World Colapse
1 Prólogo
Notas iniciais
O espelho do internato a sugou. Yumi ainda tentava processar isso quando acordou no chão de uma caverna cujos fragmentos do que parecia vidro estavam no ar. Assustada levantou-se atentando-se a cada detalhe do covil no qual estava, com tochas penduradas por um suporte as paredes, um caldeirão e recepientes com conservas de animais mortos. O cheiro metálico de sangue invadiu suas narinas e se permitiu olhar para o bebê dentro da manta que teve sua garganta cortada e jorrava sangue. Ainda usava seu uniforme do internato e o ar faltou em seus pulmões quando saiu correndo para a saída querendo vomitar e só o que viu a cercando era mato.
O barulho de cavalos relinchando a fez respirar aliviada. Ajeitou a saia cuja barra estava suja de sangue, as meias rasgadas na perna e tentou aparentar seu melhor.
A carroça surgiu de repente como uma espécie de luz no fim do túnel.
Colocou a mão para frente e balançou-a esperando que o homem moreno e a mulher loira que a conduziam parassem. E assim foi feito.
—Precisa de ajuda, pirralha?
—Eu... sim... É... Onde estamos afinal? Esse lugar, nenhum prédio a vista e nem sinal de civilização.
—Na estrada a caminho de Braila. —A voz suave da mulher foi quem lhe deu a resposta, apesar dos olhos azuis se estreitarem demonstrando estranhamento a fala da menina.
O sol ainda era ligeiramente forte. Ensanguentada, com a saia de pregas do uniforme rasgada, o par de meias três quartos pretas com buracos e o par dos sapatos de fivela enlameados e ensanguentados, Yumi adentrou na parte detrás da carroça que era coberta com uma tenda e impedia a luz do sol de entrar completamente. Viu o homem loiro sentado no canto onde os raios solares não alcançavam, contudo, ignorou a presença enervante sentando-se num fardo de feno o mais distante que pôde dele e próxima dos dois viajantes que a acolheram. Sua percepção de tudo o que acontecia, não era aceitação, só instinto de sobrevivência.
Passou minutos em silêncio perdida em sua própria teoria do que estava acontecendo.
—Meu nome é Sypha Benaldes. —Apresentou-se a mulher loira de cabelo curto à adolescente quando o transporte recomeçou a rota e a chacoalhar pela estrada de terra esburacada. —O bronco ao meu lado é Trevor e sua companhia aí atrás é Adrian Tepes. E você? Qual seu nome? —Tentou ser simpática. —Suponho que não seja daqui, seus trajes são um pouco diferentes. — Sypha, na verdade, queria muito dizer curtos e inadequados, entretanto, refreou a língua para não soar ofensiva.
A moça de cabelo escuro e longo abraçou-se como medida protetora da qual nem ela mesma estava ciente.
—Yumi. —Respondeu defensiva, soltando um suspiro. —Meu nome é Yumi. —A voz insegura tomou tons de coragem e os olhos hesitantes tomaram uma decisão. — Disse que estamos na estrada para Braila? —Sypha confirmou. — Qual o nome do país? Estamos na Europa? Em que ano?
—Província de Wallachia. Europa. Ano 1476. —A voz forte e grossa, repleta de curiosidade, que a respondeu vinha da penumbra e a fez se arrepiar inteira.
—Wallachia? —Tentou se lembrar das aulas de história, entretanto, nada vinha a sua mente. —1476?! —Repetiu incrédula e com os olhos se arregalando ao máximo. —Isso explicaria... —Observou mais para si e riu negando com a cabeça. —Ainda sim é insano. Como vim parar aqui?— Pensava somente, no entanto, com a voz alta.
— Não é você que deveria saber disso? —Alucard a repreendeu estranhando tais questionamentos.
—Eu... —Ergueu e direcionou os olhos azuis gelo ao canto escuro e viu apenas os olhos dourados que pareciam ouro líquido a estudando e brilhando como os de um animal selvagem na escuridão. — Deixa para lá. Você não acreditaria mesmo. — Tornou fora de cogitação a ideia de contar aos desconhecidos o que acontecia, no máximo seria queimada como bruxa, respirou profundamente. —Eu posso ficar com vocês até encontrar um jeito de voltar para casa? —Sondou.
—A nossa jornada não é para crianças. —Trevor quem tomou a palavra, severo. Sypha deu uma cotovelada nele, mas ele ignorou-a. —Te deixaremos em Braila e nada além disso.
—É... Isso também serve. —Yumi concordou calma. —Agradeço a ajuda, senhor.
—Agradeça apenas se conseguir chegarmos até lá com você viva. —Murmurou o condutor.
Essa fala a causou calafrios.
...
Sangue, cadáveres expostos e dilacerados, podridão e animais carniceiros. Todas as portas e janelas fechadas e nenhuma alma viva vagando. O sol estava sumindo aos poucos no horizonte. Que boas-vindas incrível. Yumi saltou da carroça, sentiu sua bile subir a sua garganta, porém, resolveu não demonstrar o quanto estava afetada na frente daqueles desconhecidos. Em sua mente, sua percepção apurada já tinha se dado conta de que algo muito estranho estava acontecendo. —Merda, onde eu me meti. — Sussurrou incrédula e quis rir da sua maldita sorte. Estava parada atordoada ao lado das três intimidantes figuras que olhavam para o céu como se esperassem por algo. —Me digam, tem algo que eu deva saber sobre esse lugar? —Perguntou com a voz trêmula.
—Está anoitecendo. Vá e se esconda dentro da carroça. —Pediu Sypha.
—Por que?
— As criaturas noturnas! —Trevor que informou irritado e rude, tirando seu chicote da cintura. —Agora se esconda e deixa os adultos enviarem os malditos de volta para o lugar de onde nunca deveriam ter saído.
—Tipo lobos? —Quis saber, curiosa.
—Tipo vampiros e bestas do inferno. —O homem impaciente a corrigiu. —Em que mundo você vive, pirralha? Agora pare de ser curiosa, vá e se esconda.
Yumi assentiu com a cabeça. Quando subiu, sentiu uma mão no seu pulso. Com a mão livre, de dentro da bota, Alucard tirou uma adaga segurando-a pela lâmina e estendendo a desconhecida a empunhadura desta. Yumi a aceitou trêmula e sentindo sua pele se arrepiar.
—Use isso para se defender caso algo dê errado. Feche os olhos e haja o que houver não abra.
A moça fez sinal de confirmação com a cabeça e não pode deixar de dizer:
—Obrigada, senhor.
Adrian apenas voltou a ficar ao lado dos amigos.
Entrou na carruagem novamente sem força nas pernas pelo medo. O sol se pôs. Escutou o que pareciam ser asas. Viu o clarão de algo antes que seus olhos se fechassem de vez e sua boca começasse a soltar preces. Algo remexia a carroça, o som de algo cortando ar era assustador. Encolheu-se abraçando a si mesma e pelo desespero que sentia pelo sons horrendos que escutava, acabou desmaiando.
...
—Até que ela foi bem. Qualquer outro teria espiado... —Sypha limpou o suor na testa de Yumi comentando com Alucard e Trevor, enquanto a forasteira abria os olhos azuis gelo.
Os olhos de ambas eram azuis, apesar disso, os de Sypha eram mais cinzentos.
—Eu desmaiei?
—Sim, tivemos que te carregar até aqui. Além de inútil é um peso. —Trevor relatou sem humor.
A mulher loira sorriu amigável.
—Não liga para esse idiota, a culpa não é sua. —Tranquilizou-a rápido. —Deve ter sido um choque.
—Você fechou os olhos como recomendei? —Alucard quem perguntou notando que ela ainda segurava a adaga com força.
Yumi concordou rápido e sentou-se na cama de armação de madeira, colchão de feno revestido com uma colcha de um tecido derivado de algodão e o travesseiro de penas de ganso com fronha também de tecido feito com algodão. Havia a cama antiga de casal, uma bacia com água na mesa de cabeceira e as paredes descascavam.
—Onde estamos?
—Uma hospedaria. Depois de matarmos os monstros, os cidadãos agradecidos nos deixaram ficar aqui. Nós duas somos garotas e dividiremos o mesmo quarto. Os outros dois vão ficar num no final do corredor. E os cavalos estão nos estábulos.
—Entendi.
—Você não tem para quem voltar? —Questionou Sypha, perceptiva. —Não parava de murmurar e pedir por sua mãe.
—Meus pais morreram quando eu tinha cinco anos. —Contou, um tanto atordoada. —Eu só... Estar aqui ou em outro lugar, não faz diferença para mim. — Constatou com dificuldade. —Eu só preciso de um jeito para voltar para o lugar de onde eu vim porque se não estou lá, me sinto aterrorizada. Eu sei que essa pergunta vai parecer insana, mas... Existe magia aqui?
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