World Colapse
5 Ciúmes
Notas iniciais
A fogueira feita na bela clareira na qual pararam para passar à noite crepitava. Havia restos de peixe assado na frigideira. O anoitecer pintava o céu com seus tons escuros. Os sons dos animais, das conversas e do chicote cortando o ar invadiam seus ouvidos sem que tivesse controle por sua audição privilegiada e na maioria das vezes inoportuna. Adrian estava devaneando assistindo o fogo tomar várias formas como uma brincadeira de Sypha para descontrair da incerteza que todos carregavam. Os cavalos comiam algo na vegetação amarrados as árvores e havia quatro mantas estendidas sobre a vegetação para quando o sono chegasse ao quarteto. Yumi conversava animadamente com Sypha enquanto a oradora a mostrava seus domínios com os quatro elementos e a jovem aplaudia admirada como se fosse um show de mágica para Alucard completamente desnecessário e irritante. Já Trevor apenas treinava com seu chicote nas árvores fingindo que elas eram seus inimigos.
Em algum momento, sob o olhar avaliativo do ser do qual não estava ciente, a atenção da menina foi ao caçador realmente sem fala.
—Então é assim que mata os monstros?
—Nem todos nós temos poderes, pirralha! —Constatou o moreno debochado.
—Uau! —Mostrou os polegares em apoio— Quero ser igual você!
Trevor gostou do elogio, mas fingiu não ouvir e continuou a se exibir.
A loira sorriu.
Alucard apenas arqueou a sobrancelha pela fala da outra.
—Não caia nessa, Yumi... ele foi treinado para isso desde do nascimento. A família dele era bem conhecida por caçar monstros. —Comentou casualmente instigada pela empolgação nos olhos gelo da mais nova. —Já o Alucard tem poderes incríveis por ser mestiço. Um aliado sem a menor sombra de dúvida indispensável e bem mais interessante.
A palavra mestiço fez o dhampir franzir a testa querendo assassinar a loira e Sypha sentiu a aura de ódio.
Quase que de imediato o loiro focou-se no rosto de Yumi buscando algo que indicasse o dissabor que viu quando ela foi possuída.
—Incrível! Deve ser bem legal ter poderes de vampiro e poder contemplar a luz do dia ao mesmo tempo, né Adrian? —Questionou mais alto, inocente e eufórica, apesar de saber que se continuasse no mesmo tom ele escutaria.
—Se você enxergar por esse lado. —Disse insondável e se levantou começando a adentrar a floresta.
A oradora e a viajante do tempo trocaram um ligeiro olhar cúmplice e tiveram uma conversa muda. Saindo de perto de Sypha depois de ter permissão mesmo que não dita da impressionante mulher, Yumi saiu correndo.
Ele estava muito longe.
Ofegante, tocou-o no ombro fazendo Adrian parar de andar, apesar de continuar de costas a ela e contemplando a lua, cuja luz adentrava timidamente pelas frechas entre as folhas das árvores.
Yumi só tinha uma sensação horrível no peito de que alguma ação sua o chateou.
—Eu... —Engoliu em seco. — Senhor Tepes...Eu...
—Adrian. —Ele a corrigiu friamente.
—Adrian... —Ela chamou-o e abaixou a cabeça sem saber como começar, fitou ao chão fazendo desenhos na terra com a ponta de sua bota. —É claro que eu admiro que Trevor tenha tido que aprender suas habilidades porque também terei que aprender a me defender para sobreviver enquanto estiver aqui já que não tenho poderes como Sypha e você. —Revelou acanhada e de uma só vez. —Ele é o único humano como eu.— Explicou gesticulando muito tentando se explicar. —O que quero dizer é....Hm... —Coçou a cabeça. — O termo mestiço soa bem ofensivo, contudo acho bem legal que sua mãe e seu pai tenham tido você. É a prova do amor deles e do melhor dos dois lados. Você é fruto do amor de duas espécies que não deveriam se apaixonar. É tocante e lindo.
Virou-se e a confrontou incrédulo, com certo cinismo e amargura, se lembrando apenas do nojo do espírito da katana refletido nos belos olhos dela. No entanto agora vendo os olhos gelo brilhando e o sorriso sincero que lhe era dirigido abaixou suas defesas e seu rancor sumiu de imediato sendo substituído por uma vontade gigante de estar a altura de toda aquela admiração.
—O que quer afinal? Não vê que quero ficar sozinho? —A voz era sinistra.
—Desculpa se eu te ofendi com algo na conversa, eu...só falo merda, Adrian... —Soltou um suspiro. —Muita merda. Quem me dera não ter que me esforçar e já ter poderes tão maneiros quanto os seus. —Foi atrevida.
—Não deveria ficar aqui sozinha comigo... —Avisou-a homicida. —Apesar de comer comida humana eu ainda tenho sede de sangue. Essa é a parte nojenta da minha natureza que julga ser tão erroneamente um privilégio. Saia.
—Ah... —Ela continuou observando a terra. —Você me machucaria então para beber de mim?
—Sim.
Ergueu os olhos de repente encontrando os dourados dele com algo tão submisso e devoto que o deixou sem fala. Havia fascínio derretendo aquele gelo ou ele estava louco?
—Ah...Entendi. —Murmurou somente parecendo hipnotizada. —E se eu te deixasse beber?
—Enlouqueceu?
—Eu tenho que te pagar de alguma forma por estar me ajudando. —Inventou uma desculpa para não parecer uma masoquista nata. — Sangue é só sangue. Está tudo bem para mim.
—Tem ideia do que está falando? A mordida machuca. Eu te drenaria muito e ficaria fraca. Eu teria acesso a tudo sobre você. O sangue fala. É por isso que só bebo de animais.
—Seus avisos não foram um não. —Se deu conta esperta. —Quer dizer que está tentado a isso, Adrian. Ótimo. —Desfez o primeiro nó da camisa que usava e recostou-se contra uma arvore, tombando a cabeça para o lado, afastando o longo cabelo escuro e expondo o pescoço. —Venha. Beba...
—Se algum daqueles dois nos ver fazendo isso tem ideia do quanto eu pareceria um monstro?
—Eu estou dando meu sangue a você por livre espontânea vontade.
Eu quero sua mordida cravada na minha pele para que quando eu for embora, eu lembre de você.
Alucard seduzido pelas palavras foi até ela, fora de si. Soltou um suspiro. As presas foram a jugular no pescoço e a sentiu estremecer, ficando na ponta dos pés e passando os braços envolta do pescoço dele.
A mordeu esperando um grito e o que teve foi um gemido vindo do mais profundo da garganta dela, tirou as presas e começou a chupar o sangue delicioso que escorria lentamente e o corpo colapsou no dele. Escutou gemidos tímidos. Ergueu-a do chão, fazendo-a passar as pernas por sua cintura enquanto continuava a drená-la e a ouvir sons cálidos e sublimes como os de uma gata manhosa. A imagem de sua mãe alimentando seu pai que não entendia e julgava horrenda, nunca fez tanto sentido quanto agora ao entender o que a mordida significava e o laço de dependência que se formava.
—Adrian... —Chamou o nome dele. —Isso é um segredo nosso, certo? —Pediu-o sem forças.
—Sim.
Mordeu o próprio pulso e o estendeu a ela.
—Beba para que se cure mais rápido.
...
Quando Alucard chegou com a garota desmaiada em seus braços, Sypha não fez perguntas e nem deixou Trevor se aproximar o distraindo com elogios. Alucard depositou Yumi sobre a manta olhando-a dormir. A mordida havia se fechado por ter dado seu sangue a ela e agora sabia que cada palavra do que ela havia dito sobre o futuro era verdade devido os flashs da vida dela em sua cabeça.
—Alucard, você vai dormir com ela aí? E você dizendo que não estava apaixonado pela pirralha.
Com essa fala de Trevor, o dhampir apenas se levantou e foi até a manta ao lado da de Yumi.
—Eu não estou.
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