World Colapse
6 Toda ação tem reação
Era uma manhã cheia de nuvens escuras carregadas de um mau agouro. O viajante de terras longínquas trazia uma espada nas costas. Pendurada em seu pescoço por uma tira de couro uma pequena cruz de madeira que ganhou de um missionário a quem salvou a vida na China. O cabelo escuro e longo voava com o vento forte carregado com o cheiro de maresia. Seu porte esguio e alto se destacava inclusive pelo solene Hanfu preto que usava com bordados em ouro e sua expressão inabalável e ao mesmo tempo obscura. Seus olhos escuros eram ligeiramente puxados e seus lábios eram curvados num sorriso frequente de deboche.
Baozhai por fim havia chegado à terra que fez Kai, o missionário, correr para à China que era a um oceano de distância. O lugar que foi amaldiçoado por um vampiro. Considerando que vivia procurando inimigos mais fortes sentia-se estimulado como há muito não. E isso tornava as coisas bem interessantes. Arqueou a sobrancelha instigado vendo os cadáveres no chão enquanto mesmo com horror mercadores seguros pela luz do dia continuavam fazendo seu trabalho.
Atravessou a ponte de madeira do barco até o porto e levou a mão ao crucifixo.
—E agora, Deus? Dizem que é assim que devemos começar.
O rapazote vinha logo atrás do imponente homem carregando várias malas.
—Amo, por favor, espere por mim. —Choramingou.
...
O belo lago cristalino da clareira tinha agora duas beldades dentro dele. Os pertences delas estavam colocados numa pedra próximo da beirada com o sutiã e calcinha de Yumi como destaque, já que Sypha usava apenas uma calça por baixo da túnica. Os seios pequenos de Yumi e seus mamilos eram cobertos pelas pontas do cabelo longo. Já os médios seios de Sypha expostos sem preocupação apesar dos rapazes estarem um tanto perto, ela realmente não se preocupava. Mesmo com o dia frio a água era morna.
Sypha a deu chá de gengibre e canela mais cedo e agora uma folha de hortelã para que a moça a mastigasse. A forasteira havia escovado os dentes com o dedo, mastigado a folha de hortelã e então cuspido sentindo o hálito fresco com alívio.
Sypha cedeu sua essência de banho que ela mesma fazia com limão, sal e canela para suprimir o cheiro azedo e fazê-las percorrerem longas distâncias sem precisarem de um banho.
A mais nova observando tamanha praticidade se perguntou o que aconteceria quando ficasse menstruada, porém rezou para que quando acontecesse já estivesse de volta ao seu mundo, quer dizer, a sua época. Se não seria muito constrangedor perguntar.
—Então, se sente mais limpa?
—Bem melhor. —Deu um mergulho brincalhona.
Sypha sorriu se sentindo acalentada e um tanto menos alerta agora que havia tomado as devidas precauções.
—Aproveite, não é sempre que tomamos banho. No máximo passamos um pano molhado nos lugares que mais causam incômodo. Amasso flores que quando conservadas por elementos etílicos fazem o cheiro de frescor mais duradouro debaixo dos braços.
No meu tempo chamamos isso de desodorante e perfume. Ela é bem inteligente com certeza a igreja a consideraria uma bruxa. Aqueles malditos.
—Sabia que os sentidos de um vampiro são os de como um animal selvagem? Eles sabem identificar todos os tipos de cheiro, um corte, sangue e o de excitação inclusive. —Tocou no assunto como quem não quer nada.
—Eu não tinha ideia. —Confessou realmente ingênua.
— Ontem, quando você e Alucard voltaram da floresta, você estava dormindo ou exausta apenas? Não consegui discernir bem.
As bochechas de Yumi ganharam um tom rubro que a denunciava.
—Do-dor-dormindo já. —Mentiu. —Eu acabei pegando no sono e...
— Sabe, dizem que vampiros também exercem uma espécie de fascínio que é como predadores atraem uma presa. Interessante, né?
—E-eu garanto que estou bem. —Tentou inutilmente ao ler a intenção incisiva de Sypha. No fim derrotada, acabou levando num reflexo a mão ao pescoço e sentindo ligeiros relevos da mordida que eram cicatrizes mais pálidas três tons que a cor de sua pele original, e por não ter espelho não podia vê-las só sentir os dois furos.
—É comum de vampiros terem vários amantes de sangue. —Sypha apenas continuou com a indireta. — Não têm exclusividade com nada nem ninguém além do sangue.
—Já entendi, Sypha! —A voz saiu impaciente e embargada.
Sypha soltou um suspiro e negou com a cabeça em desaprovação. Pensando: Isso é tão doentio, Alucard. Ela é só uma criança em conflito. Está usando a proteção que a oferece como moeda de troca para drená-la. Mesmo que ela quisesse algum de vocês deveria ter tido juízo.
—Que bom. Bem, tenho uma barra de sabão. Vou pegar para você. Lave seus trajes e os coloque para secar, Yumi. O dia não está propício, mas pelo visto é como eu e não gosta de suor. Por isso é sempre bom ter uma muda de vestimentas limpas Termine de tomar banho, pentearei esse ninho que chama de cabelo e te emprestarei uma de minhas túnicas.
Yumi sorriu e agradeceu com um meneio de cabeça.
Trevor preparava os cavalos para a partida deles junto a Alucard enquanto as moças se banhavam. Os dois mantinham-se calados enquanto colocavam as rédeas nos dois equinos e evitavam olhar de onde vinha o barulho de água.
Aproveitando o momento oportuno, cortou o silêncio tenso:
—Ontem, o que disse sobre eu estar apaixonado, pare! Yumi pode ouvir e alimentar ilusões, eu não sinto absolutamente nada por ela além de piedade!
O caçador deu um meio sorriso analisando a criatura.
—Ora, ora... Não está mais aqui quem falou. Mas é bem óbvio que ela sente muita coisa por você, messias com presas. —Jogou certeiro. —Ela deve ter o alimentado, sua cor mudou para algo humano, Deve ser o maldito sangue dela pulsando nas suas veias.
—Essas palavras acusatórias, pare com elas já. —Ordenou furioso. — Vai criar algum mal-entendido. A vejo como uma criança, nada além disso.
—Antes era uma chave, depois foi sua amante de sangue e agora uma criança de novo. Sei não. Essas nuances tão rápidas em tão pouco tempo. Tome cuidado. Como seu pai com Lisa Tepes, logo ela pode se tornar sua noiva humana sem você se dar conta. —Riu um pouco incrédulo. —Apenas arque com a responsabilidade das suas escolhas, maldito. —Mandou ficando sério. — Sypha tentou me distrair ontem só que ainda vi a marca de suas presas no pescoço da pirralha.
—Não se meta nisso.
—Acredite não estou me metendo como eu deveria o que no caso seria enfiar uma estaca em você! —Entredentes apontou para o dhampir. — Se quando aconteceu ela não saiu correndo pedindo ajuda para mim e Sypha esse vínculo nauseante já se torna entre vocês. —Revirou os olhos azuis esverdeados. —Eu podia só ignorar, mas estou preocupado com ela e Sypha também. Escute, apenas pare de brincar de me mostre o seu que eu te mostre o meu se não quiser levar isso além. Você sabe que escravos de sangue criam dependência de seu mestre como se fossem malditos cachorros. Eles se tornam quase devotos e viciados em serem mordidos pelo prazer que a mordida dá.
—Estou ciente disso. —Falou com a sobrancelha arqueada. —Mas ela quis.
—Que feio, empurrando a culpa toda na garota. Você que é o mais experiente aqui, sabia das consequências, devia ter pensado nisso, não ela. Já pensou que o que a pirralha sente é gratidão e talvez não estivesse ciente do que a mordida acarreta? O sangue dela está fazendo o seu coração bater agora, percebe a intensidade disso? Sangue é vida, a vida dela está fluindo dentro de você. Para não ter ficado ferida é obvio que trocou sangue com ela também e isso só piora tudo. —Acusou-o.
—Ela quis também, porra! —Alucard continuou se defendendo se sentindo contra a parede e passou as unhas grandes pelos fios loiros. —E eu não podia deixá-la sangrando então dei meu sangue para que se curasse. —Justificou-se. — Nada além disso. Assunto encerrado?
—Espero mesmo que seja só isso, Alucard. — O Belmont negou com a cabeça transtornado só de imaginar nas consequências de uma mulher magoada.—Esqueçamos então. A merda já foi feita. —Resmungou Trevor. — As ruinas da mansão dos meus antepassados estão perto daqui. Estive pensando em pararmos uma quinzena de dias para nos prepararmos mais.
—Acho essa uma ótima ideia.
—Bem, somos tudo o que há entre essa maldita terra e Drácula e o seu exército. Qualquer ajuda e preparo a mais é bem-vindo.
...
A túnica de Sypha ficou bonita nela apesar de um tanto comprida. Como algo casto e angelical. O cheiro de flores e canela invadiu suas narinas como um soco deveras irritante pelo excesso que quase o fez espirrar enquanto a garota caminhava até ele com um sorriso e com o longo cabelo preto parecendo ainda mais sedoso por agora estar desembaraçado e penteado para trás sem a franja o fazendo ver o rosto oval por inteiro.
—O que essa menina tem de cabelo, Deus do céu. —Sypha reclamando tirou os fios do pente de ouro que foi presente de seu avó quando fez quinze dias do seu nome repreensiva. Apesar de usá-lo bem rapidamente em si mesma já que seu cabelo era curto, foi bom para ela pentear o cabelo bonito de Yumi e a despertou quase um instinto materno em relação a mais nova. —Quase não termino de desembaraçar. Foi tempo dos trajes dela terminarem de secar. —Estava com a calça de couro e a camisa da outra em mãos dobradas. —Vou colocar junto com minhas coisas, Yumi.
—Sim, Sypha. Obrigada.
—Não por isso. —A loira disse doce caminhou até Trevor e trocou um olhar significativo movendo os lábios para ele num “está feito". ——Então, seu palerma, tudo pronto? —Confrontou-o a mulher subindo na carroça, pegando sua trouxa de pano vendo a Katana que estava perto com ligeiro interesse e desamarrando o emaranhado de panos colocando os trajes de Yumi com os seus e os vidrinhos com essências, a fechando novamente.
—Tudo. Só faltava vocês.
—Não enche.—Revidou. —É claro que demoraria, tivemos que nos lavar com essências dos pés a cabeça.
—Usaram essências então? —Adrian quem sondou. —Geralmente só usa sabão, Sypha.
—Pois é... Mas um aroma mais forte para garotas é melhor convenhamos. Yumi ainda tem um cheiro demasiado doce que atrairia monstros horrendos. —Sorriu sagaz. — especiarias o camuflam.
Yumi apenas abraçou Alucard de imediato, mantendo-se com ele e repousando a cabeça no peito do homem manhosa.
Apenas levou a mão aos fios macios dela, tentando não afastá-la apesar do aroma que emanava dela ser exaustivo aos seus sentidos.
—Fazia tempo que eu não tomava banho num lago. Foi bem legal. —Segredou-lhe empolgada num tom baixo.
—Na sua época há algo que chamam de piscina, não é criança?
O encarou surpresa e sussurrou:
—Como sabe...
—Sei um pouco do seu mundo agora. —Admitiu num tom baixo, pegando a mão pequena na sua grande. —Sei da diretora que te batia e te colocava sozinha num quarto escuro. Do filho dela que tentou te tocar e você foi culpada injustamente de tentar seduzi-lo. —Sussurrou na orelha dela. —Sofreu tanto naquele lugar...
Yumi ficou sem ar, quis chorar pela vergonha de seus traumas passados.
—Meu sangue te mostrou tudo isso? —Questionou com a voz embargada.
—Sim...
—Eu... —Ela negou com a cabeça angustiada.—É constrangedor que saiba disso. Eu...
—Essa é a consequência de me alimentar. —Quis testá-la—Se arrepende, minha criança?
—Se sabe tudo isso sobre mim, você já sabe a resposta a essa pergunta suponho.
Alucard sorriu.
—Sei? — Foi traiçoeiro. —Quero ouvir de você.
—Não me arrependo, Adrian.
O cheiro de flores e canela era tão forte que ofuscava o traiçoeiro cheiro que o denunciava os desejos obscuros da jovem e o faziam sentir-se bem consigo mesmo em brincar com ela.. Não sabia mais o que Yumi emanava no que outrora era um cheiro gritante de fêmea no cio.
Lançou um olhar assassino a oradora, que apenas cruzou os braços rente ao peito e o cedeu um risinho de vitória.
...
Estou ciente de minha condição pecadora e da minha arrogância e orgulho. Estou ciente de que tive outra crença antes de ti e pequei várias vezes adorando outros deuses. Mas abandonei a fé de minha infância, porque tu és o Deus único e meu coração treme reconhecendo a majestade de Cristo, teu filho. Pai, consola-me no medo que me atinge e me estremece por estar longe de minha pátria para enfrentar algo que desconheço. Deus de Abraão, Isaque e Jacó, de um homem rico me fiz pobre e destitui-me de tudo o que nos afastava. Desfiz-me de todas as minhas terras e as dei aos necessitados pois creio em ti. Minha espada defende os oprimidos. Expulso demônios em teu nome e alimento os famintos. Estou desamparado sem ti e sei que não mereço tua misericórdia pois meu pecado é uma vida inteira contra o mandamento, mas peço por teu filho Jesus que conheceu os mistérios da paixão de Cristo, vento do espírito sopra em mim para que eu saiba qual rumo tomar. Nessa terra amaldiçoada e corrupta que tua luz brilhe de novo e eu seja instrumento para tua glória. Que seus inimigos vejam o teu esplendor em mim, senhor dos exércitos!
A primeira carroça que avistar na estrada . Os faça parar e terá suas respostas, Baozhai. Eles serão aliados a sua causa. Lembre-se os que não estão contra você, estão com você.
És o vento do espírito e ouço tua voz. Não sei de onde vem, nem para onde vai, mas sei que quero segui-lo. Se essa é a sua vontade a seguirei de bom grado. Obrigado, pai. Grande são as graças que recaem sobre este servo. Que teu nome seja louvado e glorificado eternamente. Te peço e te agradeço em nome de teu filho Jesus. Amém.
O homem meditava sobre o pedregulho com uma expressão serena e algumas lágrimas também desceram enquanto o jovem enfezado vigiava as malas.
De repente, seu senhor abriu os olhos escuros e ele saltou com agilidade da pedra mantendo a mão no ombro do menino
—Pare a carroça que aparecer, Yan.
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