.