Words are all we have
1 Capítulo 1 E continuamos conversando
Notas iniciais
Olímpio saiu de casa correndo, afinal era o primeiro dia de seu último ano na escola. Por um lado ele receava perder algumas pessoas na qual ele havia convivido por tanto tempo, porém, finalmente ficaria livre para sair daquele lugar no qual tinha passado tanto tempo.
Não tinha um pingo de fome, mas por algum motivo sua barriga parecia borbulhar. Todo ano era essa mesma sensação, por mais que falasse que “estava pouco se fodendo” pro começo das aulas, não era assim. Cada vez que o ano escolar começava ele se lembrava que poderia ver o rosto que não tinha visto nas férias. Conversar com alguém pelo computador é uma coisa, agora, poder olhar nos olhos de alguém tão importante para ele, era outra.
Por mais que pensasse que não viria ninguém de novato no último ano, esse pensamento o atordoava, não gostava de pensar em alguém novo pra estragar alguma amizade ou conquistar alguém que (ele imaginava) ser dele. Não. Não era isso que queria.
Olímpio havia se admitido gay há alguns cinco meses e nunca se sentira melhor, sentia-se livre para ser a pessoa que estava presa dentro dele por todos aqueles anos. Sentia que finalmente estava vivendo a vida que ele queria, que merecia. A aceitação da família foi positiva, por mais que de vez em quando houvessem piadinhas homofóbicas, Olímpio tentava entender que nem sempre os outros – que normalmente eram visitas – sabiam de sua sexualidade.
Infelizmente, na escola havia uns colegas de classe que sempre o perturbavam quando podiam, desde clássicas piadas infantis até algumas que realmente o ofendiam, mas Olímpio os ignorava e só desabafava com os amigos:
– O que esses marmanjos tem haver com o meu brilho? Com minha sexualidade? Não tenho paciência não.
Não entendia o que seu melhor amigo, desde o primário, via nesses caras. Mathias, sempre acompanhava Olímpio, os dois se davam muito bem, saiam sempre que podiam, as vezes só pra acompanhar o outro a ir na farmácia, as vezes pra falar sobre algum problema mais sério ou até para conversar sobre a semana, sobre os outros, sobre as pessoas que viam, sobre os colegas, sobre uma nova música, sobre qualquer coisa.
Essas saídas geravam comentários maldosos de que os dois estavam namorando ou fazendo até ‘alguma coisa a mais’, o que acabava deixando Olímpio bem constrangido, já que quem os recebia sempre era ele por não conseguir se defender tão bem como Mathias. Porém Mathias, por mais que ficasse bravo com a situação nunca falava, seriamente, sobre o que achava de tudo aquilo, normalmente o que ele dizia pra reconfortar o amigo era algo do tipo:
– Aquelas vadias só falam isso porque queriam ter alguém como eu.
– Ah, há. Como você? Quem iria ter alguém como você, Mathias? – disse Olímpio soltando uma gargalhada demorada.
– Pelo o que aquelas galinhas falam.... Você! – Mathias levantou uma sobrancelha, se esforçando para não rir enquanto tentava lançar um olhar desafiador para o menor.
Olímpio, mesmo corado, não deixava barato. Normalmente as conversas dos dois permaneciam por horas e horas a fio. Nunca se cansavam de escutar a voz do outro.
Normalmente não conseguiam se encontrar nas férias, por mais que Olímpio ficasse em casa o tempo todo, Mathias não. A família de Mathias tinha uma fortuna, então viajam o maior tempo que conseguiam nas férias, o que normalmente era os três meses de descanso que os alunos possuíam. Isso só fazia as férias de Olímpio ficarem mais entediantes, não que ele deixasse de falar com o amigo, a Internet está aí pra isso, mas não era a mesma coisa. Sentia falta de Mathias do seu lado, na sua frente, o sentimento era diferente.
Notou, na escola, que havia um grande número de pessoas lá. Início de ano era sempre isso .
Procurou seu melhor amigo mas não o encontrou, “Provavelmente ainda não chegou” pensou Olímpio, foi tentar alguém da sua sala, de seus amigos. Encontrou um ou dois e começou a conversar. Descobriu que tinha sim um aluno novo no terceirão.
– Quero nomes, Rosa.
– O que você quer que eu diga?
– O nome do boy novo, não entendeu miga?
– Tá, pelo o que eu escutei é um tal de Arthur Sachet.
– E ele vai ficar na nossa turma ou vai ir pra ‘A’?
– Vai ficar na nossa turma, sim. Mas não sei mais nada sobre ele.
– Que merda, espero que o Mathias chegue logo, tenho que contar essa pra ele...
– Ué, não é ele ali? – Disse a Rosa apontando para a portaria, na qual Mathias havia recém fechado a porta e estava tentando se localizar no meio daquele povão.
– Tchau, Rosa!
– Tcha... – Ela não conseguiu terminar a frase porque logo em seguida Olímpio estava gritando sem parar o nome de Mathias para tentar chamar a atenção daquele garoto.
Mathias pode reparar que Olímpio estava balançando os braços sem parar e tentando se levantar na ponta dos pés para tentar se destacar mais. Havia conseguido. Mathias levantou a mão e abanou de volta, de uma maneira que Olímpio soube que seu amigo havia o localizado e estava indo lá.
Então, Mathias chegou e os dois se cumprimentaram e começar a conversa. Olímpio ficou sabendo que dessa vez Mathias tinha ido para o Caribe e que havia conhecido umas pessoas novas, com isso Olímpio sentiu que uma pitada de ciúme cresceu ligeiramente dentro dele, porém tentou disfarçar da melhor maneira possível.
Subiram para suas salas de aula e nada do novato aparecer.
O primeiro dia de aula se fora e sem nenhum sinal do tal Arthur dar as caras. Saindo da escola, os dois fizeram o caminho de casa e chegando perto da moradia de Olímpio, ele soltou a bomba:
– Então, tem um novato esse ano.
– Ai céus! Quem é?
– Quase ninguém conhece, acho que é de fora, ou uma vez já foi daqui. Pelo o que eu sei, seu nome é Arthur. Arthur Sachet.
– Não conheço. Nunca ouvi falar.
– Mas o que você acha....?
– Se eu acho que ele vai te roubar de mim? – com isso Mathias gargalhou e fez Olímpio corar levemente e revirar os olhos.
– Não, ridículo. Se você acha que ele vai ficar esse ano, como você acha que ele é?
– Olha cara, eu não faço a mínima ideia, mas se você quer saber tanto, vai xeretar o Facebook dele. – disse Mathias com uma pontinha de sarcasmo. Após dizer tchau o mesmo foi seguindo o caminho que fazia para chegar em casa.
– Tchau pra você também.
Olímpio bufou e remexeu os cabelos, bagunçando-os de uma forma que logo se ajeitaram. Ninguém em casa, de novo. Não estava com fome, olhou para a tela de seu computador e pensou consigo mesmo: “Ver o facebook dele? É exatamente isso que eu vou fazer.”
Ligou o computador, clicou no ícone do navegador e digitou “facebook” na aba. Escreveu o nome do dito cujo e achou um perfil que acreditava ser dele.
Olímpio viu tudo o que pode e mais um pouco, descobriu tudo o que queria sobre o garoto e decidiu ir almoçar, mesmo sem ninguém em casa, já era quase uma hora da tarde.
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