Wolfpire.
4 Capítulo 4 ― Visão Licantrópica: O Maldito Cheiro.
Notas iniciais
Nessa manhã:
EU OUVI O TRAJETO QUE ERNIE FEZ DA SALA E IR ATÉ O SEU QUARTO. Quando a porta bateu pareceu a buzina de um trem não perto, mas dentro de meus ouvidos, Ernie estava mesmo furioso com o castigo.
― Eu odeio fazer isso com vocês! Realmente odeio! ― disse um Matt muito cansado, parecendo muito mais velho que sua idade real. – Kevin! Kevin, poxa, estou tentando ter uma conversa aqui.
― Hã?
― Você não vai escapar do castigo se fazendo de desentendido, eu...
― Não, tá tudo bem! Eu preciso pensar em algumas coisas e tenho dever de economia para terminar. Se eu não entregar até amanhã, o treinador não vai me deixar jogar no sábado. ― minha cabeça doía.
― Você acabou de dizer que vai fazer o dever? Eu... ― Matt ainda queria falar, mas eu já não prestava mais atenção. Ele cheirava engraçado, tinha perfume feminino nele. Eu só sabia disso porque uma vez tive que comprar um perfume para Stacy, com quem eu saia cerca de um ano atrás.
Tranquei a porta do meu quarto me certificando duas vezes se estava mesmo trancada, apertei play na maior playlist que eu tinha no notebook deixando o modo de repetir ativado. A playlist tinha quase mil músicas, não que eu fosse levar tanto tempo assim, mas era melhor prevenir. Aumentei o som, não alto demais que Matt precisasse vir aqui mandar desligar, alto o suficiente para ele achar que estava estudando ou algo assim. Troquei de roupa rápido, com a primeira muda de roupa que achei e pulei a janela, corri duas quadras e lá estava o camaro negro... lá estava Derek Hale.
Naquela noite anterior e começo dessa madrugada:
Eu me sentia mais vivo que nunca! Todo meu corpo parecia vibrar, meus músculos estavam sobrecarregados, mas eu tinha certeza que se eu os forçasse mais eles aguentariam. Era diferente de quando eu malhava ou mesmo no treino de Lacrosse, as feridas da queda estavam cicatrizando; a mordida agora não passava de dois desenhos de luas crescentes no meu lado. Derek estava se recompondo, ele parecia surpreso, mas não tão quanto eu estava. Percebi que ainda estava de quatro e tentei me recompor também.
― Nunca vi uma resposta tão rápida à mordida! Deve ser por você está tão debilitado que seu corpo já estava no processo de cura, mesmo sem a mordida.
― Eu não entendo! Eu posso sentir o seu cheiro, o meu próprio cheiro, eu posso sentir o cheiro de tudo. Eu estou ouvindo seu coração bater, mesmo daqui, de fato posso ouvir outros corações batendo e ouvir que musica está tocando na festa. Achei que estávamos longe. ― falei franzindo a testa.
― E estamos. Isso são seus sentidos sendo intensificados. ― disse ele com certo sorriso no rosto.
― Eu estou com sede, eu...
― Calma, precisamos sair daqui. ― interrompeu-me, ele.
― Por quê? ― questionei.
― Tem muita coisa acontecendo hoje aqui, não estamos a sós.
― Sim eu sei sobre os animais, havia boatos de que havia lobos de novo nessa área, se bem que agora acho que era você.
― Eu não estava sozinho, eu não estou sozinho, mas não me refiro ao meu Pack, ao nosso Pack. Há mais algo aqui. Preciso te levar para um lugar seguro.
― Eu não posso sair assim, Ernie, meu irmãozinho, está aqui. Ou melhor, estava. Eu o vi saindo com os idiotas dos amigos do Paul.
― Não temos para isso!
― Hale! ― falei expondo meus novos e afiados dentes. Um sentimento de raiva surgiu, não sei de onde, dentro de mim e se tornou fúria.
― Sim?! ― Derek ficou tenso e mudou de posição, algo entre correr e se defender.
― Eu não vou a lugar algum sem o Ernie!
― Você vai!
― Não, não vou! ― e ataquei.
Não foi minha intenção inicial, eu queria fugir e correr, mas então eu fui à direção oposta, eu rosnei como um animal e ataquei-o. Ele já esperava por isso, com um leve passar de mãos ele interveio no meio do salto e me jogou na outra extremidade da clareira onde estávamos. Eu ainda estava no chão quando Derek estava apenas a alguns centímetros de mim. Ele mudou de novo, com dentes maiores, os pelos cresceram junto com sua orelha, que agora eram enormes e pontudas, ele tinha garras! Mas, eu as tinha também agora. Usei um golpe que aprendi no karatê e o atingi entre as costelas, atravessando pele e perfurando profundamente. Eu não achei que seria assim, o sangue jorrando me atordoou, então estava pressionado contra a árvore, de novo.
Derek me estrangulava, seus olhos eram vermelho sangue, escuros e profundos, mas ao mesmo tempo. Brilhavam com tanta intensidade que me vi coagido, a coragem de segundos atrás havia sumido, completamente. Eu estava derrotado, submisso. Eu faria o que quer que ele diga, sem discutir, ou pensar duas vezes.
― Eu sou seu alfa agora! ― foi tudo o que ele disse para selar a certeza que eu teria que obedecer, mesmo não entendendo o significado daquilo, algo em mim entendeu algo antigo e animalesco.
Alguns minutos depois estávamos no carro dele, eu nos meus shorts de banho, que por sinal estavam mais rasgados e reveladores do que eu me sentia confortável. Derek não me olhava ou dirigia a palavra, só continuava dirigindo, sabe Deus para onde.
― Estamos indo pra minha casa. Ele disse como se pudesse ler minha mente, só para testar usei todos os xingamentos que conseguia lembrar para descrevê-lo em minha mente. Vendo que ele não reagia, aquilo me deixou mais confiante.
― Eu estou com sede e fome. O que é estranho porque eu não consigo pensar em nada que queria comer. ― ele freou o carro tão de repente que me vi perto de mais de painel do carro, minha testa bateu forte do vidro, aquilo ia deixar marca. ― Puta que pariu! Você está louco? Avise quando for frear assim!
― Preciso testar uma coisa. ― dizendo isso ele abriu a mão esquerda espalmando-a bem, com o indicador da direita, que por sinal tinha agora uma garra muito grande e muito afiada em lugar de unha. Ele abriu um corte na mão, uma gota foi criando massa e escorrendo por sua mão, então outra e depois outra. Eu conseguia ver bem todo o processo como se estivesse acontecendo em câmera lenta; o cheiro, o maldito cheiro do sangue me deixou em êxtase, nada sexual, embora uma parte de mim estivesse pulsando mais forte do que deveriam. Não, eu não queria sexo, eu queria algo melhor, algo mais selvagem, eu queria matar! Eu queria provar o sangue dele e depois estraçalhar algo, alguém, como minhas garras.
Eu estava com medo, mas também estava animado. A animação sobrepujando o medo. Transformei-me sem perceber. Derek estava calmo, embora eu visse que ele não mexia um músculo, nem ao menos piscava. Impassível, começava a achar que era um lance dele. Essa calma gélida e letal. Olhei para minha direita, foi menos que segundos, mas o bastante pra ver o meu reflexo, meus olhos, eram dourados, brilhavam com a mesma intensidade que os de Derek antes, mas em vez de vermelhos, os meus eram dourados, eram lindos, me fez esquecer o que eu queria.
― Respire, respire devagar, respire pelo nariz, inspire... ― eu estava começando a entrar no ritmo de sua voz. ― Expire... ― meus batimentos iam diminuindo.― Inspire... ― o sangue tinha parado de escorrer, fazendo uma macha em sua calça jeans escura. ― Expire... ― eu voltei ao normal.
― Desculpa, eu não sei o que deu em mim. ― falei completamente normal.
― É chamado de “sede de sangue”, você queria provar o meu sangue certo? ― perguntou ele.
― Sim, eu queria, mas, queria mais do que isso. Eu... eu... ― eu estava ficando vermelho de vergonha.
― Eu entendo você queria...
― Eu queria te matar! ― o interrompi.
― Oh! Eu achei que...
― Não, eu queria te matar, depois eu queria matar alguém, com você! Queria estraçalhar a carne de alguém, eu... hmmm... O que está havendo comigo? Eu vou ter que beber sangue?
― Não, NÓS não fazemos isso, outros sim! Outras criaturas e alguns outros lobisomens também. Isso que você está sentindo chama-se “Sede De Sangue”, porque parece com a sensação de sede, você mesmo disse, isso é o nosso lobo, querendo caçar. Fica muito evidente em noites de lua cheia como essa, eu não achei que seria tão forte assim em você, nunca tinha transformado ninguém na lua cheia. Acho que vamos ter que sair à caça hoje. Espere aqui, vou fazer um telefonema.
Eu poderia fugir, mas, aquela sensação... ela estava voltando de novo. Acontece que o sangue escorreu para o banco. Bem ali. E o cheiro, o maldito cheiro, estava me deixando “ligado” de novo. Derek estava longe, por longe eu quero dizer, longe mesmo! Eu o perdi totalmente de vista de audição. “Perdi de audição”, criei uma gíria nova! Ótimo Kevin! Vejo que seu sendo de humor não mudou, embora agora você fale sozinho, pensei.
― Sozinho não! Estou falando com o meu lobo interior, auuu! ― O.K., tenho que parar com isso.
Então eu fiz, eu fiz alo que nunca vou admitir para ninguém, mesmo sobre tortura. Eu lambi o acento melado de sangue, tinha tão pouco, mas foi o suficiente para me deixa louco. Eu queria mais, queria mais e queria quente. Rasguei o acento com minhas garras ― eu havia mudado de novo sem perceber. A lua me chamava, ela estava ali, linda e com aquele brilho prata azulada. Derek ia acabar comigo, pelo couro do acento e por agora está mesmo fugindo.
Sai do carro e comecei a correr, corri pelas ruas.
Acontece que eu não estava tão longe do colégio. Corri para lá, cheguei com menor tempo que fiz em toda minha vida, mesmo de carro, tudo passou como um borrão. Pulei as grandes do portão como se não fossem nada. Corri pelo lado esquerdo e fui ao campo onde treinávamos Lacrosse.
O campo era aberto para outro lado da floresta que circundava Beacon Hills, eu já estava correndo para o bosque ali perto quando fui interceptado por Derek, rosnei pra ele, ele continuava correndo ao meu lado, quase pude vê-lo sorrir, quando ele passou por mim, corremos juntos por algum tempo, ele esbarrava em mim de vez em quando, mas só para me atrasar, pra depois com um rosnado me fazer correr atrás dele, eu estava suando e se não estivesse apenas com o short eu mesmo teria rasgado minhas roupas, como Derek aguentava?
Ele ainda estava todo vestido e ainda na minha frente quando o vi desacelerar e parar sobre a sombra de alguns salgueiros que havia ali, fui ao seu encontro.
― O que foi? Eu ainda aguento mais, quero correr! Eu –
― Shh! Olha ali, perto daquele espelho d’agua.
― Espelho de q... ― eu já ia xingá-lo quando eu a vi, uma corsa, ou um veado, não sei, ele tinha chifres então devia ser um veado. Ele estava machucado, um galho de árvore estava atravessado sua pata traseira, estava sangrando. Derek estava dizendo alguma coisa, mas eu não consegui mesmo entender nada. No minuto seguinte estava sobre o veado. Foi fácil demais, não deveria ser tão fácil, mas eu o estraçalhei como uma faca corta pudim. Seu sangue escorrendo sobre minha boca, mãos e tronco, não deveria ser tão fácil. Eu precisava de um desafio!
Olhei pra cima e Derek estava naquela sua calma irritante de novo, olhando para mim como se tivesse pegado seu filhote de cão fazendo uma bagunça com suas meias. Era errado, mas tão adorável que você o deixa, para castigar depois.
― Você dará trabalho! ― foi tudo que ele disse.
Algumas horas depois, eu tinha chegado a minha casa, entrado pela porta dos fundos e ido direto para o banho. Usei todos os sabonetes e coisas de banho do Ernie ― ele iria chiar por isso durante semanas. A água estava quente e os cheiros eram tão bons ― hortelã, alecrim, maracujá. Eu conseguia sentir e diferenciar todas as nuances dos aromas. Adormeci na banheira, pensando na ultima conversa com Derek Hale, meu alfa.
“Existem mais cinco de nós, comigo seis. Eu sou o alfa e agora você é um beta. Está abaixo do meu segundo no comando, que também é um beta e igual aos demais. Somos lobisomens, transformados de alguma forma. Eu nasci assim, mas pode ser transformado. Como você bem sabe, essa cidade parece ter um caso secreto com o sobrenatural, agora a dividimos com outro grupo de sobrenaturais. Nossa ‘aliança’, você pode chamar assim, é fraca e instável, mas funciona. Ambos queremos anonimato, por que há caçadores, eles nos caçam, os seres sobrenaturais, há séculos. Lidamos separadamente com eles, mas algo está mudando. Não são os caçadores habituais que estão nos cercando, algo está mudando e precisamos ficar juntos. Também precisamos aumentar nossas forças. Fazemos isso trazendo mais alguém para o nosso Pack, por isso escolhi você...”.
Então ele me levou para o centro da cidade, para onde todos os outros estavam indo, num beco. Esperamos, até que aconteceu... nós o vimos se alimentando e deixando um corpo. O cara iria sobreviver, mas Derek disse que outros não tiveram a mesma sorte.
Seu cheiro era como se algo tivesse mofado, ou morto. Muito doce. Doeu minha cabeça na hora. Derek também disse que com o tempo eu iria me acostumar, eu conheço, ou melhor, conhecia quem estava se alimentando, ele já foi meu melhor amigo até de conhecer Paul.
Agora:
Derek Hale estava muito a vontade, encostado em seu camaro, nota mental, pedir para dirigir aquela belezinha qualquer hora.
― Está atrasado! ― disse ele.
― Eu sei, Matt ficou tirando o meu coro e de Ernie. Eu cheguei atrasado, mas o moleque chegou apenas hoje. ― expliquei.
― E então?
― Você tinha razão, ele é um deles agora. Ele é um vamp!
― Sinto muito, eu falei sério quando disse que daria a mordida a ele também.
― Eu sei. Tem certeza que se você o morder ele não vai mudar para lobisomem ou algo assim?
― Já lhe disse que não. O ser humano não funciona assim, a mordida não funciona assim. Nunca ouvi um caso desses. Mesmo se o mordesse, era capaz de seu corpo entrar em choque ou algo assim, ele acabar morrendo. Dessa vez, de verdade.
― O cheiro dele me deu dor de cabeça, assim o senti. Tive que usar toda minha força de vontade para não reagir. Eu preciso conversar com ele, ele ainda é meu irmão!
― Eu sei disso também, mas agora você precisa ser oficialmente apresentado a sua outra família. ― e com isso ele me deu um olhar que ia das minhas chinelas até o cabelo desarrumado.
― Posso dirigir? ― perguntei.
― Hahahaha, claro. ― ele jogou as chaves para o ar em cima dele. ― Que não! ― quando ia pegar as chaves, ele provando que é mais rápido do que eu, novamente, ele pegou as chaves no ar. ― Entre, garoto! Lydia já deve está xingando todos a essa altura!
― Lydia? Lydia Martin? Ela é uma de nós? ― perguntei atordoado.
― Não exatamente, mas de alguma forma é sim.
― Você devia ter me dito! Eu teria me arrumado, merda, eu teria tomado banho e me barbeado.
― O Deus, mais um apaixonadinho pela Lydia, eu não aguento isso. ― ele revirou os olhos.
― Espera mais um? Quem é o outro?
Ele não disse nada, a viagem durou ao todo quinze minutos. Derek morava num bairro muito acima do meu, a casa dele era um loft que tinha o tamanho de sete casas iguais a minha! Aquilo seria interessante.
Meu último pensamento antes de entrar foi em como Ernie e eu seriamos daqui para frente.
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