Wonderland
4 Capítulo 4
Deitado em sua cama com um caderno no colo, Draco desenhava. Era a casa do asilo e a figura já estava pronta há dez minutos, mas o sonserino reforçava os traços com tanta força que quase rasgava o papel.
Ele encarou sua obra. Era imperfeita, mas Draco gostava da imperfeição, sempre gostou. Seus dedos estavam sujos do grafite, mas ele não se levantou para lavar as mãos. Ao invés disso, tirou a camisa, se deitou e adormeceu assim que a cabeça tocou o travesseiro, apenas para encontrar os pesadelos costumeiros à sua espera.
Quando acordou de manhã estava suado e foi tomar um banho, relaxando conforme a água quente envolvia seu corpo, deixando a pele vermelha.
Draco encarou a Marca Negra em seu braço com repugnância. A marca de sua vergonha. A marca que foi obrigado a fazer e que nunca nenhum feitiço iria remover.
Aparentemente os trouxas tinham um gosto por esse tipo de coisa. Tatuagem. Algumas meninas já lhe falaram que tinham gostado do desenho quando Draco foi descuidado o suficiente para arregaçar as mangas. Mas pela primeira vez não houve olhares reprovadores. E foi bom usar a droga de uma blusa de manga curta num dia de sol para variar. Esse foi o único aspecto positivo de sua convivência forçada nesse lugar.
Quando desligou o chuveiro, o banheiro estava repleto de vapor e Draco passou as mãos pelo espelho para ver seu reflexo. Estava mais magro que o normal e seus olhos pareciam mais fundos.
O sonserino apreciou a sensação de ar fresco na pele quando abriu a porta. Depois se trocou, pegou uma maçã, e saiu.
***
— Bom dia, estou procurando o livro Angiografia Cerebral da Anne G. Osborn.
A atendente da biblioteca encarou Hermione com desconfiança.
— Você não está no segundo ano ainda?
— Eu gosto de ler – Hermione respondeu simplesmente.
Isso pareceu ser suficiente para a atendente que sumiu entre as estantes e voltou minutos depois com o livro que a bruxa pedira. Hermione correu para a sala de aula ainda vazia com seu café e começou a ler o livro com toda a atenção.
***
— Estão vendo? Qualquer dia isso vai cair – Margie apontava o telhado quebrado para os bruxos naquele fim de tarde. – Você sabe consertar isso? – a pergunta era para Draco.
Ele a encarou com os olhos em branco.
— Sabe – Hermione interveio – Já o vi fazer esse tipo de coisa.
— Ótimo, lá na garagem tem martelo, prego e uns pedaços de madeira. Qualquer coisa, me chamem.
— Eu não sei consertar telhado – ele disse quando Margie desapareceu.
— Eu já imaginava que não. Pode apagar a luz daqui de fora, por favor? – Draco fez o que lhe fora pedido e Hermione olhou em volta antes de apontar a varinha. – Tectum Reparo.
— Pensei que fosse contra usar magia. Você disse que...
— Eu sei o que eu disse, mas o telhado precisava de reparo, e já que nem eu nem você sabíamos como resolver o problema...
— Você trapaceou – ele concluiu por ela.
— Eu não trapaceei! Trapaça é quando se engana alguém em benefício próprio. Eu estou ajudando essas pessoas.
— Claro, a santa Granger. Sempre pronta para salvar o dia.
— Bem, algumas pessoas querem fazer do mundo um lugar melhor – ela respondeu, pegando um cabo de vassoura jogado no chão e o batendo contra o telhado.
— O que diabos você está fazendo? – ele a olhava como se ela fosse louca.
— Estou fingindo o som do martelo. Você devia estar consertando o telhado da maneira trouxa, esqueceu?
— Você precisa bater com mais força. – ele disse tomando o cabo das mãos dela.
A cozinheira estava de volta essa noite e eles não precisaram fazer o jantar dessa vez. Em vez disso, Hermione conseguiu que fizessem trabalhos separados. Draco cortava a grama enquanto ela ajudava Margie a dar banho nos idosos mais frágeis. O jantar fora servido mais tarde e Draco, dolorido e suado, sentou sozinho com Oliver na mesa mais afastada novamente.
— Oi – Draco cumprimentou sem ânimo.
— Oh, meu companheiro de jantar. Está mais tagarela hoje? – o velho sorria.
— Não muito.
Por Salazar, Draco odiava isso. Odiava passar minutos ou horas fazendo atividades que levaria segundos com uma varinha, como se ele fosse um maldito elfo doméstico.
— Você não devia ser mais feliz se anda por aí com uma garota daquelas? – Oliver perguntou interrompendo seus devaneios.
— Eu não ando com ela. – Draco respondeu como se a ideia fosse ridícula.
— E por que não?
— Você é sempre intrometido assim?
— Só queria entender porque prefere se sentar com um velho como eu a uma moça bonita como ela. Me parece que você está se isolando...
— Disse o cara que come sozinho na mesa mais afastada – Draco respondeu sarcástico.
— Não sou eu que me afasto deles, rapaz. São eles que se afastam de mim. Não quero impor minha presença a quem não me quer por perto.
— Por que não te querem por perto?
— Ah, você não responde minhas perguntas, por que devo responder as suas? – Draco se calou — Vai me contar o que fez para estar aqui?
— Não, mas eu vou te contar porque me sentei nessa porcaria de mesa. Foi pra poder comer em paz! – o sonserino ergueu a voz.
— Rapaz, seria bom se aprendesse a controlar seus nervos – quando olhou em volta, Draco viu que toda a sala os fitava. Ele afastou a cadeira com força e saiu porta afora batendo os pés irritado.
***
Hermione o encontrou nos fundos, ao lado da garagem. Ele não fazia nada em especial, estava apenas ali parado, olhando para o céu e se virou quando viu a luz da cozinha acender.
— A louça? – Draco perguntou e a bruxa fez um gesto afirmativo com a cabeça. – Já vou.
Hermione já tinha começado a lavar os pratos quando ele entrou e, sem dizer nada, se posicionou e começou a enxagua-los, claramente de mau humor.
Para Hermione era simplesmente inimaginável o que Dumbledore viu em Malfoy. Ele morreu por Draco. Se sacrificou para proteger o segredo de Snape e para que Draco não precisasse virar um assassino. E para quê? Draco continuava um arrogante metido a importante. Mesmo depois de ter perdido tudo, ele ainda carregava esse ar de superioridade.
— Pelo amor de Deus, Granger... – a voz de Draco estava irritadiça – Dá para ouvir o seu cérebro funcionando daqui. Sei que está morrendo para me dar um sermão, mas faça um esforço e nos poupe, ok?
— Impressão minha ou você tá puxando papo comigo?
— Ouse sonhar, Granger.
Dumbledore foi o bruxo mais brilhante que Hermione já conheceu e ele achou Malfoy digno de salvação. O que ela não via? Será que o bruxo valia o esforço?
As pessoas dão aquilo que tem dentro de si, a voz de sua mãe atravessou seus pensamentos.
A louça estava quase no fim e a grifinória reparou que Draco, mais uma vez, escolheu não arregaçar as mangas. E ele sempre tinha o cuidado de usar mangas compridas.
— Pode arregaçar as mangas se quiser, eu não me importo. – ela começou.
— O que foi que você disse? – Draco perguntou perigoso.
— Eu apenas quis...
— Não preciso da sua compaixão, Granger – ele a cortou, sua respiração ficou pesada.
— Você precisa ser sempre tão infantil?! – ela rebateu com raiva. — Eu não estou te provocando. Eu apenas...
— Isso não é da sua conta, sangue-ruim – ele gritou.
Impossível. Ele era impossível.
— Eu só tentei ser legal...
— Bem, não tente! – para evitar dar uma resposta, Hermione girou sob os calcanhares e andou decidida em direção à porta. – Hey, aonde você vai? – ele exigiu saber, mas a garota não parou. – Eu perguntei aonde...
— Embora! O trabalho acabou por hoje e eu não quero passar mais tempo que o necessário com você.
— Ah qual é, Granger, eu tô começando a gostar do nosso tempo juntos...
Hermione o trucidou com um olhar antes de desaparecer pela porta.
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