Wrecking Ball
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Notas iniciais
Capítulo 1
Ele havia pedido que tomasse cuidado, por isso sua arma estava destravada. Observava cada pequeno movimento, cada pequeno som. Tinha certeza de que ele e Merle estavam do lado de fora da prisão, e que se houvesse som ali, seria de um intruso. Fosse um morto, fosse um vivo. Tremia. Seus olhos ardiam com a vontade de chorar. Mas não o faria.
Pegaria as coisas necessárias para que pudessem ir embora, para que pudessem começar a procurar por todos. Apenas, precisavam sair dali. A prisão havia virado um enorme alvo. Tudo que poderia ser atraído para ali, seria. Entrou correndo pelo bloco de celas e viu que tudo estava revirado. Entrou em quase todas, achando apenas o necessário por hora. Daryl havia dito que voltariam, mas que deveriam levar o máximo que pudessem. Vira que Merle Dixon estava ferido, e que Daryl tinha sangue nas mãos.
Entrou na cela de seu pai, pegando o pequeno kit médio que ele tinha escondido. Sabia que seria necessário. Mesmo que os ferimentos não fossem extensos, eles poderiam precisar em algum momento. Jogou tudo dentro de uma mochila de lona, sabendo que ficaria pesada. Mas precisava levar o máximo de coisa que pudesse. Ouviu ao longe um ronco de motor. Reconheceu como sendo a moto de Daryl. Aquele era o aviso para ela de que deveria voltar para o lado de fora.
Olhou para as outras celas que ainda não conseguira chegar. Balançou a cabeça, puxando algumas blusas de frio de detentos, jogando-as dentro da mochila e começou a sair da cela. Arrastava com certa dificuldade a mochila com uma mão enquanto a outra segurava a arma com firmeza. Não que soubesse atirar com uma mão apenas, mas tentaria, faria o possível. Se sobrevivera ao que havia acontecido, poderia tentar salvar-se mais uma vez.
Lágrimas embaçaram sua visão, mas continuou a andar rapidamente para fora da prisão, querendo sair daquele local que havia sido sua casa por algum tempo. Mas por motivos que o novo mundo trazia para dentro das pessoas, um novo mau corroendo a alma humana, aquele havia tornado-se o túmulo de alguns amigos, de algumas pessoas, tornado-se um lugar hostil.
Achou Daryl na moto, os olhos varrendo todos os lados da prisão. Procurou debilmente por Merle, apenas para vê-lo chegar com uma velha caminhonete, qual ela não lembrava-se de ser deles.
"Essa tem gasolina para rodar algum tempo."
Merle disse descendo da caminhonete, olhando para Daryl, que desligava a moto. Olhou para Beth e sorriu de lado.
"Garotinha, se tremer mais um pouco, vai atirar no próprio pé."
Soltou a mala no chão, quase derrubando-a no pé dele. Olhou Daryl e seguiu para a porta do passageiro da caminhonete. Merle riu e Daryl apenas observou Beth. Ela havia colocado a trava de segurança na arma, deixando-a na cintura, próxima da mão. Algo havia quebrado dentro dela e Daryl conseguira ver isso assim que a olhara nos olhos. Ela ainda chorava, via as marcas de lágrimas recentes no rosto dela, mas ali havia algo mais. Ali havia algo que dizia que ela havia mudado naquelas horas sozinha.
Olhou-a entrar na caminhonete, os pés no painel, os olhos fechados, os braços cruzados. Aquela garotinha de antes havia ficado com a escolha de morrer ou morrer. E de algum modo, sobrevivera. Aquela garotinha tinha uma arma para duas escolhas: atirar e matar, ou se matar. Daryl tinha medo de que ela ainda fosse escolher a segunda.
"Vamos rodar um pouco apenas. Voltamos amanhã para pegar algumas coisas." Viu o irmão assentir olhando para Beth no banco do passageiro. "Não pense, Merle."
Merle riu enquanto virava para olhar para o irmão.
"Pensar o que, irmãozinho?" Viu Daryl balançar a cabeça e pegar a mochila de lona que ela havia pego de dentro da prisão. "Só porque vou ficar com ela na caminhonete e você sozinho na moto?"
"Ela é uma criança, Merle."
"Não de onde eu vejo."
Daryl queria arrebentar Merle. Mas sabia que de nada adiantaria discutir ou conversar. Merle não era como os outros. Ele não entenderia como Beth estava naquele momento. Não adiantaria tentar colocar algum tipo de sentido em sua mente.
"Ela tem uma arma."
Foi a única coisa que disse, e ouviu Merle rir. Sabia que Beth nunca atiraria nele, mas ele não sabia disso. Deixaria que Merle tentasse algo. Ele já estava ferido e poderia ficar mais.
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Beth ouvira Merle e Daryl conversando fora da caminhonete e ouvira Daryl dizendo que ela era uma criança. Ouvira o que Merle dissera. Balançou a cabeça. Merle era totalmente diferente de Daryl. Ele era vulgar, sem educação, grosso. Mas não podia negar que era um excelente soldado, um guerreiro. Assim como Daryl.
Viu-o entrar na caminhonete e olhou-o. Ele estava sério, e antes de ligar o veículo, olhou-a, como se esperasse que ela dissesse algo. Beth sentia a força do olhar dele, era como se exigisse algo. Algo que Beth não sabia o que era, e a fazia querer chorar. Sentiu que seu corpo começava a tremer. Todas suas terminações nervosas estavam tremendo. O peso do olhar dele era imenso. Sua respiração parecia cortada como faca, machucava. Seu coração apertava-se dentro do peito, como uma mão a fechar-se sobre o órgão.
Lágrimas quentes desciam por seu rosto, sentia-as como pequenos cortes em suas bochechas. Seus dedos estavam tão fechados em punhos que apenas percebeu que cortava a palma de sua mão quando ele olhou naquela direção.
"Eles… eles me deixaram."
Merle semi-cerrou os olhos. Os olhos dele eram como os de Daryl. Frios, quentes, de duas cores diferentes, misturadas. Tinham o peso do mundo e não ligavam para nada. Os homens forjados do fogo, mas mais vulneráveis e suscetíveis que qualquer um.
"Eu também deixaria."
Ela sabia disso. Ela conseguia ver isso em seus olhos. Era uma realidade. Assentiu, passando a mão no rosto, limpando as lágrimas. Ele estava certo. Ela teria de deixar fosse quem fosse para trás.
"Eu… também te deixaria para trás."
Merle riu enquanto ligava a caminhonete e começava a rodar com ela para fora da prisão.
"Garotinha, qualquer um deles me deixaria para trás… menos você e Daryl."
Merle sentiu que ela o olhava, como se tentasse entendê-lo. Sentia o peso dos olhos azuis dela em si. E era engraçado. Seu braços doíam, principalmente o que havia sido atingido. O sangue parara de escorrer, mas ainda ensopava o pano qual tinha usado como atadura provisória. Sabia que teria que fechar a ferida, aquilo poderia infeccionar e virar uma merda enorme.
O barulho da moto atrás da caminhonete era reconfortante para seus ouvidos, o pensamento de que estava reunido a seu irmão também. Mas então lhe vinha o pensamento de que Daryl tinha uma nova família também. De que ele faria o inferno para revê-los, para reuni-los, e Merle não sabia como seria essa nova reunião. Dirigiu não muito rápido, querendo achar um lugar para a noite, para fazer exatamente o que Daryl havia dito. Passar a noite em outro lugar, voltar, pegar o que restava e desaparecer.
Não havia motivo algum para que ficassem ali, eles precisavam sair da rota do Governador. Precisavam se certificar de que poderiam se defender. Deveriam se certificar de que poderiam ao menos dormir uma noite tranquila, para então começar novamente com a Guerra. Por aquilo era Guerra. Aquilo era morte.
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Quando o movimento do carro cessou por completo, Beth abriu os olhos, levantando a cabeça que não havia lembrado de ter abaixado e sentiu todo os músculos de seu pescoço arderem. A primeira coisa que viu foram os olhos de Daryl a mira-la do outro lado do vidro, os olhos sérios. Bocejou e esfregou o rosto com as mãos, olhando para o lado e vendo Merle descer do veículo, os olhos observando o terreno ao redor.
Desceu devagar, a lua já mais alta do que lembrava-se, as estrelas brilhavam estranhas, quase sem brilho algum. Sabia o que era aquilo. Frio. O frio estava chegando, o frio estava presente, e os acertaria com força. Cada ano mais forte, cada ano mais violento. Passou as mãos pelos braços, um pequena loja de conveniência parcialmente destruída encontrava-se à direita da rodovia.
"Aqui." Daryl disse para Merle, que assentiu, ainda observando tudo ao redor. Beth puxou uma mochila de dentro da caminhonete, puxando sua arma da cintura, indo na direção de Daryl.
"Está ferido?" Seus olhos azuis bateram de encontro aos olhos sérios dele, que negou com a cabeça e ela afastou-se. Parou próxima a Merle, que mirava-a com divertimento. "Vou precisar de luz para fechar esse ferimento, mas… consigo fazer isso."
"Garotinha, quem te contou que eu quero sua ajuda?" Perguntou rindo. Viu-a virar-se, soltando a trava da arma desajeitadamente e seguindo para a pequena loja.
"Não foi uma pergunta."
Daryl viu. Daryl viu no modo como ela parecia distante, no modo com ela parecia prestes a quebrar, que Bethanie nunca mais seria a mesma. Algo havia mudado a garota de belas canções e sorrisos doces em… bom, naquela garota. Viu Merle rir da resposta dela, mas ele não a conhecia. Ele não sabia quem e como Beth era. Ele não a conhecera antes daquele episódio, e agora Daryl sentia que também não a conhecia.
Viu que ela olhava para os lados, com a arma na mão, observando os cantos da pequena loja. A postura toda errada, a mochila atrapalhando caso ela precisasse atirar, a mente não estava focada no que tinha que fazer. Ela precisava de treinamento. Ela precisava saber se defender direito, caso ficasse sozinha, sabia que ela morreria em pouco tempo. Precisava ensinar as coisas para ela, não queria ter que preocupar-se com mais uma coisa enquanto estava em fuga do Governador e atrás dos outros. Levantou a besta, seus passos rápidos atrás dela, chamando sua atenção.
"Desse jeito vai levar um tiro ou ser mordida. Fique atrás."
Passou a frente dela, ouvindo-a ficar para trás, como se tivesse parado. Olhou por cima de seu ombro, vendo-a lhe mirando sem expressão.
"Não vou morrer."
"Não tenha tanta certeza disso, garota."
Merle disse vendo a expressão séria do seu irmão mais novo. Riu disso, seguindo para a loja, tomando todo o cuidado necessário enquanto entrava. Não levaram muito tempo para limpar um pequeno quarto de manutenção ao fundos, barricando a porta, e deixado um espaço feito pela lâmina de Merle na porta, para que pudessem vigiar o lado de fora.
Beth encostou-se na parede com a grande janela acima de sua cabeça, a luz da lua já estava alta e dava uma boa iluminação. Colocou os joelhos no chão, pegando duas pequenas garrafas de dentro de uma pequena maleta no kit médico. Uma delas era água, na outra vodca. Olhou para Merle, para encontrá-lo, e viu que ele observava pelo buraco na porta, como que buscando algo do lado de fora do quarto de manutenção. Olhou Daryl, que empurrava algumas latas e caixas das prateleiras para o lado, procurando por algo. Virou-se para Merle enquanto separava algumas gazes e uma agulha.
"Merle."
Olhou por cima do próprio ombro, vendo a garota de joelhos no chão, as mãos nas coxas, os olhos observando-o de forma apática. Merle já vira aquela expressão antes em prostitutas que se desligavam para poderem trabalhar. Que pareciam bonecas no modo automático, desligando o cérebro, deixando que o corpo ficasse no comando, evitando algum trauma.
"Já disse que não preciso de ajuda."
Voltou a olhar para fora do quarto, ouvindo cada som que havia do lado de fora. Mas não havia nada. Apenas o som do vento forte da noite a entrar pelas partes destruídas da pequena loja.
"Não foi..." Ouviu-a começar, olhou-a novamente, dessa vez virando-se para observa-la. Cruzou os braços na frente do peito, seus olhos maliciosos descendo por todo o corpo de Beth. Viu seu irmão balançar a cabeça.
"O que, irmãozinho?"
"Já lhe disse o que."
"Se me deixar fechar o ferimento, não peço para que pare quando começar a falar sobre mim… ou comigo." E olhos azuis faiscaram de certeza. Beth sabia que Merle era um homem bruto, movido a incentivos sujos. Ali estava um que ela tinha certeza que ele não iria recusar. Merle gostava demais do som da própria voz.
Viu-o erguer a sobrancelha e Daryl olha-la como se não entendesse. Mas então viu que mesmo antes que ele falasse, já havia aceitado. Merle aproximou-se dela, olhando-a de cima, como o predador que era. Daryl apenas observava, se Merle passasse dos limites, ele diria algo. Apesar de que Beth não parecia importar-se muito, e mesmo se se importasse, ela poderia fazer algo, já que estava com aquelas declarações.
"Pois bem, Cachinhos Dourados, comece a me remendar."
Beth não esperou que ele falasse algo mais, retirou a atadura improvisada e viu onde a bala havia atravessado. Não levaria muito tempo, mas seria necessário limpar, costurar e colocar novamente uma atadura, e a parte mais difícil, imobilizar por algum tempo. Pois ela sabia que Merle Dixon não colaboraria.
Após vinte minutos de palavrões, provocações e olhares sujos, Merle viu-se livre de Beth, e afastou-se dela, olhando-a de cima.
"Deveria usar essa mão para outros bens, garota."
"Merle!" Daryl disse em aviso, mas o mais velho não ligou, apenas riu do tom vermelho que o rosto de Beth havia se tornado.
O silêncio preencheu o cômodo quando Merle ficou a escutar o que passava-se atrás da porta, Daryl atento a qualquer som do lado de fora da loja e Beth a ouvir suas respirações baixas.
"Eles… eles vieram rápido." Começou e nem ao menos tinha se dado conta que estava falando, apenas quando viu Daryl e Merle observando-a atentos. "O Governador gritava… que vocês estavam mortos… que nossa esperança estava acabada…" Engoliu em seco, molhando os lábios ressecados com a ponta da língua. "Todos correram, todos eles conseguiram ir para o mesmo lado… mas eu sabia que precisavam de uma distração ou… eu não podia deixar que Maggie grávida e Judith tão pequena… eu não…"
"Chorar não vai fazer ninguém voltar." Merle disse baixo, como que não querendo realmente dizer aquilo. Olhou-o nos olhos, vendo-o ainda sorrir do modo malicioso, mas um sorriso que não mais alcançava seus olhos.
"Eu sei."
Limpou seu rosto, pegando a arma da cintura e seguindo para perto de Daryl, olhando-o de baixo. Os olhos claros dele lhe miravam sérios, a besta na mão pronta para atirar no mínimo movimento suspeito.
"O que faremos agora?"
Os olhos verdes de Beth miravam-no com tamanha intensidade. E para ele, aquilo era o bastante por um dia.
"Durma."
Assentiu para Merle e saiu de onde estavam, puxando a porta do quarto de manutenção com força excessiva, precisava sair de perto de Beth e de tudo que ela lhe contara. De tudo que ela lhe fazia lembrar. Carol, Judith, Rick, Gleen, Maggie, Hershel, Carl e Michonne. Onde eles estariam? Estariam bem? Sua família estaria viva? Chutou uma parede próxima, ouvindo o som abafado de cimento velho e destruído por fogo rachar, ceder a pressão e impacto. Chutou-o novamente e novamente até que havia apenas tijolos quebrados e pó.
Odiava-se por não ter estado presente quando eles precisavam. Odiava-se por não conseguir eliminar de uma vez por todas o Governador, libertá-los dessa ameaça. Odiava o fato de que Beth, a mais fraca, o elo mais improvável estava ali. E sabia, sabia bem que Merle a quebraria. Sabia bem que se ela não endurecesse logo, se o mundo não a matasse, Merle daria conta do recado. E sem tocá-la.
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"Acho que isso é… suficiente, não?"
Beth perguntou, olhando para a Bíblia de seu pai, arrumando-a novamente na mesa onde fizeram tantas refeições nas últimas semanas. Havia uma passagem e Beth marcara-a de forma discreta para que apenas alguém que soubesse o que procurava, encontrar. Falava sobre um riacho, e há quase cinco horas de viagem havia um riacho. Seguiriam para lá, esperariam alguns dias. Caso Rick voltasse para a prisão e achasse o recado, se encontrariam ali. Caso não, deixariam um recado no riacho e começariam a procurá-los. Precisavam se reunir.
Daryl aproximou-se por trás dela, olhando por cima de seu ombro. Ela cheirava a sabonete e os cabelos ainda estavam molhados, pingando e molhando os ombros. Observou a Bíblia aberta e assentiu, jogando a tira da besta no ombro, as mãos livres puxando duas mochilas do chão.
"Pegou tudo que precisava para o frio?"
Viu-a assentir, olhando para a mesa uma última vez antes de começar a segui-lo com uma mochila de previsões. O frio estava começando a cercar a prisão. Via na pele arrepiada dela, via no modo como as unhas dela estava arroxeadas. Via como sua própria pele arrepiava-se fracamente com o vento gelado e cortante que fazia nos corredores. Logo o frio acertaria aquela parte do país e nada poderia para-lo. Nada poderia impedi-lo de levar mais algumas vidas de sobreviventes.
Beth seguiu com Daryl para fora da prisão, o vento gelado daquela manhã batendo em seu rosto. O banho frio que tomara apenas ajudara a deixa-la com mais frio ainda. Mas precisava daquele banho, precisava lavar-se. Dormira no meio de tanta poeira, sujeira e coisas velhas que considerava um milagre não ter espirrado e tossido a noite toda.
Jogou a mochila na parte de dentro da caminhonete e viu Merle aproximar-se deles, a lâmina brilhando no sol fraco de modo estranho, cheia de sangue.
"Alguns amigos estavam passeando." Beth odiava o sorriso maldoso dele.
Merle Dixon era frio e vulgar, mas ela o odiava quando ele era cruel. E era cruel sem ter a mínima necessidade de ser. Apoiou-se na caminhonete, olhando os irmãos de costas para si, conversando. Como poderiam ser tão diferentes? Como eles teriam crescido? O que havia acontecido em suas vidas para que quando o mundo começasse a acabar, eles fossem exatamente o que as pessoas precisavam?
Estremeceu e puxou mais o casaco no corpo. Seria necessário seguirem rápido para o riacho, logo o sol começaria a sumir, a luz ficaria precária e estariam sozinhos, sem proteção a noite, na estrada. Apenas pensar nisso Beth quis chorar. Pensar que os outros poderiam estar na mesma situação, que poderiam estar perdidos, sem nada, sem proteção, Judith com fome, Maggie com sede, os outros nervosos e com frio.
Balançou a cabeça. Se continuasse a pensar assim sofreria mais. Não. Precisava ser forte. Precisava ser forte e ajudar Daryl e Merle a achar sua família. Precisava deles e eles precisariam dela. Ela daria um jeito para que fosse alguém que eles precisavam. Aprenderia tudo que eles poderiam lhe ensinar. Aprenderia tudo que deveria aprender, seria uma deles. Seria o que deveria ser. O mundo não mais aceitava menininhas virgens de quase dezoito anos, filhas de fazendeiros que as protegera a vida toda, transformando-as em bonecas de porcelana. Não, o mundo queria Guerreiras. O mundo precisava de Guerreiras. E não havia nada que Beth pudesse fazer sem ser aceitar e pedir que Daryl e Merle lhe ensinassem a ser assim.
Verde e azul encontraram azul claro quando ambos a olharam por cima dos ombros. E Beth viu que ali fundiam-se morte, dor, crueldade, malícia, violência e salvação escritas em cada linha traçada dos olhos de Merle e Daryl Dixon. Soube ali, nunca seria como eles, mas seria o mais próximo que pudesse de ser. O mais próximo que pudesse ser de alguém que eles confiariam, de alguém que eles também dependeriam, de alguém que eles amariam como família, como faziam um com o outro.
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