Wolfpire.

5 Capítulo 5 — Visão Vampírica: A Primeira Caçada.


Notas iniciais
Capítulo escrito por Fred.

MINHA CABEÇA ESTAVA COMPLETAMENTE AGITADA. EU NÃO SABIA COMO EU iria ser daqui para frente — tá, de fato eu beberia sangue até que algo de ruim (tipo, eu morresse) acontecesse comigo. Mas eu não conseguia suportar a ideia de drenar Matt. Parei de cogitar a ideia de drenar Kevin (ainda bem) por conta de seu cheiro. Era horrível. Uma mistura de cachorro molhado com mais fragrância de cachorro molhado. Totalmente repulsivo.

Se ao menos Matt tivesse o mesmo cheiro, eu não ficaria com a queimação em minha garganta quando o visse. E, por azar, ele estava diante de mim dizendo:

— Você sabe que isso não é coisa para se fazer, Ernie! — ele estava sentado no pé de minha cama e estava sem o seu paletó. O que me fez fechar os olhos e parar de respirar por um tempinho, mas ele ainda estava ali. — Já pensou se o Juizado de Menores viesse em nossa casa hoje pela manhã? Já teve a ideia disso? — perguntou ele.

— Não, Matt. — eu sabia que se eu falasse o menos possível, ele iria sair dali, pois pensaria que tudo o que ele havia dito, eu havia digerido.

Uma das coisas boas sobre Matt: ele não ficava muito em cima da gente. Isso era realmente bom.

Depois de ouvir mais cinco minutos de seu discurso, Matt saiu de meu quarto, me deixando de castigo, que era: “da escola para casa, de casa para a escola durante duas semanas”. Isso era, pelo meu ver, o menos problemático, pois eu sabia que teria de quebrar esse castigo. Com toda a certeza Paul não me deixaria ficar em casa sem vê-lo durante duas semanas. Ele não faria isso.

Deitei-me na cama. Eu estava exausto. Eu não sabia o quanto o sol poderia me incomodar tanto assim. Era terrivelmente desagradável senti-lo. Não era de matar, mas era desconfortante. Totalmente desconfortante. E pinicava meus olhos — eu conseguia enxergar, mas a luz do sol impedia que eu enxergasse completamente tudo. Eu teria que começar a andar de óculos escuros? Jamais. Eu não seria igual a eles. Não mesmo!

Adrian entrou assim que Matt havia saído para trabalhar — era ótimo ouvir com aqueles novos ouvidos. Eu pude ouvi-lo pegando suas chaves em cima da mesinha enfrente a tevê, girando a maçaneta da porta e fechando-a logo em seguida. Adrian me disse que os primeiros meses de adaptação eram os mais difíceis (jura?) e que eu precisaria me controlar o máximo possível. Falar era fácil, não?

Ele me deu algumas dicas de concentração; nada de respirar fundo, isso só me faria sentir mais o desejo de drenar as pessoas. Eu teria que focar minha mente em outras coisas quando alguém chegasse próximo a mim, o que eu achei completamente impossível, mas ele me fez jurar que isso não me faria perder o foco de minha conversa, se eu estivesse conversando. E, por alguma razão, eu confiei nele. Ele parecia ser confiável. Ele demonstrava confiança. Agradeci a Paul, de alguma forma, mentalmente por ele ter criado Adrian e tê-lo designado a me ajudar. Eu não saberia de tanta coisa sobre essa nova vida sem ele. Ele me explicara exatamente tudo.

Adrian era um cara legal. Ele era uma versão diferente de todos os valentões de qualquer escola. Ele não parecia ser tão simpático e gente boa na primeira vez em que o vi. Entenda, o cara tem cabelos pretos, pele bronzeada de sol, forte com corpo atlético e com quase um e noventa e cinco de altura. Como ele seria tão simpático assim? Ele é um tipo de cara que você, ou queria a sua amizade imediatamente, ou peça para que ele não lhe bata. Eu não acreditava, mas ele era muito simpático e gente boa. E eu não acreditava que ele não tinha poucos amigos como ele havia me dito. Uma coisa que tínhamos em comum: não tínhamos muitos amigos.

Eu pensei que seria horrível ir ver Paul logo cedo — eu sabia que Matt não estava em casa por conta de seu plantão no Corpo de Bombeiros e que Kevin havia saído escondido —, mas eu fui. Joe não gostou de me ver assim que cheguei naquela casa misteriosa que eles tinham como ninho, covil, ou sei lá como eles chamavam aquela espelunca. Aquilo deveria ser demolido. Urgentemente.

Paul passara a tarde inteira falando e me explicando como eles viviam: caçada, anonimato e sigilo. Sempre que alguma pista apontava para eles, eles simplesmente destruíam-na ou matava quem testemunhava contra eles, mesmo o último que tinha denunciado eles fora o seu, que no caso seria sexto membro de seu clã. Paul o matou — o que me fez pensar em perguntar quem era o quinto membro, ao Paul, já que eu era o sexto. Eu não gostei de saber dessa parte, mas agradeci por ele ser direto — eu não gostava de enrolação. Eu sabia que eu morreria se eu traísse Paul e eu não faria isso, eu não era louco de assinar a minha sentença de morte.

Eu não gostei da ideia de ter de ir caçar (caçar humanos, como isso é possível?). Eu estava preso a isso, eu sabia. Mas eu não queria cravar meus dentes em qualquer ser humano ou animal — caçar animais era a ideia mais repugnante que já me cogitaram na minha vida, ou morte. Sei lá! Eu era totalmente contra isso, mas eu não poderia desobedecer ao que “o chefe” dizia, e ele realmente havia posto uma ordem nisso.

Quando chegou à noite, Paul estava me esperando enfrente a casa abandonada em que tínhamos como uma espécie de quartel general — claro, cheguei lá depois de eu ter verificado se Kevin estava em casa para poder sair. Ele não havia dado as caras, ele também havia saído.

Paul sorrira quando me viu. Eu tinha de perguntar até quando aquele sorriso existiria quando me visse. Ele sempre estava sorrindo, pelo amor de Deus!

Aproximei-me dele e pôs a mão em meu ombro, mas desejei que ele não tivesse feito aquilo. Eu ainda estava com raiva dele por ter, de certa forma, tirado a minha humanidade sem a minha permissão. Entenda: eu não queria ser dessa forma, agora eu tinha que obedecer a um estranho, mesmo nem obedecendo meu irmão mais velho direito. Isso era revoltante para mim.

— Pronto? — perguntou ele.

O olhei.

— Não. — falei irritado. Eu realmente não estava preparado para sentir gosto de sangue descendo por minha garganta, mesmo eu querendo drenar alguém o mais rápido possível.

Alexia, Adrian e Joe chegaram logo em seguida. Eu não havia notado que eu tinha sido o primeiro a chegar ali. Que ótimo. Cumprimentei Adrian assim que o vi e ele me cumprimentou com um aceno de cabeça e uma piscadela.

— Tudo pronto? — perguntou Joe esbarrando em mim com certa força, mas ignorei. Ele, provavelmente, ainda estava com raiva de mim por ter perdido a briga para mim. Isso era notável.

— Sim. — disse Paul. — Vão. Eu vou com Ernie.

Os três saíram de minha vista em um piscar de olhos.

— Preciso que esteja preparado, entendeu? — perguntou ele.

Assenti com a cabeça e corremos.

O borrão que se formou em minha volta era mais do que divertido. Saber que eu estava correndo mais do que eu havia corrido antes. Mais até do que Matt e Kevin. Era totalmente prazeroso. Eu olhei para o lado e Paul estava comigo. Ele sorriu a me ver sorrindo quando eu olhava incrédulo para as folhas, moscas e outros tipos de insetos no escuro — mas não estava totalmente escuro para mim. Eu conseguia enxergar perfeitamente. Era como se tudo estivesse em perfeitas condições para poder enxergar — mesmo eu sabendo que um humano não conseguiria enxergar os mínimos detalhes como eu enxergava em meus novos olhos. Não estava escuro.

Paul seguiu para a direita e eu fui com ele. Eu tinha que segui-lo se eu quisesse o que poderia saciar a minha cede. Ele seguiu para esquerda logo depois de corremos durante dez segundos a nossa direita. Ele deu um salto enorme e saltei logo em seguida, demorando a cair ao chão. Eu não acreditei que havíamos pulado mais de cinco metros e ele riu ao ver minha reação de incredulidade.

Ele estava tentando me mostrar que essa nova vida não era tão ruim assim e ele estava certo. Até certo ponto. Eu só não havia gostado de sua atitude egoísta e tirar a minha humanidade sem pedir. Isso eu achei ruim. Se ele tivesse feito da maneira certa, seria tudo totalmente diferente. Mas eu não me importei com isso. O que tinha sido feito, fora feito.

Corremos um pouco mais e, de longe, consegui ouvir as risadas de Joe, Alexia e Adrian. Eles provavelmente estavam se divertindo, presumi. Mas não era de se esperar o contrário. Quem não acharia um máximo correr dessa maneira e pular da maneira que pulei? Ninguém, aposto.

Paul e eu começamos a correr um ao lado do outro e, mais a frente, eu avistei uma enorme abertura de um rio. Deveria ter mais ou menos dez metros de largura ou mais e Paul não parecia se importar com isso. Eu me perguntei se havia um limite para os nossos pulos e corridas, mas ele não percebeu minha inquietação e pulou. Ele voou até o outro lado sem nenhuma interferência. Eu não acreditei naquilo, arregalei meus olhos, mas balancei a cabeça logo em seguida e voltei ao normal, e pulei.

Eu preferia não ter olhado para baixo — eu tinha medo de altura —, mas aquela altura não me intimidou. Eu voei graciosamente até o outro lado do rio. Era mais que uma sensação boa. Era uma sensação prazerosa... de liberdade. Eu não sabia realmente o quanto queria aquilo antes, como queria agora. Eu não queria perder aquela sensação de liberdade nunca. Jamais!

Assim que pus meus pés do outro lado da margem do rio, Paul soltou uma pequena risadinha e estendeu a mão para que eu a pegasse, a peguei e me pus de pé em um pulo. Ele ainda estava rindo e eu revirei os olhos. Eu sabia o que ele ia dizer assim que abriu a boca, mas logo o cortei dizendo:

— Não precisa dizer nada. Eu sei o que senti e não quero perder isso.

Ele levantou as sobrancelhas para mim e riu de novo.

— Muito bem, muito bem... — ele levantou as mãos como se estivesse se rendendo. — Vamos. Temos que procurar sangue para você.

Eu assenti e corremos um pouco mais.

A gente corria como um raio, na verdade, eu contive a velocidade, pois eu estava o ultrapassando toda hora e ele pareceu não gostar disso. Depois de mais cinco minutos de corrida, ele parou. Ficara extremamente parado, parecia uma estátua. Ele estendeu uma mão para que eu parasse e foi o que eu fiz, ficando ao seu lado.

— Feche os olhos. Sinta o cheiro que vem com o vento. — disse ele e foi o que eu fiz.

De início, eu não senti nada, mas depois ter respirado profundamente cinco vezes, consegui sentir cheiro e diversas coisas.

O cheiro das plantas vinha em minha direção, junto com a rajada de vento que vinha de encontro comigo; eu conseguia ouvir o zumbido do vento cortando ao meu redor; também consegui sentir cheiro e o som de animais. Consegui diferenciar uma coruja com um cervo. O cheiro do cervo me atraiu mais.

Abri os olhos e me senti outra pessoa. Aquele Ernie que todos conheciam, não estava mais ali. Aquele que estava ali era um Ernie sedento por sangue. Um leão sedento por seu alimento, um verdadeiro animal.

Dei um passo à frente, mas a mão de Paul me segurou em meu braço, me impedindo de avançar. Direcionei meus olhos para ele e o olhei com os olhos semisserrados de incredulidade.

— Calma. — disse ele e lutei para que ele me soltasse, mas ele não soltou. — Venha comigo. — ele correu e eu corri de volta.

Ele adentrou na floresta e o segui com facilidade. Desviamos de algumas árvores, alguns arbustos, mas ele pulou em um grande galho e eu também pulei, mas em outra árvore e em um galho maior do que o dele.

— O que estamos esperando? — perguntei de dentes serrados.

Ele só levantou a mão para mim e apontou para baixo.

Eu vi o animal. O cervo estava comendo algumas folhas, totalmente despreocupado com o que poderia acontecer ao seu redor numa noite calma com aquela. Duvido muito disso. Eu estava prestes a pular quando ele atrapalhou a minha tentativa de drenar aquele animal, dizendo:

— Sem barulho. — seu sussurro era tão audível para mim, que eu tive a sensação que se eu ainda fosse humano, eu não ouviria aquilo. — Vá.

Não pensei duas vezes.

Quando cheguei ao chão totalmente em silêncio, meu primeiro objetivo foi me esconder atrás de um tronco de uma árvore perto do cervo. Ele não ouviu nada e eu agradeci por ser um vampiro naquela hora.

Passei para o lado da árvore, mas eu não vi o galho que eu pisei no meio do caminho, me denunciando e fazendo um pequeno barulho. Mas foi o suficiente para o cervo parar de comer suas plantas, olhar em minha direção, me ver e correr.

Eu não deixei barato, corri também.

Uma coisa sobre os cervos: eles sabem correr, mas não sabem correr como um vampiro como eu e, de acordo com o que eu havia corrido com Paul — sendo o nosso líder —, eu era um dos que mais corria, senão o que mais corria.

O animal corria descontroladamente pela floresta, esbarrando em alguns arbustos, pequenos galhos de pequenas árvores, mas aquilo me fez rir. Eu sabia que poderia pegá-lo a qualquer momento, mas eu o deixei correr. Seria mais divertido deixá-lo correr por sua própria vida, mas fiquei farto desse joguinho. Apareci no campo de visão do animal e ele pegara outro curso.

Segui aquele animalzinho de araque. Ele estava começando a adentrar para o outro lado da cidade de Beacon Hills e eu não podia chamar atenção, segundo Paul. Eu tinha que parar aquele animal o quanto antes. E tinha de ser agora!

Cheguei mais perto dele e, preparei meu bote, mas algo me prendeu...

Outro cheiro invadiu o ar, indo de encontro com olfato. Um cheiro de ferrugem totalmente delicioso. Eu esqueci o animal e corri até esse cheiro magnífico. Ele me trazia de volta para dentro da floresta, mas eu não queria saber para onde aquele cheiro me levava, eu só queria sentir o gosto daquele cheiro. Só queria... aquilo que todos chamamos de sangue descendo por minha garganta.

O cheiro ficava cada vez mais perto e eu não via a hora de senti-lo. Sabia que se eu bebesse aquilo, minha sede iria ser saciada, a queimação de minha garganta chegaria ao fim. E eu não via a hora daquilo passar, a queimação na garganta.

Assim que cheguei próximo ao cheiro, eu consegui ver quem era. Uma menina que deveria ter entre os dezesseis e dezoito anos. Ela tinha cabelos pretos, pele clara e tinha linha vermelha escarlate em seu braço esquerdo. Aquilo me segou.

Pus-me atrás da árvore que tinha atrás dela e fiquei olhando. Ela tinha rasgado um pedaço de sua blusa e começou a tampar a linha de seu braço e aquilo me deu certa raiva. O cheiro que pairava no ar estava começando a sumir e eu não queria isso. Queria aquele cheiro no ar, principalmente naquele momento.

Eu não pedi desculpas para ela. Porém, em um movimento rápido, apareci atrás dela, inclinei sua cabeça para o lado e consegui ouvi-la reclamar com um gemido, mas aquilo era tarde demais. Eu já havia cravado meus caninos em seu pescoço, perfurando a artéria, onde fez seu saboroso sangue escorrer mais rápido dentro de minha boca.

O sangue era um líquido muito melhor do que água. Algo inexplicável. Era muito melhor do que qualquer refrigerante que eu havia provado e muito melhor do que chocolate e qualquer outra coisa do tipo. Era até mesmo melhor do que qualquer refeição que eu fazia quando eu estava faminto. A sensação de êxtase era surreal, o líquido descendo por minha garganta me deixava mais acordado — se possível, pois eu não sabia se eu dormia ou não —, mais agitado, mais energético. Eu sabia que se eu terminasse de beber dela, eu conseguiria lutar com Joe facilmente. Eu me sentia mais forte, me sentia mais imbatível. Eu me sentia um verdadeiro vampiro.

Ela estava lutando para se soltar, mas ela não conseguiria lutar contra mim. Eu era mais forte do que ela. Cem vezes mais forte do que ela, eu era quase tão forte quanto Joe — e Joe era um brutamonte com incríveis músculos —, então ela não conseguiria uma luta contra mim. Imobilizei-a facilmente e continuei a drená-la.

Ela começara a ficar gelada e mais pálida, e eu sabia que isso era uma vitória. Ela estava morrendo e isso era ótimo. Ela mais fraca me fazia lutar menos e eu não queria gastar minhas energias lutando com a minha própria refeição.

Eu sabia que ela havia morrido, pois ela não se mexia mais. Estava completamente pálida e gélida. Uma vitória. Suguei a última gota de sangue de seu corpo e joguei-a no chão, onde caiu como se fosse um boneco, completamente morta.

Fechei os olhos e tentei processar tudo aquilo.

O gosto ainda estava em minha boca e eu senti a minha garganta parar de arder, mas eu sabia que aquela ardência iria permanecer enquanto eu vivesse. Isso era inevitável. Mas eu sabia que teria que drenar mais pessoas para saciar minha sede, ou drenar animais — mesmo eu achando isso completamente repugnante, mas era inevitável também.

Mas eu me sentia bem, me sentia vivo, me sentia mais... eu. Abri meus olhos e eu estava maravilhado. De uma coisa era certa: sangue seria a minha refeição de agora em diante e eu gostei dessa nova refeição.