Would You Have Dinner With Me?
37 It's Clarie, the little girl!
Notas iniciais
••• Vários meses depois •••
Sherlock utilizava toda sua concentração para observar o gramado da frente da casa de meus pais. Com dedo entre as cortinas e a blusa levemente entreaberta, não retirava os olhos lá de fora. Desde muito tempo eu recebia ligações de familiares, só que não ousava corresponder aos pedidos de visita em qualquer que fosse o lugar. Quando Roger contou aos familiares que eu estava noiva alguns anos atrás, antes mesmo de ter Hamish, tudo tornou-se duplamente complicado e depois com a chegada de James, a saída mais fácil foi apresentá-lo como marido em meio a chantagens e pedidos frios. Agora, eu trazia a noticia da morte de James como algo novo para eles e fazia passar perante aos olhos como se estivesse de luto. A verdade é que não a nada como uma boa maquiagem, o ar londrino, roupas certas e a ótima atuação de Ham que não tenham surgido efeito. Só que tudo ali entregava-me, tanto Hamish quanto Sherlock encolhido no canto fingindo ser um amigo prestativo ou o anel de noivado da mãe dele, que eu não esperava receber.
– Gostaria de café ou donuts? – Minha mãe perguntou.
– Estou bem, obrigada.
– Está magra demais… Talvez agora… Depois do que aconteceu, você e Hamish possam morar aqui.
– Em New Jersey? Hamish ama Londres…Eu amo Londres, estamos bem.
– Mas ele tem dupla nacionalidade não tem?
– Sim, o que quer dizer com isso?
– Quem sabe… férias ou algo.
– Hmm.
– Seu pai adoraria conhecê-lo.
– É, mais a muito ele se foi.
– Sim, eu sei… — Ela passou a mão pelos cabelos. — Eu estou namorando.
– Eu sei… Andrew me contou... Meus parabéns.
– Porque é sempre tão sarcástica?
– É o meu jeito. Se sabe que meu pai representava muito para mim e suas aventuras românticas durante o casamento foram perdoadas por ele, mas nunca por mim, o que quer que eu faça? Deseje felicidades e que dê certo? – Levantei-me ajeitando as mangas até o cotovelo. – Poupe-me. – Até então ela não havia se dado conta de Sherlock no canto da poltrona fazendo o mínimo de contato possível.
– Café? – Ela ofereceu.
– Chá, se não for incomodo.
– Não é. – Levantou com tamanha rapidez que foi a desculpa perfeita para chamar-me a cozinha. Andei lentamente ouvindo o estalar do salto da bota no linóleo. – Andrew contou quando?
–Uma semana antes, quando respondi por e-mail.
– Você não está aqui porque me deve explicações ou desejar feliz aniversário não é?
– Já dei as explicações sobre a minha vida. Tem fofoca suficiente para você a vizinhança toda.
– Irene, você sempre foi à parte desconexa da família.
–Você acha que por um momento isso me ofende? Dou graças todos os dias por não ter que usar mais seu sobrenome.
– E agora usar Adler? Você acha que seu pai era santo?! – Andrew bateu na porta de vidro da cozinha, era meu meio irmão por parte de mãe, a única pessoa que fazia os dias aturáveis nessa casa.
– Minha Nero. – Ele sorriu, puxando-me para um abraço. Fisicamente parecia Hamish só que com maçãs do rosto bem mais fundas, o corpo um pouco malhado e com vinte e três anos. Chamava-me de Nero por ser “negro”, ao que retribuía ovelha negra.
– Mais que apelido horrível, não já disse para parar com isso? – Ela falou, enquanto movia o conjunto de ossos que chamava de corpo para sala.
– Isso é apenas medo de que algum dia você queime esta casa. – Sorri. Ela passou a xícara de cerâmica com chá para Sherlock.
– O que tem feito?
– Estou oficialmente dentro de algo?
– É mesmo?
– Estou cursando geografia. – Andrew disse.
– Isso é ótimo!
– Obrigado… Hamish é uma graça. – Apertei os lábios.
– Eu gostaria de… – Fui interrompida pelo celular, retirei da bolsa, pressionando contra o ouvido. – John?
– Vai nascer daqui a dois dias! Alguma chance de chegarem a tempo?
– Oh… Podemos tentar, obrigada por avisar, farei o possível. – Guardei o celular, chamei Sherlock, ele pegou seu casaco e o meu. – Boa tarde.
– Já vai? – Ele perguntou. – Mas acabou de chegar.
– Como ela diz. – Apontei para minha mãe. – Meu lugar nunca foi aqui, vem Ham.
– Posso pegar um pouco mais de bolo de mel?
– Precisamos ir. – Ele retirou duas garfadas e ajeitou-se na porta, acenou, pegou minha mão enquanto saíamos.
– Olho para o rosto deles e vejo certa proximidade, mas continuam sendo completamente desconhecidos para mim.
– São até mesmo para mim, Ham. – Olhei a casa ficando para trás enquanto atravessávamos o jardim.
– Foi aqui que você cresceu? – Sherlock perguntou, observando a rua arborizada.
–Sim.
– Tem um ar…
– Quente. – Reclamei, olhando para os arbustos. A rua era larga, perfeitamente pavimentada, com casas de mesmo modelo arquitetônico, sempre com um gramado verde na frente. A casa ao lado era tão desorganizada que me dava calafrios só de ver os brinquedos na frente. Eu costumava visitar a livraria quando era menor e o parque, contudo, na adolescência, implorei por intercâmbio em Londres e depois de conseguir, contanto com essa visita, ao todo foram quatro. Percebi que passei mais tempo sozinha que com a minha família ou qualquer outra pessoa. — Não deveríamos ter vindo.
– Porque não? – Hamish perguntou. Ficamos na parada do táxi enquanto Sherlock sentava-se no bando incolor e ligava para o número da placa.
– Porque viemos atrás de Riley, não da minha família.
– Mas não acharam nada e já estávamos aqui… Que mal faz?
– Porque acha que eu não os visito?
– Ela pediu para que voltasse.
– Ela é uma mentirosa, sempre foi. – Soprei minha mecha do cabelo e tentei fazer um rabo de cavalo. Eu havia esquecido de que essa época do ano só era fria pela manhã, por isso as tardes eram extremamente quentes, agora segurávamos nossos casacos para todos os lugares.
– Não sente falta de seus amigos e dos velhos tempos?
– Eu não sei se você tem maturidade suficiente para entender, Ham… Mas meu lugar nunca foi aqui. Eu sempre tive a sensação de estar perdendo tempo, de algo estar me esperando ou de simplesmente conseguir alcançar algo maior.
– Está dizendo que nasceu na família errada?
– Eu nem sei mais dizer. Minha concepção de família e do modo de ver as pessoas e o mundo mudou já faz tanto tempo.
••••••
Conseguimos chegar em tempo recorde, comprar passagens de última hora porque não deixaram mover para a data estimada, além de passar um bom tempo em dois aeroportos, a princípio apenas Hamish havia conseguido dormir e ainda tinha sido pouco, depois, Sherlock dormira dentro do avião. Invejei-o por conseguir. Passei a maior parte do tempo lendo ou olhando o catálogo de produtos da Duty Free. Quando fazíamos escalas, Sherlock ocupava vários bancos dormindo ao lado de Hamish enquanto eu caminhava, bebia café, tomava conta da bagagem e ficava encarando o relógio, como se o tempo pudesse passar mais rápido, só que parecia fazer o inverso. Aos poucos, a noção de minutos ficou estranha. Quando finalmente chegamos a Londres, Holmes carregava Ham nos braços e eu puxava duas malas de forma desajeitada. Conseguimos um táxi sem cadastro, o que significa que a disponibilidade é fácil, contudo o preço é mais caro. Deixamos Hamish e as malas no apartamento na Baker Street com um bilhete e as chaves ao seu lado, na cama, caso acordasse. Mrs. Hudson já havia ido para o hospital e nós nos encaminhamos também. Eu estava com os olhos ardendo, o cabelo tristemente amarrado e os reflexos lentos. Sherlock percebeu isso várias vezes enquanto segurava minha mão para subir as escadas ou quando eu demorava para prosseguir em uma conversa. Só que ele estava bem, ótimo. Não havia conseguido dormir o suficiente nenhuma vez, mas estava normal, talvez por ter o hábito de ficar acordado por dias, e eu acabava por invejá-lo novamente. Mary estava dormindo e John segurava Claire enquanto Mrs. Hudson ajeitava a bolsa dela.
– Vocês chegaram! – John falou, sorrindo enquanto aproximava-se de nós. Sorri enquanto observava a bebê em seus braços. Era extremamente fofa e dormia tranquilamente.
– É linda.
– obrigado… Prosseguiu com Riley?
– Mais ou menos… Está na França agora.
– Hmm… Posso tirar uma foto de vocês com ela?
– Claro. – Ele passou Claire para os braços de Sherlock, mas ele afastou-se surpreso.
– Eu não sei pegar em crianças.
– Só fique parado.
– Não acho que seja uma boa ideia.
– Só… fique… parado. – Watson repetiu, colocando Claire em seus braços. A princípio ela mexeu-se, mas voltou a dormir. Sherlock estava encostado na parede sem mover um músculo. Era totalmente estranho ver uma figura tão alta como ele segurar algo tão pequeno como ela. Parecia ser mais frágil quando ele segurava-a… E com apenas um braço porque o outro era desnecessário por ela ser tão minúscula. Mrs. Hudson tirou a foto (mas não antes de se atrapalhar com a câmera), Sherlock sorria apontando com o braço livre para Claire enquanto John e eu sorriamos ao lado dele.

– Onde está Gladstone? – Sherlock perguntou enquanto passava-me a bebê de forma desajeitada.
– Coloquei a coleira nele e deixei-o abaixo, no meu quintal. – Mrs. Hudson disse.
– Eu preciso dormir… E comer. – Eu disse, devolvendo-a para John.
– Eu acho que Mary acordará em breve, pode ficar? – Perguntou para Sherlock, que acenou positivamente enquanto sentava-se na poltrona do quarto.
– Meus parabéns John… – Consegui ouvir, após fechar a porta do quarto do hospital. Tropecei, caindo no chão gelado que tinha cheiro de álcool. Levantei-me lentamente e voltei a caminhar com a coluna doendo.
•••*•••
Watson’s POV
– Lestrade, por gentileza, explique da forma mais rápida que você puder, o porquê da chamada. – Sherlock perguntou, segurando um copo de café de isopor com uma torta de frango com queijo derretido no embrulho da StarBucks. Haviamos saído do hospital para jantar e Sherlock não havia comido nada por várias horas e eu já estava com fome, no entanto, em vez de comer antes de responder o chamado de Lestrade, apenas comprou o kit e não deixou-me fazer o mesmo. Perguntei no trajeto, entretanto ele limitou-se a falar com sua voz forte habitual. “ Tudo tem um porquê.”
– Fico feliz que tenha atendido a minha chamada com tamanha rapidez, mas preciso de uma pessoa para começar…
– Poupe-me. – Ele levantou-se da mesa de Lestrade e colocou o recipiente da torta e o café perto dele. – Coma… É só isso que sabe fazer mesmo. – Eu estava escorado na janela que dava uma visão para o escritório. Era normal que uma vez ou outra alguém olhasse para tentar entender o porquê de Sherlock estar ali, ainda mais a mando de Greg. Quando ele movimentou a comida para o inspetor, falou alto, imediatamente fechei as venezianas. Uma ação como a de Holmes poderia facilmente ser interpretada como desacato, mas Lestrade limitou-se a olhá-lo bem nos olhos. Pegou um garfo dentro de uma de suas gavetas e abriu o recipiente retirando uma garfada generosa e preenchendo o ambiente com o aroma. Minha barriga revirou-se, minha boca encheu-se de saliva.
– Em outros dias eu teria realmente me incomodado com isso. – Ele disse. – Mas quero-lhe bem, Sherlock. – Sorri para Lestrade e olhou para Holmes, só que ele não transmitia sinal algum de remorso. Olhei-o novamente, ele virou-se e como um ator de prestígio, já aparentava um rosto de culpa.
– Watson… Sherlock. – Uma voz conhecida surgiu, assim como o barulho da porta ao abrir. Mycroft olhou-me por alguns minutos, sorri e cumprimentei-o, mas ele falava com Lestrade e ainda assim olhava-me. – Chamei aqui… Mas me perdoe John…Você não será necessário aqui. Senti como se fosse uma pontada pelas costas. Olhei para Sherlock com o sentimento de que não era bem vindo.
– O que tem para falar comigo é de interesse meu e de John.
– Você não tem ideia sobre o que é. – Mycroft sorriu, calmamente. – Como pode falar isso?
– Por favor… Eu não sou um iniciante… E sei que tem assuntos que não me dão o direito e nem o cargo para intromissão. Cavalheiros, eu irei tomar um pouco de ar lá fora. – Sai pela porta, observando o escritório e todos os policias menos favorecidos que ganhavam pequenos espaços para dividirem com os parceiros. Estava ocupado demais tentando ler um relatório que estava de cabeça para baixo , quando me reprimi. – Acalme-se . – Sussurrei, pegando um copo com água. Havia aquela sensação de que tudo poderia ser útil e tudo deveria ser evitado. E eu atribuía essa certeza de estar fazendo algo errado ou procurar por perigo do tempo de serviço. Fitei minha perna inconscientemente… E ela doeu um pouco, já sem possibilidades de ocorrer. Psicológico… E então a mão de Holmes estava em meu ombro. Seu rosto estava normal e despreocupado.
– Fome… – Ele disse, sorrindo e saindo pela porta de vidro com entusiasmo.
– O que há? – Perguntei, acompanhando-o.
– Mycroft precisava de um depoimento confidencial para fechar para sempre – Ele enfatizou – o caso de Park Lane.
– Isso é bom. – Sinal de que não seria perturbado. Entramos no táxi, ele entregou um papel para o taxista junto a quantia de dinheiro. O homem olhou-o pelo vidro que separava-o dos passageiros, mas não comentou nada. Holmes ficou calado em sua estranheza pelo percurso todo, quando finalmente chegamos, ocorreu-me de que eu não fazia ideia de onde estávamos indo. Olhei em volta antes de entrar no Shopping. – Ali é Kights Bridge, o que estamos fazendo aqui? Digo, eu ficaria feliz com a comida de Mrs. Hudson. – O bairro era caríssimo e meu salário não andava tão bom. Uma refeição custava pela hora da morte.
– Watson… É por minha conta. – Sherlock disse, como se fosse óbvio até para uma mosca. Envergonhei-me escondendo as mãos dentro do casaco verde. Ele entrou em uma loja de piso polido. Um segurança olhou fixamente para minhas mãos dentro do casaco. Acompanhei Sherlock percebendo ele retirar o casaco e entregar a recepcionista. Então retirei o meu também e estávamos em um corredor com espelhos no lugar de paredes. Sherlock passou a mão nos cabelos rapidamente e desabotoou um botão da camisa. Olhei para mim e não achei nada que pudesse fazer para parecer melhor. Havia um pouco de barba para se fazer, mas nada que eu pudesse dar jeito fora de casa. Quando chegamos ao fim do corredor, á direita uma mulher aguardava com um vestido preto e cabelo preso.
– Reservas? – Perguntou, apertando a caneta com força fazendo o * clic * mecânico. Holmes passou-lhe um cartão e ela abriu as portas que davam para uma enorme escada vermelha. Subi olhando para os lados, mas Sherlock parecia seguro do que estava fazendo. Suspirei. Era um restaurante que pegava aproximadamente todo o segundo andar do shopping. Não era um restaurante caro, era simplesmente um absurdo. Um homem com terno e um pano nos braços passou por nós.
– Mesa para dois?
– Miss Adler. – Ele disse.
– Oh. Por aqui, por favor. – Senti um total desprezo social. O homem a reconhecia pelo nome, suponho que provavelmente ela visitava muito o local e Sherlock também, e eu comia em restaurantes da Oxford Street achando ser o máximo que poderia conseguir. Bufei. Lembrei-me de Mary no hospital e Clarie em seus braços. Holmes indicou-me a cadeira com uma cutucada, Irene estava anotando algo em um caderno sobre a mesa. Os cabelos estavam presos e o casaco azul impecavelmente grudado no corpo modelava-se junto as suas pernas cruzadas com um escarpam. Eu podia ver o jeito que Sherlock olhava-a. Lembrava-me da admiração que ele jurava não ter, mas que eu sabia que tinha. Ela não se incomodou em levantar a cabeça, continuou a anotar. Eu estava sentado olhando-a , quando depois de alguns minutos sua mão fina encostou na dele, apenas virou-a e sentiu o pulso. Ele sorriu e ela levantou a cabeça, bebendo um pouco de vinho.
– Watson. – Cumprimentou-me. Estava muito melhor que da última vez que eu havia visto. As olheiras abaixo dos olhos haviam sumido e o rosto assumia um corado bonito em contraste com a pele muito branca. Se não conhecesse os dois, poderiam dizer que fisicamente eram irmãos.
– Irene. – Falei, sentindo um constrangimento aumentar quando percebi estar provavelmente atrapalhando algo. Entregaram-nos o cardápio e metade da página era em francês. Olhei para os dois, discutindo sobre os pratos normalmente enquanto eu não fazia ideia. Peguei o celular e conectei ao wifi, colocando o nome de cada prato para traduzir enquanto fingia apenas ler casualmente o menu. Por fim, Holmes já havia pedido os pratos quando eu escolhi salmão com um molho que eu precisava espirrar para pronunciar o nome. Estavam falando sobre Maquiavel, depois sobre o contrato social, ideias primórdias de Rosseau e eu queria apenas que falassem de Darwin para aplicar meus conhecimentos médicos.
– Como Mary está? – Irene perguntou, enquanto colocavam os pratos na mesa, e ela pegava o garfo com leveza.
– Muito bem, obrigado. – O homem retirou a tampa de prata do prato fazendo surgir um cheiro apetitoso. – Eu vou ao banheiro. – Disse, guardando o celular no bolso e seguindo a seta do toalete. Lavei as mãos e tentei ajeitar minha blusa. Precisava engomar e o cinto não combinava com os sapatos. Sorri no espelho pensando no motivo que me fazia ponderar sobre essas coisas. Eu achava que a existência de Irene era ligada a de Sherlock, como se pela ideia absurda um sentido dor o outro fosse sentir também. — Queria que você estivesse aqui. – Sussurrei para o espelho pensando em Mary e no pequeno bebê que agora eu sentia falta de ter em meus braços. Senti uma dor na barriga, novamente de fome, tive alguns problemas para secar as mãos, mas resolvi. Quando voltei ao salão, eu estava lentamente absorvendo toda a decoração do lugar, com cadeiras bem feitas e pisos caros, o ar frio do arcondicionado e as tapeçarias, quando observo a ponta do scarpin de Adler subir a coxa de Holmes, ele contorceu-se e bebeu um pouco de vinho. Ela parecia não estar fazendo coisa alguma, seu rosto estava normal, comia calmamente e olhava-o pouco. Quando movimentou a perna ele segurou o pulso livre dela porque o outro segurava o garfo, então ela cravou as unhas cor de sangue em sua mão e ele soltou-a. Lembrei de como eu havia encontrado Holmes deitado no dia em que fora chicoteado pela primeira vez que a viu. Sorri lentamente e ocupei meu lugar. Pedi chá gelado. Conversamos sobre Darwin, porque eu mencionei e Sherlock começou a falar das teorias que acreditava. Quando falamos sobre religião, não consegui entender se Holmes era deísta ou agnóstico. Quando falamos sobre política, Irene comentou quase toda a conversa porque Sherlock não tinha conhecimento algum. Chegou a perguntar quem era o atual parlamentar. Em geral seus argumentos eram perfeitamente ordenados e a postura elegante fazia seu trabalho.
– Acha que teremos uma boa candidatura?
– De modo algum… Aquele ali não se elege. – Ela disse, comentando sobre m homem. Um garçom apareceu tempos depois com outro menu. Era totalmente de couro e dentro vermelho com um tecido gostoso ao tato. ‘ Deserts’, dizia. Olhei para os nomes e obviamente agora era impossível de usar o tradutor novamente. Bati o menu algumas vezes pensando em como contornaria a situação.
– Qual o melhor? – Perguntei para os dois.
– Gosto de Petit… – Ela disse. – E vou pedir agora. – Eu poderia pedir também, mas não tinha conseguido pista alguma sobre o que era.
– Tarte Tatin. – Sherlock disse. – Massa assada de maçã e sorvete de creme. – Ele disse. Acenei um momento, agradecendo com bondade, pedi ao garçom, que anotou prontamente, foram apenas cinco minutos e o homem chegou com um carrinho com vários tipos de coberturas, sorvetes etc. Sherlock mudou-se para a poltrona ao lado de Irene, entregaram um prato do tal “petit gateau” que me parecia um bolo estilo cascata com chocolate vulcânico bem quente. O prato era grande e vinha com duas colheres, o meu também , embora eu tivesse dispensado uma. Coloquei um pouco do creme na boca, o gosto era ótimo, realmente precisava repetir aquilo mais vezes. Quando terminamos, depois de pagar a conta, Irene levou-me para uma loja – ainda no shopping- para escolher algumas roupas para Clarie. Quando chegamos a Baker Street, eu já entrava em casa para guardar as sacolas, liguei para Mary falando sobre minha tarde e perguntando como tudo estava no hospital. Tentei ao máximo confortá-la de que ela estaria em casa em breve. Abri a tv, colocando no noticiário com o volume baixo. Sente-me em minha poltrona preferida que com um pouco de força, ela estendia-se e virava espreguiçadeira. Abri o jornal e cruzei as pernas. Procurei por uma babá de tempo integral, mas em sua maioria as garotas eram novas demais o que me fazia pensar que seriam sem experiência.
– John… John! – A voz de Sherlock parecia um pouco baixa. Abri os olhos percebendo o jornal em meu peito, o celular tocando ao meu lado e a tv ainda ligada. Tinha cochilado. Olhei atônito para o relógio. Onze da madrugada. Levantei-me abrindo a porta imediatamente.
– Sherlock. – Disse, observando-o para de ligar para meu celular. – Eu estava dormindo… Aconteceu algo..?
– Está nos noticiários! Tem um grupo protestando pela falta de capacidade da polícia.
– Existem vários tipos de protestos rolando soltos por aí todos os dias. – Falei, coçando os olhos com força.
– Na intendência de Lestrade.
– Oh. Mas e agora? Ele precisa do nosso apoio? Deve estar um caos.
– Quero apreciar com meus próprios olhos… E o melhor de tudo é que Mycroft ainda foi chamado. – Fechei a porta, trancando rapidamente.
•••*•••
Irene’s POV.
Sherlock estava adorando tudo aquilo. Quando chegamos, um grupo de cinco pessoas protestava na frente da janela de Lestrade. Eu conseguia ver Sally fechando as venezianas para não ter as câmeras bisbilhotando. Para entrar foi preciso Greg pedir para que nos deixassem passar, mas por Holmes, ficar lá fora já era suficientemente “bom” para assistir ao que ele chamava de “presente de natal adiantado.” Mycroft estava batendo na mesa do supervisor chefe, quando pela brecha da porta, avistou-nos e rapidamente veio ao nosso encontro.
– Acredita que isso tudo tem como estopim uma velha? Não posso acreditar como tudo ficou tão infame. – Sherlock sorriu.
– Eu posso. A incompetência é algo que, infelizmente nos dias atuais se vê com grande frequência. – Ele disse, pegando o crachá de Mycroft que estava em uma espécie de colar ao redor de seu pescoço. – Este é seu cargo de mentira? – Mycroft retirou as mãos dele do crachá, olhou-o com raiva. – Poupe-me. – Entrou de volta para a sala. John estava batendo na porta de Lestrade fazia certo tempo. Ficava repetindo que precisávamos ajudar Greg, que ele precisava de nosso apoio e um evento desses poderia significar algum transtorno em seu cargo. Ouvi tudo em silêncio, aguardando John entrar e reprimir a alegria de Holmes, que de cinco em cinco minutos ria alto, fazendo os policiais presentes olharem-no com um rosto sério. Sally abriu a porta, deixando John passar, mas quando viu Sherlock, ficou séria.
– Porque ele sempre está presente em toda confusão? – Perguntou, deixando a passagem liberada.
– Um pouco de café seria bom, Sally. – Greg disse, enquanto falava ao celular. Quando nos viu, pediu um momento e fez sinal para as cadeiras de frente para a janela. Sentei-me em uma delas, enquanto Watson fazia o mesmo. Holmes abriu as venezianas e olhou pela longa janela, conseguindo a atenção de alguns manifestantes.
– Você não pode resolver todos os problemas. – Sally disse olhando para Holmes. – Na verdade, você cria boa parte deles, deve estar adorando. – Sherlock sorriu novamente. – Um pouco de café realmente seria bom, sargento. – Ela olhou para ele com raiva, eu diria que se pudesse já havia esbofeteado lhe a face. Greg desligou o celular, e arrastando a cadeira, colocou-o para carregar. Deu uma olhada para a mulher.
– Sally, por favor. – Disse novamente, referindo-se ao café. Ela saiu batendo a bota com força. John começou a falar:
– Greg, qualquer coisa que precise… Garanto-lhe, eu e Sherlock podemos conseguir com Mycroft…
– Não vai ser necessário… Eu estou colocando uma nota nos melhores jornais… Digo, não é por incompetência como alegam… Não existe realmente nada que eu possa fazer. O caso em si parece uma piada, não vou perder meu emprego. – Ele disse confiante. – Agradeço por terem vindo, é muita consideração. – Olhou para mim e levantou-se. – Coloque juízo em Holmes, ele já está rindo novamente. Quando tiver suas imagens em jornais, não acho que vai gostar muito.
– Não tenho o que mudar nele, já faz parte do que ele é. – Disse, enquanto ajeitava uma parte do vestido azul. – Realmente espero que isso tudo não passe de um mal entendido.
– Já estamos diminuindo a imprensa lá fora.
– Não vai durar. – Um homem disse, lá do canto. Olhei para o barbudo com os olhos pequenos, encostado na ponta da sala. Estava no ponto escuro por isso eu não havia percebido sua presença.
– Estava demorando a falar. – Sherlock disse. – Eu estava só esperando qual momento você iria escolher a hora mais inoportuna.
– Greg está certo, nós já controlamos coisas piores. – Disse, bebendo um pouco de água. Ofereceu a mão para John, que o cumprimentou.
– Oh, pare de falar Anderson. – Holmes disse, pegando o café da mão de Sally, que acabara de entrar. Bebeu um gole e fez careta. – Argh. Isso é horrível.
– É com leite, sem açúcar e não é para você. – Ela disse, retirando o copo das mãos dele e entregando para Greg.
– Porque você diz que parece uma piada? – perguntei, cruzando as penas.
– Porque não existe nenhum crime. A mulher diz que o filho morreu, mas não encontramos sinal algum, pode estar apenas desaparecido… O caso não completou sequer um mês. Ainda afirma que existe algo que “pessoas poderosas” estão atrás, mas não existe nada de valor e sequer cofres na casa. Ela supõe que ainda vai ser assaltada.
– Acho que ela está motivada demais para estar mentindo. – Holmes disse, observando o movimento lá fora.
– Garanto como só quer um espaço na mídia.
– Você garante muito, mas eu acredito pouco. – Holmes disse, saindo pela porta. – Preciso ouvir e criar minhas conclusões. — O gramado estava horrível. A senhora no canto falava pelo microfone com um jornalista. Quando o homem viu Holmes, pediu para que o filmassem e começou a falar rapidamente, perguntando por que de sua presença. Sherlock tocou o braço da mulher e encaminhou-a para dentro. Os policiais não gostaram de sua atitude, já que até o presente momento a mulher estava proibida de colocar os pés ali. Levou-a pelo corredor tentando acalmá-la com minha ajuda. Ela sentou-se na poltrona próxima a janela de Lestrade, John entregou um pouco de água e fechou a porta.
– Não! Não quero falar com ele. Tem ridicularizado tudo que eu falei desde o dia em que colocou os pés em minha casa! – Ela gritou, tossindo imediatamente.
– A senhora, por favor, acalme-se.
– Como acalmar? COMO?! Diga-me você tem filhos?
– Eu tenho…– Disse, lentamente. – Um apenas.
– Então sabe que ele é sua vida. Eu perdi meu único.
– Senhora… Como pode ter certeza, sequer sabe se ele não está desaparecido. É estranho considerar isso como verdade absoluta e se insistir nisso, é capaz de colocarem-na como suspeita. – Eu disse, mas ela pareceu ficar mais nervosa.
– Achei esse tempo todo que a policia era aliada, mas não vejo resultado algum.
– Nós fomos sete vezes a sua casa, minha senhora. – Lestrade disse. – Eu fui pessoalmente, sequer tenho essa área para mim.
– O que você resolveu? NADA!
– Senhora… Por favor, eu não estou ciente do caso, então por gentileza. – Holmes disse, com o resto da calma que ainda tinha. – Conte-me sobre o caso. Ela encarou-o com dúvida e ficou em silêncio decidindo. – Me reconhece?
– Não… Era para reconhecer? – Ela perguntou, retirando os óculos e limpando na blusa.
– Eu estava nos noticiários… – Holmes disse. – Atribuo seu sotaque a índia.
– Karnataka… Bangalore.
– E mora em Londres faz tempo?
– Mais de trinta anos, desde o meu casamento.
– O marido da senhora está lá fora? – Holmes perguntou, olhando pela janela.
– Meu marido já faleceu. – Ela disse, olhando para as próprias mãos.
– Sinto muito. – Eu disse, observando-a.
– Obrigada… – Ele começou a chorar. Anderson deu um lenço e sentou-se perto dela.
– Não existe nada que possamos…
– A senhora pode me contar o que aconteceu? Tem uma manifestação de cinco pessoas lá fora que conseguiu a atenção de Londres.
– Ah… Aquilo lá fora... Minhas economias de uma vida, gastas. Paguei todos incluindo a imprensa.
– Oh. Isso é um tanto perturbador. O motivo, a senhora diz que é a má eficácia da polícia, mas o gasto que a senhora está fazendo, de acordo com essa linha de raciocínio não tem cabimento e nem retorno.
– O senhor não entende. Estou desesperada. Já paguei segurança privada e tudo. Isso foi só o que sobrou de todo o dinheiro que eu tinha. Meu filho estava em Bangalore, como o senhor sabe bem, que eu sou de lá. Passei minha vinda incentivando seus estudos aqui mesmo, porque não vejo sentido em ir para aquelas bandas de novo e tudo de minha vida está aqui agora… Mas este garoto fez direito e abraçou a diplomacia em Bangalore… Depois de dois anos, largou o emprego e foi trabalhar em um jornal conhecido de lá. Foi bom saber que ele finalmente se identificou com algo, mas todas as minhas tentativas de trazer ele de volta estavam acabadas, sequer me dizia o porquê. Começou a escrever livros… Romances bem feitos, que eu adorava ler. Me mandava sempre que podia e constantemente pedia-me conselhos, tanto por telefone como por e-mail… Eu sequer sei mexer direito em computador… Para mim é uma coisa complicada… Mas tenho uma mulher que trabalha para mim que ajuda… Então, quando fui informada de sua morte, trouxeram duas malas que continham todos os seus pertences. Passei uma semana para conseguir saber sobre o histórico econômico… Morava de aluguel, recebia razoavelmente bem e obviamente não deixou herdeiros.
– Descartando a possibilidade de ocorrer beneficio. – Holmes falou, coçando o queixo.
– Agora ocorre de todas as semanas aparecer uma pessoa para oferecer uma quantia pela casa. Desde o começo eu aceitei, a quantia era boa demais para uma casa empenada.
– Empenada?
– As três empenas, senhor, em Harrow Road.
– Oh. É uma casa singular.
– Obrigada, meu marido mesmo a levantou. Por mim nunca sairia dali, mas lhe digo, a quantia era boa demais… Boa demais… Ainda mais agora que eu precisava de dinheiro para utilizar no caso do meu filho.
– A senhora acha que o falecimento de seu filho tem algo haver?
– Sim senhor. Ninguém nunca ofereceu nada pela casa, mas agora, é frequente ter pessoas diferentes oferecendo dinheiro.
– E a senhora aceitou?
– Não.
– Por quê?
– Porque o meu advogado disse, que o contrato especifica que não posso levar nada, só a roupa do corpo.
–Quê? – Holmes disse surpreso. Olhei para a mulher sem compreender. Como seria possível um absurdo como esse? – Realmente é um tanto estranho, não faço a menor ideia do que pode ser feito, absurdo.
– Então o senhor não vai aceitar o caso? – A mulher perguntou, voltando a chorar.
– Claro que vou! Estranho é meu segundo nome. Diga-me Mrs.… Como disse que era mesmo o seu nome?
– Sherlock... Não vou aceitar você fazer isso. A impressa está no gramado, se você sair daqui para entrar em um caso e solucionar sem ser da polícia, vai manchar todos nós.
– Não pode me impedir, como detetive particular eu tenho direito.
– Consultor. – Lestrade corrigiu. – E eu sei que tem, mas isso é um pedido de amigo.
– O que quer?
– O caso será gerenciado por mim e você… Com Philiphe.
– Por quê? Já tenho John e Irene, três pessoas, não seis.
– Tudo bem, John e Irene também, mas seis pessoas sim.
– Lestrade.
– Não poderia nem permitir Irene. – Ele disse.
– Não vou aceitar.
– Lestrade… Coloque seis pessoas, mas saiba que vai sufoca-lo. – John disse.
– Eu sei disso, mas é a reputação da Yard em jogo.
– Quem raios é Philipe? – Sherlock perguntou.
– Sou eu! – Anderson levantou, cruzando os braços.
– Não, não…
Nos dias que se seguiram não ocorreu sequer uma evolução no caso. Lestrade tentava desestimular Holmes, entretanto eu percebia que isso só o fazia criar mais forças para seguir em frente. Eu estava começando a não ver sentindo no caso, mas assim como John, decidimos não transparecer, não pelo menos, na frente de Greg ou Holmes.
– Ele está agindo como uma criança embirrenta, não vê? – Depois de uma semana John confidenciava-me entre sussurros na cozinha. Sherlock me incomodava tanto ultimamente que eu acabava por passar mais tempo em meu apartamento que na Baker Street nos últimos quatro dias.
– Ele está certo de que vai conseguir.
– O que você vê de promissor?
– Dê um tempo a ele… Pelo menos para perceber que não vai conseguir.
– Tenha compaixão dessa senhora.
– Eu estou tendo… E ele também, por isso não largou o caso ainda.– Olhei para ele deitado no sofá afinando o violino novo e Hamish sentando no tapete fazendo a tarefa de classe.
– Meus ouvidos vão explodir. – Watson reclamou, levando a xícara de café consigo enquanto descia as escadas e saia do apartamento. Era verdade que a louça da Baker Street andava diminuindo drasticamente sempre que John se chateava com algo, levava sem nem perceber.
– Não, não, essa questão está errada. – Sherlock falou, riscando de vermelho o caderno de Hamish. — A resposta não pode ser concluída.
– Por quê? – Hamish perguntou. — Porque não é Napoleão a resposta?
– Porque Hitler também cometeu o mesmo erro, como carece de informações quanto à data, você não pode marcar.
– Mas não estudei segunda guerra mundial ainda, estou em revolução francesa.
– Hamish, faça o que eu digo.
– Eu não errei!
– A questão está errada!
– Se vocês não se importarem, eu vou pegar um ar lá fora. – Falei, fechando a porta com força na esperança de abaixar a gritaria. Desci as escadas rapidamente e abri a porta já me arrependendo do frio. Chutei a neve para a rua e cruzei os braços. Depois de algum tempo, um táxi parou em frente ao apartamento, olhei para trás e Sherlock trancava a porta enquanto John saia de dentro do apartamento com o cachecol tão longo que arrastava no chão.
– Aonde vamos?
– Ás três empenas.
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