Wonderland

5 Capítulo 5


Notas iniciais
Como prometido, mais 2 capítulos hoje.

Duas semanas já haviam se passado desde que os bruxos foram enviados à casa de repouso e cada dia era pior que o anterior.

Hermione tinha desaparecido pelos corredores com Margie para fazer seja lá o que for enquanto Draco foi mandado para retirar todas as cortinas dos quartos que seriam lavadas no dia seguinte.

Em todos os quartos anteriores haviam fotografias de familiares, flores, objetos pessoais, mas esse último quarto era diferente. Havia duas camas, mas apenas uma estava feita. Uma jarra de água com um copo dividiam a cômoda com um abajur. Havia também ferramentas e tintas e vários brinquedos de madeira espalhados sobre uma mesa.

O bruxo colocou os panos que carregava na cama desocupada e subiu em uma cadeira para alcançar a cortina quando uma voz surgiu da porta.

— Meu amigo – Draco não precisou se virar para saber quem era.

— Não é um pouco velho para ter tantos brinquedos?

Oliver desatou a rir.

Ele ri demais.

— Muita gentileza sua me chamar de ‘um pouco’ velho. Vejo que hoje está de bom humor, uh?

— Sim, estou em maldito êxtase! – o bruxo respondeu com sarcasmo.

— É, dá para notar – sr. Oliver se sentou na cama.

As cortinas foram retiradas e o sonserino considerou ir embora, mas imaginou que se enrolasse um pouco ali podia se livrar de outro serviço tedioso. Se virou para o idoso que o encarava curioso.

— Dorme sozinho aqui então? – uma tentativa fraca para uma conversa. Se Oliver percebeu, ele não se importou.

­— Sim, fico aqui sozinho desde que cheguei, há 5 anos.

— E por quê?

— Ora, sr. Malfoy, começo a pensar que não presta atenção nas nossas conversas. Eu te já disse. As pessoas aqui não gostam de mim.

— Por que não? – Draco perguntou sem se abalar.

— Eu respondo suas perguntas se responder as minhas – o bruxo deu de ombros derrotado. – Muito bem, as pessoas geralmente ficam longe de mim porque não gostam de... ex-presidiários. – Oliver disse pausadamente para estudar a reação do bruxo.

Draco ficou calado por uns instantes. Não conseguia decidir se o velho falava a verdade ou se estava apenas caçoando dele. Antes que pudesse responder, Thereza, a cozinheira, apareceu com água para repor a jarra da cômoda e arrastou o bruxo de volta para a cozinha.

***

A seringa na mão de Hermione estava firme quando a enfiou da veia da doce senhora que permaneceu imóvel.

— Está vendo? Não foi tão difícil, foi? Excelente trabalho, meu bem – Margie sorriu para ela. – Depois que virar uma medica renomada pode dizer a todos que fui eu quem lhe ensinei a achar uma veia.

Margie era enfermeira aposentada que ensinou Hermione com a maior boa vontade depois que a bruxa lhe pedira. Ela tinha sido uma profissional maravilhosa, e reclamava que a maioria dos colegas não sabia achar uma veia, e ficava picando diversas vezes os pacientes, já debilitados, sem necessidade. Fizera a bruxa ver a aplicação várias vezes até que hoje passou a seringa para mão dela.

As mulheres seguiram de volta para cozinha onde Draco e a cozinheira se encontravam. O bruxo cortava batatas na mesa e tinha as mangas arregaçadas. Hermione hesitou por menos de um segundo, mas Draco notou. Ela viu a Marca. Ele a encarou como se a desafiasse a dizer alguma coisa, mas a bruxa simplesmente virou o rosto.

— Estamos ficando sem seringas – Margie começou.

— E batatas também, aquelas são as últimas – a cozinheira respondeu apontando para Draco. – A lista de comp...

— É verdade que o Oliver estava na cadeia antes de vir pra cá? – Draco interrompeu a conversa.

— Malfoy! – Hermione interveio.

— O quê? Foi ele quem disse! – Draco reclamou.

— É verdade – a voz da enfermeira interrompeu o que seria outra inevitável discussão.

— O que ele fez? – Hermione perguntou no lugar de Draco.

— Não importa. Ele ficou mais de 20 anos preso e já pagou sua dívida. E continua pagando até hoje, coitado. – ela fez uma pausa e olhou de Draco para Hermione. — Aquele homem é uma das melhores pessoas que eu conheço. Não sei porque ele te contou isso, Draco, mas faria bem se esquecesse essa história – a enfermeira pôs fim a discussão fazendo Hermione substituir Draco com as batatas e arrastando o bruxo para o porão.

Margie queria achar uma cadeira de rodas, e tinha certeza que guardara uma lá. Ele foi obrigado a arrastar móveis e verificar dentro de armários e atrás de portas pela cadeira dobrável, mas não havia sinal dela. Teve que pôr os móveis no lugar e olhar em outros quartos, embaixo de outras camas e em outros armários.

— A cadeira foi embora com a sra. Dawnson, quando a filha veio busca-la, não se lembra? Ela deu 80 libras por ela – a cozinheira informou quando os viu fuçando a garagem.

Draco quis gritar com Margie por ser tão estúpida. Por fazê-lo procurar por algo que sequer estava lá! A enfermeira deve ter percebido seu mau humor, pois murmurou um pedido de desculpa sem graça, dizendo que o deixaria descansar por um momento.

Ele virou as costas pra ela e começou a andar para evitar uma cena e quando deu por si, estava em um corredor escuro na lateral da casa.

Oliver era o único que ainda mantinha a janela do quarto aberta. Ele estava sentado com suas ferramentas e um trenzinho as mãos, fixando a roda no brinquedo. Não demorou muito para que ele se desse conta que tinha companhia.

O velho tinha um peitoral grande, Draco imaginou que fossem ainda maiores em sua juventude. Ele tinha mãos enormes, elas eram do tamanho de um prato. A pele antigamente bronzeada, carregava hoje as marcas do sol. Não era difícil imagina-lo matando alguém. O sonserino afastou o rosto quando percebeu que o estava encarando e ofereceu uma saudação desajeitada.

­— Que está fazendo aí, rapaz?

— Descansando – ele queria esquecer da idiotice de Margie e resolveu mudar de assunto. – Para quem são todos esses brinquedos?

— Originalmente era para meu neto... ou neta. – ele respondeu distante. – Seja o que for que eu tiver. Mas a essa altura já são adultos, então agora faço os brinquedos para as crianças de um orfanato.

— Você não sabe se tem neto ou neta? – Draco perguntou confuso.

— Acho que concordamos em responder as perguntas um do outro no outro mais cedo, não? – Draco consentiu com a cabeça. – Por que está aqui? – o idoso desafiou.

— Eu... – Draco suspirou resignado. Era melhor acabar logo com isso. — ...eu estava bêbado e comecei a atirar pedras à janela da biblioteca.

— A srta. Granger... – Oliver começou estarrecido.

— Não. Ela não... ela só foi enxerida. Estava no lugar errado, na hora errada – assim que as palavras saíram de sua boca, Draco ficou atônito.

Por Salazar, ele acabou de defender Granger?

— Mas ela parece estar aqui de boa vontade. Uma dessa idealistas, uh? Você tem sorte de ter amigos assim...

— Já te disse, não sou amigo dela. – Draco interrompeu mais rude do que pretendia.

— Então você é mais burro do que eu pensava.

— Hey! Não fui eu que passei vinte anos preso.

Oliver riu.

— Touché.

— Você matou alguém? – Draco perguntou e Oliver ficou calado por um momento antes de finalmente responder.

— Faremos o seguinte, rapaz. Se jogar xadrez comigo, eu te conto.

— Não posso – Draco respondeu. — Depois do jantar tenho que ajudar com a louça.

— Outro dia então.

A voz de Hermione os interrompeu para anunciar o jantar. Draco se esquivou para que ela não o visse e quando Oliver olhou novamente pela janela, ele não estava mais lá.

***

— Que pena, pensei que você tivesse morrido – Hermione disse quando o sonserino se esgueirou pra dentro da cozinha.

Ele não tinha aparecido para o jantar e a bruxa se encontrava sozinha lavando a louça.

— Você não tem tanta sorte – ele respondeu seco.

— Na verdade parece que eu tenho. Ver você todo sujo e suado é uma visão e tanto, Malfoy. Trabalho duro combina com você, no final das contas.

— Sua imbecil, acha que é melhor que eu só porque no momento pode fazer magia e eu não? – ele disse caminhando em sua direção.

Hermione rapidamente alcançou a varinha e lançou um discreto feitiço silenciador na cozinha.

— Não chegue mais perto – ela avisou, mas Draco já estava com o peito na ponta da varinha dela. — Malfoy, eu estou avisando, afaste-se – ela disse com firmeza.

— Ou o quê? – ele desafiou dando mais um passo à frente, ignorando a dor do objeto mágico cravado em seu tórax. – Vai me machucar, Granger? — a resposta foi imediata, a magia saiu da varinha de Hermione como uma forte descarga elétrica empurrando Draco para trás. – Vadia do caralho!

— Seu idiota, por que não aprende? Essa é sua realidade agora, e vai continuar sendo por um bom tempo. Então eu sugiro que você vá se acostumando.

— Eu não vou me acostumar à porra nenhuma! Eu não devia ter que ser o empregadinho desses trouxas. Eu não sou a merda de um elfo doméstico, porra. Tira a gente desse lugar de uma vez, Granger!

— Você não está em posições de fazer exigências – ela disse fingindo uma confiança que não sentia, mas sabia que não podia se mostrar abalada na frente dele. — Olhe em volta, Malfoy. Você não tem mais nada. Você não é nada.

— Cala a boca, Granger. Cala essa boca, porra!

— Vou deixar que se recupere de seu piti sozinho – ela continuou inalterada. — Não quero que se sinta indisposto.

Sem esperar uma resposta, Hermione saiu da cozinha e só ousou respirar quando fechou a porta do banheiro atrás de si.

Godric, ele era horrível.

***

— Aí está ele. – a voz de Hunter o atingiu antes que Draco pusesse os pés dentro do apartamento. Ele não estava sozinho, havia um homem de terno e gravata por volta dos quarenta anos sentado no sofá entre embalagens vazias de comida e controles de vídeo games. – Seu tio está te esperando há quase uma hora. Vou deixar que conversem a sós.

Tio? Draco não tinha tios.

Assim que Hunter entrou em seu quarto o estranho tirou uma varinha do bolso e lançou um feitiço silenciador para que não fossem ouvidos. Draco ainda não entrara.

— Sr. Malfoy, feche a porta, sim? – ele pediu.

— Quem é você? – Draco exigiu.

— Robert Whitethorn, Departamento de Aplicação da Lei Mágica. Vim para verificar seu progresso.

Draco respirou fundo três vezes antes de entrar. Controle-se. Ele repetia a si mesmo. Controle-se.

— Como está indo a vida trouxa? – ele perguntou e Draco ousou rir.

— O quer que eu responda?

— A verdade – Whitethorn respondeu sério.

— Estou... me adaptando – uma meia verdade. Era melhor que a resposta que atravessou sua mente.

O bruxo mais velho pediu que ele descrevesse as últimas semanas e Draco teve que se lembrar constantemente que recuperar sua vida antiga dependia de momentos como esse. Começou a descrever sua rotina, falou da universidade sem mencionar o vandalismo, contando sua experiência no asilo como uma ação voluntaria.

— Pode me dar um exemplo de algo que aprendeu?

— Como é?!

— Me mostre algo que aprendeu a fazer.

Caralho. Ele estava falando sério? O que podia mostrar? Draco olhou em volta como se a resposta pudesse brotar do chão, mas a sala parecia uma zona de guerra. Nem ele nem Hunter eram muito organizados. Ou limpos, tinha migalhas de pão por todo maldito tapete...

Pão! Sim, Hermione o ensinou a fazer a droga do pão. Será que conseguia repetir?

Cerca de uma hora depois os três homens estavam sentados em volta de um balcão significativamente mais limpo, comendo o pão feito por Draco. Quando o funcionário do ministério foi embora o bruxo soube que causara uma boa impressão, e ficou animado pela primeira vez desde que chegara ali. Talvez fosse possível recuperar sua vida.

Ao se deitar na cama agradeceu silenciosamente por Hermione. Sim, que Salazar o perdoe, mas uma ideia começava a se formar em sua mente. Uma ideia que envolvia a garota.

Notas finais
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