World Colapse
2 Contando a verdade e pedindo ajuda
Notas iniciais
Depois da pergunta todos a olharam calados.
—Esqueçam o que perguntei.
Yumi apenas virou-se de bruços e fingiu estar dormindo. De madrugada, havia se levantado já que não conseguia pregar o olho. Pôde ver pela janela que o sol ainda não havia nascido e apenas o breu dominava o céu. Sua companheira de quarto ainda repousava profundamente na cama que dividiam, não podia culpá-la, afinal, a corajosa mulher havia lutado contra bestas infernais.
Yumi soltou um suspiro grata de verdade pela ajuda e por não ter morrido. Se sentia num jogo de vídeo game onde era a pessoa mais fraca. Na ponta dos pés, abriu a porta cuidadosamente e saiu do quarto cedido. Caminhou pelo corredor com piso de madeira, com candelabros em lugares estratégicos cujas velas queimavam lentamente e antes que saísse para explorar mais sentiu a mão fria na lateral do seu pescoço.
—Não deveria sair sozinha. —Repreendeu-a. —Vamos conversar, certo?
Virou-se para trás vendo o loiro extremamente alto e intimidante. Engoliu o nó que se formou em sua garganta.
—Certo.
Alucard tomou a frente, a guiando até uma parte mais solitária do local. Pararam no fim do corredor que levava a uma solitária janela, de frente um para o outro.
—Se não sabia sobre os vampiros, nem sobre as legiões infernais de meu pai, suponho que não seja daqui. —Iniciou.
—Palpite certeiro. —Concordou ela, sem se permitir olhá-lo.
—De onde você é afinal? Parece perdida demais para ser só alguém de outro país.
—Quanto a isso, você não acreditaria se eu te contasse...
—Tente... — Ele cruzou os braços rente ao peito.
A moça fechou os olhos,—Século XXI, senhor, —Abriu-os espiando qual seria a reação do ser a sua frente, contudo, ele manteve-se soturno. — Cinco séculos a frente do seu tempo. Eu fui sugada por um espelho. —Revelou colocando as palavras para fora como um desabafo. —Agora é a parte que me chama de bruxa e me leva para ser queimada na fogueira. —Supôs, desesperada.
O silêncio se fez presente por minutos que pareceram horas.
—Deve estar sendo difícil para você. —Foi só o que Alucard disse empático.
—Espera, acredita em mim? —A voz recuperou um pouco de vida.
—Isso explica muita coisa. —Arqueou a sobrancelha loira. —Suas vestes, seu modo de falar e o jeito que olha para tudo como se fosse a primeira vez. Trevor e Sypha não estão aptos a lidar com isso. Disse que um espelho a sugou... —Testou-a. A viu mover a cabeça freneticamente em afirmativo. — Depois que veio para cá, viu o que parecia ser fragmentos no ar? —Estudou-a.
—Sim, pedaços de vidros que flutuavam. —Ela concordou com a feição iluminada por algo finalmente estar fazendo sentido.
—Acho que terá que seguir conosco. No castelo de meu pai, pode haver um jeito de enviá-la para casa. O espelho, estava naquele covil?
—Sim, tinha um bebê com a garganta cortada lá—Relatou sentindo calafrios. —E animais em vidros de conserva. Era nojento e perturbador. Que tipo de doente mata um bebê?
—Com uma viagem dessas, o objeto amaldiçoado não terá mais serventia como portal. Você foi sugada e alguém foi levado para o seu tempo, neutralizando-o nos dois lados. Duas almas e corpos viajaram se materializando, isso é contra as leis da física que regem nosso universo, mas a balança manteve-se intacta porque tomaram o lugar um do outro. —Adrian vendo a expressão confusa, decidiu torna-se mais claro. — A bruxa ou bruxo que provavelmente fez o feitiço, tomou o lugar que era seu no futuro. E você tomou o lugar dele aqui no passado. A criança que viu morta nada mais era que uma oferta a algum demônio por esse tipo de sabedoria de usar o espelho para ultrapassar eras.
—Você está zoando?
—Você é a prova disso e viu com seus próprios olhos. —Lembrou-a, impaciente pelo tom desacreditado dela. — Acha que estou brincando?
—O que eu vou fazer? Como vou voltar? —A voz ficou embargada e os olhos se encheram de lágrimas. Ela estava começando a se desesperar. —Eu não vou sobreviver um dia a vampiros e monstros. Não sei nem lutar. Sou um peso morto.
—Eu vou te levar para seu tempo. —Tranquilizou-a colocando a mão no ombro dela, sentindo piedade. —E vou proteger você até lá. —Tocou-a no rosto que parecia de porcelana com a mão gelada enxugando o rastro de lágrimas com o polegar. — Ficará tudo bem, criança.
—Como faremos isso? —Indagou-o sem voz. —Teremos que matar um bebê também para conseguir esse tipo de ensinamento macabro? —Questionou em pânico.
—Não, —Acalmou-a tirando a mão da bochecha dela. — Por acaso, meu pai tem livros com este tipo de feitiço que até então julguei ser apenas teorias loucas. Quando chegarmos lá, vasculharei toda a biblioteca até encontrar um modo de te levar para o seu tempo sem machucar ninguém.
—Obrigada. —Disse fungando e limpou as lágrimas que desceram.
—Não precisa agradecer. Até lá, preciso que haja como se pertencesse a esse tempo.
—Eu vou tentar.
—Amanhã, quando o mercado abrir, teremos que comprar novos trajes para você. Para essa época, você está muito exposta.
Yumi olhou para as pernas descobertas e lembrou-se dos olhares dos homens que agora que os entendia causavam ligeiro desespero e vergonha. Não que em sua época não fosse assim também, todavia, como estava no passado, pelo que sabia de história o sistema ainda era muito patriarcal e mulheres ainda não podiam se vestir do modo que quisessem sem serem rotuladas.
—Certo.
—Vá dormir agora.
—Sim.
...
Trevor e Sypha procuraram pelos outros dois quando acordaram, olhando um para o outro em pânico, no fim não os encontraram em lugar algum do estabelecimento. A dona do hospedaria vendo o rosto confuso de ambos, sorriu.
—Seus amigos saíram bem cedo. O rapaz falou em comprar vestimentas novas para a moça.
—Ele falou mesmo isso? —Trevor estava desconfiado. Primeiro porque Alucard até então só parecia um cavalo pronto a dar patadas em todo mundo. Segundo porque não sabia que o maldito tinha dinheiro se soubesse ele que teria arcado com os custos até agora.
—Sim.
—Hm... ela realmente precisa de algo mais digno. Ou será tachada como meretriz. —Sypha conversava consigo mesma.
...
A roupa que Yumi escolheu era uma calça de couro envelhecido, uma camisa de algodão bufante e botas de couro envelhecido. Já vestida, como não tinha espelho ali e pegou trauma de um de qualquer forma, apenas respirou fundo sabendo que estava ajustado nos lugares certos. Alucard apenas analisou a vestimenta com a sobrancelha arqueada e sem dizer nada.
Quando terminaram, o dhampir pagou o vendedor com dez moedas de prata e o casal começou a caminhar junto pela feira. A cidade que parecia deserta à noite, agora de dia e sobre a proteção do sol fervilhava de gente.
—Podia ter comprado o vestido também.
—Menos prático se eu tiver que correr de um bando de monstros. —Explicou a ele sorrindo lindamente porque agora se sentia mais segura e menos assustada. —Na minha época mulheres também usam calça, sabia?
—Não estamos na sua época, estamos? —Revidou, impaciente.
A mudança repentina de humor dele meio que acabou com ela.
—Posso cortar meu cabelo então.—Por algum motivo tentou agradá-lo. Era a primeira vez que alguém a protegia.— Como meu corpo quase não tem curvas, ficaria parecida o suficiente com um homem. Então não teria problema, teria?
—Apenas mantenha-se assim. —Ordenou, rude. — Tente não agir como se fosse de outra época ou a igreja pode acabar te acusando de bruxaria. —Falou obscuro. —Não que eles geralmente precisem de motivos fortes para fazer isso com alguém.
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